— S-sério? – Amy temeu os minutos que estavam por vir. Ela bem sabia que Tails já havia falado a Pyro a resposta do primeiro enigma — que havia sido vencido com um bom trabalho em equipe.

Mas o segundo... Provavelmente será pior. — Pensou ela, hesitante.

— Amy, por favor, leia. Eu não tenho cabeça para isso agora. – Tails entregou a responsabilidade à ouriça, que estava tão ou mais nervosa que ele. Mas o raposo ainda confiava no otimismo dela, ainda que todas as circunstâncias estivessem contra eles.

A ouriça não rejeitou pedido. Pegou o laptop e após respirar fundo, começou a ler em voz alta o pequeno texto em letras miúdas e serifadas:

— O vosso segundo desafio será chamado "Soldado Arcano". Nesse planeta, há um leal subordinado meu que, desde já, está impedindo que os seus objetivos se realizem. Vocês poderão encontrá-lo em um lugar, onde a luz é uma mera visitante vespertina e, durante a manhã, apenas as sombras da esperança passeiam. Na manhã seguinte à noite que ainda virá, em um casebre ao léu, mostrarei que seu desafio será apenas um teste à suas maiores forças.

Amy parou de ler por um instante e olhou para Blaze que franzia a testa antes de declarar:

— Não entendi nada...

Tails mordia o lábio inferior e parecia já ter uma resposta na ponta da língua:

— À primeira vista, me parece que ele usou uma espécie de código. É como se ele entregasse a localização do tal soldado em uma bandeja, só que fechada...

— Mas todos esses nomes difíceis não significam algo menos complicado? – Blaze deu um palpite.

— Presumo que sim. Vou dar um exemplo. A expressão 'abóboda celeste' é a mesma coisa que céu. É como uma antonomásia.

— Antônia o quê?

— Deixa eu terminar? – Tails colocou a mão na boca da felina. – Antonomásia é, por exemplo, pegar um nome próprio qualquer, e usar outra expressão, tipo uma metáfora. Sonic pode ser chamado de "Tufão Azul". — Após terminar, o raposo pensou melhor. — Pensando bem, nesse caso, não é uma antonomásia, mas sim uma perífrase, já que o nome céu não é próprio...

O raposo percebeu que ainda tapava a boca de Blaze, e logo retirou a mão da boca da felina que parecia queimar como brasa viva. Abanando as mãos, Tails prosseguiu:

— Cada detalhe deve ser analisado com cuidado sem deixar nenhum pedaço passar despercebido. Verei mais tarde o que mais poderemos tirar dessas palavras.

Amy lia mais uma vez aquele e-mail e uma dúvida pairava sua cabeça:

— Acho que isso ainda não é o pior... Esse enigma vai nos levar até... um soldado? Será que vamos ter que lutar com ele? – Amy fez a pergunta que lhe parecia óbvia.

— Aí diz: 'um desafio à suas maiores forças'. Isso que me perturba. – Disse Tails. – O que seria esse tipo de força?

— Bom, isso eu não sei. Mas se ele trabalha pra Demolish, poderá nos levar até Sonic ou à Pyro, com certeza... – Blaze afirmou, levantando-se da cadeira onde estava sentada.

Imediatamente, a felina sai da sala. Percorreu alguns corredores bem iluminados até o quarto onde Silver estava internado. Chocou-se com a cena que veria.

Alguns médicos e enfermeiras pediam licença pelo caminho estreito que levava à Ala Vermelha carregando algumas maletas brancas. Eles pareciam estar com muita pressa. Após o grande grupo dobrar à primeira esquina depois grande porta da Ala, o corpo de Blaze respondeu ao instinto de perigo.

Correu na mesma direção, esbarrando em médicos e pacientes até o que conhecia como o quarto que Silver estava internado. Foi barrada por uma enfermeira e um segurança, que pediam apenas pra ela acalmar-se. Ela não tinha outra opção a não ser deixar os médicos fazerem o trabalho deles. Pelo grande vidro que separava o corredor do quarto, ela podia ver através das persianas fechadas, que estavam procurando reanimar Silver. O desfibrilador causava solavancos violentos no corpo rígido sobre a cama, que ela sabia bem que poderiam salvar a vida do ouriço prateado ou não. Mesmo assim, a gata lilás não pôde conter o desespero e tentou incansavelmente atravessar a parede invisível. Depois de quase usar seus poderes ali mesmo e carbonizá-la, a felina procurou se acalmar. Não posso fazer isso aqui. É inútil, não vai ajudar Silver.

