Beautifully Grotesque
16 Maldição
Maldição
Alguns dias se passaram desde o incidente no quarto, onde Fenrir havia violentado a garota que agora ele olhava com estranho medo. Estava no terceiro andar do castelo, no mesmo cômodo que dias atrás ela havia passado a flanela em seus machucados, retirando dali o excesso de sangue e colocando uma poção para que os cortes se fechassem. No mesmo cômodo em que ela se mostrara tão preocupada com ele. Que cuidara dele.
Hoje ele não sentia nada vindo dela. Não em relação a ele. Ele já nem mesmo queria aquilo, sentia-se quase na obrigação de se afastar. Ela não sentia nada em relação a tudo. Estava apática. Havia virado praticamente um fantasma no castelo. Os brilhos nos olhos sumiram para dar espaço a uma tristeza visível até mesmo aos olhos de pessoas insensíveis como ele. Isso quando ele conseguia ao menos se aproximar dela. Mandara os elfos proibi-la de fazer os trabalhos no castelo como costumava fazer, então a garota dividia seu tempo em ficar dentro do quarto, lugar que ele não ousava visitar, e cuidar das plantas.
Quando ela cuidava das plantas, ele podia observá-la. E era o que estava fazendo naquele momento. O dia estava particularmente frio, mas mesmo com o vestido longo e de tecido mais grosso que ela usava, ele podia observar que a garota havia perdido muito peso. Os elfos lhe informaram de que os pratos de comida voltavam à cozinha quase intocados.
Ela morrera. Pior, ela morrera, mas continuava a vagar por ali.
Fenrir Greyback se sentia culpado por tudo isso.
Mas não queria admitir a si mesmo. Nunca admitiria. Enfiou as mãos nos bolsos da calça e continuou a observar a garota mexer com cuidado e carinho nas plantas. O vento forte lá fora balançava os cabelos ruivos dela. A cor se destacava de tudo ao redor dela, inclusive da cor das plantas. Em matéria de beleza, os fios vermelhos engoliam a beleza das flores. Ela engolia.
Fenrir estava tão entretido em observá-la que não percebeu Snape entrar no cômodo. O moreno parou por alguns segundos diante da porta que acabara de fechar, observando o lobisomem imerso em pensamentos.
Aproximou-se dele, parando quase ao lado do homem imenso. Percebeu de imediato para onde ele olhava. Os olhos acinzentados estavam cravados na garota que estava no jardim, mexendo nas plantas que ficavam ali. Greyback piscou algumas vezes, e Snape percebeu que o lobisomem já sabia da sua presença.
– Eu a matei, Snape.
Ele disse. Quase como se estivesse se confessando a um padre trouxa. Snape se surpreendeu com as palavras dele. Sabia como ele devia ter pensado muito até chegar àquela conclusão, e sabia o quanto devia ter sido difícil para que ele dissesse tal conclusão em voz alta.
Mas não iria facilitar as coisas.
– Por que se preocupa com isso? Desde que ela não morra fisicamente, acho que você não precisa se preocupar.
Fenrir tentou. Juntou todas as suas forças e quase rezou a Merlin. Mas a paciência se esgotou. A sua vontade era matar Snape ali mesmo, com as mãos. Matá-lo com a varinha não teria graça, visto que ele morreria rápido. O sexto sentido do lobisomem já gritava a ele que Snape parecia saber de algo que não lhe contava. Olhou para o moreno quase com fúria.
– Por que tem sempre esse sorriso cínico no rosto quando tenta me provocar em relação a essa garota? – ele perguntou, franzindo a testa. – Está me escondendo algo?
Snape não respondeu de imediato. Pensou seriamente se aquele seria um bom momento. Pensara que a Weasley poderia se aproximar do lobisomem depois da lua cheia. Era o momento mais propenso àquilo. Mas ele se decepcionara. Eles não haviam se aproximado, pelo contrário, se repeliam como se fossem dois feitiços diferentes.
Achou que já estava passando da hora de ele tentar contornar aquela situação e fazer as últimas tentativas para que os dois ficassem juntos.
– Fui eu que mandei a garota procurar os livros.
