Notas iniciais
Sem notas iniciais. Já sabem, as mesmas desculpas e avisos de sempre. Capítulo com muitas revelações e novidades. Espero que gostem ^^

Dean estava dormindo na poltrona da sala de Bob. Ele ficara acordado até as quatro da manhã, caminhando de vez em quando até a cozinha para tomar um copo de café. Naquele momento já se passara das sete e Dean ao acordar vira Anne sorrindo à luz do sol que entrava pela janela, preparando chá. Bob e Sam sentados a mesa serviam-se de torrada com geléia, bolo de nozes, panquecas com mel e xícaras cheias de chocolate quente.

O Winchester levantou-se da poltrona sentindo o corpo todo dolorido. Aquela noite não havia sido nada confortável.

- Bom dia, maninho! – Sam acenou sorrindo. – Venha aqui tomar café. O bolo e as panquecas que Anne fez estão fantásticas. Você deveria provar...

Anne olhou para Dean enquanto Sam elogiava sua comida, e a face de porcelana enrubesceu levemente.

Dean virou a cara, irritado. Anne estava muito estranha aquela semana, toda nervosa, tímida, com o olhar perdido. Ele não desconfiava dela, mas, era difícil quando se recebe uma carta anônima dizendo que ela está lhe escondendo algo.

Bom, foi exatamente isso que ocorreu. Era uma manhã de sábado quando Dean abriu a porta do hotel, e no chão achou uma carta com seu nome. O remetente estava em branco, e a mensagem perturbadora era “Não confie em Anne Singer. Ela esconde segredos de você. Deveria tomar cuidado.”

Dean suspirou. – Não. – exclamou firme. – Eu não estou com fome.

A moça abaixou o olhar diante da recusa e então continuou fazendo o chá em silêncio.

- Tudo bem, quem perde é você. – Sam deu de ombros e continuou comendo suas panquecas com mel.

Bob enfiou um pedaço grande de bolo na boca, engoliu e logo em seguida começou:

- Sabe, Sam, eu estive lendo no jornal da manhã de hoje sobre um caso de assassinato que me intrigou muito.

- Onde? – o moreno perguntou curioso.

O velho pôs-se a pensar por um momento e depois de lembrar, disse: — Não me lembro ao certo mas acho que foi em Denver. Lembro-me vagamente de ter lido esse nome na reportagem.

Anne parou de mexer o chá e sentiu um aperto no peito. Fechou os olhos e respirou fundo. Ela tentou consolar-se com o pensamento “É apenas uma coincidência” mas, infelizmente seu alivio foi momentâneo.

- Pelo que li, um menino de dez anos, mais ou menos, morreu afogado, no lago perto da casa de campo deles.

Anne não segurou o nervosismo e as mãos trêmulas deixaram cair a xícara de porcelana que se espatifou no chão com um ruído agudo. “Droga!” – ela pensou sentindo o rosto arder de vergonha.

- Tudo bem querida? – perguntou Bob preocupado.

Anne assentiu rapidamente. – Sim, pai. Só escorregou da minha mão... Sinto muito, eu vou limpar tudo. – ela se abaixou e começou a recolher os cacos enquanto tentava ensinar o coração a bater novamente. O nervosismo a tomando por completo. – Sou tão desastrada!

Sam riu. – Eu te ajudo, Anne.

- Não! Esperem. Eu vou buscar uma vassoura no porão. – Bob se levantou e foi para o porão. Dean que até então preferia ficar em silêncio caminhou até a moça e agachou-se ao lado dela.

- Percebi seu nervosismo ao ouvir o nome Denver. – Dean sussurrou no ouvido dela. O hálito quente chocando-se com a suave pele do pescoço dela. – O porque disso?

Anne engoliu em seco e se levantou como se estivesse levado um choque. Dean fez o mesmo, porém mais lentamente e com um sorriso cínico brincando em seus lábios.

- Não seja bobo, Dean. – Interferiu Sam sorrindo gentilmente.

Anne balançou levemente a cabeça — Não, tudo bem, Sam. Não perca seu tempo. Seu irmão não iria entender de qualquer forma.

