Convicções

– Não pode ser.

Molly disse em um sussurro. No fundo esperava que aquilo fosse uma brincadeira de muito mau gosto. Sentiu os braços de Arthur a apertarem mais um pouco e logo depois tornou a olhar para Snape, esperando que ele dissesse que nada daquilo era verdade. Mas foi Hermione que a deixou sem esperanças.

– Snape está falando a verdade, Molly. Eu mesma escutei a profecia.

A garota disse, olhando para a matriarca da família Weasley com pesar nos olhos castanhos. Molly enterrou seu rosto no peito do marido e começou a chorar. Alguns Weasley copiaram o gesto da mãe. Até mesmo Fred deixou uma lágrima escapar. Arthur tentava buscar ser o mais forte ali, ao lado de Rony, que parecia querer ser mais maduro agora que recuperara Hermione. O patriarca da família olhou para Snape com atenção.

– O que podemos fazer por Ginny?

Snape fez com um gesto com os ombros curvados.

– Para o bem dela, sugiro que ela fique no castelo. Greyback não fará mal à garota.

– E como você pode ter essa certeza?

A voz de Percy assustou a todos. Ele nunca conversava muito, sempre andava pela casa, pensativo e calado. Mas ele fizera a pergunta de uma forma tão convicta que até mesmo sua família se surpreendeu. Snape olhou para o ruivo.

– O período de lua cheia está acabando. – ele pautou. – Depois desse período, o vínculo do companheirismo fica mais forte. É o momento ideal para que sua irmã se aproxime de Fenrir Greyback.

– Greyback é um monstro. – Percy opinou. – Ela nunca irá se aproximar.

– Estou cuidando para que isso aconteça.

Snape respondeu de forma convicta, sem sequer piscar ou pestanejar diante de toda uma família que era contra aquilo.

[...]

Ginny acordou na manhã do dia seguinte sentindo uma leve dor de cabeça. Sabia o motivo daquilo. Tecnicamente, não havia dormido. Passara a noite quase toda em claro. Ela espreguiçou-se no colchão, sentindo um cheiro peculiar que fez com que toda a sua pele fosse percorrida por um arrepio delicioso. O cheiro dele. Estava na cama dele, e tanto o lençol, quanto o cobertor pesado e os travesseiros estavam impregnados com o cheiro de Greyback.

Sem conseguir se conter, ela se aproximou do travesseiro, inalando aquele aroma diferente de couro e madeira. Fechou os olhos, apenas sentindo o que aquele cheiro fazia ao corpo dela. Lembrou-se da conversa que tivera com o homem do quadro.

O que aquele homem lhe disse na noite anterior parecia ter sido uma brincadeira de mau gosto. Ginny era companheira de Greyback. Na primeira vez, ela riu, achando que o quadro estava apenas testando os limites dela. Mas depois ela percebeu que ele não estava brincando, e falara com uma convicção tão absurda, que chegara até mesmo a assustá-la.

Mas como ela podia ser companheira de Greyback? Ela lera nos livros que aquele tipo de ligação era extremamente raro. Um lobisomem tinha apenas uma companheira, e poucos a achavam pelo mundo. Como aquele quadro podia ter tanta certeza do que falara?

Ela correu os olhos por onde estava. Os livros sobre licantropia estavam espalhados pelo colchão da cama. Ginny começou a pegá-los, fechando alguns que estavam abertos e empilhando outros. Saiu da cama um pouco tonta pela falta de sono da noite anterior. Mas quando se aproximou do quadro, o homem não estava lá.

– Ei!

Ela tentou chamá-lo, mas percebeu que não sabia nem ao menos o nome dele. Ficou ali parada por alguns minutos, com uma pilha pesada de livros nos braços. Comparou-se à Hermione, e perguntou-se mentalmente como a amiga conseguia andar assim o dia inteiro por Hogwarts. Ela pousou os livros em um móvel que estava ali perto e cutucou novamente a tela, mas a pintura continuou como estava, apenas com uma poltrona vermelha enquadrada.

Bufou, tentando não ficar impaciente. Na noite anterior, bastou que o homem soubesse o nome dela para abrir-se. Por quê? Mesmo que ele soubesse que ela era a companheira de Greyback, como ele poderia saber antes, apenas conhecendo o seu nome? Nada daquilo fazia sentido.

Depois de um tempo, desistiu. Esperaria o quadro voltar. Mas antes iria descer para comer algo e andar um pouco pelo jardim. Com tudo o que lera na noite anterior, e com as informações que obtivera, precisava de ar fresco.

[...]

Ginny não sabia quais pensamentos a levaram até aquela mesma grade do dia anterior, mas quando se deu conta, seus dedos corriam pelo ferro frio que formavam as curvas da grade. Desde que saíra do castelo estava andando pelo jardim, e apenas o som dos seus passos na grama cortavam o silêncio daquele lugar. E foi por isso que ela se assustou quando escutou um barulho de galho se quebrando, da mesma forma que o dia anterior.

