Voto Perpétuo

Ele estava a procurando por dias. Não sabia há quanto tempo estava andando pelas ruas de Londres, farejando cada beco, verificando cada ruela, entrando em cada bar trouxa suspeito. Não tinha ideia se a família dela estava em um hotel, em uma pocilga, em um quarto. Ou, provavelmente, em uma casa enfeitiçada para que apenas pessoas autorizadas pudessem vê-la. A última opção era a mais viável. Muitos bruxos foragidos usavam desses artifícios para sumirem sob as vistas de Comensais da Morte. Eram casas difíceis de rastrear, mas nada era impossível. Principalmente quando se tinha um lobisomem praticamente caçando sua companheira.

Ele farejava cada lugar em que estava. Tudo estava colaborando para que Fenrir desistisse da busca, desanimasse e abandonasse aquela ideia insana. Mas algo dentro dele lhe dizia que ele estava perto de recuperar o que era dele, que ele estava perto da ruiva, como se uma força maior o levasse até ela, como se o corpo dela o atraísse de uma maneira sobrenatural. E atraía.

Ele não estava mais nas ruas centrais de Londres. Havia se infiltrado nos subúrbios e agora achara uma rua alta, onde ele subira com facilidade e chegara ao topo do que parecia uma pequena fábrica trouxa. Fenrir subiu uma escada ali e seus olhos cinzentos procuraram a lua. Achou-a facilmente. O brilho prateado estava forte naquela noite, o que indicava que ele estava com sorte.

Ele fechou os olhos, buscando se concentrar em Ginny Weasley. Abriu todos os seus sentidos, tantos os de homem e companheiro quanto os de animal e besta. Ao abrir novamente os olhos depois de alguns minutos, conseguiu observar um feixe prateado perto dele. Sentiu-se mais animado, seus olhos buscaram a linha que ele sabia que estava ali, concentrando-se em achá-la. O feixe prateado estava no chão, e seguia rumo à direção norte.

Fenrir sorriu de forma maldosa, quase uivando pela sua sorte.

E começou a correr. Desesperadamente.

[...]

Havia uma quantidade absurda de bruxos reunidos naquela mesa, mas era sempre bom quando alguém iniciava uma conversa que não era relacionada à guerra e à rebelião. Ginny esperava por aquilo quase avidamente, mas todos ali pareciam focados demais em sair daquele esconderijo e ir lutar lá fora para se preocuparem em deixar o jantar mais agradável.

A sopa que sua mãe havia feito era a mesma que Ginny se lembrava durante anos. Um caldo quente e gostoso demais para ser desperdiçado. Alguns legumes flutuavam no caldo, e um pouco de carne também. Havia um pouco de suco de abóbora para todos ali. A refeição era considerada farta, em comparação às condições que viviam. Toda vez que um ou outro bruxo saía daquela casa para comprar comida ou para passar informações, todos ali rezavam para que ele voltasse.

Felizmente, nenhum havia sumido naquele espaço de tempo.

– O pão está uma delícia, Ginny.

Percy disse à irmã e Ginny apenas sorriu. Não queria lembrar-se de nada que fazia uma ligação com aquele castelo. Ela sabia que aquele pão era extremamente gostoso e fofo, e que a massa era feita por mãos hábeis de elfos domésticos. Mas ela não comia o pão. Não sentia vontade.

– Você não precisava ter roubado pão, filha. Não estamos passando fome.

Arthur disse e ela deu de ombros.

– Quando estive na guerra, passei muita fome. Naquela época, mataria por um pedaço de pão carunchento e duro.

Ela respondeu. Alguns bruxos se entreolharam, mas continuaram a comer. Arthur pousou a colher no prato, olhando para a filha.

– Ginny, muita coisa mudou desde a última guerra. Não temos Harry, mas muitos bruxos de outros países se juntaram à nossa causa.

Ela franziu o cenho, pensando um pouco no que seu pai havia lhe falado. Demorou algum tempo para que ela mostrasse sua curiosidade.

– Bruxos de outros países? Por que eles se juntariam a uma causa que não atinge nem mesmo onde eles moram?

– Você-Sabe-Quem continua no poder. Ele é um dos bruxos mais ambiciosos que o mundo bruxo já conheceu. – Arthur explicou. – Não demorará muito para ele querer expandir seu poder. Ele iniciará guerras em outros países, com a mesma desculpa de purificação de sangue.

