Beatriz, Simplesmente
2 Capítulo l
Notas iniciais
Seu Hermes estava confortavelmente lendo seu jornal no sofá da sala quando a porta de sua casa abriu, ele estava ciente de que só poderia ser sua filha, afinal sua esposa estava na cozinha preparando um dos seus maravilhosos bolos de laranja.
“ – Filha, o que faz em casa tão cedo ? “ Seu Hermes conferiu as horas no relógio, eram pontualmente quinze horas e desde que Betty estava trabalhando na Ecomoda, jamais tinha chegado tão cedo assim em casa “ – Não vai me dizer que te demitiram? “ O velho homem perguntou preocupado, não era segredo que desde que ele tinha sido despedido de forma arbitraria e sem sua devida indenização, era Betty quem sustentava a casa e se ela ficasse sem emprego, eles ficariam em uma terrível crise financeira.
“ – Claro que não papai, aquela empresa não é capaz de andar sem mim “ Dona Julia que tinha acabado de chegar na sala e ouviu bem a resposta da filha se assustou, jamais Betty tinha dito algo assim, ela era sempre tímida e até mesmo era mais fácil se desvalorizar do que se hipervalorizar.
“ – Minha filha você está se sentindo bem? O que faz em casa tão cedo? Passou mal e por isso te deram o final da tarde de folga? – Dona Júlia perguntou preocupada, Betty nunca chegava em casa antes das vinte horas.
“ – Não mamãe, eu estou bem, apenas ganhei o resto do dia livre assim como uns dias de férias “
“ – Férias? Como férias se não completou ainda um ano de trabalho? “ Seu Hermes cada vez entendia menos o que estava passando.
“ – Pois acredite papai, ganhei férias, afinal ainda não fiz um ano de trabalho, porém trabalhei mais lá do que muita gente trabalhou estando lá a anos “ Novamente dona Julia se fez surpresa, aquela não era sua menininha, não mesmo. Seu Hermes ainda não sabia o que pensar, foi então que dando uma melhor olhada na filha ele viu a bolsa em sua mão, parecia um bolsa de presente.
“ – E que bolsa é essa? “
“ – Papeis, apenas papeis. Bom, eu vou subir e descansar “ Ela subiu antes que eles fizessem mais perguntas ou seu pai quisesse olhar o conteúdo da bolsa. Assim que entrou em seu quarto ela fechou a porta e trancou com chave, foi até a janela e a fechou, selando em seguida com a cortina e agora sim, sozinha ela voltou a chorar.
Não podia acreditar em quanto tinha sido forte, tinha conseguido sair da empresa, pegar um tâxi e entrar em sua casa como se nada tivesse ocorrido, como se não tivessem a matado, porém agora não, ela estava sozinha e poderia chorar novamente sua desgraça. Com todo o desgaste mental daquele dia ela acabou adormecendo sobre sua cama.
Como era lindo o mar. Aquele cenário mais parecia de um quadro a óleo. O mar azul claro emergia por todos os cantos que seus olhos alcançassem, grandes ondas se formavam e subiam com tanta força que criavam uma espuma branca no mar, as ondas morriam na areia. O sol brilhava ao centro, no mar pessoas surfavam, o corpo dos surfistas se movia de uma forma em cima da prancha que mais parecia uma dança. Seria possível tudo aquilo ser real?
Foi o que Beatriz se perguntou ao acordar, demorou um pouco para ela entender aonde estava e o que estava ocorrendo, sua mãe batia forte na porta de seu quarto.
“ – Já vou “ Ela se levantou da cama e abriu a porta.
“ – Minha filha, você está bem? Eu estou te chamando a um bom tempo, e por que trancou a porta? “
“ – Sim mamãe, eu estou bem, estava apenas dormindo e tranquei sem nem perceber “ Dona Julia sabia que era mentira, ela via no rosto da filha o quando sua menina sofria, mas ela deixou como estava, não ia perguntar coisas que sua filha não queria contar.
“ – Vamos jantar, seu pai já está a mesa “
Aquele dia estava tão estranho na casa dos Pinzón que nem Nicólas tinha aparecido para o jantar. Todos os três comiam calados, para os pais era angustiante, ambos estavam ciente de que algo ocorria por ali, já para Betty era reconfortante, com o silencio ela podia continuar pensando.