Relatou. Fenrir sentiu seu corpo ser percorrido por aquela fúria incontrolável. Uma fúria que ele andara experimentando por alguns meses. Não tinha ideia de como aquele homem sabia da existência dos livros, tampouco onde os livros estavam, mas não pensou muito antes de sacar a varinha e apontar para Snape. Não pensou muito também em qual feitiço lançou, mas antes que o feixe colorido acertasse o peito do moreno, ele foi desviado rapidamente. Snape havia sacado sua varinha também e apontava para Greyback com visível curiosidade e desafio.
– Tome cuidado, Greyback. Não sou uma garotinha sem varinha que você pode surrar a qualquer momento.
– Por que você contou a existência daqueles malditos livros para ela? Aquilo só plantou ideia errada na cabeça da garota!
– Não foram ideias erradas. E você sabe disso. – Snape disse em um sussurro. – A garota foi inteligente e conseguiu ligar tudo e chegar à conclusão correta. Ela é sua companheira, Greyback.
Snape abaixou a varinha em um gesto claro de trégua. Fenrir copiou o gesto dele. No fundo, o lobisomem tinha medo de começar a acreditar em toda aquela loucura. Era praticamente tolice se acreditasse.
Snape apertou a ponte do nariz com dois dedos em um gesto claro de cansaço mental. Fenrir se surpreendeu com isso. Nunca havia visto o homem daquela maneira. Snape gesticulou com as mãos e adiantou-se, aproximando-se da janela e fitando a garota que estava ali embaixo por breves minutos, antes de virar-se novamente para o lobisomem.
– Há uma profecia, Greyback.
Fenrir virou o rosto com tanta rapidez que sentiu um músculo do seu pescoço arder. Olhou para Snape com fúria, mas o antigo professor de Hogwarts conseguiu distinguir uma leve desconfiança nas orbes cinzentas. Até mesmo cautela.
– Profecia?
– Sim, uma profecia. Que corrobora tudo o que estou lhe dizendo.
Ele não quis acreditar naquilo. Era quase absurdo. Sabia da existência de uma sala com profecias, e sabia que tal sala era preenchida com aqueles globos ridículos e prateados, mas ele nunca imaginou que o seu nome sequer fora pronunciado por alguma daquelas esferas.
Snape viu a descrença no rosto de Greyback, então tratou de se adiantar antes que o lobisomem começasse a questionar isso também. Retirou de um bolso um pergaminho enrolado, entregando-o para ele, que o abriu rapidamente. Os olhos cinzentos corriam livremente pelo pedaço de pergaminho, as linhas do seu rosto começando a se fechar no processo.
"Quando a Lua se encher e trouxer com ela o sangue, se erguerá junto a ela o lobo no homem. Aquele que carrega o nome do primeiro de sua raça conquistará a glória da crueldade e andará sobre a terra fazendo com que seu nome seja temido novamente ao se aliar com um bruxo, cujo emblema é a cobra. Porém, o homem no lobo jamais será destruído por essa mácula, e permanecerá em claustro dentro de si mesmo até aprisionar junto a ele a bela de cabelos vermelhos, a sétima herdeira Weasley e a única de sua geração. Somente ela está destinada a libertar sua humanidade, e somente suas mãos alvas farão com que o homem exulte sobre o lobo e o domine. Tal como é única em sua geração, será única aos olhos dele, como sua companheira de alma e vida."
A primeira reação de Fenrir foi ficar estático. Conseguia apenas sentir a tonteira tomar conta da sua mente, embaçando a sua visão e deixando-o um pouco sem rumo. As mesmas reações que ele tinha quando a lua cheia estava no seu ápice, transformando-o em um lobisomem. Odiou aquilo. Era praticamente um castigo sentir isso sem que estivesse nas noites amaldiçoadas.
Depois ele se sentiu furioso. Como nunca havia sentido antes. O que era aquilo? Mais uma maldição que ele teria que conviver? E de repente o tomou. Uma tristeza fora do normal. Um vazio estranho. Uma sensação completamente inédita para ele. Snape percebeu isso.
– Você pode escolher, Greyback. Escolha entre uma vida medíocre com alguém ao seu lado ou uma vida medíocre sozinho. – ele provocou. – Mas estará perdendo uma oportunidade única caso não aceite seu destino.
Fenrir aproximou-se novamente da janela, olhando para a garota, que agora não mexia mais nas plantas, mas estava encostada na árvore próxima ao jardim. Parecia pensativa. E triste.
– Eu já perdi essa oportunidade. – ele olhou para Snape. – A garota nem come mais.
– Tem interesse em mudar isso?
