Beautifully Grotesque
5 Tentativa
Tentativa
Ginny passava vagarosamente o pano úmido pelo primeiro andar de mármore do castelo. Mesmo que seus movimentos estivessem cuidadosos, as juntas dos seus dedos estavam brancas tamanha a força com que ela segurava a vassoura. Ela não sabia se estava segurando-a assim por medo dos elfos perceberem que seus braços tremiam, ou para se apoiar em algo. Provavelmente as duas opções eram viáveis.
Ela tentava ignorar, mas passara a noite em claro repensando tudo o que ia fazer naquele dia. Seria o dia em que ela tentaria escapar dali, fugir, ganhar novamente a sua liberdade, nem que para isso precisasse arriscar a sua vida e voltar a viver em cavernas, buracos e florestas desabitadas. Voltar a comer folhas com sabores estranhos e, com muita sorte, um coelho ou um pássaro.
Ela não conseguira dormir por causa do seu nervosismo, e quando finalmente o sono viera para seu corpo, o sol já estava nascendo. De qualquer maneira, ela não conseguiria ficar por muito tempo na cama sabendo o dia que iria enfrentar pela frente.
Seus ouvidos atentos capturaram o som de passos e ela saiu de seus pensamentos, como se temesse que alguém fosse ouvi-los. Seus olhos correram com timidez em direção ao som e ela observou Greyback descendo as escadas com passos rápidos e bruscos. Estremeceu. Nunca o vira ali pela parte da manhã, e seu sexto sentido lhe disse que algo ali estava errado. Uma quebra de parâmetro depois de tantas semanas?
Tentou não pensar nisso, enfiando em sua cabeça que estava sendo paranoica. A paranoia era normal quando se estava planejando algo proibido debaixo do nariz de um monstro. Ela sabia que ele podia farejar o seu medo, mas se ele conseguira naquela manhã, não deu sinais de que estava desconfiado.
Ele não disse nada para os elfos e nem para ela. Nem ao menos os olhou, apenas pulou o último degrau, cruzando a passos largos o hall de entrada do castelo e saindo pela porta principal. Ginny sentiu seus músculos relaxarem.
Estava quase na hora.
Ela esperou bons trinta minutos se passarem desde a saída de Greyback para terminar de passar o pano no chão. Limpou as mãos no avental e comunicou aos elfos que ia cuidar do jardim. Eles assentiram, não desconfiando de nada. Não poderiam, de três em três dias ela cuidava das plantas, e eles estavam focados demais em suas tarefas para observar o nervosismo dela.
Ela guardou as vassouras no armário e pendurou o avental. Quase saiu dali, mas depois se lembrou de que teria que pegar a cesta com os instrumentos de plantação. Xingou-se mentalmente e pegou a cesta, saindo do armário e andando rapidamente até a porta principal.
O sol a saudou como sempre fazia quando ela saía para cuidar dos jardins. Em um dia normal, ela apreciaria isso, mas não naquele dia. Ela precisava ganhar tempo. Já esperara demais e a aparição de Greyback a atrasara.
Ela jogou a cesta perto do jardim de qualquer maneira e andou até a árvore. Mexeu em algumas folhas cuidadosamente colocadas de maneira que tampassem a tesoura de poda que estava ali. Pegou a tesoura, sentindo suas mãos trêmulas. Ginny olhou para a grade, acompanhando a altura que ela possuía. Semicerrou os olhos quando chegou à ponta da grade, e respirou fundo para tomar coragem para o que ia fazer naquele momento.
Com um movimento rápido de mãos, ela enrolou o vestido longo e fino que estava usando, dando um nó na saia. Enfiou uma aba da tesoura em seu pulso, tomando o cuidado de mantê-la fechada para a lâmina não cortá-la caso ela escorregasse. E com a maior coragem do mundo, começou a escalar a grade.
Quando deu o primeiro passo e percebeu o chão começar a ficar mais distante, sua coragem aumentou, mas não o suficiente para que suas pernas parassem de tremer. Ela sentia a tesoura batendo levemente em seu quadril à medida que ela ia subindo. O suor escorria pela sua nuca e os lábios estavam trêmulos também.
Era a sua única chance de fugir daquele lugar.
