O frio em Denver estava mortificante. No cemitério do centro da cidade, nem o coveiro se atrevia a sair de casa. De fato, não era muito agradável morar em um cemitério, mas, para Ben isso não era tão ruim, ele já estava acostumado.

Eram 07:00 da noite e assim como todos os dias, Ben se sentava em sua poltrona reclinável e assistia o jornal da noite enquanto tomava uma bela xícara de chocolate-quente. Havia sido assim desde o dia em que sua esposa Katy se fora.

Ben bocejou e assim que desviou os olhos da TV por um momento percebeu que a janela estava aberta, o que era realmente estranho, afinal, nunca abria a janela da sala. A visão dela não era uma das melhores. Bufou e relutante levantou-se para fechá-la. A luz piscou duas vezes, mas Ben não se importou com o fato. Trancou a janela e virou-se, dando de cara com uma conhecida figura feminina. Katy.

- Olá, meu amor! – disse ela sorrindo – Eu voltei.

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As duas da madrugada os olhos azuis e frios de Anne não haviam se fechado. Ela estava sem sono. A casa em que estavam era por deveras agradável, tão agradável que ela se perguntou que meios os Winchester haviam usado para consegui-la. Os mestres das identidades falsas tinham muitos truques.

Havia três quartos, dois de crianças, nos quais Dean e Sam dormiam um em cada um, e um de casal que Samantha insistiu em dividir com Anne.

Ouviu então o ranger da porta se abrindo e logo o delicioso som da voz de Dean.

- Não teve pesadelos hoje? – ele entrou e fechou a porta atrás de si – Não que eu queria que tivesse, claro, eu só achei... estranho. Fiquei esperando você me chamar.

Anne estava tendo uma turbulenta noite que se decorreu durante todos os dias do mês passado e do anterior. Na verdade, ela nunca chamava Dean, ela apenas gritava e aquilo, para ele, era como um chamado.

- Eu nem ao menos consegui dormir. – respondeu a moça em um sussurro quase inaudível. Samantha ainda dormia ao seu lado. – Mesmo assim, muito obrigada.

Ela virou a cabeça e sorriu para ele. Houve então um silêncio incômodo. Anne engoliu em seco, e devagar saiu da cama, acomodou Samantha nas cobertas, caminhou até Dean e o abraçou. Sem motivo nenhum, ela apenas gostava de fazê-lo.

- Obrigada mesmo... Por tudo. – A princípio ele apenas ficou parado, mas, enquanto ela o abraçava, aos poucos levantou as mãos e pressionou as omoplatas da moça.

- O prazer é meu. – ele disse e arriscou um pouco mais. – Nem adianta perguntar se ganho um beijo, não é?

Ela soltou uma risada e separou-se um pouco dele. – Acho que não. – Dean acompanhou-a com os olhos enquanto calçava suas botas, e pegava seu casaco preto que jazia sobre a poltrona.

- Onde vai? – o Winchester murmurou franzindo o cenho. – Bom, não importa... Eu vou com você.

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As 3 e quinze da madrugada um casal entrava no cemitério. Não ligaram que o enferrujado portão de ferro da entrada estava fechado, Dean conseguiu abrir facilmente com um ou dois chutes. Havia neve suja, lápides, árvores nuas, e um ar cinzento. Uma garoa fina esfriava lhes o couro cabeludo. A boca de Anne tremia, e ela caminhava, de braços cruzados. Seus olhos encaravam o chão, e os de Dean olhavam em volta atentos.

- Você gosta mesmo dos mortos, não é?

- Eles ao menos não reclamam. – Anne soltou algo que parecia o vestígio de um sorriso. Que saiu mais como uma careta.

Caminharam mais um pouco. O silêncio tornando-se denso entre eles. Dean não atreveu a dizer mais nada, e Anne não estava disposta a ouvir.

Ao longe repararam ao mesmo tempo em uma coisa. Uma silhueta baixa e rechonchuda, em meio a neve. Caminhando com a neve na altura das canelas. A luz amarelada de uma lanterna caiu sobre eles.

- O que vocês fazem aqui? – perguntou o homem de cabelos castanhos e bochechas rosadas. Ele cegava os dois, apontando a lanterna para cada um.

- Desculpe-nos. – murmurou Anne com os olhos semicerrados. – É que nós estamos perd-.

- Desculpem-me vocês. – ele abaixou a lanterna, com um suspiro. – Pela minha falta de educação. Vamos, vamos, saiam logo dessa chuva! Venham até a minha casa.

O homem começou a caminhar e Anne e Dean o seguiram. Entraram em uma pequena casinha de um branco desbotado. Os móveis não eram novos, nem muito menos, modernos, porém, tudo estava bem organizado.

- Sou Ben Stuart, o coveiro daqui. – ele disse remexendo num armário, estava extremamente inquieto e agitado. Pegou duas toalhas e entregou-as para eles. – E vocês?