Fenrir enfiou as mãos novamente dentro do bolso da calça, dando de ombros. Depois olhou para Snape com desconfiança e quase hostilidade.
– O que você tem em mente?
Snape sorriu minimamente, percebendo ali a chance que ele nunca teria novamente.
– Dê a ela algo que ela nunca imaginaria que você daria.
[...]
Ginny estava encostada na árvore, apenas observando ali as pétalas das flores reluzirem ao resquício de raios de sol. Estavam úmidas. Ela havia acabado de regá-las. Sentia o cheiro adocicado que as plantas emanavam, sentia o aroma delicioso da terra recém molhada.
Sentia também a presença dele.
Podia senti-lo por perto, ou até mesmo sentir os olhos acinzentados sobre ela. Sabia que o lobisomem estava a observando. E quando ela sentia a presença dele, parecia que os machucados no seu corpo doíam um pouco mais. Eles ainda não haviam sarado completamente. E ela sabia que isso era inteiramente psicológico, visto que fora tratada no mesmo dia por Snape. Mas ela sabia também que teria algumas cicatrizes, mesmo que pequenas e pouco visíveis.
Mas as cicatrizes internas eram as que mais a preocupava.
A visão dela ficou embaçada no mesmo momento. Sentiu-se triste, quase desesperada. Pela primeira vez em semanas quis sair dali, ou desejou que Snape não tivesse a salvado.
Um barulho de um portão se abrindo a surpreendeu em demasia e, temendo ser um Comensal da Morte, com relutância, virou o rosto, olhando discretamente em direção à origem do som.
A pessoa que estava entrando por ali fez com que Ginny achasse que estava sonhando. Ou até mesmo enlouquecendo. De todas as pessoas que desejava reencontrar um dia, ela achou que aquela ela nunca mais iria voltar a ver. Não teve palavras para exprimir sua felicidade, então apenas se levantou e correu, esquecendo-se completamente das dores musculares que reclamara segundos atrás.
Quando encontrou-a, se jogou nos seus braços, sentindo novamente o abraço apertado que apenas uma amiga verdadeira poderia dar.
– Hermione... senti tanto a sua falta...
Ela disse em meio ao choro. Lágrimas caíam livremente pelo rosto dela, molhando brevemente o ombro da bruxa mais velha.
– Acalme-se, Ginny. Eu também senti a sua falta...
Ela abraçou a ruiva mais fortemente e correu as mãos pelas costas dela. Ela estava mais magra, e visivelmente quebrada emocionalmente. De repente Ginny percebeu o que estava acontecendo ali. Afastou-se de Hermione, olhando-a com atenção e sentindo-se desesperada novamente.
– O que você está fazendo aqui? Como conseguiu entrar? Não pode ficar aqui... esse lugar é amaldiçoado... Greyback...
– Snape me mandou aqui. – Hermione a interrompeu, e quando viu o rosto de Ginny se fechar, gesticulou com as mãos para que ela a deixasse falar. – Snape não é de todo ruim, Ginny.
Hermione percebeu como Ginny estava mudada, parecia sempre desconfiada. O brilho peculiar que ela sempre tinha nos olhos agora havia sumido. Já não tinha mais a vivacidade de antes. Nem poderia. Todos mudaram depois da guerra. Mas Ginny era a pior mudança que Hermione havia presenciado.
– O que aconteceu com você, Ginny?
Os olhos da ruiva brilharam por causa do acúmulo das lágrimas. Ela gesticulou negativamente a cabeça.
– Não quero falar sobre isso agora... – ela praticamente implorou. – Quero saber de você. Como você está? Como está o mundo lá fora?
[...]
Duas horas Hermione ficara com Ginny ali. Apenas duas horas. Mas foi o suficiente para que ela tivesse a certeza de que ela teria que tirar a amiga daquele castelo. Por mais que Snape discordasse, ficar na presença de Fenrir Greyback só deixou a ruiva quebrada emocionalmente e fisicamente. Felizmente, os machucados físicos eram curados rapidamente, mas Hermione não tinha certeza se um dia os machucados emocionais de Ginny iriam sumir.
Ela percebeu também que Ginny começava a pegar a essência de Greyback. A ruiva não percebera aquilo, mas ela estava ficando mais selvagem. Confessara à garota o quanto sentia prazer com o lobisomem na cama, como se fosse algo normal, e o quanto estava surpresa por saber a influência que ele tinha sobre ela. Ginny aceitava a ligação que tinha com ele.
