Monstro

Ela acordou de forma relutante, sentindo facilmente daquela vez o corpo de Greyback debaixo de si. Remexeu-se ali e respirou fundo, escutando o coração dele bater dentro do peito. A manhã estava fria. O quarto dele já era gelado, ela conseguia sentir a temperatura baixa. O cobertor em cima dela e o corpo quente dele perto do dela eram muito bem vindos.

Greyback percebeu que ela havia acordado. A respiração dela havia se alterado um mínimo, como o quarto estava mergulhado em um silêncio anormal, ele conseguiu perceber aquilo. Ele apenas esperava ela sair dali. Sentia-se totalmente desconfortável com aquela ruiva em cima de si, aconchegada no corpo dele como se estivesse gostando de estar ali. Antigamente, a mandaria sair no mesmo momento, mas algo dentro si lhe falava para deixá-la ali. Ele só não sabia o que era esse algo, e o motivo de ele ouvir aquela ideia idiota.

Mas a deixou. O corpo frágil dela se remexeu um pouco mais, fazendo-o ficar ainda mais desconfortável, se é que aquilo era possível. Ginny abriu os olhos e de forma relutante olhou para o lobisomem. Os olhos cinzentos dele a fitaram com intensidade, mas ela não se sentiu ameaçada igual às ultimas vezes.

– Bom dia. – ela desejou, correndo os olhos pelo peito largo do homem. – Você parece melhor.

E ele estava. Os cortes já haviam fechado, alguns desaparecendo totalmente, outros se tornando cicatrizes para se juntarem às outras inúmeras que ele já possuía. Fenrir não respondeu, apenas aproveitou-se de que ela havia se afastado e se levantou do colchão, ficando de pé ao lado da cama.

Olhou-a com hostilidade.

– Eu posso saber o motivo de tanta preocupação, garota?

Perguntou. Ela não desviou os olhos, como costumava fazer, apenas começou a torcer uma ponta do lençol negro que cobria parcialmente a perna dela. Sentiu-se ofendida.

– Eu só quero ajudar. Eu posso te ajudar.

O sexto sentido dele começou a alertá-lo de que algo estava errado. Ele sentiu a raiva começar a tomar todo o seu corpo. Uma raiva que ele não sabia a origem, mas que também não se preocupava muito em descobrir. Olhou-a com atenção.

– É a segunda vez que me fala isso, garota.

Ginny estremeceu. Ele tinha razão. Ela estava sendo tola. Não poderia contar de bom grado para ele o que sabia. Ele não era um homem comum, um homem que ela pudesse se sentar ao lado e contar algo importante de forma tranquila. Ele era um lobisomem, e violento. E alguém que costumava estar no controle de tudo. Principalmente de suas ações.

Ele virou-se de costas para ela, os olhos cinzentos observando o céu nublado lá fora. Ia chover Ele podia sentir o aroma da chuva se aproximando. Respirou fundo para ter certeza. Foi quando sentiu. Um cheiro doce, como de uma garota virgem, inebriando o ambiente em volta dele e mesclando-se ao cheiro de chuva.

Ele farejou aquele cheiro com uma facilidade ilógica, e como um cão, começou a seguir o rastro que o aroma fazia. Surpreendeu-se quando parou em frente ao quadro que ficava ali perto. O homem da moldura estava sentado na poltrona, e aquilo era peculiar. Fenrir o observou com cuidado. A pintura o olhava quase com medo, e desviava os olhos a cada segundo.

– Abra.

Ele ordenou e o homem do quadro obedeceu rapidamente, entortando a moldura com facilidade e revelando o conteúdo que estava ali. Ginny observava tudo com extrema atenção, sentindo cada célula do seu corpo tensa. O coração batia freneticamente dentro do peito e ela tentava controlar aquilo, pois sabia que o lobisomem poderia até mesmo ouvir os batimentos. Ela respirou fundo com cuidado, tentando fazer o mínimo de barulho.

Fenrir correu os olhos pelas prateleiras, observando tudo com meticulosidade. Os livros estavam todos ali, assim como alguns objetos. Porém, os objetos estavam no mesmo lugar, mas os livros não. Ele sabia de cor a ordem de cada livro ali, e onde eles deveriam estar. E estava claro que alguém havia mexido ali. Alguém que ele já sabia quem era, julgando o som do coração acelerado que ele conseguia facilmente captar com sua audição aguçada.