- Somos Dean e Anne Winchester. – respondeu Dean com as toalhas na mão – Moramos em Aurora, ao leste.

O coveiro soltou um assovio. – Isso é bem longe daqui. Se perderam feio, hein?!

- Querido, acho que eles devem passar a noite aqui então. – disse uma mulher que acabara de adentrar no cômodo. Tinha os cabelos presos em um coque e usava um vestido florido azul claro que ia até seus joelhos. – Desculpe a intromissão... – sorriu – Me chamo Katy... sou a esposa de Ben. – ela cumprimentou os dois com um beijo na bochecha. – Vocês podem ficar conosco essa noite. Temos um quarto vago.

- Oh! Não queremos incomodar. – sussurrou Anne sorrindo agradecida. Porém, preparada para ir embora.

Sentiu o braço de Dean rodear sua cintura. – Vamos, ficar, amor. Só até amanhã.

Anne o encarou em choque. – E Samantha?

- Nossa filha ficará bem. – Dean sorriu e beijou a bochecha de Anne. A pele dela formigou.

- Venham, me acompanhem. – Ben chamou. O acompanharam até um pequeno quartinho que ficava nos fundos da casa. Tinha um banheiro minúsculo que era limpo mais não tinha porta.

- Deve servir por uma noite. – disse o homem olhando em volta com as mãos na cintura. – A porta do banheiro quebrou, mas como são casados creio que não haverá problemas.

Anne engoliu em seco, e tentou segurar-se para não agarrar o pescoço de Dean e estrangulá-lo. Onde ele estava com a cabeça para uma loucura dessas?

- Er... o senhor é muito gentil. – disse apenas.

Novamente Katy invadiu o cômodo, com uma pilha de roupas na mão e um sorriso. Dividiu a pilha em dois, uma em cada mão. – Essa é a roupa de nossa filha, Lucy, que descanse em paz. Ela tinha a sua idade, querida. Espero que essa camisola sirva. – entregou-a para Anne – E essa é de Ben quando era jovem e ainda se preocupava em impressionar as garotas. Acho que guarda para relembrar os bons tempos. – ela deu a roupa para Dean enquanto gargalhava. Ben, ao contrário da esposa, mantinha-se do outro lado do cômodo, com uma expressão estranha, como alguém que se sente ameaçado, pronto para correr.

- Obrigado. – disse o Winchester.

- É um prazer, queridos. – um sorriso estampou a face da mulher, e com isso, saiu, sendo seguida por um hesitante Ben que fechou a porta ao passar.

Anne respirou fundo jogando-se na cama, ouvindo-a ranger. Era uma cama barulhenta! Resmungava em qualquer mínimo movimento.

- Você é um estúpido, senhor Winchester! – ela exclamou apoiando-se nos cotovelos e o encarando. – Nossa filha? Por Deus! Não poderia ter dito apenas, “Obrigada senhores, mas, vamos para casa”. – imitou a voz de Dean, tentando engrossar a própria voz que obteve um ar cômico.

Ele sorriu, escorou-se na parede e a encarou. – Quem inventou que estávamos perdidos? Se bem me lembro, não fui eu. – cruzou os braços.

- Melhor do que a que você inventou de sermos casados!

Dean deu de ombros. – Porque? Eu gostei da ideia. – soltou um risinho malicioso. – E por favor levante-se, você é a culpada disso! Olha, só como está.

Anne levantou-se e raivosa aproximou-se dele. – E como eu estou, Winchester?

- Sexy demais para que eu consiga me segurar.

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Anne não queria de jeito nenhum tomar banho. Depois de muita discussão Dean conseguiu convencê-la a ir, usando o edredom da cama como porta para o banheiro. O vapor do chuveiro inundava o quarto.

Dois toques foram ouvidos na porta.

- Pode entrar. – disse o Winchester.

Katy abriu a porta equilibrando uma bandeja em uma mão só. Dean levantou-se da cama, e foi ajuda-la. Não que quisesse, mas, era o certo. – Oh, obrigada. – entregou a bandeja para ele com um sorriso. Ela agora, usava um avental branco puído por sobre o vestido. – Fiz esse chá para vocês, espero que esteja bom. E os biscoitos.

Dean agradeceu, e ela saiu. Alguns minutos depois, Anne terminou seu banho. Saiu do banheiro com uma camisola rosa escura, que estava apertada para ela, por isso se enrolou no edredom que antes servia como porta improvisada. Sentia-se desconfortável, e a passos curtos, caminhou até a cama, receosa da situação. Só que no meio do caminho, por culpa do olhar que Dean lhe lançava ela tropeçou nos próprios pés e caiu de cara no chão.

- Droga. – ela gemeu baixinho, ouvindo Dean rir. Ah, aquele homem precisava de um soco! Ele levantou-se e caminhou até ela. Ajudou-a a se por de pé.

- Obrigada. – ela respondeu, apenas por educação, e com a face enrubescida correu para a cama jogando o edredom por cima de si.

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.