Só restava observar os esforços dos profissionais que aplicavam tensões elétricas no peito de Silver e lançar a atenção na pequena máquina de batimentos cardíacos que estava relativamente instável no mar do esquecimento. Mas a realidade era cruel.

Silver pode estar morrendo.

...

A sala estava escura há dias. Não havia praticamente nada no alcance da visão do ouriço azulado. Durante o tempo em que ficara ali, Sonic apenas tivera a solidão por companhia. Já havia até desistido de tentar contar quanto tempo havia se passado. Ainda assim era impossível relaxar.

Meus amigos podem estar mortos agora.

Às vezes, o ouriço tinha vontade de simplesmente explodir tudo que via ao seu alcance. Mas não poderia se dar àquele luxo. Não agora. Precisava ser um pouco mais paciente.

Pra isso, às vezes pensava no dia em que sumiu, literalmente, do mapa. Aquela noite, longa noite em que deixara Mobius não tinha sido a primeira vez que havia falado com Pyro. Antes de ser levado, tivera um encontro bastante peculiar com ele, mas às vezes Sonic tinha dificuldade de lembrar alguns detalhes, e por isso repassava mentalmente todo o progresso na tentativa até mesmo de conseguir alguma informação importante.

Era uma tarde como qualquer outra. Sonic fazia sua ronda por toda a área. Corria pelas florestas, atravessava os montes, avistava penhascos na selva de Mystic Ruins... Tudo parecia estar perfeitamente normal.

Então ao se afastar um pouco do litoral, em um bosque bastante conhecido, o ouriço avistou algo brilhante, que iluminava toda aquela parte da mata fechada. Reduziu sua velocidade e, ainda de longe, Sonic apertou ou os olhos tentando enxergar aquela figura.

E lhe parecera uma pedra.

Ao chegar mais perto, percebera que a grande rocha emitia um brilho azulado. De início, Sonic não deu importância, ignorou até a possibilidade de ser uma armadilha, pois aquilo seria óbvio e estranho demais para alguém cair. Mas, ele podia sentir aquela forte sensação de presságio, como se precisasse ver aquela pedra mais de perto. Ele aproximou-se mais um pouco e olhou com mais atenção.

Foi quando, ainda a alguns metros, ele avistou a marca.

Aquele símbolo!

Aquele emblema podia não significar nada para qualquer outro que passasse por ali. Mas para Sonic, a imagem na rocha coincidentemente tinhaa aparência da marca misteriosa que ele carregava no seu tornozelo. Era impossível resistir à sua curiosidade, e ele sentiu-se completamente atraído pelo desconhecido. Lhe parecera que era algo real e concreto sobre seu passado. Talvez fosse a resposta à tantos segredos que o assombravam.

O ouriço chegou mais perto ainda e pôs uma ponta dos seus dedos contra aquela parede de pedra. Olhando com mais cuidado, ele percebeu que não era a pedra que emitia o brilho, mas sim o sol. Estava a leste perfeito, logo o astro emitia sua luz exatamente contra aquela rocha. A inscrição do símbolo parecia ter sido talhada na pedra há pouco tempo, pela poeira nos cantos.

De imediato, Sonic pensou em chamar por Tails. Percebeu que havia esquecido de trazer consigo o comunicador. Teria que chama-lo

Ele irá saber o que fazer. — Pensou ele, categoricamente.

Andou hesitante na direção oposta daquela pedra, talvez com receio que ela pudesse simplesmente sumir após ser descoberta.

De repente, ele deu de cara com algo peculiar. De uma hora para outra, uma parede invisível surgiu, mas que também emitia sutis raios azuis. Sonic conhecia muito bem aquele tipo de tecnologia: Um escudo.

A ideia demorou poucos segundos para chegar ao ouriço. Mas estava claro para ele.

— Caí como um patinho. – Suspirou o ouriço.

Era uma armadilha.