Quando se aproximava do ponto mais alto da grade, ela sentiu uma dor intensa na costela. Gemeu, seus olhos lacrimejando por causa do desconforto. Mas sabia que não poderia parar. Impulsionou o corpo, exigindo mais dele do que poderia. A dor multiplicou e fez com que o ar sumisse dos seus pulmões.
Chegou ao final da grade e permitiu-se sorrir minimamente. Mas quando achou que estaria livre do pior, algo inesperado aconteceu. Ela escutou um barulho, como se alguém estivesse andando em cima de galhos e folhas secas. Ginny estremeceu e entrou em pânico, sabendo o que teria que fazer naquele momento.
Respirando fundo e esquecendo-se completamente da dor, pulou de uma vez a grade e caiu de qualquer maneira na grama. Ela gemeu quando sentiu a dor na costela piorar, e não precisou olhar para o machucado para saber que algo ali estava quebrado, conseguia até mesmo sentir o osso dançando dentro de si.
Uma lágrima escapou de seus olhos. Ouviu novamente o barulho de passos sobre folhas secas e seu corpo quase entrou em convulsão. Algum elfo devia ter percebido a ausência dela nos jardins e ido verificar. Teria conseguido vê-la pulando? Ela não sabia aquela resposta, e não ficou muito tempo procurando-a.
Sem lembrar-se da dor, levantou-se rapidamente, pegando a tesoura que havia sido arremessada de seu pulso quando saltou. Com os passos mais rápidos que conseguiu dar com aquele vestido enrolado ao lado do seu corpo, ela começou a correr. Desesperadamente.
E não sabia se era por causa do seu desespero ou se era porque simplesmente não conhecia o lugar, mas à medida que corria, sentia-se perdida. Os galhos das árvores batiam no seu rosto, cortando-o e deixando-o com uma sensação de ardência. O castelo parecia ser cercado por um labirinto de árvores e sebes, e ela já não sabia se estava correndo para o local certo. Entraria em desespero caso visse novamente a muralha que havia acabado de saltar.
Ela escutou novamente barulhos de passos perto de si. Começou a chorar, sabendo que estava sendo seguida e desconfiando de que nunca conseguiria sair daquela pequena floresta. Mas não desistiu, apenas acelerou os passos, sentindo sua costela protestar devido à dor.
Depois de alguns minutos, ela percebeu uma massa disforme que parecia um corpo imenso correndo ao seu lado. O seu perseguidor parou, e Ginny teve tempo de olhar apenas os olhos cinzentos de Greyback antes de ele apontar a varinha para ela e lançar um feitiço. Ela conseguiu desviar, mais por susto e sorte do que por habilidade. Deu as costas e voltou a correr, dessa vez de forma mais desesperada.
Fenrir revirou os olhos quando percebeu a tentativa tola da menina de fugir, mas voltou a correr atrás dela. Ela parecia cansada, a distância diminuía rapidamente. Ele conseguia distinguir com facilidade por onde ela estava indo, entre quais árvores ela se enfiava para se esconder. O aroma adocicado dela deixava um rastro fácil demais para ele farejar, sem contar os cabelos vermelhos, que contrastavam drasticamente com as cores marrons e verdes predominantes no ambiente.
Ginny agora sentia as lágrimas correrem com facilidade pelo rosto. E não demorou muito para que sentisse uma mão enorme puxá-la pelo vestido, desequilibrando-a e fazendo com que ela quase caísse. Ele a impediu de correr novamente, segurando com firmeza o seu braço.
Ela o olhou nos olhos e percebeu nas orbes cinzentas uma fúria incontrolável. Em um momento de desespero, Ginny não pensou duas vezes e fincou a grande tesoura de poda no braço que agora lhe segurava, enfiando-a quase por inteiro dentro da carne daquele lobisomem.
O rosnado que Greyback soltou foi severo e carregado de cólera. Ele pegou a tesoura e retirou-a de seu braço com facilidade, fazendo o sangue jorrar. A cena fez com que ela sentisse vontade de vomitar. Ele não parecia sentir dor, e seus olhos cinzentos não estavam focados no imenso corte profundo que ficara na sua pele, e sim no rosto aterrorizado da garota.
