Believe in Yourself
18 Esmeralda
Blaze estava agitada. Já havia perdido a conta da quantidade de copos de espressos que tinha jogado garganta a baixo numa tentativa frustrada de sanar o sofrimento.
Amy estava do seu lado e percebia o nervosismo da amiga. Mordia os lábios a fim de balbuciar algo, talvez um consolo, mas não conseguia. Sabia plenamente que se naquele quarto estivesse Sonic em vez de Silver, com certeza agiria da mesma forma.
A ouriça coçou a nuca convencendo-se que estava confundindo as coisas. Olhou para a pequena janela em plena madrugada e admirou o céu. A lua branca anunciava o final da madrugada — lembrou das palavras de Tails. Mas ela logo notou que algo estranho estava acontecendo: lá no horizonte, em uma pequena porção daquela imensidão, o céu parecia estar verde. Se o momento fosse outro talvez Amy procurasse saber o motivo daquilo. Mas não deu importância. Assim que os seus olhos viram a imagem do seu amigo raposo denotando um sim com a cabeça, Amy virou-se e encarou Blaze. Logo perguntou:
— Está melhor?
Blaze pareceu voltar de uma realidade distante após o questionamento, e entregou-se a uma mentira habitual e relativa.
— Estou.
— Tails está nos chamando.
A felina não disse mais nada. Calmamente, apenas levantou-se da cadeira e seguiu a ouriça até a sala privada sem ao menos olhar para à janela de vidro, onde um certo Silver moribundo estava.
...
A sala que o trio se reunia continuava escura e sem vida. As paredes cinza-escuro e a lâmpada fraca contribuíam para o ar cadavérico do espaço. Mas todos já pareciam estar acostumados com tal atmosfera.
— Pessoal, eu encontrei uma espécie de sinal com meu equipamento, mas é tão fraco que só consigo enxergar a região que ele atua num raio de seis quilômetros.
— E o que esse rastreador procura, afinal? – Perguntou Blaze, bastante entediada e impaciente.
—Basicamente, ele procura níveis de energia muito elevados ou descontrolados. Dispositivos como armas de naves espaciais consomem muita energia, e geram oscilações significativas. Rastrear algo assim já me ajudou a evitar grandes catástrofes em Mobius.
— E o que foi que você encontrou? – Questionou Amy.
— Como eu disse, o sinal é precário. Pode ser qualquer coisa. Mas o que me levou a desconfiar de algo é simplesmente porque a região de onde vem o sinal me parece muito sem sentido para essa resposta. O lugar é chamado de Dry Forest, por ter um clima relativamente seco apesar da vegetação bem verde, sendo uma das poucas e amplas regiões de vegetação desse continente, se estendendo por dezenas de quilômetros.
— E você já pesquisou alguma coisa por lá, pra não perdermos tempo? – A gata mais uma vez perguntou friamente.
— Claro que sim. – Tails retrucou também com rispidez. – Mas só há coisas sem sentido: Uma árvore de quase 5 metros, vários bosque, uma montanha... Nada disso gera um sinal tão forte!
Um suspiro por parte do raposo escapou, que logo depois, admitiu sua insegurança:
— Eu sei que parece inútil, mas estou pensando muito sobre isso... E tentei relacionar com o enigma que Pyro mandou. Coloquei ele pra ser analisado por vários programas meus para ser descriptografado, e nada.
Quase que instantaneamente, Tails colocou as mãos na própria cabeça e uma expressão de agonia tomou seu rosto. Amy se aproximou mais:
— Você não pode pensar muito, sua cabeça ainda está em tratamento. Depois de Silver, você é o que mais deve ficar em observação, mesmo não sendo grave...
— É eu sei, mas não consigo parar de raciocinar. As circunstâncias não têm ajudado muito.
Alguns momentos de silêncio preenchiam os espaços vazios da conversa em intervalos diferentes de tempo. O último não durou muito.
— Se acalme Tails, você vai encontrar a solução... Tenha esperança...
Esperança... Até então ela tinha sido apenas uma palavra de conforto, como muitas outras.
Então Tails levantou com um salto da cadeira.
— O que foi? – Amy quase teve um ataque. Tails mexia no seu laptop como nunca. Amy sentou e esperou. Logo o raposo colocou o minicomputador à disposição das duas. Nele estava o enigma de Demolish.