Dean franziu o cenho e aproximou-se o máximo que pode de Anne, distância para somente não infringir a lei de que “Dois corpos não ocupam o mesmo espaço”

A moça ficou pálida como uma folha de papel, e então assustada ficou encarando os profundos olhos esverdeados do Winchester. Naquele momento, ela imaginou que ele iria pegar um canivete do bolso e com ele rasgar sua garganta.

- O que está escondendo de mim, Anne? – ele sussurrou pausadamente, colocando uma mecha do cabelo loiro dela atrás da orelha, sem desviar o olhar ameaçador dela.

- É que eu... É... – ela atrapalhou-se ao tentar dizer. Fechou os olhos, e quando ia retomar o que tentara fazer de início, sentiu os olhos arderem. Quando os abriu de novo pode ver a figura celestial de Castiel ao lado da maravilhosa figura de Dean, e Sam... Bom, Sam continuava apenas observando enquanto comia suas panquecas com mel.

- O que você ainda faz aqui, Anne? – Perguntou Castiel usando sua voz firme. Ela engoliu em seco, com os lábios apertados em uma firme linha rosada.

- Er... Castiel, eu não...

- Você me desobedeceu. Sabe o quanto isso pode ser perigoso para você? – ele exclamou aproximando-se dela. – Você já deveria estar longe daqui.

Anne suspirou, os olhos azuis suplicantes fitando o anjo. – Por favor Cass, aqui não... Não agora... Por favor.

- Ei... só um momento. – Dean se intrometeu irritado por não estar entendendo nada. – Vocês não estão a sós, felizmente... Então podem fazer o favor de explicar o que está acontecendo?

Anne encarou o Winchester e depois voltou-se rapidamente para Castiel. – Não... Por favor. Por favor.

O anjo baixou o olhar e suspirou tristemente. – Sinto muito, Anne. – sussurrou. – Meu trabalho agora é proteger você, e, para isso eu tenho que contar a eles. Acredite, é o melhor a fazer, minha querida.

Anne o encarou sem acreditar no que acabara de ouvir. Como ele podia ser tão cruel e fazer isso com ela? Sentiu a visão embaçar e as imagens ficarem turvas, segurou ao máximo o choro enquanto corria para o quarto de hóspedes que, de onde, segundo ela, não deveria ter saído.

Castiel suspirou ao vê-la sair correndo, mas, querendo ou não, devia fazer o que tinha que ser feito, para o bem dela, e para o bem dos céus. Girou nos calcanhares, encarando os Winchester que o fitavam de modo confuso. — Anne é um anjo. – soltou de uma vez. Ficou em silêncio e observou o choque tomar lentamente a expressão dos Winchester. Dean e Sam estavam pasmos. Sam nem viu quando o garfo escorregou de sua mão, e caiu no prato fazendo um barulho agudo.

- Co... omo assim, anjo? – Dean gaguejou com os olhos arregalados. – Então quer dizer que Anne está... morta?

- Claro que não! – apressou-se em dizer Castiel. – Ela parece morta pra você?

Dean deu um sorriso maroto. – Morta é a última coisa que eu acho que ela parece.

Sam revirou os olhos. Dean não mudava... Castiel ignorou os comentários sórdidos, e os pensamentos carnais de Dean e continuou dizendo:

- Ela é um receptáculo. Assim como você, Dean... Só que ela é muito mais sensitiva do que todos os anjos que já vi. O problema é que está correndo perigo... Ela não pode ficar aqui por mais tempo. Logo virão atrás dela. Tenho que protegê-la para o bem de todos.

- E o que vai fazer para protegê-la, e de que? – Sam perguntou com a testa franzida. O nariz aquilino inalando lentamente o ar.

Os olhos de Castiel rondaram o cômodo com uma calma que só anjos podiam ter. E então pararam em Dean que ainda mantinha os braços cruzados como escudos sobre seu peito. – Poderia incumbir a missão de cuidar dela a você. Preciso que a leve daqui. Eu tenho certeza que ela não irá por vontade própria. – disse baixinho, os olhos amendoados fixos no Winchester mais velho.

Dean retesou-se todo. – Eu?