Hermione não sabia se deveria interferir. Mas iria conversar com Snape, mesmo que ele não concordasse com nada do que ela falava. Para Hermione, Ginny tinha todo o direito de saber que a família estava viva. Mas Snape a proibira terminantemente de dizer tal notícia. Ela não entendia os objetivos dele, mas também não o questionava sobre isso.
Tinha a impressão de que Snape estava deixando Ginny ali como se estivesse cuidando dela para o abate.
– Preciso ir, Ginny.
Ela avisou a amiga no mesmo momento que Snape apareceu nas escadas da entrada do castelo. O rosto de Ginny entristeceu-se no mesmo momento, mas ela apenas assentiu, abraçando a garota fortemente enquanto Snape se aproximava.
Hermione se levantou do banco onde as duas estavam, mas Ginny permaneceu sentada, apenas fitou Snape.
– Obrigada por deixá-la vir aqui.
Ela o agradeceu sinceramente, mas o moreno apenas gesticulou de forma desinteressada com a mão.
– Agradeça a Greyback. Ele que autorizou a entrada da sabe-tudo.
Hermione olhava para Ginny, e percebeu que a garota ficara muito surpresa com aquela informação. Mas apenas assentiu, vendo com tristeza e angústia Snape dar as costas para ela e Hermione ser obrigada a fazer o mesmo.
Sentiu-se só no momento em que as grades do portão do castelo se fecharam.
[...]
Ginny sentiu o tecido delicado da camisola deslizar pelo seu corpo com facilidade. Os cabelos ruivos já estavam secos, e caíam como cascata pelas costas e parte do ombro. Ela caminhou até a janela, observando a luz da lua banhar os jardins que horas atrás ela havia encontrado Hermione. Ela não conseguia ouvir nenhum som além do som de sua respiração, era como se o castelo gritasse a ela que ela sempre estaria trancada ali, naquele silêncio anormal e naquela escuridão estranha para sempre.
Respirou fundo, tentando não pensar no que faria naquele momento. Passara horas no final do dia apenas questionando-se se era o correto a se fazer, mas sabia que não mudaria de opinião. Precisava fazê-lo. Só sentia receio em tomar aquela atitude.
Deu as costas para a janela, caminhando em direção à porta para sair do quarto. Tinha receio, sim. Medo era a melhor palavra, mas ela se recusava a sequer pensar nela. Greyback poderia tomar qualquer atitude. Era passional, impetuoso e impaciente. O dia em que ela achara que ele nunca faria algo a ela, fora o dia em que sentiu o peso da mão dele de uma forma que nunca imaginou que sentiria.
Seus olhos correram pela porta do quarto dele e ela titubeou um pouco, mas logo tomou a devida coragem e estendeu o braço, batendo levemente na madeira. A porta não se abriu como das outras vezes, como se tivesse se esquecido de quem Ginny era depois de um tempo longo de ausência. Não houve resposta. Ela tinha todas as desculpas para dar meia volta e sair dali, mas algo dentro de si pediu para que ela fosse mais ousada.
Com a mão trêmula, ela girou a maçaneta e abriu a porta calmamente, enfiando-se por entre a pequena fresta que havia feito e fechando a porta com cuidado atrás de si. Seus olhos correram pelo cômodo vagarosamente e ela logo percebeu onde Greyback estava.
O lobisomem estava sentado na mesma poltrona que sempre se sentava nos dias em que ela o massageara. Seu corpo estava coberto apenas por uma calça negra. Tudo ali era escuro. Os olhos acinzentados estavam cravados nas chamas da lareira e ele parecia imerso em pensamentos. Ginny se remexeu ali.
– Greyback, posso entrar?
– Você já entrou.
Ele disse, quase em um sussurro, mas não se virou para ela. Na verdade, não mexeu um músculo para fitá-la. Ginny preferia assim, não sabia se estava preparada para olhá-lo nos olhos. Mas ele não parecia com raiva. De qualquer maneira, ela se aproximou com cautela, pois descobrira ali naquele castelo que ele nunca aparentava realmente estar com raiva, mas que poderia ficar furioso em apenas alguns segundos.
Ela respirou fundo, tentando buscar a calma.
– Eu... eu gostaria de te agradecer pelo que fez hoje. Por mim.
