Believe in Yourself
31 Cicatriz
...
— Amy?
A ouriça desperta. Abriu os olhos com dificuldade por causa da claridade. Demorou alguns segundos para se situar no espaço-tempo. E por suas próprias conclusões, estava em uma enfermaria, pelo cheiro característico de sangue, éter, álcool e algodão molhado. Estava em um leito de hospital, e ao seu lado, Cream a observava, com um curativo na testa, um pouco acima dos olhos.
— Quanto tempo eu dormi?
— Quase dois dias.
Não era pra menos, estivera muito cansada. As noites em claro antes da batalha deixaram-na exaurida. Apesar de algumas dores no corpo, estava se sentindo muito bem.
— O que aconteceu? Cream, você está bem? – Disse Amy, percebendo o leve inchaço em seu meigo rosto.
— Sim, sim. Quando levei o soco, eu apaguei. Só acordei alguns minutos depois, quando Sonic havia se transformado. Os Babylon Rogues contaram que eles chegaram quase no último segundo, quando você e Tails tinham sido atacados.
É verdade. A ouriça lembrava disso. Tinha sido atacada por Blaze. Com chamas. Mas onde estavam as queimaduras?
— Então Sonic destruiu todos os robôs, e derrubou os inocentes que estavam dominados. Depois, recebeu uma "ajudinha" de todos e conseguiu investir contra Pyro.
— Pyro morreu? – Amy pronunciou as palavras com dificuldade e expectativa.
Cream deu de ombros.
— Aí é um mistério. Ele simplesmente desapareceu.
Amy sentiu-se não muito aliviada. Mas estava calma, apesar de tudo.
— Antes que pergunte, os guardiões estão todos bem. – Cream ri. – Os amuletos voltaram para seus donos. Blaze já está com a pedra de volta à testa, o albatroz com o colar e a lobinha com a tornozeleira.
— E o Tails, ele está bem?
Amy ficou nervosa, Tails tinha recebido golpes fatais, ele nunca fora muito acostumado com batalhas de corpo-a-corpo.
— Ele já acordou. E todos também. Depois da luta, Tikal apareceu, e com a ajuda da Esmeralda Mestre, conseguiu cuidar de alguns dos ferimentos que estavam muito graves, como os seus. Blaze também ajudou curando. Depois, trouxeram todos pra cá. Muitos dormiram bastante. Você foi a última que acordou, dorminhoca.
Amy deu uma risadinha. Parte da tensão passou. Estava tudo bem.
— Sonic convocou todos para uma reunião hoje ao pôr do sol lá na Ilha Flutuante. Mas você tem que descansar.
— Mais? Estou com fome, isso sim!
A coelha deu uma risadinha.
— Está certo, vou avisar que você acordou. – Cream deu um beijo em sua testa – Tchau!
— Tchau. – Amy percebeu que não era a única que havia amadurecido ali. Cream estava muito mudada. Era notório. Alguns segundos depois que saiu, Amy ouviu alguém remexer as cortinas e entrar.
— A-amy? – A figura da lobinha surgiu.
— Brine!
Ela entrou carregando uma mochila nas costas. Amy sorriu e a lobinha correspondeu, jogando-se em seus braços. Amy, com um pouco de dificuldade, puxou-a para sentar-se na cama com ela. Ainda sentia algumas dores pontuais.
— E aí? Como você está?
— Bem.
— Conseguiu sua tornozeleira de volta?
— Sim! Olha! Sonic trouxe pra mim! – Brine, com um brilho singular no olhar.
Amy abraçou Brine mais uma vez e pensou nas consequências daquela batalha terrível. E uma delas fora justamente a morte do pai da loba. O que aconteceria a ela agora?
— Brine?
— Hum?
— Você está realmente bem? Quer dizer, você entendeu o que realmente aconteceu com aquela garota que... machucou seu pai? Ela estava...
— Dominada. Eu sei. – Ela suspirou – Tikal conversou comigo ontem e me disse que Lumina não tem culpa do que aconteceu.
— Brine, me escuta. – Amy pegou nas maçãs do rosto da pequena e a fez olhar em seus olhos – Vai ser difícil perdoá-la, mesmo que não tenha sido culpa dela. Mas tente entender, está bem? Afaste a imagem daquela antiga Lumina.
Amy sabia que aquelas cenas marcariam a vida da pequena loba para sempre, e talvez Brine jamais quisesse mais olhar para o rosto da inocente raposa. No entanto, Lumina assentiu com a cabeça e pareceu entender. Depois levantou a fronte e disse, radiante:
— Quase esqueci! Trouxe uma coisa pra você.