- Sim. – confirmou Castiel. – Eu tenho certeza que os Winchester farão um ótimo trabalho, não é?

Um silêncio tenso interpôs-se entre os três. Então, como Sam sabia que o irmão iria negar, aproximou-se do anjo e disse firme.

- Nós cuidaremos dela.

Nesse momento Bob ofegante entrou na cozinha, não havia achado a vassoura em lugar nenhum daquele porão, e Castiel já havia desaparecido. O velho Singer suspirou e disse:

- Vão cuidar de quem, meninos? Espero que seja da Samantha... Estou cansado de perder os jogos de baseball, e em vez disso ter que assistir desenhos animados, e ouvir que leite com chocolate é melhor que minha cerveja.

Dean sorriu gentilmente. – Ela está dormindo agora, não está?

- Está sim... Deve estar cansada depois de tentar me convencer a brincar de boneca com ela. – suspirou Bob gargalhando. Tirou o boné azul escuro puído que usava, passou a mão na cabeça e colocou-o novamente. – Mas, e então, vão cuidar de quem?

Dean pigarreou apoiando-se na pia de granito, cruzando os pés um sobre o outro. – Bob, eu estava falando com Anne sobre Samantha e... Ela me disse que adoraria mostrar Denver a ela.

A cara confusa de Bob mostrava exatamente que ele não estava entendendo nada.

- Sabe como é, Bob. A neve, o clima semi-árido, as estações diferenciadas, os museus de história natural. Crianças adoram isso! – Sam murmurava passando os braços por cima dos ombros do Singer.

- Mas é claro! Samantha adoraria ir ao museu de história natural de Denver, e ver as “estações diferenciadas”- Bob revirou os olhos achando graça daquilo tudo.

- Poderíamos ficar de olho em Anne para que nenhum engraçadinho mal intencionado chegue perto. – Dean murmurou dando uma rápida piscadela.

Bob riu cruzando os braços. – Ela pediu para que vocês fossem junto? Estranho. Ela sempre fez tudo sozinha.

Sam curvou os lábios num sorriso e gaguejou baixo: — É. Parece que ela gostou mesmo de mim! – e depois sua gargalhada rouca se espalhou pelo cômodo.

Dean fez uma careta. E bateu com o punho na palma da mão, fazendo Sam engolir em seco.

- Eu já imaginava. Ela gosta de pessoas inteligentes como você, Sam. – continuou dizendo o Singer. – Mas, estariam dispostos a levá-las até Denver?

- É claro! Iremos também investigar o caso do garoto do lago. – Dean sussurrou.

Bob suspirou, inalando lentamente o ar. Depois de alguns segundos enfim disse: — Tudo bem, mas tratem Anne...

- Não se preocupe Bob. Nós a trataremos como se fosse uma Winchester. – Sam exclamou veemente causando um alívio no coração do velho. Ele deu um sorriso meio forçado e respondeu:

- Muito bem. Quando irão partir?

Dean não sabia o que responder, não havia combinado isso com Castiel. Fez-se um silêncio e uma voz dentro de sua cabeça sussurrou: — No por do sol. – ele apenas a repetiu sem ter muita certeza daquilo.

Bob assentiu levemente e caminhou até seu velho e poeirento escritório para olhar algo em um de seus livros. Sam olhou brevemente para o irmão e sorriu extasiado:

- Isso vai ser demais! – exclamou com a face iluminada de expectativa. – Eu, você, Samantha e Anne no belo inverno de Denver? Yah! Vai ser incrível! Vamos ser tipo, uma família... Samantha a filha, eu o pai, Anne a mãe e você... Hm, pode ser o tio garanhão.

Dean bateu de leve no ombro do irmão. – Vai ser um pesadelo, isso sim! – sorriu não acreditando em sua própria afirmação. – Não somos bons em ter uma família, somos bons mesmo em cortar gargantas! – riu e deu um soco no ar. – E se fôssemos uma família mesmo, EU seria o pai, Anne a mãe e VOCÊ o tio babaca... – sorriu ao ver Sam cruzar os braços e balançar de leve a cabeça. — Bom, vou falar com ela.