Mas ela não se afastou daquela vez, e não sabia o motivo que a fez ficar ali, apenas esperando algo que ela não sabia o que era. Depois de algum tempo, um som de passos abafados e lentos chegou aos seus ouvidos, e a pessoa que ela intimamente procurava ver se aproximou.

A massa disforme que era o corpo de Greyback foi se aproximando, e Ginny sentiu seu coração se acelerar rapidamente. Perguntou-se o motivo daquilo, mas depois de algum tempo, julgou ser algo parecido com medo. Ele deu mais alguns passos a frente, ficando totalmente visível aos olhos dela. O rosto dele estava perto da grade, e o que ela viu fez seu peito comprimir.

Ele a fitava com atenção. Seus olhos estavam muito amarelados. Ele não disse absolutamente nada, apenas continuou a fitando. Mas não foi isso que a deixou inquieta. Com uma rápida passada de olhos pelo rosto dele, Ginny pôde observar diversos cortes ali. Alguns de aparência mais preocupante que outros.

De repente ela sentiu uma vontade incontrolável de tocá-lo. Mas sabia que não seria prudente fazê-lo.

Como se ele soubesse o que ela queria, seu rosto machucado aproximou-se um pouco mais da grade. Ela deu dois passos a frente, seu braço se estendeu e sua mão foi em direção ao rosto dele. Mas algo no seu gesto fez com que ele se afastasse.

– Espere!

Ele virou o rosto e andou rapidamente para trás, embrenhando-se no labirinto de árvores e sebes e sumindo da vista de Ginny. Ela fechou as mãos em punhos, chutando a grade com força em um gesto tolo de raiva.

[...]

A noite já havia caído. O castelo estava novamente escuro e frio. Ginny estava na biblioteca, deitada no sofá. Ela lia um livro de romance bruxo. Estava cansada um pouco de ler livros de licantropia, e a cada página que lia sobre o assunto, mais perguntas surgiam em sua mente.

Ela escutou a lareira chiar e virou-se para as chamas, observando uma cabeça aparecer ali. Era Snape. Novamente. Ela revirou os olhos, tentando ignorar a cabeça do seu antigo professor flutuando na lareira.

– Você conseguiu achar os livros que pedi para procurar?

Ela tentou ignorar a pergunta, mas sabia que Snape poderia ter algumas respostas. E ela poderia arrancar tais respostas dele. Ela fechou o livro que estava lendo e se sentou no sofá, virando o seu corpo em direção à lareira.

– Sim... estavam no quarto dele, como você disse.

Snape correu os olhos pelo livro que Ginny estava segurando e arqueou as duas sobrancelhas.

– E você leu os livros?

Ela quase o estrangulou. Se tivesse um balde de água, o jogaria na lareira apenas para apagar as chamas e tirar a cabeça petulante daquele homem dali. Não era porque ela estava lendo um livro de romance naquele momento que não tinha lido os livros que ele mandara.

– Sim, Snape. Eu li. – respondeu, quase com hostilidade. – Mas eu não entendi o motivo de você ter me mandado ler aqueles livros. – acrescentou.

Snape fitou-a por alguns minutos antes de responder.

– Você é a companheira de Greyback, Weasley.

– Eu não acredito nisso. Não tem como eu ser companheira de um lobisomem como Greyback, Snape. Você e aquele quadro idiota estão dizendo isso apenas para me deixar mais confusa.

Snape revirou os olhos, pedindo mentalmente a Merlin por paciência. Mesmo que ela estivesse vendo o rosto dele por entre as chamas, ela conseguiu ver a reação dele. Ele parecia pensar seriamente, e parecia pesar suas palavras. Como se estivesse as escolhendo. Ele pigarreou. Aquilo seria desconcertante.

– O cheiro de Greyback a excita. – antes que ela pudesse retrucar, ele a cortou. – De uma forma nova e estranha. Mas a excita.

Ela pensou um pouco sobre o assunto. Por mais que não quisesse admitir a si mesma, o cheiro de Greyback a excitava. Ela sentira aquilo no começo do dia, quando acordara na cama dele. Não era uma excitação apenas física, mas parecia algo mental, como se ela se sentisse ligada a ele apenas por sentir o cheiro dele.

Snape voltou a pigarrear.

– O toque dele também a excita. – ele pautou.

– Greyback nunca me tocou.

– Não sou sua mãe para que você precise mentir para mim em relação a isso, Weasley. Poupe-me.

Ginny sentiu seu rosto pegar fogo, mas Snape parecia apto a continuar e tentar convencê-la de que o que ele estava falando era real.

– Eu não sei em que fase do companheirismo isso fica mais evidente, mas Greyback passará a significar segurança para você. – ela riu, ironicamente, o lobisomem passava algo totalmente oposto de segurança. – Um dia sentirá isso, Weasley.

Snape falou, como se estivesse profetizando igual Sibila Trelawney. Ele continuou.

– Acho que você já deve ter percebido isso, mas é inteligente lhe lembrar de que ele sente o seu cheiro como ninguém um dia irá sentir. Mesmo os outros lobisomens. O seu cheiro o atrai de uma forma que nem ele conseguirá explicar, se tentar um dia.

