Beautifully Grotesque
26 Sobrevivência
Sobrevivência
– Cinco semanas depois -
Ela não teve nenhuma notícia de Fenrir Greyback desde que o vira a última vez naquela praça, quando Voldemort finalmente morrera e os Comensais da Morte fugiram para se esconder. Cinco semanas sem ele. Era o tempo mais longo que Ginny ficara sem vê-lo, sem tocá-lo.
Nas últimas semanas, bruxos e bruxas de toda a sociedade buscavam enfiar o maior número de Comensais da Morte em Azkaban, e estavam tendo sucesso com aquilo. Os bruxos que haviam sobrevivido às duas guerras aos poucos retomaram os seus postos no Ministério da Magia, colocando tudo em ordem novamente, retirando as regras sem nexo que Voldemort havia imposto, regras que impediam nascidos trouxas de terem o mesmo direito à bruxaria que os de linhagem pura.
Alguns Comensais da Morte receberam o Beijo do Dementador. O modo mais justo de pagar por toda a tortura e crueldade que eles disseminaram pelos cantos. Ginny estava satisfeita com aquilo. Muitos daqueles Comensais haviam torturado seus melhores amigos, e alguns deles haviam participado ativamente da morte de Harry.
De tudo aquilo, algo podia ser tirado como a parte boa. Snape havia sido reconhecido por toda a sociedade bruxa, inclusive em outros países. Fora compensado e premiado por serviços prestados ao Ministério da Magia da Inglaterra. Aquilo era uma bobagem, comparado ao que Snape realmente fizera para todos. Ele fora o bruxo que mais se arriscou ali, convivendo ao lado de Voldemort desde que tivera que matar Dumbledore. Tivera que fingir e mentir todos os dias, tivera que convencer Voldemort de que ele estava ao lado dele sempre.
Ela acompanhava tudo aquilo pelos relatórios e pelos exemplares do Profeta Diário que chegavam À Toca. O jornal havia voltado a circular depois de algum tempo. Tudo indicava que a sociedade bruxa voltava ao normal aos poucos. Até mesmo os Weasley tinham voltado a viver ali, naquela pequena casa onde foram tão felizes. Tentavam reconstruir o que fora destruído por Comensais quando a casa fora saqueada e invadida anos atrás. Poderiam voltar ao que eram antes depois de tudo o que havia passado?
Aquilo tudo seria um sonho, caso acontecesse. Mas infelizmente, muitos ali carregavam bagagens que nunca conseguiriam se livrar, muitas delas emocionais. Harry não estava mais entre eles, assim como Fred e Percy, que infelizmente haviam sucumbido à guerra. Bill ainda tinha aquela cicatriz horrível no rosto, que fora um presente de Greyback.
Pensar no lobisomem fez o coração de Ginny se apertar. Ela estava sentada no quarto sujo do seu antigo quarto. O chão estava coberto por uma camada de pó cinza, os móveis estavam escondidos por lençóis brancos e a janela estava embaçada, pois o vidro estava sujo.
Antigamente, ela daria tudo para voltar àquele quarto, sentia-se à vontade ali. Ginny achava que aquele cômodo representava seu porto seguro. Mas não agora. Observando tudo ali, ela tinha plena consciência de que precisava se levantar dali e arrumar tudo, deixar o quarto como era antes. Mas se sentia estranha demais para fazer aquilo. Na verdade, ela tentava buscar forças e vontade para fazê-lo, mas não conseguia.
Porque ela não se importava tanto com aquele quarto como antigamente.
De todas as pessoas ali dentro d’A Toca, Ginny era a que carregava a bagagem emocional mais forte. Tudo em sua vida mudara. Ela sentia-se inquieta, sentia-se triste. Não se sentia mais em casa. Achava tudo ali no mínimo estranho.
Ela se levantou do chão, limpando as mãos na calça jeans. Caminhou em direção à janela e abriu o vidro para observar o jardim lá fora. Conseguia ver Rony andando ao lado de Hermione ao longe, como se estivessem conversando algo sério. Ginny sabia que estavam. Depois que finalmente admitiram que se amavam, ela sabia que os dois ainda teriam que colocar muita coisa em pauta.
A porta se abriu depois de alguns minutos e Molly apareceu no quarto de Ginny, olhando para a filha com atenção.
– Ginny, querida, você está bem?
Ela sabia que era uma pergunta tola. Estava claro que ela não estava bem. Apenas a fisionomia da garota lhe dizia isso. Ginny não respondeu, apenas continuou a fitar o jardim lá fora. Molly se aproximou dela, olhando-a com atenção.
– Você está o esperando, não é?
Dessa vez ela conseguiu a atenção da filha, que a olhou quase assustada.