- Ei... Epa! – Sam entrou na frente do irmão impedindo sua passagem. – Eu falo com ela, afinal, eu sempre soube que ela era um anjo. – ele brincou lançando um engraçado olhar de superioridade. Dean revirou os olhos.

- Aham, claro. – murmurou irônico. Depois disfarçou e quando Sam virou-se, pulou em cima dele, o passando para trás e correndo na frente dele até o quarto de hóspedes.

- Eu sou o mais velho! – Dean riu girando a maçaneta do quarto. – Eu resolvo, Sammy.

******

Anne estava sentada no chão, ao lado da cama onde Samantha permanecia dormindo. Enquanto admirava o rosto adormecido da garotinha imaginava porque Castiel resolvera fazer isso. Porque será que ele resolvera magoá-la assim? Contanto o segredo que mais a perturbava para as únicas pessoas que ainda a achavam normal.

Ela levantou o braço e acariciou levemente as bochechas rosadas de Samantha. A respiração suave, os lábios cor de rosa em formato de coração, a pele tão branca quanto a sua, os lisos cabelos dourados como os seus, e pele que cheirava a suor e a morangos com creme. Para ela, Samantha era a criatura mais encantadora, perfeita e pura do mundo.

- Eu te amo, pequenina. – Anne disse baixinho, depositando um suave beijo na testa da menina. Voltou a se sentar no chão enquanto sentia as lágrimas ainda escorrendo em seu rosto. Sorriu e ficou ali, olhando para ela, abraçando os joelhos com a cabeça apoiada neles.

Ouviu o som da porta se abrir, mas nem se deu ao trabalho de levantar o olhar para ver quem era. Só soube que era Dean quando ouviu ele dizer:

- Anne? – murmurou e se abaixou, sentando-se ao lado dela.

- O que faz aqui? Eu quero ficar sozinha. – Anne disse baixinho, tão baixo que Dean quase nem pode ouvir. Não queria de jeito nenhum acordar Samantha... ela estava tão lindinha dormindo.

- Eu e Sam vamos levar você e Samantha para Denver. – ele murmurou com um sorriso de canto. Colocou a mão sobre a dela, e viu o rosto dela virar-se chocado para encará-lo.

- Mas Dean... Eu não quero.

- Anne, Castiel nos contou que você...

- O que ele disse? – perguntou eufórica, apertando o tecido da calça jeans com força. Os lábios apertados.

- Que você é um anjo. – completou o Winchester. Anne respirou fundo.

- Só isso que ele lhe disse? – perguntou preocupada. A voz saindo mais tremida que o normal. Dean assentiu. Ela aliviou-se ao constatar que, pelo menos, ele não havia contato tudo. Endireitou os ombros e continuou: — Você contou ao meu pai?

- Não. – disse Dean sorrindo. – Não se preocupe, você pode contar somente quando achar que deve, ok?

Anne o encarou e deu um sorriso tímido, o rosto rosado ainda molhado pelas lágrimas. – Muito obrigada, Dean.

- Faça suas malas, e as de Samantha, sairemos hoje mesmo no fim da tarde.

- Hoje? – Anne repetiu surpresa. – Mas eu não quero ir. Nem ao menos tive tempo de ficar com o meu pai...

Dean balançou de leve a mão e replicou: — Você quer que Bob fique a salvo? Eu creio que sim, não é?

Anne assentiu freneticamente. O que ela mais queria na vida era manter o pai a salvo, e faria o que fosse preciso para isso.

- É o que mais quero, claro. – Anne confirmou o encarando.

Dean sorriu com o olhar preso nas brilhantes esferas azuis-celeste dela. – Ótimo! Samantha vai adorar ver a neve em Denver, não acha?

Anne sorriu timidamente, e virou-se para observar Samantha. – Ela vai sim...

Anne e Dean ficaram olhando Samantha por um tempo tão longo que nem eles mesmos sabiam quanto tempo foi.

- Ela é linda, não é? – Anne disse acariciando o rosto de Samantha. Sentiu quando Dean se aproximou e acariciou seu braço, e mesmo sendo por cima do tecido da jaqueta de couro sua pele se arrepiou e seu corpo esquentou em segundos.