Ele não respondeu, mas ela percebeu que ela havia captado a atenção dele. Depois de alguns segundos, Fenrir desviou os olhos por pouco tempo das chamas da lareira para fitar o tapete, mas logo depois seus olhos foram parar novamente nas chamas.
– Nunca nenhum sangue-ruim entrou nesse castelo.
Ela não sabia o que responder. Não gostou realmente do termo que ele usou para classificar sua melhor amiga, mas sabia que para ele aquilo era normal. Decidiu ser humilde, sabendo que irritá-lo seria a pior coisa a se fazer.
– Hermione é minha melhor amiga. Passamos por muitas coisas juntas. Foi bom ver alguém amado por perto... – ela disse em um só fôlego. – Sei que fazer isso, para você, foi difícil. Por isso que estou te agradecendo.
Sentiu-se mais aliviada por dizer aquilo, pois desde que Hermione saíra daquele castelo, ela se sentia na obrigação de agradecê-lo, mas temia em confrontá-lo novamente. Temia até mesmo se aproximar dele. Como o lobisomem permaneceu em silêncio, ela concluiu que poderia se retirar, sendo que seu dever já havia sido cumprido. Virou-se para sair dali, mas antes que pudesse dar o primeiro passo, sentiu uma mão enorme e quente pegar o seu pulso frágil.
A reação no corpo dela foi imediata. Sentiu cada músculo estremecer, como se o seu corpo tivesse lhe avisando que a mão que estava envolta do pulso dela era a mesma mão que havia feito machucados em seu corpo dias atrás. Fenrir percebeu isso, e sentiu-se horrível com aquilo. Ao se sentir assim, percebeu que aquilo tudo que tentaram enfiar em sua cabeça era verdade. Ele já se conformara com isso, mas ainda pretendia aprender a conviver com aquelas reações que ela provocava nele.
Com relutância, ela olhou para ele. Ele estava com os olhos cinzentos cravados nela.
– Você precisa me dar um tempo para que eu entenda o que é isso tudo.
Ele pediu de uma forma pouco educada, e no mesmo momento a puxou para o colo dele. Ela se desequilibrou e em um gesto automático, espalmou as mãos no peito nu dele. Com isso, conseguiu se apoiar e ao mesmo tempo tentar manter uma distância segura de Greyback.
Por mais que tentasse, não conseguia tirar os olhos do rosto dele. Percebeu que ele estava um pouco mudado, as linhas severas de expressão haviam se alterado um mínimo. Para uma pessoa desatenta, aquilo passaria despercebido, mas como ela convivia com ele diariamente, conseguiu perceber com facilidade.
Estava tão absorta o observando que não percebeu seus braços relaxarem. Com isso, ele se aproximou com facilidade, quase encostando o nariz no rosto dela. Correu-o pelo pescoço dela, aspirando o perfume dela ali. Ginny escutou-o soltar um leve rosnado. Seu corpo se arrepiou.
– O que está fazendo? – ela perguntou.
– Sentindo você.
Ela não entendeu realmente o que ele queria dizer com aquilo, mas permaneceu parada, apenas temendo o que ele poderia fazer com ela ali. Fenrir correu o nariz por toda a extensão do pescoço dela, descendo para o colo e para os ombros, onde ele sentiu o cheiro dela ser mais adocicado. Suas mãos enormes foram com cuidado para a cintura dela, mas quando ele percebeu que ela não sairia correndo dali, suas mãos tomaram um rumo diferente e mais ousado.
Ele apertou a carne das coxas dela, sentindo o toque delicado que a pele dela possuía. Os batimentos cardíacos dela começaram a se acelerar, ele percebeu isso com facilidade, captando o som com a audição aguçada que possuía. Ele voltou a subir as mãos, capturando a cintura dela e subindo aos poucos.
Ginny estremeceu. Um estremecimento incomum de medo. Mas logo depois sentiu o rastro quente que as mãos dele deixavam em seu corpo, o modo como ele sentia o aroma dela, os olhos fechados. Ela fechou os olhos dela também, entregando-se relutantemente aos poucos. Mas entregando-se. Não demorou muito para que o desejo começasse a aparecer ali.
Os lábios dele foram de encontro à pele do pescoço dela. Ele depositou alguns beijos ali, mas algo em Ginny a avisava de que ele parecia querer sentir o gosto dela com isso, e não acariciá-la. As mãos dele desceram novamente pelas coxas, indo até a barra da camisola e subindo o tecido vagarosamente, no mesmo momento que um dedo a encontrava e a estimulava. Ela mordeu o lábio inferior ao senti-lo ali.
