Por mais que Sonic investisse todos os tipos de ataques naquela barreira invisível, não obteve sucesso algum. No entanto, ele odiava o confinamento e o senso de liberdade que havia dentro de si já se mostrava ameaçado. Além disso, ele mesmo não conseguia acreditar que tinha caído tão fácil em uma armadilha sem esforço algum.

Só pode ser um pesadelo.

— Sonic, o ouriço... Finalmente nos encontramos. – Ecoou uma voz ríspida em pelo menos três direções diferentes.

Sonic assustou-se, mas não era apenas porque não conseguiu identificar quem era. Ele não esperava que alguém pudesse falar após tantos minutos enclausurado. Se aquilo tivesse sido uma armadilha do seu inimigo bigodudo, ele certamente teria se revelado — e se gabado — no primeiro instante do cárcere. No entanto, o seu oponente invisível pareceu tê-lo observado em silêncio profundo por uma grande parte do tempo, e isso desconsertou o ouriço. Todos esses pensamentos passaram por milésimos de segundos na mente dele.

Não respondendo de início, Sonic apenas revirava seus olhos agilmente procurando o dono daquela misteriosa voz. Entretanto, não demorou muito até perceber que isso não seria possível. Focou sua atenção apenas na voz:

— Quem é você? – Perguntou o ouriço azul.

O desconhecido levou seis longos segundos para responder, o que já parecera uma eternidade para Sonic.

— Ainda não é tempo de responder tal pergunta. – Respondeu o desconhecido em um tom áspero.

Sonic se calou por um instante. Mais uma vez, o turbilhão de pensamentos invadia sua mente, mas ele não era obrigado a ouvi-los. Num espaço de tempo entre três e cinco minutos, o ouriço novamente começou a atacar de todas as maneiras, tentando atravessar aquela parede invisível, ou procurar algum ponto fraco técnico.

Apesar de tais esforços terem sido um grande fracasso, durante esse breve momento, a voz permaneceu em silêncio. Apenas quando Sonic finalmente se convenceu de que nada adiantaria, ele pôde ouvir novamente o som do barítono firme e desagradável.

— Terminou? – Sonic ainda não fazia questão de responder. – Espero que tenha se divertido, porque certamente pra mim foi um excelente show. – Pela primeira vez uma porção de sarcasmo naquela voz tenebrosa foi ouvida. – Gozado. Consegue salvar seus amiguinhos, no entanto não tem nem mesmo forças para salvar a si mesmo!

O ouriço não era tão explosivo assim, – não como Knuckles, – entretanto, aquilo o aborreceu de imediato. Podia sentir uma ira se acendendo intensamente até se descontrolar. E mais uma vez, ele se esforçou em desferir todos os tipos de golpes que ele tinha conhecimento.

— Mostre-se, covarde! – Sonic gritou essa frase inúmeras vezes até perder a conta. Simplesmente, a voz oculta calava-se à medida que o ouriço azulado perdia a cabeça. Quando percebia que o prisioneiro azulado parava de espernear, a voz voltava a provocá-lo.

— Que frustrante. Não conseguiria esperar que de um herói como você poderia ser infantil e mal-educado... Confesso que estou decepcionado com você, ouriço. Nem mesmo responde às minhas perguntas.

— Eggman? É você?

Apesar de não conseguir deduzir o locutor pelo aspecto da voz, Sonic precisava de um primeiro palpite de um possível e ilustre carcereiro maligno, por mais que não fizesse jus ao sujeito.

E por mais alguns segundo o silêncio se apossou do ambiente.

— É o melhor que consegue pensar?

— Revele-se, imbecil, para que possamos ter uma batalha justa, frente a frente! Não pode me prender aqui para sempre. – Sonic disse tal frase, mesmo tendo conhecimento que isso não o convenceria. Pensava em alguma forma de avisar Tails, mas ele não estava respondendo as chamadas.

— Me revelar? Acredito que não seja possível, ouriço. Eu sei que se eu me encontrar contigo face a face, é até provável que consiga me derrotar. Precisei recorrer a este método pra que tivéssemos essa conversa. – Enquanto Sonic parecia preocupado com o sinal do seu comunicador de pulso, a voz oculta fez uma pequena pausa antes de prosseguir. – Ah, e eu também fiz questão de que seu amigos não nos interrompessem nesse momento tão importante da sua, das nossas vidas.

— O que fez com meus amigos?! – Sonic gritou, temendo não apenas o que acabara de verbalizar; por um instante pensou que seu inimigo havia lido seus pensamentos.

Como resposta, uma risada diabólica sutil encheu os ouvidos do ouriço causando-lhe um arrepio.

— Nada. A verdade é que eu vim protegê-los. E eu estou falando sério. Não me leve a mal, Sonic, mas você que é o perigo aqui.

