Beatriz, Simplesmente
1 Prólogo
Notas iniciais
A bolsa estava lá, sua cor azul cintilante brilhava e deixava a todas curiosas sobre seu conteúdo, aquela cor tão chamativa, aquela bolsa tão grande e volumosa, que se encontrava lacrada despertava a curiosidade entre as secretárias e obviamente, entre ela também. Afinal uma bolsa daquela é como se gritasse ‘me abra’, porém ela estava destinada a seu chefe e somente a ele, então Betty a protegeu e não permitiu ninguém abri-la. Porém quando ela disse a seu chefe sobre a bolsa, a reação dele foi tão estranha que sua curiosidade subiu a um nível incontrolável e então ela acabou cedendo e indo contra toda sua educação e violou a privacidade de seu chefe.
A bolsa estava cheia de coisas, mas o envelope pardo foi o que mais lhe chamou atenção, sendo assim ela o pegou primeiro e começou a ler.
‘Estimado presidente, aqui estão instruções para que continue sua rotina de horror com Betty’
O que significava aquilo? Porque seu nome estava naquele papel? O que aquilo tinha a ver com ela? Ela não entendeu, mas um sinal de alerta a tomou, se antes ela tinha mera curiosidade em saber o que era aquilo tudo, agora ela tinha necessidade, necessitava saber o porque seu nome estava naquele papel e o que era aquilo tudo.
‘Em primeira instancia encontrara os cartões que deverá continuar colocando no escritório do seu monstrinho a cada manhã com seu respectivo detalhe, não se vá esquecer, porque eu não vou estar para faze-lo.’
Sabe quando você dorme e sente que está caindo? Está é uma sensação bem semelhante, só que no caso Betty não estava dormindo e nem protegida pelo seu colchão, ela estava acordada e seu corpo estava indo direto ao chão, sem proteção.
‘Escrever esses cartões foi mais difícil do que nunca, porque nas anteriores ao menos você me contava o que tinha passado na noite anterior, os tétricos beijos que lhe dava, as palavras para fazer o horror, digo o amor com ela’
Seu corpo todo doía, tinha se esborrachado no chão, caído da sua nuvem de sonho, aonde seu chefe, seu príncipe encantado, a amava independentemente de qualquer coisa, independentemente de sua aparência, ele a amava e era tão carinhoso que a fazia sentir-se uma princesa. Mas agora não, ela se sentia um lixo. Tétricos beijos? Fazer o horror? Contar tudo da noite anterior? Se ela não se sentasse naquela cadeira, certamente teria ido realmente ao chão, suas pernas tremiam tanto que não poderia se dar ao luxo de ficar em pé.
Ela leu a carta toda e não podia acreditar naquelas palavras. Se sentiu envergonhada e triste, não podia acreditar que tinha caído naquela armação, na verdade nem podia acreditar que tudo tinha sido uma armação.
Que vergonha de ter se entregado a um homem que não sentia nada por ela, quer dizer, até sentia, mas era apenas asco.
‘Sua burra, burra, não entende que ninguém nunca vai te amar. Não aprendeu isso com Miguel? Teve que viver novamente para aprender?’
Sentiu vergonha por ter sua intimidade exposta novamente daquela forma, pensou em quantas e quantas vezes seu chefe tinha contado a Mario tudo que eles tinham feito. Imaginou os dois rindo e caçoando dela, dos sentimentos dela.
‘Sua burra, eles riram de você, mais uma vez você foi o centro de todas as piadas.’
Como mesmo se faz para parar de chorar? Naquele momento ela não sabia, o choro parecia que tinha se anexado a ela como se fosse vital para sua vida, tal como respirar. Durante segundos, minutos, horas, assim foi, ela não sabia como parar de chorar, leu e releu tantas e tantas vezes aquela carta que bastava fechar os olhos e a via ali, perfeitamente a sua frente e então como um sopro de dignidade o choro parou ou talvez parou porque já não tinha mais nem lágrima para continuar. Afinal ela já não tinha mais nada, tudo tinha sido arrancado dela, toda sua dignidade, toda sua vida.
‘E agora? O que fará sua burra? Novamente vai se entregar a uma depressão? Depois vai esquecer de tudo e acaba se entregando a um outro homem que irá te enganar novamente? É isso? Ou pela primeira vez na vida deixará de ser burra e nunca mais vai deixar que te engane?’
‘Sim é isso que você vai fazer, vai deixar de ser burra, vai deixar de ser essa Betty burra e ingênua que mais parece uma cadela de tão fiel e adestrada. É isso, esse é o fim, essa carta matou a Betty e nesse momento você vai a enterrar, de agora em diante você será Beatriz. Nunca mais vão te pisar, nunca mais vão te usar e nem será mais conhecida como Betty a feia, não importa se terá que vender sua alma ao diabo, porque se preciso, você venderá.’
E foi com esse pensamento que Betty recolheu a carta e a guardou novamente dentro do envelope de papel pardo, colocou na bolsa e a lacrou novamente, aprendeu que embora popularmente chamem de caixa de pandora, na verdade ela vem em formato de bolsa, a bolsa de pandora. E após recolher suas próprias coisas ela saiu da empresa, obviamente levando consigo aquela bolsa.
Suas amigas a chamavam enquanto ela passava pelo corredor, porem ela passou sem responder a nenhuma, afinal chamavam por Betty e essa já não existia mais, agora era Beatriz, simplesmente.
Fale com o autor