Ela remexeu cuidadosamente a pequena mochila e de lá tirou um recipiente com a rosa que Sonic lhe deu e a rosa lilás que guardara pra si desde a viagem à Lively.
— Obrigada, Brine! Não acredito que você as trouxe pra mim! – Amy estava tremendamente feliz em tê-las de volta apesar de toda aquela confusão.
— Estava no meio das suas coisas, e eu sabia que você gostava muito delas.
Amy deixou as rosas na cabeceira e abraçou forte a lobinha.
— Obrigada. Mesmo, Brine.
...
Mais tarde, a ouriça já se preparava para deixar a enfermaria. Havia tomado um banho bem demorado e feito uma excelente refeição. Brine saiu enquanto Amy se alimentava, talvez alguém tivesse vindo buscá-la, provavelmente estivesse na casa de Vanilla. Pegou a mesma mochila que Brine deixou e colocou o recipiente com a rosa.
Amy cumprimentou os funcionários e saiu do Hospital. Iria fazer o percurso até a estação de trem à pé. Seriam alguns minutos até lá e outros poucos no trem. Entretanto estava tão imersa em pensamentos que tudo isso pareceu ter acontecido em meros segundos. Seu olhar se perdeu no caminho ao vislumbrar a mesma praça que estava tomando sorvete antes mesmo de toda aquela aventura começar. E apesar da praça parecer intacta, para Amy tudo mudara categoricamente desde aquele dia. Quando deu por si, já estava chegando à ponte que ligava Mystic Ruins à ilha.
— Indo a algum lugar?
Amy virou-se e viu o amigo raposo.
— Tails! – Abraçaram-se alegres. – Você está bem? Se recuperou?
— Sim, sim. Exceto pelo fato de que estou proibido de usar o Tornado por algumas semanas por causa de uma luxação no pé direito. Também não posso voar. Andar a pé é sem dúvida, terrível.
Amy riu.
— Pois é... – A ouriça chuta uma pequena pedra em direção ao abismo. Logo continua: – Conseguimos né? Trouxemos Sonic de volta a Mobius, Pyro sumiu, e tudo volta ao que era antes, com todos. A vida não vai demorar a ficar divertida de novo.
— Tá brincando? – Cuspiu Tails – Eggman foi encontrado inconsciente dentro da nave Demolish e foi levado ao hospital. Mas ele fugiu da enfermaria assim que acordou, e deixou uma carta alegando que também estava dominado durante toda a batalha e que iria se retirar em reclusão para se 'reinventar'.
— Sem Eggman?! – Amy não acreditou.
— Sem Eggman. Pelo menos por algum tempo.
— Mas olha só... Acho que vou ter que virar a vilã aqui.
Os dois gargalharam por um bom tempo. Tails, mais sério e calmo, disse:
— Sabe, tenho pensado bastante no meu passado. Posso até não gostar do que estará nele, mas também não estou mais satisfeito com a ignorância. E eu quero descobrir mais. Você não sente o mesmo, Amy?
A ouriça riu.
— Calma aí, rapaz valente. Uma história de cada vez. Teremos todo o tempo do mundo para entender nosso passado, aposto que está recheado de grandes aventuras. Mas agora temos que descansar e consertar as coisas por aqui.
Tails consentiu e ambos terminaram o percurso em silêncio. Ao chegar à ilha, caminharam até o altar onde se juntaram à pequena multidão. Todos estavam lá. Entre abraços e sorrisos aos poucos a multidão foi se sentando e esperando. Silver, Blaze, Lumina, Quake e Brine estavam mais à frente, próximos à Knuckles, que meditava voltado à Esmeralda.
— Onde está Sonic? – Pergunta Amy à Tails.
— Está conversando com Tikal acho que não muito longe daqui.
Logo após a frase, as duas figuras surgem detrás do altar. Sonic e Tikal. Amy sentiu o seu coração palpitar mais forte. Por mais que já tivesse visto o ouriço um milhão de vezes, ela sempre sentiria o mesmo. Sempre.
Tikal, Sonic e Knuckles se posicionaram voltados ao ajuntamento à frente. E Tikal começou a falar.
