Because Of My Blood
2 Capítulo 2
Estava com os olhos fechados, tentando manter em sua mente que tudo aquilo não passava de um pesadelo que sumiria assim que abrisse os olhos, mas ainda ouvia os barulhos e podia sentir suas feridas arderem conforme o vento batia contra sua pele, se arrepiando incomodada com aquela sensação. Seu rosto estava úmido por conta das lágrimas, começou a ouvir sirenes que vinham de todos os lados e um agito em volta de si, mas se manteve imóvel, mesmo quando sentiu alguém lhe balançar e perguntar o que tinha acontecido. Não sabia e muito menos tinha vontade de saber o que estava acontecendo.
—Charlotte? -Ouviu a voz pouco conhecida, erguendo o rosto e fitando a mulher que estava com o vestido intacto, mesmo depois de entrar naquela loja que havia acontecido uma carnificina. -Temos que ir!
A jovem se levantou sem dificuldade apesar dos ferimentos ainda abertos, e nem sequer havia lhe dado conta dos cortes, apenas quando começou a andar ao lado da mulher. Selena suspirou, pesarosa e culpada por tudo que estava acontecendo, indicou para a ruiva entrar em um carro branco, no que ela o fez sem pensar, sua mente estava divagando. Imitou o gesto dela, entrando e ligando o carro o mais rápido que pode, enquanto observava o semblante de Charlotte, e tudo que via era confusão e pesar, mesmo as lágrimas haviam se cessado.
—Me desculpe... -Pediu baixo, enquanto aumentava mais a velocidade, sem se importar com as regras de transito. Charlotte fitava apenas o espelho, onde podia se ver afastada da loja e os carros se aproximando, estranhando o fato de terem chegado naquele momento e não antes. Tinha certeza que sentiu alguém lhe balançar antes, mas deu os ombros, não significava nada para ela aquela informação.
Charlotte se perdeu no tempo enquanto a outra mulher dirigia, se via cada vez mais longe da loja e de sua casa. Fitou os prédios que se formavam conforme ela dirigia, bem maiores do que onde ela morava, constatando que estava no centro da cidade, ia pouco para lá, não gostava da agitação daquele lugar, entrou em alguns becos até o carro parar. Selena se levantou e passando a mão sobre os cabelos da jovem que a fitou, sem nenhum tipo de expressão, suspirando novamente e Charlotte percebeu que ela o fazia muito. Viu Selena descendo do carro e dando a volta, abrindo a porta para ela e a ajudando a sair, a jovem estranhou o sangramento que não parava e mesmo assim, ainda estava viva, mordeu o próprio lábio.
Ergueu os olhos para a luz de neon que incomodou seus olhos, podendo ler "Devil May Cry", achando um nome peculiar para uma loja, seja qual for fosse o negocio que lá havia. A entrada não favorecia o local para a jovem quisesse entrar ali, recuando e sentindo Selena lhe segurar a mão, sorrindo como se lhe afirmasse que tudo ficaria bem ali, duvidava disso, mas se permitiu ser puxada por ela, ainda tinha uma sensação estranha sobre o local. Subiu três degraus com dificuldade, se encolhendo e protegendo onde ainda estava ferida, se perguntando se não devia ser levada a um hospital e não ali.
Selena abriu a porta e ajudou a jovem a entrar. Charlotte passou os olhos pelo lugar, a entrada do lugar ainda tinha caixas e pacotes fechados, com poeira, o que indicava que estavam ali a muito tempo e que ninguém pretendia mexer. A sua frente uma mesa com uma caixa de pizzas vazia e alguns -que ela imaginou- documentos empilhados, andava lentamente, se sentando a um sofá de couro escuro encostado na parede, a sua frente uma mesa de centro com mais algumas caixas. Tentou se manter acordada, mas logo seus olhos se fecharam contra a sua vontade.
—Ora... você está atrasada, Selena! -Ouviu uma voz masculina de fundo, mas não tinha forças para abrir os olhos.
