Believe in Yourself
22 Prezado
— Aquele é o planeta?
Amy estava na sala de controle junto dos seus amigos. A ouriça encarava a grande forma esférica azulada à sua frente, composta basicamente por água e quase toda a sua totalidade. Para sua surpresa, o planeta possuía anéis. Eram muito sutis, quase transparentes, mas ainda assim perceptíveis.
Enxergar a pequena faixa de terra em forma de nuvem exigiu certo esforço. No entanto, havia outras pequenas ilhas que iam surgindo à medida que se aproximavam.
— É impressão minha ou só vejo água? O planeta só tem aquilo de terra seca? – Amy ainda estava estarrecida.
— Segundo cálculos, apenas oito por cento da superfície é terra firme. Parece que a maioria da população vive nas famosas cidades submersas.
— Cidades submersas?! – Questionou Amy boquiaberta.
— Calma, Amy... – Disse Silver, rindo por alguns segundos. Logo continuou. – As cidades de Shield possuem estruturas impressionantes para reter a água, como uma espécie de proteção em forma de globo.
— Isso mesmo. – Continuou Tails. – Shield foi vítima de vários desequilíbrios ambientais. O mais severo deles tornou o planeta inteiro em uma grande bola de neve, muito tempo atrás, o que acabou por preencher com água quase toda a superfície. Essas pequenas ilhas já foram continentes.
— Nossa. É difícil imaginar como se tornou ao que é agora. – Comentou Amy – E como as pessoas vivem lá?
— Logo depois da grande inundação, os grandes cientistas procuraram alternativas que facilitassem a sobrevivência. Algum tempo atrás eles inventaram uma substância que chama de soro do ar. Bebês tomam um medicamento assim que nascem para conseguir a habilidade de absorver por um tempo parte do ar da água para respirar, bem como lidar melhor com a pressão do fundo oceânico. Números impressionantes foram registrados, e alguns poucos aguentaram ficar submergidos por quase um dia inteiro! Essa medida reduziu o número de afogamentos em quase cem por cento. – Silver explicou.
— Incrível! Deve ser o máximo poder passar tanto tempo assim em baixo d'água!
— É, mas como eu disse, eles apenas tomam o medicamento assim que nascem. Um bebê é um ser em desenvolvimento. Se nós tentássemos, não daria muito certo, temos muitas partes do corpo já formadas. O processo seria lento e envolveria riscos.
Amy estava impressionada com a quantidade de informações novas. Ainda perguntou:
— Silver, como sabe tanto sobre Shield?
— Conheci muitas pessoas que saíram de Shield no futuro, claro. Na realidade foram obrigadas a deixá-lo.
— Por quê?
— O planeta deixará de existir após uma guerra.
Tails e Amy não puderam conter as expressões de surpresa. Era estranho para ambos lidar com algumas informações futurísticas que Silver lhes dava de vez em quando, por mais que o futuro fosse algo facilmente transformável.
— Ah, e a água é doce. – Pontuou Tails — Toda ela. Quer dizer, não doce, mas digamos... É apropriada para o consumo da maioria das criaturas. É uma particularidade bem interessante, não? Acho que vamos nos sair bem nesse planeta.
— Claro. Procurar uma guardiã num planeta inundado. – Disse uma velha Amy sarcástica acompanhada de um riso contido. Continuou. – Vamos precisar de equipamentos.
— É – Tails concordou alongando seus braços. – Gostaria de saber onde Sonic, Blaze e o outro guardião estão... Mas agora precisamos avisar a quem quer que seja o guardião de Shield sobre tudo isso. Quem sabe assim não tenhamos a oportunidade de ver Pyro face a face.
...
A solidão era o ingrediente principal para a impaciência de Sonic. Além disso, ele também estava com fome. Muita fome. E aquela barreira azulada e brilhante, que já lhe causava muita irritação, só piorava ainda mais seu estado.