– Se Você-Sabe-Quem estiver no controle do mundo, isso aqui vai virar um inferno. – Molly pautou.

Ginny permaneceu calada, tomando o cuidado de não falar o nome de Voldemort em voz alta. Quando estava no castelo, podia falá-lo facilmente. O nome não era um Tabu, e mesmo se fosse, ela estava no castelo de Greyback. Aquilo não podia significar perigo. Mas agora que ele sabia de uma possível resistência, provavelmente o nome fora amaldiçoado novamente, então todos ali tinham que ter um extremo cuidado para não pronunciá-lo, ou senão estariam delatando o lugar onde escondiam.

Seus pensamentos foram cortados quando a porta se abriu. Ela percebeu muitos bruxos pegarem as varinhas em um sinal claro de proteção e costume. Mas quando perceberam que eram apenas Snape e Hermione, abaixaram as varinhas. Alguns voltaram a comer, outros se retiraram. Apenas a família Weasley permaneceu na mesa, sabendo que aquele momento era único, e que possivelmente no dia seguinte eles não iriam ter tanta sorte em jantar todos em uma só mesa.

Arthur se adiantou quando Snape se aproximou da mesa, como se soubesse que o moreno estava ali para avisá-los de algo. E estava. Ginny percebeu isso quando olhou para Hermione. A amiga olhava para Rony a cada segundo e parecia extremamente cansada.

– Os Comensais da Morte estão se reunindo. – Snape começou. – Estão ficando mais fortes e atentos a cada dia que se passa. Há muitos aqui por perto.

Snape olhou para a janela, mas logo depois voltou a atenção para a família de ruivos. Ele abriu a boca para continuar a relatar o que estava acontecendo no mundo lá fora, quando seus olhos negros pousaram no colo de Ginny.

– Há quanto tempo usa isso?

Ginny demorou alguns segundos para descobrir que Snape estava falando com ela. Mas todos a olhavam naquele momento, esperando uma resposta. O moreno fitava fixamente o colar que estava pousado em seu colo. A pedra brilhava mais naquele dia, ficando ainda mais bela.

– Desde que saí do castelo de Greyback.

Snape empalideceu. Hermione olhou quase com pena para Ginny, que não entendeu nenhuma das duas reações. Nenhum dos Weasley mostrou que estava entendendo algo, e pareciam tão perdidos quanto à garota.

– Tire isso. Agora.

Os dedos de Ginny apertaram o pingente em um sinal claro de medo e proteção, como se fosse um gesto automático de alguém protegendo o que amava.

– Não vou tirar.

A fisionomia de Snape passou de preocupada para furiosa em apenas alguns segundos.

– Eu não estou pedindo para você tirar. Estou mandando. – ele abriu a mão para receber o colar. – Tire o colar, agora.

Ginny não ia tirar aquilo. Não podia. Aquilo era a sua única ligação com um lobisomem que um dia ela se preocupara. Ela travou o maxilar e Hermione percebeu ali um gesto de raiva. Ela não ia facilitar nem um pouco para Snape. Hermione olhou para a garota com medo. Ginny percebeu isso.

– Ginny, esse colar... é algo raro. – ela disse.

– Raríssimo. A garota tola não parece nem ter ideia do que está usando. – Snape falou, fazendo com que todos os ruivos presentes o olhassem com raiva. – Apenas lobisomens possuem esse tipo de colar. E não são muitos.

– Eu não vou tirar esse colar. – Ginny decidiu.

– Gin... – Hermione tentou falar, mas foi interrompida por Snape.

– Não adianta tentar, sabe-tudo. Ele já deve estar perto nesse momento.

Ginny ainda segurava o pingente com a mão fechada, temendo que a qualquer momento Snape fosse pular nela e arrancar à força o colar que ela usava. Molly se assustou com o rumo que a conversa estava tomando. Ela deu um passo a frente e olhou para Snape com atenção.

– Desculpe, mas quem pode estar próximo?

– Greyback. – ele respondeu.

– Talvez ainda dê tempo até que estejamos preparados. – Hermione replicou.

– Não seja tola, Greyback não é burro. Ele já deve ter dado falta desse colar desde que a garota fugiu!

Snape quase cuspiu fogo ao dizer aquilo. Ginny não entendeu nada, finalmente gesticulou para que todos a olhassem, retirando a mão do pingente e fazendo-o tombar novamente no seu colo. Os contornos dos seios estavam levemente iluminados pelo brilho prateado do colar.

