— Blaze! – Tails gritou, inutilmente. A felina permanecia prostrada no solo enrugado e empoeirado da cabana. Seu rosto estava úmido, tanto pelo suor ardente, quanto pelas lágrimas que insistiam em correr. O raposo então percebeu que continuar no erro seria tolice. Olhou para a ouriça e disse:

— Plano B.

— C-certo.

Amy correu para exatamente atrás de Lumina. O movimento não passou despercebido, pois a raposa mais uma vez lançou o espectro esverdeado. Com sorte, Amy desviou do tal.

— Agora! – Tails gritou.

Os dois então mostraram o conhecido pequeno dispositivo, com um único botão, revelando ser sua armadilha. O âmbar estava ali, e a luz azul se revelou mais uma vez. No entanto, a pirâmide precisava de muito mais força, já que Blaze estava intacta ao chão.

Lumina por um surto, não conteve a surpresa. Mas sua expressão logo mudou para uma tranquilidade, que levou Amy a suspeitar, quase que imediatamente.

A raposa então olhou para Tails e começou a falar:

— Ah... Raposo, raposo. Claramente, você é um grande prodígio na área da tecnologia. Domina máquinas, engenhocas e dispositivos com precisão. Mas ao mesmo tempo é dominado por uma motivação tão pífia.

Tails franziu a testa.

— Não vê? Você faz tudo para agradar aquele ouriço azul. Não é nada para seu próprio advento, e por isso suas capacidades nunca são exploradas ao máximo!

Tails abriu a boca para questionar:

— Não é para...

— Dependente! – Lumina gritou, cortando o raposo, que se calou rapidamente. – É isso que você é... Alguém que só existe nesse mundo para fazer os gostos dos outros. Alguém que só serve de encosto para um ouriço que sempre leva todo o crédito nos atos heroicos do Team Sonic.

— Não! – Tails revidou. – Sonic não é egoísta e nunca desvaloriza o nosso trabalho!

— É mesmo? – Lumina riu sarcástica. – E você por acaso vê pelos olhos do mundo? Imagino que não, então vou tentar te esclarecer dizendo que todos veem.

A raposa calou-se por um segundo e intensificou o olhar de desprezo.

— Você acha que máquinas assumem a postura heroica de Sonic? Já ouviu alguém dizer: "aquele novo avião do Tails é incrível" ou "já viram como aquela arma que Tails inventou salvou a todos nós"?

Amy não tinha coragem suficiente para falar ou interromper aquele discurso, mesmo sabendo que seria a próxima ser provocada.

O âmbar tem como principal força, o pensamento e a concentração! – Tails começava a cambalear em seus próprios pensamentos. Tentou lembrar a si mesmo das coisas que havia dito anteriormente. Contudo, estava claro que sua força estava muito desestabilizada e seu feixe já parecia bastante minguado.

Mas Lumina ainda não havia terminado com ele.

— Sei o que está pensando... "Sonic não se importa com os créditos"... Será mesmo?! Então me diga: Por que Team Sonic? Percebe que até mesmo nisso todos os demais são esquecidos? Percebe que todos se referem a você e ao restante como amigos do Sonic? Sabe por quê?

Lumina deixou que suas palavras ecoassem por mais alguns instantes antes de romper o silêncio em alta voz.

— Porque vocês são inúteis! Imprestáveis! Vocês sabem que são, e nada do que tentem ou queiram fazer poderá convencê-los do contrário!

Aquilo havia atingido tanto Tails quanto Amy. O âmbar, por fim se quebrou de uma vez e os dois foram arremessados para longe.

Lumina sorriu pela breve vitória. Analisou o cenário, e percebeu que Tails estava inconsciente, enquanto Amy fazia um esforço para levantar-se. Resolveu ir até ela, em passos leves.

— E você... Amy Rose. Perdidamente apaixonada pelo ouriço azulado. O mesmo ouriço que ignora a você e aos seus sentimentos não retribuídos. Você é um caso mais perdido do que Tails! – Os passos curtos que dera em direção à Amy cessaram quando terminou de falar.

A ouriça sentiu sua garganta queimar. Ela já sabia que sentiria todas aquelas palavras como brasas em sua pele, mesmo antes que sua inimiga começasse a falar. Afinal, a raposa parecia conhecer todas as inseguranças de seus amigos, até mesmo as mais íntimas. Como não saberia das suas então, já que as demonstrações de carinho ao seu amado jamais foram secretas?

— Não, não... É mentira. – Amy não hesitou – Apesar de nunca ter me correspondido, ele sempre me tratou bem e se preocupou comigo...

— Como todo mundo! – Lumina gritou nervosa. – Você se sente especial, só por que é praticamente uma das poucas garotas realmente próximas a ele.