— Do que está falando? Não seja ridículo.

— Estou falando de você e de sua inconstância. De o quanto você coloca os seus amigos em apuros. Ora, ora, não se lembra, por exemplo, quando você adquiriu o poder das esmeraldas negras e se transformou em uma espécie de ser das trevas?! Sua agressividade por pouco não te tornou uma ameaça!

Sonic arquejou.

Mas que diabos... Como ele sabe disso?

Respondeu àquele discurso por reflexo:

— Eu fiz aquilo por meus amigos! Só por isso!

— Tem certeza?

Sonic ficou sem palavras. Parou para raciocinar. Lembrou-se daquele dia terrível. Absorver o poder negativo e sombrio de esmeraldas falsas o fez perder o controle. De fato, só parou quando deu por si que estava indo longe demais. Grande parte das vezes em que perdeu a cabeça, só pôde voltar à razão porque a vida de seus amigos estivera em jogo.

— Sonic, você tem alguma ideia do quanto você machuca seus amigos, mesmo que indiretamente? Não tem noção do quanto põe em risco vidas de outras pequenas criaturas, sendo elas sequestradas e outras até mesmo robotizadas por sua causa? Já parou pra pensar naquelas que são muito novas como a pequena Cream?

Sonic revirou o baú de memórias. A coleção das más lembranças estava diante de si. – Knuckles, Amy, Tails, Cream, Big e tantos outros quase morreram. – Não podia negar que em alguma parte daquele discurso maluco a voz estava certa. Mas ele resolveu ainda retrucar:

— Se está falando de Eggman, ele faz isso desde sempre. Ele já sequestrava e robotizava animais antes mesmo de eu impedi-lo pela primeira vez.

— Isso não significa que a motivação dele não tenha mudado. Você bem sabe que nos últimos anos, ele criou uma obsessão especial por você, em te derrotar, custe o que custar. Não há como negar, Sonic, você é um imã de problemas! Todos os seus amigos sempre estão em perigo por sua causa! Todos eles passaram por experiências de quase morte e isso é algo que você jamais poderá pôr um fim. – Sonic não podia vê-lo, mas ouviu um suspiro longo de decepção. A voz então continuou: – Creio que só vai dar conta disso, quando um deles partir por sua causa.

Mais um intervalo de cinco segundos separou uma frase da outra.

— Deixe-me ser mais claro. O que estou apresentando a você são duas opções. A primeira delas é um caminho pra conhecer as respostas sobre tudo isso que lhe faz ser o responsável por todas as grandes desgraças que acontecem à volta. Eu posso lhe oferecer algo que você quer bastante: a verdade sobre essa marca que você tem em seu tornozelo.

Sonic congelou, e sentiu um arrepio percorrer todo seu corpo. Ninguém nunca havia falado daquela forma sobre aquilo.

— Sim, ouriço, eu posso te mostrar a solução pra todos esses dilemas. Mas pra isso, você terá que deixar seus amigos.

— Deixá-los?

— Sim. Talvez começar uma nova vida em outro lugar e deixar que as vidas deles sigam normalmente sem sua interferência. Pelo menos por enquanto.

O silêncio mais uma vez se instalou como uma companhia ocasional, sempre acompanhada da reflexão. Os pensamentos na mente de Sonic pareciam cambalear.

— Deixar meus amigos? – Disse mais uma vez mais baixo, mas era como se falasse para si mesmo. Ainda assim Pyro respondeu:

— Sim.

Deixá-los. Essas palavras repetiam-se várias vezes em sua mente.

Quando deu por si, o ouriço azul estava de joelhos ao chão, e seus olhos estavam imersos em lágrimas, mas nenhuma gota conseguiu escapar.

Ele percebeu que não era tão forte assim.

Alguns dias atrás, Sonic estava passando por algumas crises internas. Uma delas era justamente como seria a vida de todos ao seu redor se ele não estivesse por perto. Parte dele imaginava que seria mais difícil, principalmente por causa de caras maus como Eggman à solta. Mas a outra parte, sendo essa uma parte da qual ele não conseguia se livrar, apenas reforçava os mesmos questionamentos levantados pelo seu carcereiro.

De volta à realidade, Sonic resolveu perguntar:

— E qual é a segunda opção?

A ansiedade aumentou conforme os segundos passavam sem a resposta pra tal pergunta.

— Serei obrigado a te destruir aí mesmo. Será o máximo indolor, eu garanto. Mas peço que pense um pouco mais na proposta, ouriço. – Apesar da cordialidade nas palavras, o ouriço não conseguiu acreditar totalmente nas últimas palavras.