— Lembra do que Blaze havia falado sobre cada palavra mais complicada significar outra mais simples? Eu me prendi tanto a buscar uma espécie de código, que não parei apenas pra interpretar o texto em si. Vamos analisar o enigma... A frase que parece mais misteriosa me parece ser essa:
Vocês poderão encontrá-lo em um lugar, onde a luz é uma mera visitante vespertina e, durante a manhã, apenas as sombras da esperança passeiam.
— Quando ouvi você falar "esperança", Amy, lembrei que geralmente associam essa palavra ao verde. Quando eu li no enigma "sombras da esperança", não sabia o que aquilo poderia significar. Pensei de tudo, mas nada me ocorria. Mas se a gente trocar a palavra "esperança" pela palavra "verde", temos:
Vocês poderão encontrá-lo em um lugar, onde a luz é uma mera visitante vespertina e, durante a manhã, apenas as sombras verdes passeiam.
— Sombras verdes? – Blaze perguntou.
— Sim... Realmente é muito estranho. Mas precisamos montar uma linha de raciocínio, pra que possamos pensar juntos. Vou tentar começar. O que seria uma sombra? – Instigou, Tails.
— Acho que... acho que seria um rastro que fica quando a luz não passa pelo objeto. – Deduziu Amy.
— Boa. – Disse Tails. – Então, se precisamos de sombra, precisamos também de luz! O que o texto nos diz sobre luz?
Blaze, reclinou-se para ler, tentando ajudar:
—A luz é uma mera visitante vespertina.— Pensou um pouco. – Visitante... Talvez a luz apareça só de tarde.
— E de manhã só aparece uma sombra verde... – Completou Amy. – Estranho. Uma sombra deveria ser sempre do mesmo jeito e não verde.
Os amigos empacaram nesse problema por alguns minutos. Desenvolveram até algumas teorias, mas nenhuma delas corroborava com os dados obtidos por Tails. O cansaço dificultou bastante qualquer raciocínio. Amy levantou-se, foi até a pequena e única janelinha da sala que estava.
Por favor, cérebro, não me abandone agora.
Amy poderia certamente dizer que embora não soubesse o quão próximo estava de encontrar Sonic, ela tinha dentro de si uma certeza de que estava cada vez mais perto. Os acontecimentos não negavam, afinal, haviam chamado a atenção de Demolish, e aquela era a chance perfeita para que pudessem ter algo mais concreto do que apenas enigmas.
Enquanto refletia em tais pensamentos, percebeu que lá no vasto horizonte, pôde visualizar a mesma forma esverdeada que parecia tocar o céu.
— Tails? Blaze? O que é aquilo?
Os amigos, que já estavam bastante acostumados com o som da noite passeando pelos seus ouvidos, levantaram-se em um sobressalto, indo em direção à mesma janela. O raposo, que ficou bastante intrigado com a imagem, pegou sua bússola, olhou por alguns minutos e voltou ao seu computador.
Após centenas de tecladas no pequeno laptop, ele finalmente surgiu com uma resposta:
— Mas é claro!
— Descobriu algo, Tails?
— Sim! Primeiramente, respondendo à sua dúvida sobre a sombra verde, Amy. Quando uma luz não passa por um objeto, dizemos que ele é opaco. Se ele é opaco, o normal é que ele projete uma sombra que seja da maneira como nós conhecemos. Agora, se um corpo deixa que a luz passe por ele, por mais que seja um pouco, o efeito é diferente. Se eu colocar uma fina cortina laranja em um quarto, quando a luz passar por lá...
— O quarto ficará laranja! – Completou Amy.
— Exato. Aquilo que estamos vendo, é nada mais, nada menos do que a gigante e famosa montanha verde. Ela é constituída quase que completamente de minerais translúcidos esverdeados, o que faz com que a projeção de parte da luz que atravessa sua forma gere sempre uma sombra esverdeada. A outra parte da luz é refletida e por isso ela é vista de muito longe por toda a região.
Tails virou seu computador e mostrou uma foto da montanha. Para Amy era inexplicável a beleza daquela imagem: parecia uma montanha incrustada de esmeraldas. Eram tantas que de longe a montanha parecia ser totalmente feita delas.
— Então esse é o lugar onde teremos que ir? – Perguntou Blaze.