“ – Eu vou viajar “ Betty disse de uma hora para outra, seu Hermes parou com o copo ao ar, já Dona Julia apenas a olhava preocupada.
“ – E posso saber com a permissão de quem? “ Seu Hermes indagou.
“ – Papai, já não sou mais uma menina de quinze anos e nem tão pouco acabei de fazer dezoito. Já tenho vinte e cinco anos papai, não preciso permissão para viajar “ Aquilo tinha sido uma resposta mal criada? Sua filha tinha saído por aquela porta uma menina e voltado uma mulher, como era possível?
“ – Filha, aonde vai? “ Dona Júlia perguntou.
“- Para Cartagena mamãe e rogo que vocês não me impeçam, se não terei que me mudar daqui para poder viver com liberdade, como eu disse, já tenho vinte e cinco anos, não posso continuar vivendo como uma menina de doze “
O que os país podiam fazer? Betty estava determinada, eles nunca tinham passado por uma situação daquele tipo, mas bem verdade é que sabiam que uma hora sua filha cresceria e parece que tinha chegado essa hora.
Logo pela manhã Betty acordou e fez sua mala, colocou toda sua roupa dentro da mala e já desceu para tomar o desjejum com a mala pronta.
“ – Você continua insistindo nessa loucura de viajar? ‘’ Seu pai perguntou assim que a viu na sala com a mala na mão.
“ – Sim papai e pensei que esse assunto já estava mais que resolvido “
Seu pai tinha insistido muito para que ao menos ele a levasse ao aeroporto, mas ela se negou, disse que era melhor se despedirem em casa e após mil recomendações eles a deixaram ir. Na verdade ela não iria para o aeroporto, antes tinha que passar pela Ecomoda e falar com seu chefe, enfrentar aquele que tinha se tornado seu pesadelo.
Beatriz chegou na empresa e logo na recepção Aura Maria preocupada perguntou o que tinha acontecido para ela sair tão estranha no dia anterior, ela contou a mesma história que iria contar a seu chefe daqui a poucos minutos.
Quando ela entrou na presidência sentiu sua mão gelar, ela estava tensa, não sabia se ia conseguir enfrentar aquilo, porém não teria como fugir e acabou respirando fundo e entrando naquela sala que a partir daquele momento, era uma sala de tortura para ela.
Certamente se ela tivesse uma faca, naquele momento cravaria direto naquele seu traiçoeiro coração, como ele podia depois de tudo bater mais forte ao sentir o cheiro daquele homem? Coração ingrato! Armando logo se levantou quando a viu chegar, tinha ficado preocupado, as meninas do quartel falaram que Betty tinha saído como um zumbi no dia anterior.
“ – Betty, que bom que você está bem, o que aconteceu ontem? “
“ – Que pena com você doutor, mas ontem eu recebi uma ligação da minha mãe me informando que minha vó estava muito doentinha e acabei saindo sem pensar em nada “ Aparentemente ter convivido com um mentiroso tinha lá seu lado bom, ela tinha aprendido a mentir tão bem quanto ele. Nem se quer avó ela tinha, mas isso obviamente seu chefe não sabia.
“ – E como ela está agora? “
“ – Mal doutor, muito mal, eu gostaria que o senhor me desse uns dias de folga, para poder ir até Armero e passar os últimos dias ao lado de minha vózinha “ Ela sabia que ele não iria negar isso a ela, pelo que ela aprendeu com a carta, ele faria qualquer coisa que ela mandasse, assim se asseguraria que ela iria devolver sua empresa.
“ – É evidente que posso te dar quantos dias quiser, fique com sua avó o tempo que for necessário “ Ele disse de coração, porém para ela ele apenas agia assim pela empresa.
Armando tentou se aproximar para dar um abraço em Betty, quem sabe até um beijo, porém ela se esquivou.