- Tanto quanto você, Ann. – Dean sussurrou tão próximo ao ouvido dela que ela teve que virar o rosto para o outro lado para não ser inebriada pelo cheiro gostoso de menta e café que o hálito dele tinha.

Seu rosto começou a corar, e ela afastou-se um pouco dele assim que viu Samantha se mexer entre os lençóis. Ela bocejou e esfregou os olhos azuis com as costas das mãos, ainda meia sonolenta.

- Bom dia, princesinha! – Anne exclamou sorrindo vendo a menininha sentar-se e a olhar com os olhos entreabertos.

- Bom dia – Samantha respondeu piscando várias vezes. Os cabelos loiros bagunçados. –Vocês ficaram juntos me olhando dormir?

Dean gargalhou pelo modo adulto com que Samantha falou. Era engraçado como, com o passar do tempo, Samantha parecia ainda mais com Anne. Uma cópia um pouco menor. – Algum problema, senhorita?

Samantha e Anne riram com ele, e quando Dean deu por si, Samantha já estava pulando na cama, tomando impulso para pular em seu colo. – 1, 2, 3 e... Lá vou eu!

Ela saltou em cima de Anne que caiu para trás, apoiando-se em Dean que abraçava Samantha que agora estava pendurada em seu pescoço rindo.

Dean deitou no chão, e puxou Anne junto com ele. Ela apoiou a cabeça no peito dele enquanto brincava de fazer cócegas em Samantha que se contorcia no ar enquanto Dean a levantava.

- Papai... isso... não... vale! – ela exclamava entre risos. Anne parou as cócegas e levantou o rosto para encarar Dean, o rosto dele tinha um grande sorriso e uma expressão de bobo. Ele abaixou o braço, e desceu Samantha que o abraçou ofegante.

Dean inspirou o ar, e sorriu para Samantha. Estava meio chocado por isso murmurou: –Acho que uma certa menininha precisa escovar os dentes e tomar banho...

Samantha levou as mãos imediatamente à boca, não acreditando que havia esquecido. Sorriu e correu para o banheiro. – Já estou indo! Volto logo... Me esperem!

Anne, ainda deitada ao lado de Dean, começou a rir assim que ouviu Samantha entrar no banheiro e fechar a porta. Dean franziu as sobrancelhas e perguntou sorrindo: — O que foi?

- Deveria ver sua cara! – ela exclamou segurando o riso. – Ficou hilária!

Dean franziu as sobrancelhas e com o indicador tocou de leve no nariz dela. – Isso não tem a menor graça! – disse e não agüentou, e acabou rindo também.

*********

- Promete que vai voltar logo, querida? – Bob murmurou para a filha que já carregava duas malas em direção a porta. Escondendo ao máximo o rosto para que ele não visse seus olhos enchendo-se de lágrimas. Ela não via problema em ficar longe dele por alguns dias, ou até semanas, mas, viajar para outra cidade, e ficar meses sem vê-lo era bem diferente.

Ela tentou forçar um sorriso. – É claro, papai. Eu vou tentar voltar o mais rápido possível, e se quiser falar comigo é só ligar no celular. – ela deu um demorado beijo de despedida no pai e saiu da casa seguida por Sam que a ajudava a carregar uma das malas que estava mais pesada.

Anne sentia-se extremamente mal, não queria deixar seu pai sozinho. Isso seria normal antes, mas agora... uma voz em sua cabeça soava, ou melhor, berrava que isso não era certo. Que não era a melhor das atitudes que ela poderia tomar.

Sentiu uma lágrima escorrer-lhe pela face, e secou-a rapidamente antes que alguém visse... Fora Sam, que preocupado perguntou:

- Você está bem, Ann? – o moreno a fitou com os olhos demonstrando extrema preocupação. Uma preocupação que Anne não pode deixar passar sem notar.

