Prisão

Ao chegar ao seu destino, Ginny pôde observar uma grade cinza a sua frente, que foi aberta quando Fenrir se aproximou do grande portão. Sentiu-se um pouco tonta, logo depois de terem desaparatado, haviam entrado em algumas lareiras e andado muito até chegar ali. Ela correu os olhos claros pelo local, conseguindo distinguir um pequeno castelo a quase dez quilômetros de distância.

Estava de noite, e as estrelas iluminavam parte do gramado ali. Ela conseguia sentir o cheiro animalesco de Fenrir ao seu lado, mas recusava-se a olhar para ele. Ele a empurrou para frente, indicando que ela deveria andar. Com passos relutantes, ela afundou os pés descalços na grama úmida a sua frente e começou a andar de forma cansada, seus olhos atentos a tudo.

Ela parecia estar no meio de um filme de terror trouxa.

Não demoraram muito para chegar ao pequeno castelo, e ela sentiu a diferença de temperatura ao retirar seus pés da grama e colocá-los na pedra fria que era o primeiro degrau da entrada. Suas pernas protestaram quando ela começou a subir as escadas, seus músculos esforçando-se para mantê-la em pé.

Ela observou que a porta de madeira se abriu no momento em que chegaram até ela, revelando o interior do castelo. Fenrir a empurrou para dentro e Ginny escutou a porta se fechar. Tentou não pensar que aquele som era a trilha sonora definitiva de sua prisão, mas foi inevitável.

Ela correu os olhos pelo local e se surpreendeu com o que viu. Esperava um lugar escuro, coberto de imundice e cheio de móveis espalhados aleatoriamente. Nada daquilo estava ali, pelo contrário, o interior do castelo era arrumado e limpo. Um leve cheiro de couro tomava conta do lugar. Aquilo não condizia com Greyback, não combinava nem um pouco com o lobisomem.

Então qual o motivo do castelo impecável?

Sua pergunta foi respondida no momento em que dois elfos pequenos aparataram diretamente até eles, os dois fazendo uma profunda e exagerada reverência. Claro, o lugar era limpo e habitável porque ele tinha dois elfos para cuidar disso.

O elfo de olhos castanhos gesticulou brevemente.

- Ela será uma hóspede?

Ginny não pôde deixar de notar o brilho nos olhos do elfo. Escutou Greyback bufar ao seu lado.

- Não uma hóspede. Ela é uma escrava. – a decepção no rosto do elfo era visível agora. – Mas como ela possui sangue puro, algo que vocês elfos imundos não possuem, quero que a coloquem em um local apropriado.

Ele fora rude com os elfos de forma aleatória. Esse gesto dele fez com que Ginny sentisse nojo, e ela puxou o braço dela, que ele estava segurando fortemente desde que aparataram. Fenrir a empurrou para frente.

- Coloquem-na no quarto da ala leste.

Os elfos fizeram mais uma grande reverência e ela percebeu a silhueta enorme de Greyback finalmente se afastando dela, sumindo por um corredor escuro e comprido que havia ali perto. Ginny se permitiu respirar melhor desde quando fora doada àquele lobisomem.

Os elfos pareciam esperar a garota parar de tremer, e quando viram que ela se acalmara, gesticularam com as pequenas mãos e começaram a subir uma escadaria enorme que ficava exatamente no meio da sala principal do castelo. Ginny os seguiu, agradecendo a Merlin a paciência dos elfos. Suas pernas estavam doendo e ela podia jurar que seus pés estavam em carne viva. Cada degrau era um sacrifício, mas depois de bons dez minutos ela conseguiu chegar ao segundo andar.

Continuou seguindo os elfos, seus pensamentos bem difusos, sua mente trabalhando para descobrir algo. Greyback passava seu tempo ali? Ele estaria no castelo depois de algum tempo? Afinal, ele era não era exatamente um Comensal da Morte, mas trabalhou como um e teve o mesmo direito que um Comensal da confiança de Voldemort. Ele não teria algo para fazer agora no fim da guerra?

- Greyback dorme no segundo andar?

Ela perguntou para os elfos, que não responderam e continuaram a andar como se ela não tivesse aberto a boca. Ginny tentou abordar outro assunto.

- Acha que o verei brevemente?

Silêncio. Ela nem ao menos tentou novamente. Era inútil. Estava cansada demais para isso e sabia que elfos domésticos eram devotados ao seu mestre. Eles não responderiam nada, a menos que Greyback mandasse ou os autorizasse a isso. Eles pareciam ter medo de Greyback, assim como toda criatura viva e com um senso de proteção mínimo.

Poderia até ser algo da cabeça dela, mas mesmo que os elfos permanecessem calados, ela conseguiu distinguir certa animação por parte deles, como se eles fossem duas donas de casa que não recebiam visitas há anos.

Eles abriram uma porta grande e clara de madeira e gesticularam para que ela entrasse. Ginny não objetou. Escutou um som de uma porta se fechando. A segunda naquela noite. O elfo mais atarracado fez um gesto com as mãos.