Mas o ouriço não podia negar que aquela prisão havia se tornado um grande tempo de reflexão sobre absolutamente tudo. Pensou em coisas que julgou ter feito da maneira certa, algumas que podiam ter sido melhores, e até outras que nunca deveriam ter sido feitas.
— Amy, Tails... – Sussurrou.
Um som estridente de uma porta se abrindo foi ouvido. Sonic imediatamente olhou para a direção do som. Talvez fosse um dos capangas de Pyro que trazia o sustento para o ouriço. Apesar não achar confiável comer aquela comida estranha, não tinha saída pois precisava se alimentar. Fome não era uma forma muito honrável de se morrer.
Afastou os pensamentos quando percebeu que estava enganado.
Ouviu engrenagens se movendo. Algo barulhento no canto direito. Mas ainda estava escuro demais, as suas pupilas não se dilatavam suficientemente por causa da luz azulada. A curiosidade para saber o que se passava ali se tornava pior do que a própria solidão. Depois de cinco longos minutos e após ouvir a porta gritar novamente, desistiu.
Até que teve uma surpresa.
A cápsula vermelha se acendeu. Um albatroz de mesma cor parecia dormir dentro do pequeno compartimento. Sonic não conseguia acreditar. Não sabia se ficava aliviado por finalmente poder ter companhia, ou temeroso, por ser mais uma das artimanha de Demolish.
Ele deve ser um dos três do qual Pyro tanto falou. – Não entendia por que, mas estava não estava ansioso por essas respostas. Algo tinha de ser feito.
— Olá. – O tal não respondia. Tentou mais uma vez – Ei! – Ele parecia estar mais do que em um sono profundo. Sonic arquejou com as possibilidades.
Será que ele vai acordar?
...
Um dia após a chegada ao planeta, os três se encontravam na cidade de Waterfall, que se situava ao norte, na maior ilha do planeta inteiro. Tails conseguiu rapidamente um bangalô alugado para que pudessem ficar.
Já alojados, o raposo recomeçou as pesquisas para encontrar um possível guardião para aquele grande planeta. Alguns instantes o raposo já murmurava:
— Não é possível. Procurei personalidades importantes do planeta. Todos os registros apontam para uma única pessoa como provável guardiã. Mas ela já está morta. Não há ninguém tão relevante por aqui. E além do mais... Esses livros e periódicos da biblioteca local não são muito bons. Se nós formos ao submerso talvez consigamos encontrar algo... – Fechou o laptop. – Estou exausto... E faminto.
— Também acredito que descer às águas irá clarear as coisas. E os equipamentos? – Indagou Silver.
— Dei um passeio e aqui perto parece ter uma loja muito boa, vou olhar com mais cuidado só mais tarde. E ao lado uma lanchonete de tortas. – Amy sorriu.
— Oba! – Tails animou-se. Levantou, se preparando para sair.
— Isso ainda não me conforma. – Silver ainda estava pensativo – Não temos praticamente nenhuma dica ou alguém que nos possa dar alguma ajuda. Como vocês dois conseguiram chegar tão longe com pouca informação?
— Coragem e lealdade. Temos amigos pra nos ajudar, e Tikal também tem sido incrível — Respondeu o raposo.
— Pensando bem, agora que você lembrou, Tails, Tikal poderia nos ajudar – A ouriça não perdia a esperança.
O raposo permaneceu calado e refletiu. Um curto período de silêncio o fez pensar na possibilidade:
— Mas Tikal não aparece assim, sempre que a gente quer. Até mesmo para o Knuckles às fica difícil conversar com ela – Tails pôs a mão na cabeça onde já estivera a faixa que cobria o ferimento em sua cabeça. Sua testa franziu e Amy se alarmou:
— Tails, a dor de cabeça voltou?
— Sim.
— Vou buscar o remédio. – Amy se levantou da cadeira azul em que estava acomodada.
— Só preciso de um bom cochilo.