– Como consegue saber tudo o que estou pensando e sentindo?
Ginny perguntou, um tom de divertimento e indignação aparecendo em sua voz. Molly sorriu levemente, se aproximando da filha e ficando de frente para ela.
– Você é minha filha, Ginny. Saber o que você sente faz parte de ser mãe. É um dom materno que ninguém consegue explicar.
Molly se remexeu e respirou fundo, fazendo com que a garota olhasse para ela. Ela pousou a mão na pequena mão da filha, olhando-a com atenção.
– Eu não queria te dizer até termos certeza, mas Snape batalhou com o Ministério para que os Aurores não matassem ou capturassem Greyback se o achassem. – ao ver os olhos da filha brilharem por notícias do companheiro, continuou. – O Ministério acatou o pedido. Greyback será livre. Por serviços prestados à guerra.
Ginny não sabia o que fazer com aquela informação. No fundo sabia que era uma grande notícia. Uma notícia importante e muito boa para ser completamente aceita. Parte do peso que sentia foi embora apenas em escutá-la, mas algo ainda a inquietava.
– Isso é ótimo, mãe. Mas se Fenrir foi libertado e quase todos os Comensais da Morte estão mortos ou presos, por que ele ainda não apareceu?
Molly não sabia responder àquela pergunta. No fundo queria tranquilizar a filha, mas sabia que ela estava certa ao estar receosa. Ginny continuou.
– Ele pode estar em qualquer lugar. Até mesmo sofrendo. Pode estar ferido. – ela apontou para o colar que usava. – A luz desse colar diminui a cada dia, e não aponta para lugar nenhum...
E foi aí que ela voltou a chorar, desesperadamente, como se depois de dizer o que realmente a incomodava, aquilo abrisse a porta para a real tristeza. Fenrir poderia estar morto, a luz da lua apenas diminuía, e ela sabia que aquilo fazia parte dele. Ela apoiou-se na parede, escorregando para o chão e enfiando o rosto entre as mãos. Molly sentou-se ao lado da filha, abraçando-a para acalentá-la.
– Fique calma, sim? Vai dar tudo certo...
Ela disse, passando as mãos no cabelo longo da filha.
Mas nem mesmo Molly acreditava em suas palavras.
[...]
Ginny ajudava a arrumar e limpar a cozinha enquanto os Weasley haviam ido para a sala a fim de conversar e comer algo doce. A noite estava fria. Depois do jantar, apenas ela e sua mãe tinham ficado ali. Hermione era uma presença constante n’A Toca nos últimos dias, mas a garota passava boa parte do tempo com seu irmão, Rony. De qualquer maneira, depois de algum tempo ela teria que ir embora, seus pais precisavam recuperar a memória e eles teriam muitas perguntas a fazer para Hermione quando ela retirasse o feitiço.
Molly saiu da cozinha, dizendo que ficaria um pouco com Arthur antes de se deitar. Ginny apenas assentiu, continuando a lavar os pratos. A água estava gelada. Ela não usava a varinha para arrumar tudo aquilo. Sentia necessidade de fazer ela mesma, pois assim demorava mais um pouco e o tempo passava um pouco mais rápido. E ela conseguia ficar mais distraída.
O colar brilhava um pouco mais naquela noite, mas ela achou que aquilo devia ao fato de ter pensado bastante em Greyback nas últimas horas. Depois do que sua mãe havia lhe dito, uma chama de esperança nasceu, mas ela era racional demais para se ludibriar facilmente. O brilho prateado do pingente batia na louça do prato que estava nas mãos dela e refletia suavemente na água da pia.
Ela lavou tudo meticulosamente, dando tempo para que os Weasley fossem um a um para os diversos andares a fim de dormir. Ela gostava de ficar sozinha, apreciava cada dia mais o tempo que ficava ali, apenas com seus pensamentos. As conversas de sua família eram sempre alegres e ela se sentia um pouco culpada em não participar completamente da felicidade de todos.
Limpou as mãos em um pano de prato limpo que estava ali e saiu da cozinha, ficando aliviada ao ver que não havia quase ninguém na sala. Apenas Hermione e Rony cochilavam no sofá, abraçados. Aquela cena era cada vez mais frequente n’A Toca. Eles apreciavam cada dia mais a companhia um do outro, e brigavam às vezes por motivos supérfluos. Ginny sabia que aquele casal brigaria até o final da vida deles. Sorriu com aquele pensamento, sabia que aquilo era tão Rony e tão Hermione, que seria estranho se eles vivessem completamente em paz.
Saiu de casa, seus pés a levando cada vez mais longe dali. Sentia seu coração apertado, as paredes d’A Toca começaram a lhe causar claustrofobia. Ela andou por breves minutos, até que o montinho que era a sua casa se tornasse pequeno. O campo de vegetação alta e amarelada a abraçou, tampando-a quase que inteiramente. Ginny rezou a Merlin para que não tivesse gnomos ali.