- Esse será o seu quarto. As refeições aparecem três vezes por dia naquela mesa de centro – apontou para uma pequena mesinha de prata que estava perto da lareira. – Você pode descansar agora, mas ficará trancada até que o mestre decida o que fazer.

Ele terminou de dizer, como se estivesse falando a alguém sobre o clima no inverno. De repente ela se deu conta do que o elfo acabara de comunicar e virou-se rapidamente para trás.

- Não...

Mas antes que ela pudesse protestar, eles já haviam sumido. Ela correu para a porta, tentando abri-la, em vão. Estava trancada, assim como aquelas criaturas prometeram. Ela bateu fortemente na madeira, gritando com toda a força que sua garganta permitia, pedindo para a tirarem dali.

Mas era inútil.

Ela estava trancada ali dentro. E permaneceria assim até que Greyback decidisse o que faria com ela.

[...]

Sentiu seu corpo protestar à falta de conforto. Ginny estava sentada ao lado da porta há horas, sua cabeça tombada na parede de pedra fria, os braços ao lado do corpo, as mãos jogadas no chão.

Ela permitiu-se respirar fundo, abrindo os olhos e observando pela primeira vez com cuidado e atenção o lugar onde estava. Levantou-se com relutância e dificuldade. O quarto era imenso. Havia uma cama grande de dossel no meio da parede perto da janela, os lençóis negros e cinzas a deixavam com um aspecto gótico. Uma lareira à esquerda da cama estava acesa, emanando uma luz forte e um calor agradável, e muito bem vindo. Um armário enorme com portas escuras estava do outro lado do quarto, assim como uma porta negra que parecia ser um banheiro.

O cômodo tinha tudo para ser frio, julgando as paredes de pedra e o piso de mármore negro, mas esse era preenchido com diversos tapetes, e as chamas da lareira completavam o trabalho de deixar o quarto com uma temperatura amena.

Ginny andou um pouco, sentindo seus pés tocarem no tapete, algo agradável de sentir depois de estar acostumada a pisar em espinhos e galhos secos. Suas pernas a levaram automaticamente em direção à janela grande. Trancada. Ela não precisou nem ao menos tentar girar a fechadura da janela. Pois não havia nenhuma.

De qualquer maneira, concluiu que se sentia melhor trancada em um quarto como aquele do que na presença daquele lobisomem nojento. Mas, por mais que ela tentasse ignorar, sabia que era inevitável um segundo contato, e que logo Greyback a procuraria. Estremeceu levemente ante o pensamento. Tentou apagá-lo, mas sua mente parecia querer lhe pregar peças.

Ela a levou diretamente às suas lembranças da infância. Os rostos dos irmãos invadiram sua cabeça como se cada um estivesse agora à sua frente. Os cabelos ruivos pareciam iluminar um pouco o quarto, e os sorrisos emanavam mais calor do que as chamas da lareira que estava por perto. Seus pais estavam ao lado, Molly com o avental sujo por estar cozinhando algo que todos os Weasley adoravam, e Arthur com aquele brilho incomum nos olhos, um brilho que ninguém sabia qual era a origem, mas Ginny arriscava-se sempre a dizer que aquilo era apenas a mais simples felicidade.

Sua família. Seus irmãos. Todos mortos.

De repente ela se permitiu chorar novamente, sabendo que aquele motivo era justo e até digno. Sentia falta de sua família, do calor d'A Toca, do sabor da comida da mãe. Sentia falta do carinho e do amor em sua forma mais pura, das conversas ao pé da lareira e dos gêmeos quase colocando fogo na casa.

Uma dor profunda invadiu o seu peito e ela andou até a cama, caindo no colchão macio. Seu rosto se afundou em uma almofada de veludo e ela sentiu o tecido ficar molhado à medida que ela derramava as lágrimas, que agora eram abundantes.

Seu corpo estremeceu e ela sentiu uma leve tonteira, um cansaço forte e repentino tomando cada músculo ali presente. Não dormia direito há meses, apenas se permitia leves cochilos, sempre superficiais por estar atenta a tudo à sua volta. Sempre fugindo.

Agora, naquele momento, poderia deixar de pensar apenas em fugas. Poderia dormir tranquilamente, sabendo que todos que amava estavam mortos, e que nunca estariam na situação em que ela estava, nas mãos de Comensais da Morte. Poderia até mesmo entregar-se à morte.

Por um momento, ela achou que dormiria melhor sabendo que sua família não pertencia mais àquele mundo.

Mas depois ela lembrou-se de que nunca mais poderia dormir em paz.

[...]

Acordou em um salto, sentando-se na cama rapidamente e sentindo a vertigem voltar aos poucos. Algo lhe incomodou e até mesmo a surpreendeu, a luz vinha de outra fonte. A claridade ínfima entrava de forma livre pelo vidro da janela, a cortina nunca fechada não barrando nada. Ela franziu o cenho, perguntando-se mentalmente quanto tempo havia dormido. Assustou-se por ter conseguido dormir, mas a dor nos músculos ainda estava presente.

Os olhos de Ginny perscrutaram o ambiente e ela observou um prato de comida pousado na mesinha prateada, assim como os elfos haviam prometido. Seu estômago roncou ante a visão da comida, mas ela não queria comer aquilo. Não sentia nenhuma vontade de comer aquilo.