– Você...

Ele se aproximou dela, olhando-a com fúria. O corpo de Ginny estremeceu.

– Eu... escute, eu...

– Como conseguiu abrir o quadro?

Ele a interrompeu, fazendo a pergunta de forma furiosa. Ela abriu a boca algumas vezes, balbuciando algo incoerente para depois conseguir responder a pergunta.

– Eu não consegui! Ele abriu espontaneamente! Você pode perguntar para ele.

Ela disse, olhando para a tela. Mas o homem que segundos atrás estava sentado na poltrona havia sumido. Ela se sentiu desesperada no mesmo momento, porque sabia que pelo modo como o lobisomem a olhava, ele não havia acreditado em nenhuma palavra do que ela havia lhe dito.

Ele se aproximou dela, e ela sentiu depois de tanto tempo o medo. Medo dele. Medo do que ele podia fazer com ela. Medo da fúria que ela conseguia captar com facilidade nas orbes cinzentas. Medo do peso da mão dele.

– Como eu ia conseguir abrir esse quadro? Eu não tenho varinha! E claramente não tenho força!

Ela praticamente gritou, fazendo-o parar por um segundo. Os olhos dele desviaram-se do dela para fitar um ponto qualquer na parede do quarto.

– Só há um motivo para esse quadro se abrir para alguém além de mim...

Ele parecia pensar em voz alta, mas logo seus olhos a fitaram novamente. Ele voltou a se aproximar e Ginny encolheu-se na cama em um gesto automático.

– O que você leu? – ele perguntou quase com hostilidade. – E é melhor que não minta para mim.

Ela estava perdida. Não sabia o que fazer. Não sabia qual atitude era a mais correta e inteligente a tomar. Mas achou que contando a verdade, ele ficaria satisfeito. Algo lhe dizia que Greyback não era tolerante com mentiras. E ele era companheiro dela. Que mal ele poderia fazer?

– Eu li sobre a sua espécie... e sobre como uma companheira pode modificá-la. Li sobre como uma companheira é importante para vocês. Basicamente sobre isso.

Ela escutou um rosnado severo e perigoso sair da garganta dele. Ele passou as mãos nos cabelos e virou-se de costas. A respiração dele estava pesada, como se ele fosse se transformar em lobisomem a qualquer momento. Ela respirou fundo, achando que aquela seria a hora ideal para contar a ele o que ela sabia. Contar tudo.

– Sou eu, Greyback.

A risada que ele dera fora equivalente a um soco no estômago dela. Uma risada incrédula, que deixou uma sensação horrível de ofensa no corpo de Ginny. Ele se virou novamente.

– Como uma garota patética poderia ser uma companheira para alguém como eu?

Ela achou que as lágrimas iam deixar os seus olhos. Estava esperando por isso, mas se surpreendeu quando de repente uma raiva anormal tomou conta do corpo dela. Aquilo era praticamente uma humilhação! Ela se levantou, ficando de pé no colchão da cama. O cobertor que tampava o corpo dela caiu com o gesto, deixando-a exposta. Ela se aproximou dele. Podia olhá-lo diretamente agora. Estavam quase da mesma altura. Greyback ficou estático com a aproximação repentina dela. Ela o olhou quase em fúria.

– Como eu posso ser sua companheira? Eu aceito você. – ela o cutucou no peito largo — Eu sei que há alguém aí dentro que um dia foi humano. – ele rosnou de modo severo, como se pedisse para ela parar de tocá-lo daquela maneira. – Eu não tenho medo de você. – ela completou.

– Erro seu.

O soco chegou ao seu rosto com tanta força e rapidez que ela não teve tempo de se afastar nem de reagir. Sentiu sua cabeça ser preenchida com um tipo de pressão estranha, impedindo-a até mesmo de pensar, de raciocinar sobre o que estava acontecendo. Caiu no colchão no mesmo momento que sentia as mãos dele descarregarem toda a fúria que ele sentia naquele momento no corpo frágil dela.