– Estou sentindo você. Como nunca senti. Experimentando tudo isso que é novo. De uma forma diferente.
Era isso. Ele acreditava agora. Aquela garota estava predestinada a ele, e ele a tomaria de todas as maneiras, a consumiria de todas as formas que tinha direito por ser o companheiro dela. Ginny tombou levemente a cabeça, expondo com isso o pescoço e deixando seu lado vulnerável aparecer para ele, um gesto de redenção. O temia e o desejava nas mesmas proporções, mas sabia que a ligação que tinha era mais forte do que os sentimentos conflitantes dos dois.
Ele tomou a boca dela com rapidez e voracidade. Não carinhosa. Fenrir nunca seria carinhoso. Não fazia parte dele ser assim. E quando ela sentiu finalmente os lábios dele sobre os lábios dela, entregou-se completamente ao toque daquele lobisomem cruel.
A língua dele invadiu a boca dela com facilidade, os braços imensos e fortes a contornando quase com desespero, ele a pegou no colo e com rapidez agachou-se onde estava, colocando-a no tapete que ficava em frente à lareira. Ginny percebeu que ele iria tomá-la ali mesmo, e não se arrependeu nem um pouco de se aproximar dele e ajudá-lo a retirar a calça que ele usava, não se arrependeu em levantar os braços no momento em que ele retirava a camisola dela, não se arrependeu em deitar-se ali e abrir as pernas para recebê-lo, com a mesma ânsia por ele e a mesma sensação de proibição que sentia sempre.
E ele a penetrou com uma tranquilidade absurda, apenas sentindo-a estremecer debaixo de si. Os cabelos ruivos estavam com a cor ainda mais forte devido à claridade que as chamas da lareira projetavam em cima dela. Os lábios dela eram praticamente um convite para os lábios dele, o corpo dela pedia para ser tomado, para ser aproveitado e tocado da forma que ele mais gostava de fazer. Com uma brutalidade que apenas ele conseguia ter, e com uma paixão que apenas uma ligação sobrenatural poderia exercer.
Era a forma que ela mais apreciava, e à medida que o sentia possui-la, sentia-se completa. Ao sentir aquele homem bater o quadril no dela, penetrando-a em cada movimento, sentia-se dele. E quando se sentia dele, estava feliz. Uma felicidade peculiar e que ambos não aprenderiam a lidar nunca, mas que apreciavam nas mesmas proporções. E buscavam isso juntos, ela entregando-se a ele em cada toque quente que as mãos enormes proporcionavam, ele embebendo-se em cada essência que ela possuía, sendo ela o aroma, o toque, ou até mesmo algo que ele nunca experimentara. Mas que estava disposto a tirar a prova.
Ele começou a trilhar beijos por todo o corpo dele, descendo o corpo dele vagarosamente. Ela fechou os olhos, tentando com isso sentir melhor o toque dele. A língua de Greyback correu com luxúria pelo sexo dela, como se ele estivesse a experimentando como um pedaço de carne em sangue, como se ele estivesse marcando-a com isso. Um rosnado saiu da garganta dele no momento em que ele penetrou um dedo ali, sugando-a com mais lascívia e experimentando algo que ela nunca daria a outro homem, algo que era totalmente dele.
Sua essência.
E foi assim que ela chegou ao seu prazer completo, e ele descobriu um prazer novo, o prazer de proporcionar à sua companheira um gozo que ela nunca iria esquecer. Ele se afastou um pouco, olhando-a quase com fome, ela envolveu a mão delicada no antebraço dele e o puxou de encontro ao corpo dela. O corpo pesado de Greyback quase a esmagou, mas era uma sensação prazerosa demais para que ela reclamasse. E quando ele e a invadiu novamente, sentindo-a ainda mais preparada para ele, ele achou que ia enlouquecer.
E não demorou muito a chegar ao seu próprio prazer, derramando-se dentro dela e segurando-a como se ela fosse um tesouro que a qualquer momento pudesse sumir. Naquele momento, Ginny se sentiu diferente, sentiu-se querida, mesmo que de uma forma peculiar. Sentiu-se desejada. Pois pertencia a ele. E ele pertencia e ela.
E juntos formavam um só.
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