O Cyclone era famoso por ser uma das mais rápidas naves que Tails havia inventado, perdendo apenas para os Tornados. Entretanto, seus tripulantes também tinham que lidar com a espera, afinal, estavam viajando pelo vasto espaço sideral.

Na sala de controle, Tails passava a maior parte do tempo olhando o registros e informações no grande painel da nave, quase inteiramente preenchido pela tela sensível ao toque, umas das suas novas aquisições. O raposo fazia um levantamento de todos os passos que tomariam dali pra frente e também repassava-os um a um, pra não sofrer nenhum problema por mera negligência.

Blaze sempre gostou de estudar as pessoas à sua volta. Durante aqueles poucos minutos desde a decolagem, analisou cuidadosamente o esforço que o raposo estava depositando naquela missão. Ela vinha sentindo o mesmo que Tails desde o desaparecimento de Silver. Viajou para alguns pequenos planetas próximos ao dela, mas sem sucesso, via-se desnorteada. Ela podia sentir doses de desespero e preocupação por ele pulsarem dentro de si, apesar sua aparência externa aparentar frieza e sobriedade perene. Ela tentava manter-se controlada, mas não era muito boa em lidar com os próprios sentimentos.

E Amy? — Blaze pensou em algo que não havia notado desde o começo. Esta não foi Amy que eu conheci. — Refletiu desconfiada. Talvez o tempo que passou sem ter contato com a turma do Sonic, a fez perder vários fatos. A felina percebeu desde os primeiros instantes que Amy estava mudada, sem aquela hiperatividade e descontrole de um ano atrás. Então, tomou uma decisão muito inusitada de sua parte. Resolveu conversar.

Desencostou-se da parede e andou em direção a cozinha. Ela podia sentir, passeando pelo ar, o cheiro doce de uma deliciosa torta de maçã, especialidade da ouriça. Quando passou pelos corredores de metal opaco com iluminação amarelada, associou o ambiente à situação em que se encontrava.

Ao chegar à cozinha, Blaze viu que Amy enfiava um palito seco na torta, colocando-a logo em seguida no forno. Tentou não fazer ruído algum, apenas cruzou os braços e tornou a observá-la. Engraçado, até parece que a aparência também mudou. — Riu a felina.

Amy ainda passou um bom tempo sem perceber a companhia. Quando a viu, demonstrou sutilmente ter levado um susto, o que não passou despercebido por Blaze:

— Desculpa se assustei você.

— Não foi nada. — Sorriu timidamente.

Blaze arrastou uma cadeira para perto de si e sentou-se. Breve, o silêncio foi quebrado pela gata:

— E a torta? Demora muito? – Blaze tinha entendimento do quão era péssima em tentar começar uma conversa. Amy chegou a levantar a sobrancelha desconfiada, mas ela logo respondeu à pergunta:

— Só mais uns 20 minutos que já vai está pronta. Por quê? Já está com fome?

— Esse cheiro não perdoa ninguém. – Após este comentário, o silêncio tomou por conta daquela cozinha pequena. Até que, quando Amy terminou de limpar a pequena mesa da sujeira do preparo, Blaze voltou a falar. — E então Amy, me diz. O que houve? – Blaze estava com uma ansiedade tão imensa que resolveu jogar tudo para fora, como um canhão.

Amy podia ver em seus olhos sagazes que a felina a observava como uma estranha. — Ela percebeu? — Mas, para não causar certo impacto, disfarçou rapidamente:

— Houve o quê?

— Esse seu jeito mudado.

Amy entendeu que Blaze a havia encurralado. Revelar alguma pequena parte de seus sentimentos guardados a sete chaves era algo complicado e doloroso, mas também trazia algum alívio. E a solidão daquele lugar apenas aumentava a vontade de desabafar:

— Blaze...

A ouriça tinha receio e vergonha em falar alguma parte do que sentia a Blaze, pois esta tinha sido alguém que, no passado, foi alvo de sua raiva e ciúme bobos por se aproximar de Sonic. Ela sabia que a gata não guardava tais rancores, mas ainda assim era difícil.

Arriscando-se, Amy se aproximou mais da mesa e pôs as mãos sobre ela, continuando:

— Alguma vez você já sentiu que precisava mudar sua atitude? Sabe, abrir mão de tudo mesmo por causa de algo? Eu resolvi mudar porque achava que estava causando problemas a todos. Já que não sou forte, pelo menos, posso tentar não atrapalhar ninguém. — Blaze logo percebeu que a ouriça já estava com os olhos cheios de lágrimas. — E, e-eu quero, muito, muito mesmo salvar o Sonic para que ele saiba que eu sempre estive disposta a isso.