Ginny lembrou-se das palavras de Greyback, dias atrás. O lobisomem havia lhe dito em uma das seções de massagem que a escolhera por causa do aroma que ela emanava. Adocicado, como se ela fosse uma virgem. Ela percebia que o cheiro dela mexia um pouco com ele, mas julgou ser uma interação comum entre lobisomem e humana. E não um indício de uma ligação mais forte.

Snape percebeu que ela começava a juntar algumas peças. Deixou-a divagar um pouco, até que os olhos dela o fitaram. Ele discerniu desconfiança e tristeza ali.

– Um lobisomem nunca faria mal à sua companheira. Greyback já me estuprou e já me espancou, Snape.

– Um lobisomem será sempre um lobisomem. A violência é algo natural para eles.

Os olhos dela começaram a lacrimejar, mas antes que a primeira lágrima escapasse, Snape já havia sumido, deixando-a só e angustiada. Ela perdera totalmente a vontade de continuar a ler o romance. Sua vida havia virado de cabeça para baixo. Já achava ruim o suficiente estar trancada em um castelo com um lobisomem, descobrir que era companheira dele, e consequentemente estava predestinada a ele, não havia melhorado seu humor.

Ela fechou o livro com violência, saindo do sofá e da biblioteca. Ela foi em direção ao seu quarto e trocou o seu vestido por uma camisola quente. A noite estava fria. Foi até o banheiro e escovou os dentes, para depois correr para a cama e enfiar-se debaixo dos cobertores.

Aqueles cobertores não tinham o cheiro de Greyback. Ela sentiu falta daquilo no mesmo momento, e se sentiu culpada também por sentir falta. O que estava acontecendo com ela? Snape havia aparecido na lareira, declarado aquele monte de absurdos e sumido, deixando-a com uma bagagem até mesmo desleal em sua mente.

Ela encolheu-se na cama. Não poderia ser companheira de Greyback. Não poderia.

Um uivo a fez estremecer e ela fechou os olhos.

Poderia?

[...]

Depois do almoço do dia seguinte, Ginny havia saído do castelo novamente e dessa vez andara com determinação até a grade em que vira o lobisomem nos dois dias anteriores. Parou ali, sentindo seu coração começar a acelerar com a expectativa.

Mas ele não apareceu.

Ela respirou fundo, tentando se controlar. O que estava fazendo? Dias atrás, daria tudo para que o mês inteiro fosse de lua cheia, apenas para ficar livre daquele homem. Dias atrás, nunca se aproximaria da grade que possivelmente ele estaria perto. Ela engoliu em seco.

Permaneceu ali por alguns minutos, já estava desistindo e se virando quando escutou novamente o som de passos abafados. Seu corpo virou-se em expectativa, os olhos buscando-o com avidez.

Ele se aproximou vagarosamente, ficando a centímetros da grade como da última vez. Os olhos amarelados estavam fixos nos olhos dela. Ginny não pensou duas vezes antes de se aproximar daquela vez. Precisava tirar uma dúvida que a corroera durante toda a noite.

Com receio, mas convicção, ergueu novamente o braço. Ele não se afastou como da última vez, mas permaneceu onde estava. Ela levou a mão timidamente até o rosto dele. Sentiu pela primeira vez o toque da pele dele ali, um pouco áspera, e extremamente quente.

Greyback fechou os olhos por breves segundos, mas depois os abriu, como se estivesse se dando conta do que estava fazendo. Ele a olhou quase com hostilidade, como se a culpasse por tê-lo feito sentir aquilo.

Mas Ginny não percebeu nada disso. Sua concentração estava apenas no toque dos seus dedos com a pele do rosto dele. E quando sua respiração começou a ficar ruidosa, seu coração começou a martelar dentro do peito, ela não teve dúvidas. A certeza a atingiu como um soco, e ela teve que se esforçar para não retirar bruscamente a mão dali.

Ela percebeu que a respiração dele também estava difícil. Não entendeu o motivo daquilo, mas poderia ser dor. O rosto dele estava todo machucado, assim como parte do tronco e dos braços. As roupas dele estavam imundas e esfarrapadas.

– Começo a achar que sente minha falta, garota. É a terceira vez que lhe vejo aqui.

Ele estava rouco, como se estivesse cansado, ou como se não usasse a voz por muito tempo. Ouvir a voz dele... depois de tantos dias...

– Eu posso lhe ajudar, Greyback.

Ela falou com tanta convicção que o lobisomem se assustou. Ele se afastou um passo, fazendo a mão dela tombar na grade. Olhou-a atentamente por breves segundos e virou-se, sumindo novamente por entre as árvores.

Ginny ainda ficou ali um longo tempo. Pois no momento em que o viu se afastar dela, teve a certeza de que Snape estava certo. Ela era a companheira de Greyback. Sentia tristeza em vê-lo machucado. Sentia tristeza em vê-lo confuso com seu toque.

E medo.

Medo do que estava por vir.