Ela assentiu e obrigou-se a sorrir. Seus lábios curvaram-se em um leve esgar, porém seus olhos continuavam com a mesma preocupação de antes. – Claro, Sam. – Uma completa mentira. Ela estava com medo, como uma criança da pré-escola ficaria no primeiro dia de aula. A verdade era, ela queria correr de volta para a casa de seu pai, e ficar em baixo da cama enquanto esperava ele trazer seu leite com chocolate e biscoitos. Sam aproximou-se, e entrelaçou seus dedos nos dela, o calor dele esquentando sua mão gelada. Depois ele parou, e ela fez o mesmo com a mão ainda unida com a dele. – Olha, se precisar de qualquer coisa... Qualquer coisa mesmo saiba que eu estou a sua disposição. – Sam começou com um sorriso compreensivo no rosto e os olhos amendoados fixos no rosto alvo dela.

Anne sorriu sem coragem o suficiente – nem muito menos vontade – de separar sua mão fria do calor da do Winchester mais novo.

– Eu fico extremamente agradecida, Sammy. Bom, eu queria...

O som do grito de Samantha fez os dois se separarem e encararem a menina que acenava impaciente com metade do corpo para fora da janela do impala. – Anne! – ela gritou novamente frenética pela atenção da moça. Anne sorriu e acenou de volta tentando ignorar a expressão totalmente irritada que Dean lhe lançava sentado no banco do motorista. Ela preferiu não olhar muito, mas não pode deixar de notar, as sobrancelhas unidas, os lábios apertados, o olhar reprovador, o corpo rígido, e principalmente as mãos apertando firmemente o volante do carro. Anne sentiu um tremor com o olhar dele, por um momento ela estava com medo de Dean Winchester.

Caminhou relutante até o carro, usando como apoio o fato do prazer que sentia ao entrar no fantástico Chevy Impala 1967 duas portas, 6490 cilindradas, 1969 quilos, tipo T, 8 cilindros de Dean. E ela, como uma boa amante de carros e motos, não poderia deixar de notar os tão maravilhosos detalhes que o faziam especial... único. O soldadinho de Sam dentro do duto de ar condicionado, indo de um lado para o outro, conforme o movimento do carro, e o nome deles talhado à canivete na porta.

*****

Estavam descendo a serra. Samantha cantando alto com Dean uma música que tocava na rádio. Sam no banco da frente contentava-se em somente olhar a paisagem vendo as árvores passarem como um borrão pela janela. E Anne... bom, ela estava simplesmente ali. Com os pensamentos em outro lugar.

Chegaram em Denver. Os altos prédios, os homens andando apressados usando ternos, e as mulheres enchendo as lojas famosas saindo com sacolas de compras enchendo-lhe as mãos. Os olhos de Samantha brilharam ao olhar em volta. Era muito diferente do que estava acostumada. Prédios altos, muitos comércios, pessoas chiques andando de um lado para o outro. Ela adorou aquilo.

- Aqui é demais! – exclamou ela eufórica olhando para os lados, estralando o pescoço tamanho a rapidez que fazia. – Vamos ficar num desses prédios altos?

Anne riu. – São comércios, Samantha. Aqui é o centro da cidade. Vamos ficar numa área de campo, sabe?

Samantha segurou a respiração, encarou com os olhos esbugalhados Dean pelo retrovisor. Com um sorriso que mal cabia na boca. Nem ela mesma sabia que tinha tantos dentes assim. – Peraí! – gritou quase sem ar. Os dedinhos magrelos apertando com toda a força o banco do carro. – Nós quatro vamos ficar numa casa de verdade? Mesmo. Daquelas com quintal e tudo mais?

- Vamos! – confirmou Dean sorrindo para ela. – Com quintal e tudo mai...

Foi difícil ouvir o final da frase. Os gritos agudos de comemoração de Samantha ecoaram por todo o carro. Anne e Sam tamparam os ouvidos vendo ela se remexer e pular no banco. Nunca haviam visto uma criançinha tão feliz como aquela. Os três gargalharam da cena, eles apostavam que todos de Denver haviam ouvido os gritos de Samantha. Aquela com certeza seria uma viagem inesquecível...

Notas finais
O Capítulo acabou saindo maior que o esperado, mas para compensar o tempo que demorei resolvi não dividir em dois. Em breve a continuação *-* Beijos.