– Vai ficar uma cicatriz nisso aqui.
Ele apontou a varinha para ela, lançando um feitiço que ela não conseguiu desviar-se dessa vez. O corpo dela tombou, fazendo a costela bater na grama. Ela gritou de dor.
– Você tem sorte de eu ter grandes cicatrizes e não me importar com marcas. – ele se aproximou dela. – E também tem azar, pois sempre quando olhar essa, vou me lembrar de você. E vou querer fazê-la sofrer.
Ele apontou a varinha para ela e Ginny sentiu a sensação única de estar sob a Maldição Cruciatus. Diversas facas invisíveis entraram pelo seu corpo, fazendo-a gritar de dor. A sua costela começou a pulsar dentro do seu corpo, como se pedisse por ajuda. Ela sentiu as lágrimas quentes correrem livremente pelo seu rosto. Sentiu também a sua mente começar a se desconectar do seu corpo. Ameaçou desmaiar.
Mas Fenrir Greyback não estava satisfeito com apenas aquela tortura.
Ela sentiu um chute forte em sua barriga e se assustou quando a sensação de engasgo percorreu sua garganta. Ela perdeu o fôlego e abriu a boca, cuspindo sangue. O gosto metálico ainda estava em sua boca quando ele lhe chutou novamente.
Dessa vez a ânsia de vômito dela foi insuportável, e como ela não conseguia se mexer, apenas virou o rosto para o lado e abriu a boca, deixando jorrar o que estava querendo sair. Mas não era nada do que ela imaginara. O líquido que saíra de sua boca também era vermelho. Vomitara puro sangue, e a poça estava perto dela, fazendo com que parte do seu cabelo ruivo ficasse molhado.
Fenrir a olhou com atenção, percebendo imediatamente que algo estava errado. Ela havia vomitado sangue, e ele não planejara isso. Ele sabia que não poderia matar aquela garota, mesmo que agora quisesse com todas as forças fazer isso.
Aproximou-se dela, fitando-a com cuidado. Ginny abriu levemente os olhos, dando-se conta do rosto dele perto demais do seu para ser saudável. Abriu a boca novamente, cuspindo um pouco de sangue.
E desmaiou logo em seguida.
[...]
Ela abriu os olhos de forma relutante, esperando a dor insuportável aparecer novamente em seu corpo. Mas ela não veio. Com o que conseguiu enxergar com a visão turva, percebeu que estava deitada em sua cama, e seu corpo estava imundo. Ainda sentia o cheiro de sangue, e poderia jurar que era por causa de sua roupa e cabelo.
Demorou-se um pouco para abrir os olhos totalmente, esperando sua visão entrar em foco. O rosto que viu a sua frente fez com que ela se assustasse e voltasse à realidade. Severo Snape a olhava com atenção, o nariz adunco e imenso perto demais dela, as cortinas de cabelos oleosos caindo sobre o rosto.
Sem pensar duas vezes, ela gritou.
Um grito surpreendentemente alto, para uma pessoa que havia desmaiado por ter vomitado sangue. A voz dela reverberou pelo quarto, atingindo as pedras da parede e fazendo um eco horrível se instalar no cômodo. O rosto de Snape não se alterou quando ele abriu a boca.
– Cale-se, Weasley.
Ela continuou a gritar, tentando se afastar.
– Não toque em mim!
Ela disse de forma brusca e Snape apenas revirou os olhos, apontando a varinha para ela. A boca dela ainda estava aberta, mas nenhum grito saía da garganta. Nenhuma voz. Ela tentou mais algumas vezes até desistir, tombando novamente o seu corpo na cama e ficando atenta a cada movimento de Snape. Estava começando a odiar essa mania que os Comensais da Morte tinham em lançar feitiços para ela se calar.
Quando Snape percebeu que ela estava um pouco mais calma, gesticulou com a mão, iniciando uma explicação.
– Estou aqui para cuidar de suas feridas. Greyback me chamou para isso, com um pouco de relutância. Estou administrando as poções que você deve tomar e cuidando de alguns cortes pelo corpo.
Quando observou que a garota não ia voltar a gritar, ele retirou o feitiço dela, acabando com a sua mudez. Ginny não ousou falar, e ele continuou a explicação.
