Eu sabia que as coisas poderiam ser assim um dia, sabe. Tinha certeza que não deveria me conformar com tudo aquilo que eu julgava fazer parte de mim. Acho que só eu mesma não acreditava no meu potencial. Ainda me pergunto por que demorou tanto, afinal, todos os dias da minha vida eu sonhei em ser forte, ser útil – e eu tinha todas as ferramentas. Mas é tão difícil quando você não sabe por onde começar.

Meu nome é Amy Rose e eu sou uma guerreira.

Quando se é uma criança, ninguém te julga por ter medo, por ter atitudes infantis ou até mesmo por ser quem você é. É um tempo agradável e nostálgico de grande aprendizado. E eu fui uma criança muito feliz. Dos meus primeiros anos tenho vagas lembranças, retalhos de memórias de uma mãe amorosa que cuidava de mim com todo carinho e atenção.

Até aquele dia.

A morte da minha mãe permanece uma incógnita para mim. É nesse momento eu agradeço por não ter tantas lembranças assim da minha infância. Mas, ocultamente, eu sempre tive o desejo de ir mais a fundo nesse mistério. À medida que pensava no assunto eu já tinha uma resposta em mente: 'Depois'. E por agora, eu ainda não quero me machucar e me lembrar daquela cena.

Assim que fiquei orfã, as coisas ficaram bastante complicadas. Eu estava sozinha, não havia família que me amparasse. Lembro que fiquei desorientada por semanas: eu era bastante tímida e mal falava. Andei desiludida por muito tempo até que conheci Vanilla. Naquela época, Cream ainda era muito nova. Lembro que ela me acolheu por alguns dias em sua casa, e eu achei nela um refúgio pra me reconstruir e juntar os cacos de minha vida. Foi preciso um tempo até que eu tivesse condições de voltar à minha casa sem entrar em desespero pelas lembranças que me assombravam. Minha vida estava voltando para os trilhos.

Contudo, algum tempo depois, outro grande divisor de águas tomou lugar em mim.

Estava andando pela cidade quando um robô terrível comandado por Eggman me sequestrou. Metal Sonic era terrível: aferrolhou meus braços com uma força absurda — mesmo após anos, ainda posso sentir sua agressividade inumana. O medo e o pânico foram meus parceiros juntamente com a solidão. Nunca pensei que encontraria um momento de desespero tão grande, e até acreditei que nunca sairia daquela cela. Mas não demorou muito pra que ele aparecesse.

Sonic.

Pode parecer doentio ou obsessivo o que sinto por ele, mas imagine só: Fui raptada por um robô medonho e pavoroso que parece ter saído dos meus piores pesadelos, e logo depois sou salva por um ouriço gentil e encantador extremamente parecido com aquela máquina! Mesmo com toda aquela confusão com Little Planet e as pedras do tempo, Sonic se importou comigo, me salvou. Eu não tinha como ser mais grata a ele.

Depois disso, eu precisava procurar uma forma de me defender. Fui até a minha casa, e ao desterrar algumas lembranças dolorosas, encontrei a solução temporária: o meu martelo Piko Piko. Lembro que em certa vez estando escondida, eu vi minha mãe sentada no quarto olhando para ele. Então eu simplesmente o abracei e carreguei comigo o que me parecia a última lembrança de minha amada mãe. Não havia fotos, nem jóias, nem cartas; apenas aquele martelo.

Desajeitada, comecei a tentar usá-lo por defesa própria. Admito que consegui manejá-lo bem apenas após bastante tempo. Mas havia aquela... mágica nele. Eu apenas não conseguia desistir, tinha que continuar tentando e tentando. E de repente eu consegui entendê-lo: Era uma questão de confiança — que era exatamente o que me faltava. Eu precisava daquilo.

Dei o meu jeito.

Comecei mudando minha aparência radicalmente e treinando uma nova Amy em frente ao espelho. Uma Amy forte, capaz, e segura de si. Uma Amy que não tivesse medo de falar o que pensa. Uma Amy confiante e diferente da fraca e inútil que eu era. Uma Amy que não passasse despercebida pela multidão, e principalmente, que fosse notada.

Mas as coisas não deram tão certo assim. Em vez de ousadia, eu consegui arrogância. Em vez de confiança, eu consegui orgulho. Era uma Amy mais desastrada, infantil, e barulhenta que a anterior. Entretanto, eu encontrei uma falsa alegria naquela casca e decidi ficar lá. Aquela máscara era quente e confortável por dentro de início.

Por fim, naquele belo dia de sol, eu resolvi finalmente abandonar aquela garotinha tentando ser especial. E toda essa coisa de Demolish, guardiões, sequestros só vieram a me fortalecer mais ainda. Lutei, sorri, chorei. Vivi o bastante, valeu a pena cada esforço meu. Foi um excelente teste, e sei que passei nele. Fui autêntica, fui verdadeira nem que seja por alguns dias. Mesmo que tudo tenha acabado ali, eu estou muito feliz. Agora sei quem sou de fato. Sei que não preciso buscar reconhecimentos, elogios ou ovações de nenhuma parte – nem mesmo do próprio Sonic. Eu preciso fazer o que é certo, não importa quem estiver olhando. Minhas intenções serão reveladas através de atitudes e não de palavras.

Aos poucos o que era escuridão – ou nada – ao meu redor transformou-se em cor. Eu estava voando, certamente, mas não havia asas, não havia vento. Apenas eu e um alto e sublime desejo de flutuar. À minha frente havia aquela luz que brilhava mais que todo o resto. Eu podia sentir seu calor, seu aconchego e sinto vontade de abraçá-la, mas pra isso preciso sair da minha posição de conforto.

Então decido ir até ela.

Independentemente do resultado que minha decisão tomará eu não vou temer. Apenas vou confiar em mim mesma, acreditar que posso e que consigo. Se é morte ou vida, não sei, mas eu não posso nem consigo mais me conformar com a curiosidade. Preciso enfrentar mais e fugir menos. E assim, sigo em frente.

Eu sigo adiante em direção à brilhante luz que insiste em brilhar mais e mais forte.

Meu nome é Amy Rose e eu sou uma guerreira.