E foi o que fez. Tails largou os livros e deu um intervalo em sua pesquisa. Procurou seu quarto, e se jogou sobre a cama após tomar o comprimido, convencido por Amy. O sono não tardou em vencê-lo. Seu subconsciente estava desligado da realidade e logo começaria a reproduzir imagens profundas de terras desconhecidas e assombrosas: seus sonhos.
Os seus olhos irreais se abriram para mais uma aventura.
Desta vez, tinha a clara certeza de que estava na água. Podia sentir cada gotículas da bebida da vida seu pêlo amarelo. Ali, submerso, viu cardumes inteiros passeando. Que lugar é esse?
Tudo lhe parecia completamente novo, mas nada podia afirmar, pois aquelas rochas marinhas cobertas de algas são facilmente encontradas em muitas águas. Procurou sair até a superfície, pois sentiu que seu fôlego estava se consumindo rapidamente.
À medida que se aproximava da superfície ouviu uma melodia. Uma cantiga cantada por uma voz feminina ou infantil, não soube distinguir. Já que estava mergulhado, não podia ouvir a música com clareza. Mas seu corpo estava a centímetros da superfície. Quando nadou e finalmente chegou ao ápice da superfície, ouviu os versos que compunham aquela canção:
O sorriso daquela que faz o sonho de um lar, pode ser o carinho, o afeto e o amar...
Tails acorda.
Como um salto entre dois penhascos Tails pulou da sua cama e correu para sua bolsa onde se encontravam seu bloco de notas e caneta. Repetia a cantiga que ouvira pela aguda, porém doce voz em um dos seus mais desconexos sonhos. O raposo, após encontrar as palavras certas e tentar finalizar sua anotação, sentou-se no chão e ordenou suas ideias, ainda frustrado. Havia escrito apenas duas frases a respeito da cantiga. Já havia caído nessa. Sonhos são armadilhas. Quando se presencia algo promissor, sua mente consciente aos poucos vai esquecendo-se do que aconteceu.
Pesadelos não. – Pensou Tails. – Pesadelos marcam e na maioria das vezes, inesquecíveis. – pontuou ainda o raposo.
Somente após esse dilema, percebeu que já estava anoitecendo. Olhou para o relógio na parede azul-marinha e arregalou os olhos ao perceber que havia dormido por 5 horas. Mesmo apesar de várias e várias horas de um sono profundo e calmo, a mente se fixa em uma situação de minutos, o que por vezes perturba e assusta.
— Acordou? – Silver observava da porta entreaberta do quarto, a imagem de Tails sentado e pensativo sobre o piso de madeira. – Que houve?
— Como assim? – Tails não havia entendido a pergunta. Apesar de saber muito bem o que havia acontecido consigo.
— Você estava agitado. Ouvi uns murmúrios, e vim ver o que era. Foi um pesadelo?
— Não exatamente... Está mais para um sonho sinistro.
— O que havia lá? – Questionou o ouriço prateado.
Tails respirou fundo e descansou os olhos.
— Coisas complexas demais para um simples sonho. Acredito que pode ter sido algum tipo de sinal. Onde Amy está?
— Foi até a lanchonete buscar comida.
— Quando ela chegar eu explico para vocês dois. Acho que vai ser importante.
...
— Vossa Magnificência... Blaze foi capturada com sucesso.
Uma voz infantil em um tom de reverência a uma autoridade ecoou pela sala escura onde Pyro se encontrava. A distinção entre posições aparentava ser grande, pois a voz da raposa parecia trêmula e demonstrava insegurança.
— Excelente. Fez um ótimo trabalho, Lumina. – Pyro respondeu, satisfeito. – Coloque-a juntamente com os outros dois.
— Tudo para agradar-lhe, meu Lorde. – A pequena raposa acena com a cabeça e logo sai da sala.
— Pyro. – Ouviu-se outra voz, em um canto da sala. — Prendê-la na masmorra juntamente com o ouriço pode colocar tudo a perder, eles poderão conversar, tentar te atrapalhar alguma forma.