Uma dor inexplicável surgiu aos poucos dentro do peito da ouriça. A sua mente também estava tomada, e a ouriça sentia que poderia começar a soluçar a qualquer instante, entre os suspiros de ressentimento. Já poderia até prever quais as próximas palavras que sairiam da boca de Lumina.

— Você é egoísta... Não vê que ele não te quer?! Só pensa na sua própria felicidade!

As lágrimas que Amy tentava reter, por fim desataram em um pranto amargurado. O que Lumina dizia era verdade. Sim, ela realmente sentia-se uma egoísta.

A raposa andou mais alguns passos, chegando aos pés de Amy.

— Sonic precisa ser livre, sem ninguém para amarrá-lo, e você sabe que é verdade. E, por favor, não me venha com essa história de que o amor que ele tem por você vai desabrochar, porque esse sentimento não existe! Deixe-o encontrar a pessoa certa. Deixe o ouriço.

Amy não disse nada. Não se atrevia nem mesmo a olhar nos olhos da raposa.

— Mas sei que isso nunca se cumpriria, sabe. Você não tem força suficiente para abandoná-lo. – Lumina suspirou. Estendeu o braço e começou a absorver a luz em uma esfera que começava a ganhar forma em suas mãos. – Então vamos acabar com isso, o mais rápido possível, tudo bem?

Por uma fração de segundo, o cenário mudou completamente. Tudo aconteceu muito rápido: Uma série de estrondos reverberaram, e todas as janelas da pequena casa se fecharam ao mesmo tempo. O ambiente que antes fora parcialmente claro e iluminado, jazia em trevas novamente.

Lumina vasculhou o local com seu olhar veloz, mas não parecia haver nada nas sombras. Entretanto estava óbvio que aquilo não tinha sido obra do acaso. Alguém estava se escondendo ali.

— Quem está aí?!

A grande esfera que se condensava nas mãos de Lumina aos poucos foi se desfazendo. Mesmo assim, isso não acalmou a ouriça, que ainda estava tensa e atordoada. Na verdade se sentia tão confusa, que em sua mente já não havia conexões lógicas para aquela situação.

— Apareça! – Lumina gritou mais alto. Ainda assim ninguém respondeu. – Eu sei que está escondido. Não me obrigue a ir até aí!

— Não se preocupe, estou aqui!

Uma voz conhecida do qual Amy não esperava ecoou no ar:

Silver? — Pensou Amy. Pela distância e posição, ela concluiu que o ouriço estava no teto da cabana.

— Agora, Tails! – Gritou ele.

Amy ainda não enxergava nada além dos borrões e sombras que se movimentavam no breu. Logo se ouviu também um som como de um disparo e um grito de Lumina fez Amy da um sobressalto. Decidiu que não se moveria nem mais um milímetro até que não compreendesse o que estava se passando ali.

Foi quando, em meio à confusão, ela ouviu alguém se aproximar. Um arrepio percorreu a sua espinha.

— Amy?

— Tails! – A ouriça deu um suspiro longo e pesado em demonstração de alívio. – O que tá acontecendo?

— Não se preocupe. Já conseguimos resolver tudo!

— Tails? Posso abrir.

— Sim, Silver!

As janelas foram abertas e a luz voltou a invadir o local. Como que por um milagre, a cena vista por Amy era completamente diferente da que imaginava, deixando-a boquiaberta, mediante tamanha reviravolta.

Silver estava em pé, ainda com algumas faixas pelo torso, mas robusto e firme. Blaze estava ao seu lado, e parecia reluzir uma aura de satisfação, diferentemente de poucos minutos atrás. Já Lumina estava sentada e presa com as mãos e pés atados pelo feixe de luz azulada. Seus olhos estavam vedados.

— Me soltem, seus idiotas! – Ela se debatia e gritava.

Amy ainda estava estarrecida quando recuperou as palavras:

— Como?

— Foi fácil. – Tails se gabou com um sorriso. – Assim que Silver fechou as janelas e distraiu Lumina, Blaze tratou de venda-la, com um pedaço das faixas que estavam em Silver.

— Blaze? – Amy questionou.

— Pois é. Como sou uma felina, eles precisaram de mim pra fazer o serviço sujo. – Blaze respondeu com uma risadinha. Amy entendeu ao lembrar-se que felinos enxergam melhor no escuro.

— Mas por que vendar? Não estou entendendo.

— Amy, assim que chegamos Lumina nos apresentou sua grande força mas também seu maior ponto fraco. Me diga, o que foi que ela fez de mais inusitado assim que chegamos?

Amy vasculhou preguiçosamente suas memórias à procura da resposta.

— Eu não sei... – Ela não estava muito a fim de pensar.

Entretanto, de repente, lembrou-se de algo que realmente não fizera muito sentido.

— Abrir as janelas?

— Isso mesmo! Não foi esquisito?

— Não sei... A gente não enxergaria nada se ela não abrisse a janela.