Ela andou pelo campo sem conseguir se conter, seus pensamentos viajando para um momento específico que havia passado ali. A noite em que Comensais da Morte haviam invadido sua casa em busca de Harry. Fenrir estava naquela noite, e havia a confrontado frente a frente naquele mesmo campo, rindo da tentativa patética de Ginny duelar.
Tudo mudara...
Ela abaixou a cabeça, sentindo as lágrimas voltarem a correr pelo rosto com facilidade. Fungou, levando a mão até ali para limpá-las.
– Está chorando por mim, criança?
A voz que escutou fez o seu coração bater de uma forma quase alarmante. Ela levantou a cabeça, procurando com os olhos por cada canto ali, achando que escutara a voz dele por pura alucinação. Mas não fora. Depois de procurar avidamente, ela percebeu um vulto escuro e alto perto da borda do campo.
– Merlin...
Sem pensar duas vezes, ela correu em direção a ele, batendo com força no corpo forte por causa da velocidade. Seus braços frágeis tentaram contorná-lo, mas ele era muito grande para isso. Mas ela não se importava, ele estava ali, novamente, depois de tanto tempo.
Fenrir gemeu ao toque dela. Mas não fora um gemido de prazer. Fora um gemido de dor. Ela se alarmou no mesmo momento. Para ele gemer de dor, algo muito sério havia acontecido. Ela se afastou brevemente dele, os olhos azuis correndo avidamente pelo corpo dele, observando-o com atenção pela primeira vez.
Fenrir estava todo enfaixado, inclusive o braço, que ele pousava em volta da cintura dela.
– Merlin, o que aconteceu com você?
Ela perguntou, desesperada. Fenrir soltou a respiração calmamente. Aquilo ia deixá-la louca.
– Depois que fui embora, a notícia de que eu tinha matado Comensais da Morte para proteger uma Weasley se espalhou rapidamente. Fui rotulado como traidor. E perseguido por dias. – ela colocou as mãos na boca, e antes que ela pudesse entrar em desespero, ele continuou. – Mas estou acostumado a ser perseguido. E sobrevivi. Não com facilidade, como pode ver. E ainda teve a maldita lua cheia...
Ginny havia se esquecido completamente disso. Ele ainda tivera que passar mais uma semana em forma de lobisomem. Se apenas aquilo o deixava totalmente destruído, ela não conseguia imaginar como ele tinha sobrevivido a uma lua cheia e a uma perseguição. Fenrir havia mencionado a lua cheia quase com asco, e virara o rosto.
Foi naquele momento que ela percebeu algo que ainda não tinha visto. Uma grande cicatriz rasgava o rosto dele. Ia da têmpora até o queixo. Uma linha fina e esbranquiçada, mas havia um tom rosado também, como se o machucado tivesse sido recente. Fenrir percebeu onde os olhos dela estavam pousados.
– Vê? – apontou para o próprio rosto. – Consegui ficar mais feio.
Ela não se importava nem um pouco com aquela cicatriz. Ela só conseguia raciocinar que ele estava ali, perto dela novamente. Ignorou a ironia dele e o abraçou novamente, ficando nas pontas do pés para tentar alcançar o rosto dele. Mas a única coisa que conseguiu foi plantar um beijo no pescoço dele. Ele percebeu o que ela queria e se abaixou um pouco. Ela aproveitou-se disso para passar as mãos no rosto dele, obrigando-o a olhá-la.
– Eu não me importo com nenhuma cicatriz, Fenrir. Só não suma mais. Eu quase enlouqueci!
Ele deu um sorriso cínico, olhando-a quase com superioridade.
– Isso é para você ver como eu me senti quando você fugiu de mim.
Ela deu um fraco tapa no peito dele, o que fez com que ele gemesse, mas mesmo com o braço enfaixado ele a abraçou facilmente. Sentia que seu corpo estava se curando rapidamente apenas pela presença dela ali. E estava. O poder que uma companheira tinha ultrapassava a compreensão até dos mais estudiosos em licantropia.
Ela enfiou o rosto no peito largo dele, sentindo o cheiro leve de sangue seco na jaqueta que ele vestia. Mas o aroma peculiar que ele tinha estava ali, deixando-a mais calma.
– A luz do colar apenas diminuía, Fenrir. – ela fungou, tentando não voltar a chorar. – Eu achei que você estava morto...
– Eu quase morri, de fato. – ele respirou fundo, soltando vagarosamente o ar, para depois abraçá-la com cuidado, beijando o topo da cabeça dela. – Mas sobrevivi. Sobrevivi por você.
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