– Eu posso saber o que está acontecendo? Por que estão tão preocupados com esse colar?

Snape colocou dois dedos na ponte do nariz adunco, pedindo mentalmente paciência a Merlin. Hermione percebeu a falta de paciência dele, então decidiu contar ela mesma. Andou calmamente até a mesa, afastando uma cadeira dali e colocando-a em frente a Ginny.

– Esse colar, Ginny, tem poderes que estão além do seu alcance. Esse colar é um colar da Pedra da Lua. – ao ver que sua amiga parecia confusa, explicou melhor. – Como Snape disse, apenas lobisomens possuem esse colar, e não são todos. É um artefato raro. É passado de pai para filho, possivelmente. Apenas lobisomens que possuem a licantropia de forma hereditária tem em seu poder um colar desses...

Os pensamentos de Ginny embaralharam-se no mesmo segundo. Licantropia de forma hereditária? Aquilo não era apenas um estudo? Aquilo ao menos existia? Era por isso que Greyback era tão fechado quanto ao seu passado e à sua família? Para ele ter virado o que é, seu pai o mordeu ou ele já nascera com a licantropia?

Toda aquela informação que Hermione lhe dera respondia diversas perguntas que estavam em sua mente por meses. Mas também a deixavam ainda mais confusa. De qualquer maneira, não havia tempo para pensar sobre aquilo, Hermione parecia disposta a dizer tudo o que sabia sobre aquele colar.

– O colar não brilha por qualquer motivo, Ginny. O poder da lua rege esse colar, assim como a pessoa que o usa. Há, mesmo que de forma ínfima, um pouco da luz lunar aí dentro. E lobisomens se guiam pela lua. A lua rege lobisomens desde que a espécie nasceu.

– Você está querendo dizer...

– Estou querendo dizer que ao colocar esse colar, você abre espaço para que a lua esteja com você. Ginny, Greyback deve estar usando a luz da lua para achar você. Ele deve estar usando a luz como um guia para te encontrar.

De repente um pânico se instalou na ruiva. Ela sentiu seus braços trêmulos. Pegou rapidamente o colar e retirou-o do pescoço. O pingente perdeu um pouco do brilho, mas ainda parecia sentir a presença dela ali. Ginny temeu por todos. Fora burra. Se Greyback estava a procurando, aquele colar significava simplesmente a ruína de todos.

Ela olhou para Snape quase com vergonha. O moreno a olhava como se ela fosse um inseto, mas eles não tiveram tempo de dizer algo um ao outro, um patrono invadiu a casa e comunicou que alguém desconhecido estava se aproximando. O pânico foi quase total. Muitos bruxos pegaram as varinhas e foram para lugares mais escondidos da casa, como se temessem um ataque. Os Weasley também empunharam as varinhas, mas se levantaram e rodearam Ginny de forma automática.

Snape se aproximou da janela, olhando para o gramado vasto lá fora.

– É Greyback. – olhou para Ginny. – Parabéns, ruiva. Você o trouxe até aqui. Agora lide com isso. – olhou para Molly e Arthur. – Não posso ser visto. Nem Granger.

– O que vamos fazer?

Rony perguntou quase em pânico, fazendo Snape revirar os olhos. Aquele ruivo era o mais patético da família.

– Vocês têm vantagem. Aproveitem isso antes que Greyback chame mais Comensais da Morte para esse lugar. O que eu duvido que ele vá fazer. – Snape olhou para Ginny. – Enquanto ela estiver aqui, ele não irá colocá-la em um perigo maior.

Molly olhou para Snape com atenção.

– Aproveite a vantagem. – ele repetiu.

Arthur assentiu e gesticulou para que Percy e George o acompanhasse, assim como Bill e Molly. Rony ficou com Hermione, assim como Ginny, que tentou sair, mas foi ilogicamente impedida por Snape. Com relutância e extremo cuidado, o grupo saiu da casa, ficando visível para o lobisomem.

Fenrir percebeu uma porta aparecer em meio ao nada, indicando que havia uma casa ali. Ele estava com a varinha em mãos, e pretendia usá-la caso fosse atacado. Um grupo saiu pela porta, ele conseguiu contar quatro ruivos. Sorriu de forma maldosa.

– Ora... parece que encontrei todos os ruivos do Reino Unido de uma vez.