— Mas aí é que está. A maioria dos inimigos iriam tornar da escuridão uma vantagem. Mas ela não poderia. Por quê? Agora relacione o fato de abrir as janelas com seu nome e seus poderes.

Amy passou a se sentir uma estúpida por não ter entendido antes. Janelas abertas, espectros luminosos, Lumina! Era óbvio:

— Ela precisa de luz para atacar!

— Isso mesmo. Eu percebi isso só quando que me dei conta que as rajadas de luz que ela emitia mudavam conforme a luz lá fora também mudava. A gente teria que tirar isso dela, se quiséssemos ter alguma chance. Assim que conseguimos, detê-la foi fácil.

— Idiotas! Mesmo que tenham me pegado, isso não muda nada o que lhes disse. Tudo é a mais pura verdade.

Blaze encarou a raposa por alguns instantes. Depois, aproximou-se lentamente, e agachou-se da mesma forma que Lumina fez ao confrontar Amy.

— Sabe, eu posso até ser pra você uma gata fraca e dissimulada. Mas você se esquece que as pessoas também podem mudar. E se eu tento ou consigo ser melhor é porque há um motivo que me faz insistir, e me faz ser mais forte. Esse motivo é algo que você até pode não entender, mas é a mesma razão pelo qual todos nós nos esforçamos: ajudar os outros.

Lumina estava nervosa.

— Isso não muda nada!

— Claro que muda! – Tails interrompeu-a. – Muda tudo. Se eu alguma vez me escondi na imagem de Sonic é por que eu sei que ele iria me proteger a qualquer custo. Mesmo que isso tenha sido negativo ou não, estou ainda estou disposto a agradecer-lhe da maneira que for, lutando por ele até o fim, como ele fez com tantos outros.

O silêncio a seguir trouxe desconfiança para Amy. Parecia que todos esperavam que Lumina se pronunciasse também. Mas ela parecia ter absolutamente nada a declarar.

No entanto, de súbito, sons de grandes turbinas pareceram pairar sobre a cabana. Tails e Amy correram para fora a fim de ver o que estava se passando. Uma nave um pouco menor que o próprio Cyclone, sobrevoava toda aquela área a uma altitude muito baixa, logo o vento na verdade não era nada menos que um produto daquela grande embarcação.

Na lateral direita, lá estava o símbolo Demolish.

O raposo não soube o que fazer a princípio, pois embora parecesse que iriam sofrer um ataque em breve, não poderia correr o risco de perder Lumina em meio ao campo de batalha. Ela poderia ter informações preciosas acerca de Sonic, e como chegar até ele.

Precisamos fugir. – Pensou, Tails.

— Pessoal! – O raposo correu novamente em direção à entrada da cabana. – Vamos embora! Silver, Blaze, tragam Lumina!

Amy observou os amigos trazerem a raposa aos poucos pelo corredor da cabana, quando percebeu que havia um sorriso no rosto de Lumina. Era exatamente o mesmo sorriso que mostrava ao tramar...

— ... um ataque. – Pensou alto. A ouriça tentou gritar. – Blaze, Silver, não! Fiquem aí!

Mas já era tarde demais. Apesar de não poupar seu fôlego, a frase saiu tarde demais e antes que conseguisse termina-la Lumina já havia sido tirada da casa. A ouriça pôde testemunhar claramente os acontecimentos a seguir.

Em questão de segundos, a raposa entrou em uma espécie de implosão de luz, e logo estava livre da sua armadilha. Ela retirou a venda e com seus espectros de luz atingiu Silver contra a parede e lançou Tails para longe. Depois, com um chute nocauteou Blaze na cabeça, que também estava desprevenida. Logo após, a raposa levantou o corpo desmaiado da felina lilás, pôs sobre os ombros e saltou para o teto da cabana.

Para Amy, era absurdo que alguém do tamanho de Lumina conseguisse carregar Blaze nos braços. Ainda assim, a ouriça correu desesperadamente na intenção de alcançá-las, mas assim que se aproximou do casebre, teve apenas tempo de ver as duas serem abduzidas pela nave acinzentada, que segundos depois começou a subir para além das nuvens.

— Vamos segui-los com o Tornado! Não podem levar Blaze! – Amy ouviu a voz de Tails atrás de si, que corria o mais rápido que podia.

Assim que subiu na cabine da nave, o raposo tentou dar partida no avião. Apertou o botão de ignição várias vezes, mas não havia resposta. Tentou mais uma vez, só que manualmente. Em vão.

Não é possível! Sabotaram meu avião!

— Não! Idiotas! Trapaceiros! – Tails afundou seu rosto no painel à frente.

Amy estava tão tensa quanto Tails, mas preferiu não piorar as coisas ficando desesperada também. Contudo, foi inevitável não controlar seu pensamento:

Sonic foi levado e agora Blaze também... Oh, céus, isso nunca vai acabar?