– Greyback está nesse momento com o Lorde das Trevas. Ele lhe deve explicações. O Lorde das Trevas foi bem específico, não queria sangue-puro derramado, e Greyback fez isso literalmente.
Por mais que ela não quisesse, sentiu-se regozijada com aquela notícia. Se pudesse escolher, aquele lobisomem sofreria muito mais do que ela. Pior, pelas mãos de Voldemort. Mas isso não estava no seu poder, e pensando melhor naquela situação, ela não queria nada daquela corja. Snape gesticulou para conseguir a atenção da garota novamente.
– Duas de suas costelas estavam quebradas. Por sorte, consigo emendar ossos humanos com facilidade. Já ministrei uma poção para ajudá-la nisso, que você bebeu enquanto estava desmaiada. Porém, com os chutes que levou, você teve uma hemorragia interna. – Ginny percebeu que Snape não concordava muito com a violência que ela havia sofrido, e perguntou-se o motivo disso. – Você perdeu muito sangue e terá que tomar uma poção por uma semana todos os dias para recuperar isso tudo.
Ele levantou-se, colocando um frasco vazio em uma cômoda que ficava por perto. Ela julgou que aquilo era a poção que ajudara a emendar seus ossos. Snape a olhou novamente.
– Você terá que ficar de repouso. Então nada de brincar de escrava por uma semana.
Ironizou. Ele olhou para a janela. Parecia esperar alguém, e ela não precisou pensar muito para saber que ele estava esperando Greyback. Snape voltou a olhar para ela.
– Infelizmente, a poção que você precisa beber duas vezes por dia está com Greyback. Sugiro que você não o irrite novamente. Ele não está em seus melhores dias.
Com isso, ele caminhou rapidamente para a porta.
– Ele me torturou, Snape. Eu vomitei sangue porque ele me chutou, como se eu fosse um animal.
Snape parou onde estava, mas não se virou para ela novamente e nada disse.
– Em que você se transformou, Snape? E por que essa encenação toda? Por que cuidar de mim?
Ele virou a cabeça minimamente para ela, não perdendo seu tempo em olhá-la.
– Porque o Lorde das Trevas me ordenou isso.
E sem dar espaço para Ginny responder, ele abriu a porta do quarto, saindo do cômodo e deixando-a só.
[...]
– Você quase a matou, Greyback. A garota estava com costelas quebradas, e teve uma hemorragia interna.
Snape não olhava para o animal que estava ao seu lado. Sempre sentiu repulsa quando colocava os olhos sobre Fenrir Greyback, e não era agora que isso ia mudar. O lobisomem permaneceu calado. Snape pigarreou.
– O Lorde das Trevas pediu para você não torturá-la mais, em hipótese nenhuma.
– E posso saber o motivo do cuidado? Mesmo que ela seja sangue-puro, ela é apenas uma garota.
O sorriso que Snape dera foi mínimo, como se fosse apenas um repuxar de músculos perto dos lábios. Ele olhou rapidamente para Greyback.
– Essa garota foi útil ao Lorde das Trevas em uma época antiga. – ele entregou um frasco com um líquido arroxeado dentro. – Essa é a primeira dose. Os outros frascos estão com os elfos. Ela terá que tomar duas doses por dia. Uma pela manhã e outra pela noite.
Snape voltou a olhar para a janela quando a mão enorme de Greyback se fechou em volta do frasco.
– A sua poção está em cima da mesa de jantar. – Fenrir sabia sobre qual poção Snape se referia, mas preferiu não dizer nada. – Fique longe da garota por esses dias, Greyback.
O lobisomem gesticulou impacientemente com a mão enorme, dispensando Snape com esse gesto. O moreno virou-se de costas para a janela.
– Ela não pode fazer movimentos bruscos durante uma semana.
– Eu vou cuidar da garota, Snape.
Fenrir disse de forma impaciente e Snape assentiu, andando calmamente até a porta. Quando sua mão alcançou a maçaneta, ele virou-se para o homem que ainda estava perto da janela.
– Greyback? – Fenrir o olhou. — Ela não pode saber, sob hipótese nenhuma, que a família dela está viva.
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