“- Melhor não doutor, alguém pode entrar “ Betty tinha a fatídica bolsa na mão, sua bolsa de pandora, a mala ela tinha dado a uma Igreja, aquelas roupas não cabiam mais na nova Beatriz “- Doutor, isso é do senhor, como disse que era tão importante, achei melhor levar para casa e proteger da curiosidade alheia “
“ – Obriga Betty, você é um anjo “
“- Não faço mais do que minha obrigação doutor”
Beatriz saiu daquela sala com mistos sentimentos, se por um lado se sentia triste e morta, por outro se sentia forte e valente. Tinha se mantido de cabeça erguida todo o tempo, não tinha titubeado nem por um segundo. Definitivamente, ela era uma super mulher. Decidida a enterrar de vez Betty, a feia, ela foi até seu dentista, não importava o que ele falasse, ela resolveu tirar o aparelho e pronto.
Por sorte quando ele fez os testes, descobriu que o tratamento estava terminado e ela poderia tirar o aparelho. Após quase duas horas naquela cadeira ela enfim tinha os dentes livres, discretamente ela foi até o banheiro e sorriu para aquele amplo espelho, anos com aquele sorriso metálico tinha dado resultado, agora seus dentes além de brancos, eram alinhados, todos juntinhos. Realmente tinha ganhado um sorriso lindo, o próximo passo foi ir até um salão de beleza, precisava mudar aquele cabelo, tinha decidido chegar em Cartagena como Beatriz e não mais Betty.
Assim que ela entrou no salão um homem bastante afeminado veio até ela e deu gritos de terror, dizendo que aquele cabelo estava fora de moda, melhor, que aquele cabelo nunca esteve na moda. Beatriz riu, aquele homem era realmente engraçado, ela deixou ele fazer o que queria com o cabelo dela, e depois de longas horas ela se viu com um precioso cabelo, ela não tinha ideia que seu cabelo era tão grande assim, porém ele era grande e estava liso e brilhante, lindo. Após o cabelo o próprio homem fez sua sobrancelha, buço e a maquiou. Ela não podia acreditar na imagem que aquele espelho refletia, estava linda, melhor estava bela, deslumbrante. Saiu daquele salão e sem andar muito entrou em uma ótica ali perto, graduaram seu grau e ela mandou lhe fazerem lentes de contato, nada mais de óculos, agora seu belo rosto ficaria totalmente exposto. A ótica mandou ela voltar dentro de poucas horas e assim ela usou o tempo para comprar roupas.
Nunca antes na vida ela tinha usado uma calça jeans, porém aquilo parecia ter sido desenhado pelos deuses, fazia seu corpo parecer tão perfeito. E aquela blusa de algodão que se colava sobre seu delgado abdômen e contornava formosamente seus seios também parecia ter sido uma obra de arte. Ela estava feliz com a imagem que via nos espelhos. Acabou levando meia dúzia de calça jeans e uma dúzia de blusas de manga. Tudo passado sem problema no cheque da Terra Moda.
Após voltar a ótica e pegar sua lente, ela sabia que tinha se convertido em uma total estrangeira naquela cidade, na sua cidade, jamais alguém lhe reconheceria. Talvez apenas sua mãe.
Trinta dias depois
Uma Harley-Davidson modelo atual estacionava na porta da Ecomoda, a moto cor preta com detalhes cromados em prata chamava a atenção, não precisava ser um expert em motos para saber que aquela se tratava de um excelente modelo. Wilson se aproximou para admirar mais de perto aquela maquina, porém o que ele viu o fez parar, o condutor do veículos tirou o capacete vermelho e então ele pode ver que se tratava de uma mulher, e que mulher? Foi como em um filme, ao tirar o capacete os longos e negros cabelos dela caíram perfeitamente sobre seu ombro e costa, em seguida ela se levantou da moto e ele pode olhar seu corpo, parecia que tinha sido esculpido. A mulher vestia uma calça jeans escura, e uma blusa negra de algodão colada ao corpo, toda sua roupa era feita para mostrar suas perfeitas curvas.
Não era apenas Wilson que olhava de boca aberta àquela mulher, Mario e Armando que vinham caminhando também pararam para contemplar tal cena.
“- Meu irmão, você está vendo isso? Que espetáculo, é uma 90-60-90 com personalidade e gás “ Mario disse.
“ – Com essa mulher eu caso e juro fidelidade na frente de um padre “ Armando disse hipnotizado por aquela bela mulher.
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