Ironizou. Molly percebeu que, mesmo que o lobisomem estivesse com a varinha na mão, ele não a empunhava diretamente.

– O que você quer aqui? – ela perguntou.

– Só quero a garota. – antes que eles pudessem interrompê-lo, se adiantou. – Sei que ela está aí. Não adianta negar.

Fenrir tinha convicção no que dizia. Ela estava ali. A lua parecia brilhar mais no local onde a porta apareceu. E quando todos apareceram ali e a deixaram aberta, ele conseguiu até mesmo farejá-la, como se o aroma dela tivesse sido solto com isso.

– E o que o faz pensar que entregaremos nossa filha a um monstro como você? – Arthur perguntou.

– Caso não entreguem, isso aqui estará infestado de Comensais da Morte.

Ele não estava blefando. Molly sabia disso, assim como todos ali. Snape observava tudo com atenção, sendo oculto pelo feitiço que escondia a casa e fazia apenas a porta aparecer. Hermione apertava a mão de Rony com tanta força, que o ruivo achou que seus dedos iam quebrar. Ele olhou para o lado para procurar pela irmã, mas ela havia sumido.

– Eu vou.

A voz de Ginny saiu decidida por entre as pessoas que estavam no jardim. Alguns Aurores que haviam se aproximado e os ruivos que estavam ali demoraram a perceber que ela havia saído pela porta e estava buscando espaço entre eles. Quando Fenrir conseguiu enxergá-la, algo em seu íntimo lhe incomodou. Seu coração se acelerou minimamente e aquilo o deixou extremamente desconfortável. Era como se ele tivesse sentido saudade daquela ruiva. Os olhos de Ginny fitavam o lobisomem com indiferença. O colar estava novamente no seu pescoço.

– Não, você não vai. – Arthur disse.

– Ele não vai me fazer mal. – ela disse convicta. – Além disso, ele tem razão. Caso eu fique aqui, Comensais infestarão esse lugar.

– Me entreguem a garota. Eu os deixarei aí.

– E como você pode garantir que assim que Ginny sair de debaixo desse teto você não vai chamar Comensais da Morte e delatar a nossa posição? Como você vai garantir que não a machucará?

Bill perguntou, olhando para Greyback com fúria. Não podia deixar de pensar que fora ele que destruíra seu rosto.

– Eu faço um Voto Perpétuo.

Fenrir respondeu sem pensar, surpreendendo a todos, inclusive a ele mesmo. O que ele estava pensando? Um Voto Perpétuo era uma ligação que só era quebrada com a morte. Ele nunca faria aquilo se estivesse são. Porém, por mais que não quisesse admitir a si mesmo, ele não estava pensando com coerência. A queria de volta, e faria de tudo para conseguir isso.

Arthur pegou o pulso de Bill rapidamente e andaram em direção ao lobisomem. Fenrir esperou os dois se aproximarem para abaixar a varinha, mas Ginny percebeu como seus olhos estavam atentos. Ele era atento a tudo.

Ela sentiu suas pernas trêmulas quando presenciou a ligação de um Voto Perpétuo. A mão de Greyback era imensa demais para o braço do pai dela, ele era bem mais alto que Arthur e Bill. Mas os dois pareciam convictos no que queriam. O lobisomem sabia que aquilo não tinha volta, mas a queria demais para si para pensar duas vezes. O patriarca sabia que aquilo era a medida mais inteligente a se tomar. Deixar a filha ali era suicídio, mas seu coração não gostava de pensar que ela ia embora com aquele monstro.

Quando o Voto Perpétuo chegou ao fim e o feitiço foi selado, Arthur virou-se com relutância para trás. Fenrir pensou que poderia matar o pai dela ali, naquele momento, apenas com uma mão. O pescoço ia se quebrar com uma facilidade absurda caso ele o torcesse. Mas ele não podia fazer aquilo. Estava sozinho, e mesmo que fosse considerado um animal e um bom duelista, não era tolo de lutar contra vários, pois ele sabia que aquela casa deveria estar infestada de bruxos.

– Ginny, venha aqui, querida. – Arthur chamou a filha.

Ginny estremeceu. Ela olhou brevemente para trás e andou vagarosamente até onde os três homens estavam. Arthur e Bill se afastaram quando a mão forte de Greyback envolveu o braço frágil dela. Ela olhou pela última vez a mãe.

– Eu amo você.

Molly sussurrou. Foi a última coisa que Ginny viu antes de sentir o gancho lhe puxando.

