Era um pouco mais de 10 horas quando a jovem teve seu rosto "queimado" pela luz solar, a obrigando se cobrir com o fino lençol e bocejar de forma preguiçosa, enquanto abria seus olhos lentamente, mesmo com o rosto coberto, a luz incomodava um pouco. Se sentou na cama, bocejando novamente e esticando os braços como se tentasse pegar o teto, rindo um pouco zonza por ainda estar com sono, demorou alguns minutos para se mover e se levantar da cama, tropeçando em seu sapato e olhando o relógio, forçando a visão naquele horário, soltando um longo suspiro por notar que iria se atrasar. Não se importou, estava com um pressentimento ruim naquela semana e seu pesadelo parecia ter aumentado ainda mais seus temores.

Morava sozinha, desde que sua mãe havia falecido há poucos meses atrás, não tinha muitas condições de sair da cidade para fugir do constante medo que perseguia seus sonhos; um homem de cabelos brancos e uma criança de olhos negros. Era tão constante e confuso que ela já estava se sentindo louca, e tudo havia piorado desde a morte de sua mãe, era mais vivido o sonho, quase palpável quando ela dormia, o vento frio e a fina chuva que podia sentir em sua pele nos sonhos. Ela respirou fundo, enquanto foi fazer sua higiene matinal antes de sair para o trabalho, tentando sorrir e esquecer o sonho, era boa nisso, conseguia enganar as outras pessoas com seu sorriso, mesmo que se sentisse errada por fazê-lo.

Colocou uma regata florida rosa com o fundo branco, uma jaqueta jeans e calças do mesmo tecido e cor, e uma sapatilha com um salto médio. Se olhou no espelho, algo que evitava; seus olhos eram esverdeados e gentis, pareciam com os de sua mãe, sua pele era alva e parecia delicada ao toque, lábios rosados e bem desenhados com um sorriso doce. Seus cabelos eram peculiares, mesmo que tivessem apenas uma coloração vermelho rubi, eram naturais e longos, com cachos abertos. Sua altura era mediana e seu corpo proporcional, chamava mais atenção pelos seus olhos do que por seu corpo em si e a mesma se sentia satisfeita com isso. Pegou sua mochila que parecia mais pesada, logo se lembrando que guardava o presente de sua amiga, sorrindo e saindo apressada, deixando a porta destrancada como era seu costume. Ninguém teria interesse em entrar ali, sabia disso, nem sequer possuía uma televisão.

A jovem andou algumas quadras até chegar a loja de roupas que trabalhava, assim que abriu a porta, sentiu um calafrio incomodo percorrer sua espinha, segurou a maçaneta com certa força e respirou fundo -é apenas sua imaginação!- pensou, empurrando a porta e entrando na loja, se sentiu aliviada ao ver todos ali, já prontos. Recebeu um olhar de advertência de sua supervisora, que atendia em seu lugar. Ela juntou as mãos e pediu desculpas em silêncio, enquanto corria para as escadas que levavam ao segundo andar onde havia uma vestiário e depósito. Colocou a camiseta de linho vermelha por cima de sua regata, jogando sua mochila em seu armário e descendo, se sentiu animada por ver que a loja estava exatamente igual.

-Com licença... -Ouviu, uma voz que mais parecia cantada do que falada e logo um toque que lhe deixou calma, aquecida e pela primeira vez, protegida. -Você é a Charlotte?

-Sim, gostaria de ajuda com alguma peça? -Perguntou, abrindo um largo sorriso, enquanto sentia os olhos da mulher percorrer seu rosto, analisando-o como se tentasse desvendar algo. Era pequena e magra, usava um vestido longo branco com mangas em renda, seus cabelos lisos e um pouco acima dos cotovelos negros, seus olhos possuíam um tom arroxeado que a jovem imaginou ser alguma lente.

-Na verdade... -A mulher respirou fundo, e aquilo sempre significava um assunto que Charlotte evitava, fazendo-a se afastar levemente e descer os olhos até as mãos da outra, que segurava uma carta com um selo que reconhecia. Era do seu pai, mas não sabia nada dele, além que era algum tipo de fugitivo e que ela, também evitava saber mais. -Meu nome é Selena. -Se apresentou, antes que a outra saísse de perto, sorrindo em um leve desespero.