Fúria por ela ter entrado no quadro dele sem pedir permissão. Fúria por ela ter mexido nas coisas dele. Fúria por ela ter sido petulante e falado coisas sem sentido para ele. E principalmente, fúria por ela ousar achar que era a companheira dele.

Ela já não aguentava mais tanta violência. Ele só não a chutou porque ela estava em cima da cama e aquilo parecia inviável, mas as mãos dele encontraram o rosto e o corpo dela diversas vezes. Ele subiu no colchão, ficando em cima dela e segurando com a mão enorme o pescoço dela, os dedos fortes prensando com violência a carne ali.

Ela o olhou brevemente, antes de fechar os olhos e tombar a cabeça para o lado. Ele percebeu que ela havia desmaiado, e no momento em que viu o corpo dela machucado e sangrando, sentiu uma repulsa estranha e forte de si mesmo. Ele se afastou dela, sentindo brevemente uma mistura incomum de tristeza e culpa por ter feito o que fez.

Aquilo o deixou ainda mais furioso.

Ele pegou um objeto que estava perto de um móvel e o atirou na parede, quebrando-o facilmente, mesmo que o objeto fosse feito de uma madeira pesada. Ele gritou para que os elfos aparecessem.

Duas criaturas entre as muitas que tinham no castelo apareceram, e logo seus olhos claros foram em direção à garota que estava inconsciente em cima da cama. O sangue dela manchava os lençóis, e a pele pálida começava a ficar arroxeada. Eles automaticamente colocaram as pequenas mãos em cima da boca, em um gesto claro de horror.

– Levam-na daqui. E cuidem dela.

Fenrir não precisou pedir duas vezes. As criaturas se aproximaram da garota e tocaram com relutância e medo o corpo já quebrado e violentado, e em menos de segundos, desapareceram, levando-a junto deles e deixando o lobisomem sozinho no quarto.

Ele se sentou na cama, sentindo facilmente o cheiro do sangue dela pelo cômodo. Abaixou a cabeça, passando com raiva as mãos nos cabelos.

[...]

Já havia se passado quatro horas e ele estava no mesmo lugar. Sentado na cama, sentindo o cheiro do sangue da garota já seco nos lençóis que estavam sobre o colchão. Não havia nem se dado ao trabalho de vestir alguma roupa.

Algum tempo depois, ele escutou dois dos elfos aparatarem diretamente para o quarto dele. Em uma situação normal, eles estariam terminantemente proibidos de fazer aquilo. Greyback não gostava quando os elfos apareciam sem serem chamados, principalmente se aquela aparição fosse em seu quarto.

Mas ele sabia que se eles estavam ali, e devido às circunstâncias e aos fatos que aconteceram no quarto no final da manhã, os elfos apareceram por causa de uma urgência. E para dar notícias importantes.

Ele virou o rosto em direção aos elfos.

– O que foi?

Eles se entreolharam. Um tomou a coragem de dar a notícia.

– Levamos a garota para o quarto dela e a banhamos, mestre. Mas ela não acorda. Sua respiração está fraca, assim como os batimentos cardíacos.

O sexto sentido de Greyback gritou no mesmo segundo. Ele quase se levantou e saiu correndo até o quarto dela, mas conteve-se. Respirou fundo e permaneceu calado por alguns minutos, até gesticular para os elfos.

– Chame Snape. Quero-o aqui. Agora!

[...]

Snape saiu do quarto de Ginny depois de três horas completas enfurnado ali. Ele caminhou diretamente para uma janela que ficava no corredor, onde Greyback estava parado, olhando de forma visivelmente desinteressada o jardim lá embaixo.

Quando o lobisomem percebeu a aproximação de Snape, virou-se para ele. Pela primeira vez, ele não parecia com aquele semblante de enfado como sempre estava, aquele rosto com linhas extremamente controladas. Snape parecia irritado.

– Preparei quatro poções. Tive que fazer magia para que ela bebesse. Ainda está desacordada, e irá demorar algumas horas para acordar.

Greyback apenas assentiu, mas Snape continuou o olhando de forma irritada.