Ela perguntou-se que horas seriam, levantando-se da cama com cuidado e caminhando em direção à janela. Havia claridade, mas o tom arroxeado e alaranjado do céu indicava que estava anoitecendo. Ela havia dormido por mais de doze horas.

Dormia pelo cansaço? Ou fora enfeitiçada para apagar de forma pesada?

De repente ela ouviu dois estalos e virou-se para dar de cara com os dois elfos da noite anterior. As criaturas faziam reverências quando a boca de Ginny se abria para fazer diversas perguntas, mas um deles a interrompeu, apontando para o prato de comida.

- A garota precisa comer. Ela precisa estar em condições para receber o mestre.

Mestre? Aquilo era ridículo. Gesticulou negativamente com a cabeça, e cruzou os braços, sentindo os farrapos que antes eram uma blusa roçarem um no outro. Seus braços estavam imundos, assim como seu cabelo e o restante do seu corpo.

- Não vou comer essa comida.

Respondeu de forma agressiva, colocando toda a sua acidez nas palavras. Ela percebeu que os elfos ficaram chateados, e depois se lembrou tolamente de que eram as criaturas que faziam a comida. E rejeitá-la era praticamente uma afronta e uma indelicadeza.

- Me desculpem. – ela pediu.

O elfo apenas gesticulou com a mão.

- A garota precisa se alimentar e tomar um banho. Ela precisa estar pronta para o mestre.

Disse praticamente as mesmas palavras que anteriormente, como se fossem aqueles rádios gravadores trouxas. De repente ela sentiu o sangue fluir pelo seu rosto, esquentando-o rapidamente.

- Eu não vou fazer nada disso. Não tenho mestre e não sou uma escrava para ser mandada. Se ele quiser, ele que me obrigue.

Dessa vez os elfos não discutiram, mas fizeram uma reverência e com um estalo, desapareceram. Agora que estava só, ela percebeu a tolice que havia falado, arrependendo-se no mesmo momento. Greyback poderia ficar furioso e até mesmo matá-la por isso.

Mas não era isso que Ginny buscava? A morte?

A confusão em sua mente fez seu estômago embrulhar. Queria morrer, mas ao mesmo tempo sabia que ainda havia amigos e pessoas boas espalhadas lá fora, e que eles precisavam dela. Ao mesmo tempo, queria lutar, continuar a insanidade de tentar vencer.

Ignorando as ordens dos elfos, ela começou a andar de um lado para o outro do quarto, procurando algum lugar de possível fuga. A janela grande estava selada, e ela sabia que nunca conseguiria quebrar aquele vidro, mesmo que conseguisse jogar uma cadeira pesada nele. A lareira se acendia automaticamente quando a noite caía, indicando que não poderia ser uma passagem. De qualquer maneira, não havia Pó de Flu por perto.

Um rosnado severo e gutural quebrou o silêncio do cômodo, assim como a linha de raciocínio da garota. Parecia vir de um corredor, e ficava mais alto à medida que os segundos se passavam. Ela conseguia escutar passos rápidos e pesados pelo corredor, o rosnado ficando mais audível, assim como as duas vozinhas fininhas.

Pareciam tentar acalmar alguém, e quando Greyback abriu a porta do quarto com um estrondo, ela virou-se rapidamente, ficando de frente para ele pela primeira vez desde que ele a escolhera como escrava.

Ela tentou ficar imóvel, ignorar a tremedeira que apoderara de suas pernas quando ele fechou a porta do quarto, impedindo os elfos de entrarem ali. O rosto animalesco de Fenrir foi percorrido por um sorriso perverso.

- Você precisa se alimentar. – correu os olhos pelo corpo dela. – E tomar um banho.

- E posso saber o motivo?

Ela ousou perguntar, mas se arrependeu no mesmo momento. Ele se aproximou dela, deixando a diferença de altura ainda mais evidente.

- Você precisa estar em melhores condições.

Ela sabia que aquilo era praticamente um protocolo para os comercializados sangue-puros.

- Eu me recuso a isso.

Ele se aproximou ainda mais, as mãos enormes fechando-se em punho. Ela agora podia sentir facilmente o cheiro dele. Um cheiro de couro misturado a algo que ela não conseguiu distinguir.

- Não é porque você tem um maldito sangue puro que você vai me desafiar assim. – ele deixou bem claro. – O Lorde das Trevas me proibiu de mordê-la, mas posso matá-la com as mãos. – ele parecia salivar ante a ideia. – Justificar a morte de um ser insignificante como você seria fácil.

Declarou, colocando um ponto final na conversa. Ginny estremeceu levemente. Ele estava muito perto, mas logo deu as costas para ela, fazendo a capa de couro mexer-se levemente por causa disso.

- Você tem até amanhã.

Ele saiu pela porta, batendo fortemente a mesma e fazendo as paredes por perto tremerem. Ela percebeu que a claridade do quarto havia dado espaço para a escuridão da noite. A lareira já estava acesa, inebriando o quarto com o seu calor.

Ginny olhou para o prato de comida, e logo depois para a porta que dava para o banheiro.