Believe in Yourself
19 Marcas
De longe já podiam avistá-la. A casinha era velha e parecia estar abandonada há dias. A luz esverdeada parecia escorrer pela velha cobertura de palha e madeira. O pico da montanha verde que se situava atrás, no campo de visão, tinha uma altitude realmente grande, mas naquele momento ainda parecia maior.
O trio havia atravessado o percurso em total sigilo. E durante a procura, falaram o mínimo possível, para que os olhos trabalhassem com muito mais eficiência. Inicialmente pareciam estar procurando uma agulha num palheiro, afinal, o casebre poderia estar em qualquer lugar dentro da floresta. Mas por sorte a busca não demorou muito, pois lá estava ela, em meio a uma clareira coberta de flores.
Ao colocarem os pés naquela extensão coberta por flores esverdeadas, todos pararam para observar o bosque. A luz era o já previsível verde, mas ainda assim, era muito diferente de uma fotografia digital ou do que haviam imaginado. Era impressionante como as cores pareciam se misturar, enquanto a montanha parecia reluzir. Não muito longe da casa, havia uma lagoa que continuava dentro da floresta fechada.
Contudo, aquele lugar, que ao mesmo tempo era belo, também parecia assombrado. Amy foi a primeira a indagar:
— Tem certeza que é aqui mesmo?
— Certeza absoluta. – Tails não hesitou em falar. – Não há outra casa num raio de cinco quilômetros, entre a montanha e o bosque. Mas não vamos ficar aqui parados, vamos nos aproximar. – Comandou Tails.
Com passos lentos, cautelosos e compassivos, os três foram se aproximando da cabana. O senso em manter silêncio era automático, apesar da certeza de que um ataque poderia ocorrer a qualquer momento.
— Olá, alguém aí? – A saudação de Tais pareceu inútil, pois o eco de suas palavras foi ouvido até desaparecer.
— Acho melhor a gente entrar. – Disse Blaze. – Com certeza ele já sabe que estamos aqui. – Tails concordou e afirmou um "sim" com a cabeça. Amy não disse nada, somente obedeceu ao que foi dito.
A porta já estava entreaberta, logo restava apenas abri-la totalmente. Assim, que Blaze segurou a maçaneta e a empurrou, um som agudo e ruidoso se propagou rapidamente. Apesar da luz ser escassa e colorida, já era possível enxergar o que havia lá dentro: uma salinha apertada com um sofá velho coberto por uma lona empoeirada e cinco candelabros com suas velas totalmente gastas. No piso de madeira havia alguns buracos, talvez por conta da umidade.
Não havia nenhum outro sinal de iluminação a não ser pelo pequeno facho de luz lunar pela única porta da sala. Havia uma outra passagem que ficava ao fundo daquela sala, como um corredor escuro que levava a lugar nenhum. A coragem foi mais rápida desta vez. Blaze acendeu uma pequena chama com suas mãos e pôs-se na frente dos dois.
— Vamos. – Disse friamente.
O corredor era curto, mas a escuridão aludia um beco sem saída. Quando seu final chegou, mostrou levar a um cômodo vazio. Até então:
— Finalmente nos encontramos. – Uma voz ecoou do fundo do quarto escuro até o trio.
Blaze se pôs rapidamente em posição de batalha.
—Ah, Blaze! A famosa gata de Denfire. – Era uma voz feminina, mas não apenas isso. Era uma voz feminina suave como a de uma criança.
— Quem é você?
A felina não esperou resposta alguma. Simplesmente aumentou a intensidade da chama e assim, pôde ver de quem se tratava: Uma raposa fêmea um pouco mais alta que Tails, mas de aparência tão jovem quanto.
No entanto para o raposo, ela lhe lembrava um pouco Cream.
— Oh, que inconveniente... Não gaste sua energia. Afinal, para que servem as janelas? – A raposa então pôs-se a abrir as duas janelas atrás de si, para que a luz lunar esverdeada penetrasse o ambiente de forma suave. Agora era possível ver com um pouco mais de nitidez aquele lugar velho. Havia grandes teias de aranha. – Lumina.
— Quê? – Blaze não entendeu.
— Meu nome... Você não perguntou quem eu sou?
— Que lugar é esse? – Blaze não hesitou em perguntar.
— Bom... Esse foi o lugar onde passei a minha infância. – Respondeu a raposa. Ela tocava as paredes, com a suavidade de um momento solene.
— Você não parece tão velha. – Tails arriscou um palpite.
A dona da voz fechou os olhos e abriu um sorriso brilhante.
— Não sou, realmente. Mas sinto que essas marcas são bem mais antigas que eu.
A raposa então mostrou no pulso a marca Demolish. Tails e Amy já esperavam que algo assim fosse acontecer, já Blaze não pareceu ter previsto aquilo, pois para ela tinha um significado diferente. – É a mesma marca, com a mesma cor e está no mesmo lugar da de Silver. – Por que então a sua marca era diferente? Ela afastou o pensamento. Não era a hora apropriada.
Uma expressão malvada permutava naquele rosto sereno. Era notório que ela era o soldado que Pyro havia falado.
— Vamos acabar logo com isso, seu rostinho bonito não me convence. Diga o que quer de nós e onde Sonic está! – Blaze já revelava sinais de raiva, pois acendeu sua segunda luva com chamas incandescentes.
De súbito, algo inusitado demais aconteceu. A raposa, que até então somente observava de longe, começou a gargalhar.
— Qual a graça? – Blaze mordeu os lábios.
— Ah, desculpe, mas acho engraçado como uma pessoa fraca como você se esconde por trás de uma máscara. Uma máscara bastante empoeirada, inclusive.
Blaze não conteve o grunhido de raiva.