— Saudações. Para os que ainda não me conhecem, sou Tikal. Guardiã antepassada de Mobius e alma substituta. Mas apesar disso, não significa que estou morta, apenas estou em uma prisão tempo-espaço – Ela olha para os que estavam posicionados mais à frente – Sonic é o atual guardião do planeta, assim como Quake é guardião de Lively, Blaze é de Denfire e Brine de Shield. Silver e Lumina são guardiões posteriores de Mobius e Lively, respectivamente. Talvez a pergunta que muitos fazem é por que a história dos guardiões tem sido mantida em segredo por anos. Quero dizer a todos: Há algum tempo todos os planetas valorizavam bastante o guardião, tanto que ele se tornava o próprio líder do planeta. Hoje vocês bem sabem que as coisas não funcionam necessariamente dessa maneira, pois os líderes do planeta podem até não ter relação nenhuma com os guardiões. Resolvemos fazer essa tradição ser esquecida por causa do número de problemas que isso nos causou. Muitos guardiões se tornaram grandes ditadores e o povo do planeta, por se sentir impotente, não via outra opção que não fosse se submeter à ganância e ao egoísmo desses líderes. Pyro deve ter sido uma vítima desse sistema por estar nessa época. E por ter seu pequeno mundo destruído, sua sede de vingança foi intensa. Nos anos em que fui guardiã, ele tentou tomar o poder de Mobius. E tentou mais uma vez nesses dias. Usou algum tipo artifício com magia para invocar as marcas nos tornozelos dos guardiões e nos pulsos dos futuros guardiões, e assim, saberia quem era guardião ou futuro guardião! Ainda não entendo como ele fez isso, mas confesso que eu já estava desconfiada que algo errado estava acontecendo quando soube que os poderes de Sonic estavam mais intensos que nunca. Isso acontece em tempos que o Eixo Rosa Negra se sente ameaçado: O Guardião fica mais forte. Pyro, sabendo disso, reuniu seu exército. – Ela apontou para os rostos desconhecidos por parte dos de Mobius – Podem observar que a maioria de vocês que foram dominados possuem ótimas habilidades de combate ou poderes. Há também aqueles que trabalharam na sala de controle usando sua boa inteligência para o mal. Outros nem mesmo sabiam que possuíam poderes tão singulares, como Brine, filha de Aquan, a grande guardiã de Shield, dominadora das tempestades, mas que vivia uma vida dupla usando o pseudônimo de Karse. Lumina também não sabia de suas habilidades telepáticas e lumnocinéticas. – Lumina estava cabisbaixa. – Por isso, – Tikal continua, olhando para Lumina. – Não têm que se envergonhar por tudo o que aconteceu. Foram vítimas dominadas, possuídas, e o sangue em suas mãos não é seu. – Tikal suspira e volta o olhar à multidão. – A minha notícia é que muitos de vocês podem ter tido seus planetas devastados ou até mesmo aniquilados.
Murmúrios tomaram a ilha. Alguns se lamentavam, outros amaldiçoavam o que quer que fosse o mal. Reações diversas. Sonic interrompeu as manifestações:
— Aos que ainda acreditam que podem encontrar vida, estamos dispostos a leva-lo para onde quer que seja. Aos que não, estamos oferecendo um lugar aqui, nesse planeta. Tem sempre um lugar pra ficar em Mobius ou em quaisquer outros planetas por aqui. Lamentamos suas perdas, mas como vocês, nós também fomos vítimas dessa destruição. Felizmente, temos pessoas no nosso meio que se dispuseram a lutar pela causa – Sonic sorriu e procurou Amy e Tails no meio da multidão.
Tikal continuou:
—Verdade. Vi, mesmo através de gerações, que o mesmo erro cometido deu vantagem à Pyro em sua busca. Os guardiões depositaram seu coração em meros objetos, quando na verdade o que mais importa é manter essa força dentro de si. Talvez aquela pedra na testa de Blaze não significasse tanto para ela, mas no desespero da situação ela simplesmente acreditou nas palavras persuasivas de Pyro e se entregou, da mesma forma Quake e Brine. A pedra descrita na lenda é apenas um objeto figurado, uma forma de descrever essa força. E se Amy ou Tails tivessem se entregado, até mesmo o próprio rabo de Tails teria se transformado em uma parte do amuleto, assim como o martelo de Amy. Mas não. Eles entenderam o real sentido do amuleto do guardião, mesmo nessa situação tão singular onde o guardião, Sonic, não possui esse poder. Talvez o laço que une a vocês – Ela olha para Tails e Amy. – quebre qualquer tipo de regra. E essa será uma coisa que jamais poderemos explicar. Obrigada. Digo isso por todos nós – Tikal sorri.
Então, alguém no meio da multidão, começou a aplaudir. Logo outros fazem o mesmo. Tails franze a testa e não entende o gesto. Amy abaixou a cabeça, tímida e corada. Alguns segundos depois, todos ali aplaudiram intensamente. Aquele som era como de uma chuva intensa. Depois, Knuckles se aproximou sorrindo e disse:
— Vocês são os heróis.
Para ambos aquela frase ainda soava estranha, mas teriam de se acostumar com as ovações. Ambos sabiam que deveriam celebrar aquele momento, comemorar as vitórias e esquecer as tristezas.
E foi o que fizeram.
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