O chefe da organização Demolish riu alto. Sua risada era altamente profunda e sarcástica. Respondeu alguns instantes depois:
— Você ainda não entendeu... É disso que eu preciso. Eles irão conversar, trocar idéias e logo irão ficar nervosos e irados o que facilitará tudo para mim.
Por um intervalo, Pyro pareceu mais estar pensando alto, do que tendo uma conversa:
— Tudo parece estar indo perfeitamente. Pobre Blaze. Ao sair de seu próprio planeta, não tinha ideia de que estava cavando sua própria cova. Mas ainda temos problemas. Precisamos encontrar o outro guardião, antes que o raposo e a ouriça o encontrem.
— Não entendi... – A voz insistia em indagar. – Por que estes dois te preocupam tanto?
Breve silêncio.
— Por que eles são parte de tudo isso. Seus antepassados foram espertos, e fizeram de sua descendência uma linhagem protegida. Não posso atingi-los, não agora. Mas quando tudo estiver próximo de terminar, eles terão seu destino. Mas agora é sua vez de começar a agir. É sua vez, Eggman...
O cientista gordo consentiu.
...
Amy entrou na loja de equipamentos. Chamava-se Karse's Sea. Ao entrar na pequena loja, a ouriça encantou-se com o clima agradável. Pisou sobre um solo de madeira, que apesar de ser um material rígido e firme, era macio como uma curta relva. A iluminação era perfeita. Alguns locais estratégicos eram feitos de vidro, e a luz, já rara, passava sem obstáculos, tornando o ambiente mais agradável e natural.
Havia quatro fileiras para artigos de mergulho. Amy selecionou mentalmente alguns objetos, apenas observando, já que não iria alugar nada sem a aprovação de Tails. Enquanto via alguns coletes, algo lhe chamou a atenção. A dois metros de onde estava, estava uma caixa pequena, porém destacada com uma pulseira de conchas semelhante a que já havia feito para Sonic. Mas esta era diferente. Era colorida e viva. Pegou-a e levou até o caixa. A figura era alta, canino corpulento, porém seu rosto era pequeno e maduro. Abriu um sorriso e falou com o tipo:
— Com licença, pode me dizer quanto custa essa pulseira?
— Ð$ 6,00. – Disse a figura sorrindo.
— Por favor. – Amy esperou enquanto o caixa anotava o pedido. Olhou para aquela relíquia que lhe trouxe lembranças. – Só mais uma pergunta. Pode me informar quem é o fornecedor?
O senhor abriu um sorriso mais largo do que o anterior e falou:
— Não é fornecedor nenhum. Minha filha que faz estas pulseiras. – O tal apontou para uma pequena sala ao lado do caixa onde uma pequena loba com pelugem arroxeada nas costas parecia brincar. Mas, na verdade, ela ligava conchas e fazia pulseiras enquanto murmurava uma cantiga qualquer.
— São lindas! Você que ensinou ela a fazê-las?
— Não. Na verdade ela aprendeu com minha falecida esposa.
Amy sentiu uma pontada de tristeza lhe percorrer a espinha ao ver a expressão de dor do lojista.
— E-eu sinto muito.
— Tudo bem. Já faz um ano desde que Karse morreu. Nos mudamos pra Waterfall e eu abri essa loja. Fazer essas pulseiras tem sido uma boa terapia para ela. – O pai olhou amorosamente para a filha.
Mas ele não fraquejou e logo estava sorridente de novo.
— Isso é tudo?
— Sim, muito obrigada! – Amy sorriu também e agradeceu educadamente antes de sair da loja. Já fora do estabelecimento, a ouriça refletia na dor que era perder um pai ou uma mãe. Sua mãe falecera quando Amy ainda era muito pequena, não entendendo bem a dor da perda. Mas a saudade e o amor por ela ainda estava lá, apesar das poucas lembranças. Segurou a pulseira em sua mão, antes de cerrá-la. Sorria.
Preciso conhecer aquela garota.
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