— Não, necessariamente. Quer dizer, é claro que se trata daquela região, mas o enigma fala de um lugar que recebe a tal sombra verde, o que significa que seria em uma porção abaixo e ao redor da montanha, que é justamente... – Avançou para a próxima imagem em seu laptop. – O bosque da escuridão imatura.
—Isso. Nele predomina quase sempre o verde. Por isso escuridão imatura. Escuridão de algo que teoricamente, não seja claro; e imaturo vem de algo não-maduro, no caso, algo verde. É um lugar enorme que cerca praticamente toda a montanha verde, o que levaria dias até que pudéssemos cobrir toda a região. Contudo, o enigma fala de uma porção que a sombra verde visita pela manhã. Considerando que a lua da manhã passa por uma única região toda manhã, já reduz bastante a área que faremos nossa busca pelo tal casebre.
— Tails você é incrível! – Amy aplaudiu – Então, é para lá que nós vamos...
— Sim. Num casebre escuro dessa região. – O raposo boceja. – Depois de uma boa noite, quer dizer, dia de sono... — Disse Tails.
— É, eu também estou exausta... Vamos todos tentar descansar. — Falou Amy.
Blaze se levantou de seu assento e partiu do lugar com certa frieza no olhar e voltou ao corredor que já lhe era bastante familiar. A iluminação azulada, a fileiras de bancos, e os quartos com grandes placas de vidro se repetiam a cada cinco metros que percorria. E ao chegar no cômodo de Silver, ela viu que uma enfermeira estava saindo e fechava a porta do cômodo.
E estava vazio.
O coração de Blaze pulsou forte e milhões de ideias saltavam de um lado para o outro em sua cabeça. Tocou no ombro da enfermeira com certa rispidez.
— Ah! Olá, senhorita. – Ela parecia sorrir. – Estava mesmo lhe procurando! O paciente finalmente saiu do coma e já foi transferido para outro quarto.
Blaze não sabia o que dizer. Apenas perguntou se podia vê-lo por alguns minutos.
Devidamente autorizada, a gata foi conduzida pela enfermeira para outra ala. Entrou no novo quarto. Este era bem mais agradável, embora ainda pudesse sentir o cheiro de éter hospitalar.
Puxou a pequena cadeira que estava ao lado do criado-mudo cor de salmão e sentou-se ao lado do ouriço. Como se estivesse à guarda de um baú que escondia ouro, Blaze não se movia. Seus olhos não desviavam do rosto de Silver e assim permaneceu por muito tempo. Esperava algum movimento, ou algum piscar dos olhos. Inútil. Já conhecia esse sentimento: Esperava por algo que não sabia se iria voltar. Segurou as mãos do ouriço e examinou seu pulso:
— Pelo menos está estável... – Suspirou ela.
Logo aquele ar de decepção invadiu-a novamente. Tinha que descobrir o porquê de Silver ter agido daquela maneira.
Ainda segurando as suas mãos, sentiu algo estranho, como se estivesse inflamado em seu pulso, e ficou curiosa para saber o que era. Quando, com cuidado, moveu sua mão, arquejou suprimindo um berro ao ver o que havia lá: O símbolo de Demolish! Mas este era diferente do que ela possuía, não só por ter sido colocado no pulso, mas porque era de um vermelho carmim e parecia reluzir.
Entretanto, mesmo depois do susto, Blaze resolveu não ceder ao turbilhão de pensamentos. Sabia que de alguma forma ou de outro, Pyro estava envolvido. Tentou não pensar em nada no momento, inclusive para não preocupa-lo. O que era mais importante era a recuperação. Acalmou-se e sussurou:
— Não se preocupe, Silver, vai ficar tudo bem...
O que ela não esperava, era que sentiria uma sensação maravilhosa. Por um momento, pôde sentir o aperto daquela mão, que, aquecida, apertava a sua. Olhou para o rosto do dono e percebeu que os seus olhos estavam entreabertos e, mesmo com dificuldade, revelavam o brilho aconchegante que ela conhecia muito bem. A gata sorriu. Finalmente sentiu a esperança.
Ela não percebeu, mas acabou dormindo ali mesmo. Foi acordada após algumas horas por Amy, que sorrindo trazia um café e um sanduíche na mão.
— Precisamos ir agora.
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