A pressão psicológica imprimida sobre Sonic era tão intensa que ele não teve forças suficientes para aguentar argumentos tão convincentes. O locutor havia feito uma proposta para ele que até poderia ser um tanto absurda, mas Sonic não podia negar que morrer na curiosidade não lhe parecia sensato.

Em silêncio, após bastante tempo refletindo ele tomou sua decisão:

— Eu aceito, a proposta.

— Muito bem.

— Antes, me deixe escrever uma carta em despedida aos meus amigos. Não queria de sumir sem dizer nada.

— É justo.

Dito isso, Sonic recebeu o material e começou a escrever. Ele demorou um pouco mais de uma hora para escrever aquela carta. Pyro não entendera muito daquela motivação, mas Sonic também não devia explicações.

O envelope fora colocado em cima da mesa de cabeceira, ao lado cama de Tails, durante a alta madrugada. Seu melhor amigo dormia profundamente e o ouriço o observou com um olhar de esperança. Depois, sumiu do quarto e se infiltrou nas ruas da grande Station Square para se despedir da cidade.

Espero que tudo dê certo.

De volta à realidade, Sonic ainda pensava nas circunstâncias que o levaram a tomar aquela decisão. Mesmo com um plano em mente, lembrava-se de como se sentira naquele dia. Um lixo. Tremendamente emotivo, prisioneiro de sua própria culpa, apesar de nunca ter pensado daquela forma. Ainda assim, conseguiu forças pra pistas, caso Pyro o enganasse. Na nave que o levaria dali, estava uma marca – a mesma de seu tornozelo – e o nome da organização escrito em letras sólidas.

Será que foi um grande erro ter me metido nessa loucura toda?

— Não sei.

Sonic deu um sobressalto, assustado. Olhou para os lados procurando o dono daquela voz que pareceu ter respondido ao seu pensamento.

— Eu ouvi que eram três.

Respirou aliviado ao perceber que não era com ele. Ouvia duas vozes diferentes. O ouriço estava quase em desespero. Estava ali há tanto tempo que sequer ouvia outro ruído além do próprio silêncio e a voz de Pyro. Percebeu que aquela voz estava saindo do seu comunicador de pulso. Ficou muito confuso, pois Pyro havia isolado todas as frequências e formas de comunicação entre Sonic e o mundo externo.

— E quem são eles?

— São, um raposo, uma ouriça, e uma gata. São amigos do prisioneiro da cela 3.

Sonic se concentrou naquelas vozes, pois aquilo lhe chamou muita atenção.

— O ouriço?

— Sim. Eu ouvi na sala do chefe que eles estão atrás dele e o próprio Pyro já entrou em contato com eles.

— Com certeza deve estar tentando atrasá-los com enigmas.

— Exato. Pyro acredita que está despistando eles, mas estejam bem perto de conseguir chegar até ele.

Um hiato de pelo menos sete segundos deixou Sonic extremamente nervoso. Nesse instante, entendeu que estava ouvindo uma espécie de ligação que não era pra ele. Alguma coisa sobre interferência nas frequências parecia ser uma explicação que Tails daria para aquela situação.

— Sabe o que eu acho? Acredito que se eles não recuarem, a tal catástrofe que ele tanto fala irá acontecer logo, logo.

— Bom, eles parecem não querer desistir. E espero que não. Não confio nesse Pyro, nem tampouco em suas propostas.

Um novo intervalo silencioso e rápido fez o ouvido de Sonic aguçar-se.

— O que devo responder ao nosso chefe?

— Diga exatamente o que foi dito aqui. Pode ter certeza ele vai entender, até porque ele mesmo já nos disse que deveríamos recusar, por causa do comércio de drones e tecnologia. Essa história toda de dominação parece ser o tipo de coisa que precisamos manter distância nesse momento. Agora desligue, ele já deve estar desconfiado dessa conversa particular.

— Tudo bem. Daqui a alguns instantes estarei de volta. Vou apenas avisá-lo da minha saída. – As vozes então cessaram.

Ele ficou curioso em saber quem eram aqueles dois. – Pareciam vozes masculinas. Se não eram subordinados de Pyro, haviam se infiltrado em um tipo de comércio no mercado negro. Era uma negociação de extremo perigo e sabiam disso pela maneira como falavam.

Sonic estava agora em uma corda bamba de emoções. Não sabia se ficava feliz pelo fato de seus amigos estarem vivos e fortes, ou se entristecia visto que não podia falar com nenhum deles agora. O ouriço não tinha palavras para expressar o que estava sentindo após saber que estava sendo procurado.

Não sei como vou sair daqui, mas por enquanto eu tenho que confiar neles. Espero que consigam descobri como impedir que essa catástrofe aconteça.

Olhou para o símbolo em seu tornozelo descalço e disse para si mesmo:

E vou descobrir o porquê disso.