—x-
Sentiu alguém mexendo em seus cabelos, resmungando e abrindo os olhos, observando o teto e tendo certeza que não conhecia aquele lugar e que não estava em sua casa, respirou e logo sentiu a dor. Charlotte apenas ergueu a mão até onde pudesse analisá-la, estava com a mesma enfaixada de forma improvisada, sentiu seus olhos umedecerem e segurou as lágrimas, enquanto se sentava, despertando Selena que estava mexendo em seus cabelos. A loja estava mais escura, apenas com uma luz acessa, o que mudou assim que o homem se levantou e ligou as outras.
—Finalmente! -Comentou. Era um homem alto, seus cabelos incomuns em um tom branco-prateado um pouco abaixo da orelha, seus olhos tinham um azul límpido que chamou a atenção da jovem, que os vislumbrou por mais tempo do que desejava, pois viu um sorriso de canto tomar os lábios dele. Desviou o olhar, e abaixou levemente a cabeça, corada. A pele dele era alva e, mesmo com o sobretudo que ele usava, podia notar um corpo musculoso e definido.
—Onde estamos? -Charlotte perguntou, enquanto mantinha os olhos longe do homem a sua frente, que parecia se divertir com alguma coisa, que ela parecia não saber.
—Antes de qualquer coisa, preciso que leia o que sua mãe lhe deixou. -Selena pediu, entregando a ela o envelope levemente amassado.
—... -Charlotte não estava preparada para aquilo naquele momento, mas sentiu no olhar de Selena que isso não poderia ser explicado de outra maneira, suspirou e abriu o envelope, pegando o papel e o abrindo, seus olhos pareciam que iam transbordar apenas em ver a letra de sua mãe. — "Charlotte, sei que nesse momento está passando por algo difícil e sei que essa carta só será entregue depois que eu partir, e lhe peço desculpas por isso. Seu pai sempre foi um homem especial e espero que não guarde rancor dele, e queria muito ficar ao nosso lado, mas optou por nos manter seguras.
Charlotte, desde pequena você se mostrou diferente e isso chamou a atenção onde morávamos, por isso lhe entreguei o colar de presente e te pedi para nunca o tirar, até que realmente estivesse pronta e precisasse, não sei se é o caso... Querida, quero que leia atentamente e se lembre: eu nunca menti para você!
Seu pai foi um anjo que caiu por minha causa, o que lhe causou muitos problemas, além de ser perseguido por todos os anjos e demônios, quando um anjo cai, ele perde a segurança e a proteção dos outros, ele fica sozinho no mundo e não tem mais ajuda, ele tentou ficar com nós duas por alguns anos, você deve se lembrar, mas sempre éramos atacadas por alguma criatura, ele podia se defender, mas era difícil manter nos duas vivas. Ele não conseguiu me proteger, quando tentaram atacar seu berço, um demônio conseguiu selar a minha alma e, por isso, meu tempo de vida diminuiu, eu sempre soube até que data iria viver, mas não queria que você soubesse disso, não queria que vivesse esperando a minha morte.
Enfim, isso faz de você uma nefilim, uma mestiça de anjo com humano, é fisicamente mais forte do que um humano, mas mortal. Quando você tirar o colar, seus poderes que foram selados serão liberados e você vai entender o que digo, sei que ainda o usa, sempre foi uma boa garota e obediente.
Eu te amo, minha pequena Lotte!"
Charlotte fitou o papel, sua mão tremia e sentia sua boca seca, voltou os olhos para Selena, procurando alguma forma de perguntar se aquilo era algum tipo de piada de péssimo gosto ou se sua mãe estava louca, o que ela, sinceramente, desejava que estava acontecendo. Porém via no olhar da mulher a sua frente certeza no que sua mãe havia lhe escrito, se encolheu novamente, sentindo o pingente bater em sua pele, tocando o mesmo e o apertando, se tudo o que havia naquela carta era verdade, a mestiça nunca iria tirar aquele colar, ou chamaria atenção para si.
Não se importava que tivesse alguma vantagem física sem o colar, se importou com a sua segurança e a ideia de poder, lhe assustava, fazendo-a se sentir segura com aquele colar, era uma decisão sua, que não mudaria.
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