— Aposto que ela – A raposa apontou para Amy. – é muito mais forte que você. Mas você é tão hilária que chega a ser ridícula. – Lumina disse isso com a naturalidade de um riso infantil.
A gata por fim perdeu as estribeiras e correu para atingir sua oponente. Mas quando menos esperou, Blaze já estava jogada na parede empoeirada da velha cabana. Somente ao abrir os olhos que percebeu as rajadas de uma espécie de luz verde que emanavam das mãos da raposa. Assim que tentou se mover, ouviu um som de algo rachando atrás de si.
Ela é forte.
Tails e Amy permaneciam estáticos e não se atreviam a realizar um único movimento. Blaze tentava se livrar das forças fotocinéticas enquanto sucumbia à visão daquela raposa. Era como uma forte criança diabólica, brincando com seus bonecos.
— Temos que fazer alguma coisa Tails. – Amy sussurrou em meio ao desespero.
— Mas o quê? – Tails também estava nervoso.
— Não se movam! – Blaze repreendeu-os percebendo os cochichos. – Eu resolvo isso.
Mais uma risada vinda por parte da raposa:
— Mas que resistência... Quer dizer, que não quer que eles lutem para que não se machuquem... Fofa.
Blaze não se conteve e literalmente, arrancou um pedaço da parede no lugar onde estava presa:
— Chega! – As mãos da felina estavam mais flamejantes como nunca, na forma de duas chamas intensas e vívidas. Logo, ergueu os braços e correu contra a raposa novamente. Blaze tentou atingi-la, mas Lumina era rápida e desviava com facilidade. Numa fração de instante que seu ataque cessou, ela foi surpreendida com mais um raio, que a levou a se chocar contra a parede mais uma vez. As dores dos impactos já se manifestava, mas a felina procurou não baixar a guarda. Apenas encarou o sorriso perverso da raposa, enquanto montava sua próxima estratégia.
Lumina se aproxima, e então continua a falar:
— Sabe o que você é? Você é uma dissimulada, isso sim! Esconde-se sob uma imagem que não é de sua natureza. – Tails e Amy então tiveram uma surpresa: As chamas da mão da felina demonstraram incerteza, tal como uma vela prestes a apagar. Ainda assim ela não desistiu e correu distribuindo combos de socos e chutes na raposa.
— Você não me engana... Fra-ca! – A última palavra foi carregada de tal forma que fez Blaze imediatamente parar e paralisar.
À sua mente veio a imagem de um fantasma do passado: Seu pai, dizendo a mesma palavra, no mesmo tom de voz à felina em um de seus árduos treinamentos.
A felina tentou lutar contra as lembranças, mas não conseguiu evitar que elas invadissem sua mente que a levaram para um tempo sombrio, muitos anos atrás.
Blaze atirava bolas de fogo contra uma espécie de espantalho improvisado. Mas as bolas não tinham o tamanho nem a força necessária para carbonizar aquele material. As esferas eram abundantes, mas nada suficiente para causar danos relevantes.
Blaze era esforçada. Fazia de tudo para agradar aquele pai que aparentava ter um coração de pedra. Quando finalmente conseguiu uma esfera com o diâmetro de meio metro olhou radiante para o pai. Mas tudo que ouviu foi uma única palavra:
— Fraca.
Blaze desabou por dentro. Tanto esforço, para ver o pai destruí-la. Volcano virou-se e andou para a aldeia. Blaze abandonou o local também e seguiu-o, de cabeça baixa.
Dentre suas maiores incertezas, a felina sempre achou que tudo seria melhor para seu pai se tivesse nascido como um felino, não como uma felina. Mas isso não a impedia de fazer tudo por ele. Seus pensamentos mais uma vez foram interrompidos pelo som dos passos do pai que cessaram:
— Você ainda é fraca, Blaze... Precisa se esforçar mais... Um dia, aquelas esmeraldas serão sua propriedade, e você terá que guardá-las com sua vida!
— Mas pai, eu... – A felina se calou diante da mão erguida do seu pai.
— Não se justifique. Jamais! É o seu trabalho. Se esforce!
Dessa vez Blaze não pôde segui-lo. Ficou estática a observar a imagem paterna desaparecer no horizonte infinito.
A felina só acordou do devaneio quando recebeu uma rajada fluorescente da raposa, o que a jogou na parede novamente. Lumina se aproximou da gata em passos curtos:
— Nossa... Você é tão insignificante. Mesmo após tentar agradar seu pai de todas as maneiras por tanto tempo, acha que se tornou realmente forte à sua maneira? – Mais uma risada maléfica. – Que ridículo! Eu sei que ainda existe aí uma garotinha clamando por misericórdia. Sim, uma garotinha que não tinha o amparo do pai. Uma garotinha que, após a destruição de sua família, teve de aprender a se virar sozinha.
Tails e Amy então testemunharam um fato incrível e inéditos em suas vidas. Lágrimas rolavam sobre o rosto de Blaze! Tails e Amy estavam tão perplexos que sequer conseguiram se mover. Estavam na verdade estavam aterrorizados.
Amy estava mais assustada que nunca. Se algo fez Blaze chorar, era realmente sério. No entanto, a ouriça estranhava e se perguntava como aquela desconhecida sabia tanto do passado de Blaze. E certamente não poderia estar mentindo. – Será que Blaze a conhecia?
Então começou a cochichar com Tails:
— Tails, não estou entendendo! Na mensagem deles dizia que seria um desafio às suas maiores forças. Como? Parece que ela só está mais interessada em provocar e zombar de Blaze.
Tails suava frio, já havia pensado sobre tudo aquilo. Mantinha uma expressão de pânico, quando revelou seus pensamentos:
— Exatamente. Ele não disse força física.
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