-O que ele quer? -Perguntou, cruzando os braços como se desaprovasse a invasão, havia outros lugares onde aquela mulher poderia a achá-la e ali, não era um deles. Selena não entendeu a pergunta, virando para que Charlotte visse quem havia escrito, a letra era de sua mãe. Ergueu a sobrancelha, hesitando em pegar o envelope, mas sua curiosidade era um de seus maiores defeitos, respirou fundo e logo notou que estava tremendo, seus olhos ardiam e desistiu de ler, apenas colocando o envelope próximo ao seu peito. -Desculpe, mas achei que fosse do meu pai e não da minha mãe...

-Tudo bem, não conheço seu pai... -A morena indagou, mordendo o próprio lábio novamente, tentando evitar transparecer a mentira, o que foi em vão, mas naquele momento a 'ruiva' não se importava.- Sua mãe me pediu para lhe entregar isso há alguns anos, desculpe pela demora!

-... -Ergueu a sobrancelha, Selena não parecia mais velha do que ela, a observando.- Ela te pediu isso? Não parece muito mais velha!

-Oh, não pareço, creio que sou mais velha que ela. -Sorriu animada, como se fosse o melhor elogio que já tivesse ouvido, dando os ombros suavemente. Sua expressão mudou subitamente, ficou pálida e um pouco tensa, no que Charlotte encostou nela, confusa.-

-Está tudo...?

Foi interrompida quando sentiu uma dor estrondeante em seu estomago e logo sendo afastada da mulher, sentindo suas costas baterem na parede, fazendo a loja toda tremer e todos os olhos irem em sua direção, a jovem levou a mão a barriga e ergueu os olhos, vendo sombras invadir o local e logo gritos vindo de todos que estavam ali. Tentou se levantar, mas novamente, foi golpeada e jogada na parede, batendo a cabeça com força, mas não perdeu a consciência por isso, podia ver as sombras se movendo e fios de lâminas saindo delas.

Tentou gritar, pedir socorro, mas sua voz simplesmente não saia, se sentia sufocada e desnorteada, conseguindo se levantar com dificuldade, tocando sua barriga e sentindo sua blusa molhada, olhando sua própria mão suja com seu sangue, mordendo o lábio e fazendo a única coisa que sua mente mandava. Procurar sua amiga Rose, que nem sequer conseguiu cumprimentar, correu das sombras, parecia fácil quando não era atacada, os gritos tornavam o lugar desconhecido, confuso; trabalhará nessa loja há anos e estava completamente perdida, a vidraça suja de sangue e as luzes quebradas davam um ar assustador.

-Não se afaste! -Ouviu o pedido da mulher que acabara de conhecer, ignorando-a, seu único pensamento era achar Rose.

Tropeçou, caindo sobre uma poça de sangue, seu corpo tremeu de uma forma que nunca havia sentido, se ajoelhou sobre a poça e procurou a dona dela. Reconhecia a roupa, mas não conseguia decifrar qual parte de Rose estava a sua frente, seu estomago embrulhou e foi puxada por algo, sentindo o toque da mulher e a mesma a puxando para fora dali. Charlotte tropeçou sobre os corpos ou o que restava deles.

-Não se mova! -Selena ordenou, mas soube pela expressão da mestiça que ela não a estava ouvindo.

Assim que a mulher soltou os braços dela, caiu sentada na calçada, seus olhos queimavam e as lágrimas caiam, tinha que forçar o ar sair e entrar, cerrando os punhos assustada, amedrontada com tudo que havia visto e a única coisa que ainda mantinha ela "respirando" era o envelope que ainda estava em suas mãos, intacto de qualquer vestígio de sangue. Ouviu um estrondo e logo a loja desabar, entreabriu os lábios para chamar a mulher, mas não tinha forças para isso.

Se encolheu, sentindo-se novamente completamente sozinha e perdida...

Notas finais
~Estava com saudades de postar aqui, sério! ♥