Logo, Amy caiu ao chão e desatou a chorar, mas não por causa do sequestro. Lamentava ter perdido tanto tempo com atitudes idiotas. E a dor era lancinante, pois não havia chorado daquela forma anteriormente.

Blaze, por um segundo, ficou sem saber o que fazer. Mas entendeu que ela precisava de apoio e foi ao seu encontro, acolhendo-a firmemente. Amy sentiu no abraço da felina, a consideração que ela tinha mesmo na rara proximidade:

— Você já deve ter sentido isso... – Disse Amy.

— Não, não senti. Mas estou aqui. – Mentiu. A felina lilás segurava Amy nos braços, mas seu pensamento estava longe.

Blaze explorava locais do passado em sua mente. Podia sentir o cheiro de sua infância, odores conhecidos de cinzas, macieiras e paz. Eram lembranças que feriam um pouco seu coração. Podia lembrar-se da imagem dos seus pais – eram ótimos pais por sinal. Sua mãe era uma boa e bela felina, e seu pai era o forte guardião das esmeraldas do Sol. Ela o admirava muito e ficava orgulhosa por ser a filha daquele chamado "Chama Lendária". Volcano controlava o fogo e as Esmeraldas do Sol de uma maneira tão impressionante, que podia fazer surgir uma grande erupção em alguns segundos.

Ele também era conhecido por ser um felino osso duro de roer – apesar de Blaze o vir como o melhor pai. Embora fosse muito rígido com seus treinamentos, sempre acolheu e protegeu sua família. A mente da gata aos poucos estacionou na época em que era só uma criança. Uma criança com enorme potencial aprendendo como lidar com seus poderes. Seu pai sempre lhe dizia que num futuro próximo iria ser a próxima no legado de guardiã.

Entretanto, em um dia que parecia ser como qualquer outro, uma catástrofe aconteceu. Um grupo de seres poderosos atacou a aldeia que vivia. Todo o povo entrou em desespero. O seu pai entregou as Esmeraldas do Sol a Blaze, e a mandou correr. Ela, na agonia do momento não pensou duas vezes e obedeceu. Não olhou para trás, seus olhos estavam ocupados de lágrimas enquanto chorava sem parar.

Quando não estava apercebida, descobriu-se sendo perseguida por algumas das criaturas que saquearam sua casa. Logo tropeçou e caiu. Foi cercada e os seres estavam prontos para pegá-la. Blaze não sabia o que fazer. Só tinha tempo para implorar, quando algo inesperado aconteceu. A gata, que estava segurando as pedras valiosas não havia percebido que seu corpo havia começado a brilhar, juntamente com as esmeraldas. Depois, ela liberou uma explosão de poder. Quando deu por si, havia desmaiado, e as criaturas estavam mortas. Não pensou em mais nada, somente, em voltar, e encontrar seus pais.

Ao retornar viu uma aldeia destruída completamente deserta, sua casa, queimada e sua mãe, morta. Seu pai estava perto da fogueira, ainda vivo mas gravemente ferido. Foi ao encontro dele que ainda estava aturdido:

— Blaze, você não está preparada. Mas sei que vai conseguir. Por favor, cuide das esmeraldas como se elas fossem sua própria vida. Elas mantêm o equilíbrio do universo, revelam o verdadeiro poder – Ele tossiu – Está vendo esta fogueira? Um dia você será como ela. Eu sei que vai. – E faleceu. Blaze desatou a chorar. Todos os seus amigos, toda a sua família havia sido destruída. Não entendia, o seu pai era extremamente poderoso, como isso tudo pôde acontecer?

Logo, o peso da responsabilidade era todo seu. E para isso, precisou mudar suas atitudes. De uma pessoa doce, a felina se tornou fria; de alegre, a séria. E ela jurou que iria vingar a morte de seus parentes.

De volta à realidade, a gata não percebeu, mas estava com os olhos marejados, em um pranto silencioso. Era um daqueles momentos em que sentia que havia se tornado um monstro. Mas ao mesmo tempo, a gata sempre mantinha viva a gratidão à Cream, que a fez lembrar-se do verdadeiro significado da amizade...

Por favor, Amy, não faça o mesmo que eu...

...

Tails havia deixado o comando da nave para examinar a carta que Sonic deixou. A sala de reuniões estava sendo sua casa, seu quarto. Já era tarde da noite, mas para o raposo, não havia descanso. O alvo era mais importante. A fadiga já era uma companhia na realidade de sua vida. Cada parte do seu corpo parecia estar em um formigamento intenso.

Não posso descansar.

Na cozinha, torta de maçã de Amy já estava pronta. Aquele cheiro delicioso já havia se espalhado por todo o Cyclone, principalmente pela sala onde Tails se encontrava. E assim que o raposo de duas caudas sentiu o aroma, seu estômago lhe implorou por comida.