– Ela tinha diversos ossos quebrados e alguns órgãos foram danificados. – ele percebeu que o lobisomem estava atento, mesmo que estivesse olhando pelo vidro da janela. – Eu não sou um curador, Greyback. Mais alguns chutes e ela teria que ir para o hospital, ou ser enterrada.

Dessa vez Greyback o olhou quase com hostilidade.

– Posso sabe por que está tão preocupado com a garota, Severo?

O sorriso que Snape deu era quase irônico.

– Ora, o Lorde das Trevas não gostará de saber que você anda praticamente desperdiçando sangue-puro porque não consegue se controlar, Greyback. – Snape se calou por alguns segundos, para depois continuar a falar. – Uma palavra nos ouvidos errados e a Weasley pode ser tirada de você. Ir para as mãos de outro Comensal, talvez?

Ele jogou no ar, testando definitivamente o lobisomem com aquilo. Por mais que Greyback tentasse disfarçar, Snape era atento demais para não conseguir captar o desespero velado nos olhos acinzentados do lobisomem.

Sem conseguir se conter, Fenrir pensou na ruiva indo embora dali e sentiu algo estranho. Um aperto no peito. Odiou aquela sensação. E sentiu raiva no mesmo segundo. Olhou para Snape furiosamente.

– Suma da minha frente.

Ele saiu, andando pelo corredor e subindo as escadas. Snape sorriu de forma irônica. Se ele não soubesse o que estava em jogo ali, lançaria um feitiço extremamente divertido e doloroso naquele lobisomem.

Mas tudo podia esperar.

[...]

Ela abriu os olhos, percebendo de imediato que estava na sua cama e que o quarto estava escuro, iluminado apenas pela lareira. Estava de noite. Ela piscou algumas vezes para que as imagens começassem a tomar um foco melhor. A tonteira a invadiu rapidamente, deixando-a enjoada.

Dois elfos estavam ao lado dela, fitando-a com atenção.

– A senhora não pode se mexer. E não pode ficar agitada.

Ela fechou os olhos, flashes do que havia acontecido na parte da manhã invadindo a sua mente. Mas tudo parecia um pesadelo. Sua mente estava tão confusa que ela não tinha certeza se o que acontecera fora real.

– O que aconteceu?

Ela perguntou aos elfos. Eles abriram a boca para responder, mas logo foram interrompidos por um barulho estrondoso vindo do andar acima do deles. Os olhos claros das criaturas correram pelo teto, para depois fitarem-na novamente.

– Ele está trancado em uma sala há horas. Parece estar destruindo algo.

Ginny demorou a entender a quem o elfo se referia. Escutou um barulho forte de um móvel caindo. Tentou fazer mais perguntas, mas a tonteira invadiu novamente o seu corpo.

Segundos depois estava dormindo.

[...]

Ela acordou horas depois. Ainda era noite. Os elfos haviam sumido. Apenas a companhia tinha mudado. Greyback estava ao lado dela, sentado no colchão. Ele esperou uma reação amedrontada dela, esperou um grito ou uma repulsa. Mas ela sequer se mexeu quando os olhos pousaram sobre ele. Olhos opacos. Olhos vazios.

– Seu jantar está na bandeja.

– Não sinto fome. – ela desviou os olhos dos dele. – Não sinto nada.

Os olhos dela começaram a tomar um brilho conhecido. Um brilho que apenas lágrimas poderiam fazer. Ele começou a ficar inquieto com isso. Sentiu-se mal ao vê-la quase chorando. Ele respirou fundo. Seu braço se estendeu um pouco e a mão enorme correu com delicadeza pelo rosto dela, sentindo a pele daquele lugar fria.

Ela não se mexeu, continuou com os olhos um pouco fora de foco.

– Não pode ser você.

Ele deixou no ar. Demorou alguns minutos para que ela respondesse.

– Não, não pode. Fui tola de achar que sim. A ligação que você tem com uma possível companheira deve ser mais intensa do que isso. – ela esperou alguns segundos para acrescentar. – Não é possível que você consiga machucá-la... Simplesmente não é possível...

Ela sussurrou a última frase, como se estivesse pensando alto. Os olhos continuaram opacos e ele percebeu que ela parecia sonhar acordada. Estava pensativa, em outro mundo.

E percebeu também que havia a perdido.