[...]

Quando abriu os olhos, a primeira coisa que percebeu foi que estava em uma floresta densa. E estava chovendo. Uma chuva forte e surpreendente, pois onde eles estavam segundos atrás, não havia sinal de nuvens carregadas no céu.

Ironicamente, a luz prateada da lua estava com dificuldade de penetrar nas nuvens densas, fazendo com que o colar brilhasse pouco naquele momento. Era como se aquele maldito objeto estivesse lhe dizendo que, agora que os dois estavam juntos, o brilho do pingente não era necessário.

– Onde estamos?

Ela perguntou, escutando sua voz levemente trêmula e entrecortada. Fenrir nem mesmo a olhou, puxava cada vez mais rápido e tentava ignorar completamente a pele quente dela por debaixo dos seus dedos. O toque dela depois de tanto tempo.

Andaram por alguns minutos. Naquele curto espaço de tempo, a chuva havia ficado mais forte, ensopando a calça jeans que ela usava, assim como a sua blusa de malha. Ginny começou a sentir frio.

– Onde estamos?

Perguntou novamente. Daquela vez ele não a ignorou, parou de andar e voltou-se para ela, fitando-a com atenção. Ela precisou levantar bastante o rosto para enxergar o dele. As gotas de chuva agora batiam diretamente na pele do rosto dela.

– Estamos indo para uma casa. Onde uso a lareira para entrar no castelo.

Ao ver que ela parecia não ter entendido, ele se aproximou mais um pouco para que ela o escutasse melhor. A chuva fazia um barulho até mesmo incômodo.

– Não consigo passar pela floresta, lembra-se?

Ele perguntou, e daquela vez Ginny assentiu. Ele virou-se de costas novamente e começou a andar, mas ela apertou o braço dele com força, fazendo-o virar-se novamente para trás para ver o que ela queria.

Foi naquele momento que ela se aproximou dele sem pensar, ficando na ponta dos pés e tocando com relutância e dificuldade os lábios daquele homem. Sentiu tanta saudade do toque dele, que nem ao menos pensou qual seria a reação do lobisomem ao perceber o que ela havia feito.

Fenrir permaneceu quieto por alguns segundos, mas logo quanto os lábios dela esquentaram levemente os seus, ele enrolou os braços na cintura dela, levantando-a um pouco para que ela conseguisse alcançar os lábios dele com mais facilidade. As bocas se abriram no mesmo momento e ele buscou a língua dela quase com ansiedade. E quando se sentiram novamente depois de tanto tempo, ela soube que estava no lugar certo, nos braços dele, com os braços circulando o pescoço dele, sentindo o couro da jaqueta dele pressionar a sua blusa de malha encharcada.

Ficaram ali por longos minutos, apenas sentindo um ao outro, ele a apertava de encontro a si tão fortemente que ela começava a sentir dor onde os braços dele a tocavam. Mas não se importava com isso. Suas mãos correram pela nuca dele, as unhas arranhando levemente o pescoço dele quando passaram por ali. Fenrir rosnou.

O cheiro dela o enlouquecia, e o toque dele foi ficando mais violento a cada segundo. Um raio riscou o céu, deixando-o mais claro. Ela pareceu não perceber aquilo, mas ele sabia que eles precisariam entrar a qualquer momento. Havia muitos Comensais da Morte andando naquela noite e ele não podia arriscar a deixá-la ali, tão exposta. Acabara de fazer um Voto Perpétuo para garantir a segurança dela, como se fazer aquele feitiço fosse necessário. Além do mais, a garota estava tremendo, e ele conseguia sentir com facilidade as roupas encharcadas dela.

Com relutância, ele se separou dela. Ginny demorou alguns segundos para abrir os olhos, mas quando os fez, percebeu olhos cinzentos a fitando com atenção. Ele colocou-a no chão, pegando o rosto dela com as mãos gigantes e a obrigando a continuar olhando para ele.

– Nunca mais fuja de mim.

Ele praticamente ordenou. Em uma situação diferente, ela acharia aquilo no mínimo grosseiro e nojento. Mas naquele momento não. Ela nem ao menos retrucou, apenas assentiu com a cabeça.

O rosto dele passou de preocupado para aliviado em apenas um segundo.

Notas finais
Nota da Autora: o colar da Pedra da Lua é uma criação minha, bem como ser lobisomem de forma hereditária (eu acho).