Estou mesmo faminto. — Não devia estar impressionado, pois fez somente uma refeição o dia inteiro, e ele não teve tempo de sentir fome. Para sua sorte, Amy já havia percebido que ele precisava comer. Já estava recuperada do surto que sentiu quando falava com Blaze. Estava trazendo a torta e um prato para Tails, pois sabia que o este era guloso e com certeza iria repetir. Bateu e porta escancarada.

— Entre.

A ouriça abriu a porta e chegou a se assustar com a bagunça que ocupava a sala. Mas resolveu não comentar sobre isso. Aproximou-se da mesa e colocou a torta sobre ela. Assim que cortou o pedaço e pôs no prato de seu amigo, resolveu comentar a situação:

— Tails, você está trabalhado um pouco demais.

Tais não era bobo e já havia percebido isso, mas admitir, era algo difícil para ele.

— Eu sei. Mas eu só quero achar o Sonic. Sabe, eu demorei muito tempo para mostrar pra ele que eu estou agradecido por todo esse tempo em que ele me ajudou e que me salvou, tantas vezes. Eu não posso falhar.

A ouriça percebeu a verdade nas palavras do seu amigo e apoiou-o com um sorriso enquanto ele se esbaldava na deliciosa refeição.

Amy procurou uma janela naquela sala claustrofóbica. Uma pequena estava a poucos metros, mas era o suficiente para enxergar as estrelas. Cada uma possuía um brilho diferente. Acreditava que pessoas eram como as estrelas, e elas podiam alcançar seu brilho máximo e destacar-se entre outras. Amy queria brilhar, e via que Tails também queria. Ele era a pessoa mais fiel que ele conhecia. Ele poderia muito bem criar uma máquina para conquistar tudo que quisesse. Não, ele não seria capaz. — Pensou Amy. A fidelidade que ele tinha para com todos os seus amigos era mais importante para ele que suas próprias necessidades e interesses.

— Mas se você não se cuidar como deve, pode ficar doente, e então, como vamos ter seu apoio? Como vai ajudar alguém se não está ajudando a si mesmo?

Amy sentiu que já havia dito tudo o eu precisava. Levantou-se da cadeira e andou em direção à porta novamente. Assim que ia tocar no botão, virou e disse:

— Pense. O que Sonic diria em um momento como esse?

Tails sabia. Sorriu e disse sem pensar muito:

— Não se preocupe, tudo vai ficar bem!

Amy sorriu ouvindo a voz de Sonic ecoando em sua mente dizendo as mesmas palavras. Já estava prestes a sair quando ouviu:

— Obrigado, Amy – Ela balançou a cabeça, satisfeita e retirou se da sala. Foi a seu quarto e não demorou muito a dormir um sono leve e profundo. Sonhou com estrelas brilhantes.

...

Algumas horas depois, sem aviso prévio, um alarme do ciclone tocou, ressaltando algo que se aproximava. Tails não vacilou. Correu até a sala de controle e percebeu algo que realmente era importante. Enviou uma mensagem de voz para os quartos de Amy e Blaze:

— Estamos chegando ao planeta!

As duas garotas correram até a sala de controle. Assim que chegaram puderam vislumbrar o planetóide. Era realmente muito pequeno, mesmo a alguns quilômetros de distância. Ao passo que se aproximavam, podia ver uma estrutura plantada em solo firme com um selo que revelava seu morador: era a base do Eggman. Tails assumiu a direção e previu um pouso perfeito. Amy já ansiava por boas expectativas ali. Talvez Sonic estivesse mesmo naquele lugar.

Porém, sem esperarem, outra surpresa.

— Estamos sendo atacados! – Tails gritou, mas logo agiu e cancelou o pouso.

— Eles estão quase alcançando as turbinas laterais. – Amy havia assumido o posto de co-pilota e observava o monitor, desesperadamente.

— Calma!

Tails foi ágil e conseguiu desviar dos mísseis, mesmo pilotando uma nave de grande porte. Após afastar-se da base e colocar o Cyclone em modo de camuflagem, procurou um lugar seguro para aterrissar.

— Agora sim. Vamos pousar – Disse ele, recuperando o fôlego.

...

Instantes depois, após ajustarem o Cyclone depois do pouso, os três resolveram sair e observar a situação. A porta se abriu para os três que descessem da nave. Amy foi a primeira a se expressar:

— Nossa.

Não haviam percebido de longe, mas estavam em um planeta em ruínas. Atrás da nave haviam casas, cabanas destruídas. O lugar em si, também não estava nada bem. Só havia areia por toda a visão, um completo deserto, com ventos congelantes da noite.

— Parece que ele deu um jeitinho aqui. – Ironizou Blaze.

— Como sempre, Eggman e sua recepção calorosa.