Beati Bellicosi

3 ☾ Scott do petshop ☽


Eu me enchi de coragem e bati na porta, eu estava o mais adolescente possível tendo em vista que eu já tinha terminado a escola, mas se Nina Dobrev podia interpretar uma adolescente eu podia também. Alguns segundos de espera, ainda a tarde com um sol bem forte, eu bati a pontinha das minhas botas no chão enquanto esperava que alguém abrisse a porta para mim, olhei para trás, onde Kylo, meu cachorro estava com a cabeça pra fora da janela tentando pegar alguma coisa na base da mordida, torci pra que não fosse uma abelha.

Tinha me vestido casualmente, calça comprida preta e uma blusa com florezinhas cor de rosa, que na minha opinião me deixavam adorável e totalmente camuflava o fato que eu tinha uma armadilha de caça, um par de Sai e uma caixa cheia de wolfsbane dentro do meu carro e pretendia pegar um adolescente que também era um lobisomem com problemas de raiva quando a lua aparecesse no céu. Nada novo sob o sol.

Alguns segundo depois uma mulher abriu a porta, os cabelos loiros cortados na altura dos ombros que de alguma forma combinava com as suas calças cáqui, blusinha florida, casaquinho cor de rosa e sapatos confortáveis. Na sua mão havia uma taça de vinho branco e parecia que não era a primeira do dia, ela tentou sorrir o que, sinceramente foi pior. Ela era uma mãezona do subúrbio.

―Oi, eu sou a Kayla da escola, eu sou a parceira do Tom em biologia, e ele não apareceu hoje na escola e o nosso projeto de ciências é pra daqui a duas semanas, meus livros ainda não chegaram porque eu acabei de me mudar de Spokane e os livros de lá eram diferentes, ele está em casa?

A mulher me avaliou dos pés a cabeça, como se tentasse analisar se eu realmente era uma adolescente, e de Spokane. Ela olhou para trás, vendo kylo latir para o vento e voltou a olhar pra mim.

―Ele não apareceu na escola? ― perguntou, sua voz num tom chocado ― ele é um garoto tão bom.

―Sim, ele é tão legal, isso que eu achei estranho. ― repeti ― E eu estou realmente preocupada sobre o trabalho, ele está aqui?

―Ele ainda não está em casa.

―Nossa, que droga ― me esforcei a minha maior cara de “meu deus eu vou reprovar em biologia”.

―Você pode subir, e pegar o livro se quiser.

―Sério? Isso não seria muito incômodo? Eu to tão envergonhada de fazer isso, vir aqui, meio stalker, mas eu realmente preciso.

―Tudo bem querida ― ela respondeu, dando espaço pra que eu passasse pelo vão da porta, e assim eu fiz ― o quarto dele é o segundo a esquerda, pegue o que precisar.

Agradeci, e subi a escada.

A casa era bem grande, repleta de fotos de família, Thomas aparentemente tinha duas irmãs mais novas, loirinhas de olhos castanhos escuros e do lado delas sempre havia um garoto mais velho, o cabelo dele não era tão claro quanto os das irmãs e da mãe, era mais próximo do marrom, como cor de aveia ou outra coisa mais escura, tinha olhos escuros e certamente não parecia que tinha problemas com raiva, parecia uma pessoa completamente normal.

O quarto dele era uma bagunça enorme, roupas jogadas para todos os lados o laptop desligado sobre a mesa e completamente azul com detalhes marrons, talvez para exemplificar que de toda a família ele era o único garoto. Eu me agachei, pegando uma camiseta e levando até o nariz, cheirava a algum perfume masculino com sândalo que na verdade era bem gostoso e suor, esperava que desse pra kylo pegar o cheiro dele para quando fosse mais tarde e coloquei dentro da minha bolsa o mais discretamente possível, e investiguei para pegar o livro de biologia e sai do quarto, voltando pela escada, onde a mãe dele estava me esperando no final dos degraus, eu sorri e mostrei o livro e a mulher sorriu de volta, o seu rosto.

―Eu achei o livro, vou pra casa dar início ao nosso trabalho ― disse a ela, a moça esticou as suas mãos, tocando as minhas levemente, deixando toda a situação muito estranha porque os olhos dela estavam umedecidos, meio lacrimejantes.― Aconteceu alguma coisa?

―Eu só fiquei preocupada com o meu Tommy ― ela disse ― Mas fico feliz que ele tenha amigas boas como você.

―Obrigada ― eu respondi, me sentindo um lixo humano, ou um lixo de peeira porque eu não tinha muita certeza dessa parte de humanidade, criaturas sobrenaturais e tudo mais, mas o importante é que eu me senti mal por ter mentido pra ela, não só que eu conhecia o filho dela quando na verdade eu nunca tinha visto, como também por que eu iria meio que caçar ele com wolfsbane quando a lua saísse. Caçar por uma boa causa, mas ainda sim caçar. ―Tom é muito legal, foi o primeiro amigo que eu fiz aqui.

―Estou feliz que ele tenha amigos! Apareça mais vezes, venha tomar com a gente um sorbet de vinho branco! ― Ela ofereceu enquanto eu ia em direção a porta para ir embora.

―Eu não tenho idade pra beber ― respondi, paradinha esperando que ela abrisse a porta pra eu sair rapidinho dessa situação constrangedora.

―Não se preocupe com isso ― ela disse, fazendo pouco caso e abrindo a bendita porta ― Eu não sou uma mãe careta, eu sei o que as crianças fazem nos dias de hoje, eu sou uma mãe legal.

―Okay então, eu vou indo, até mais! ― e tratei de sair rapidinho do local, indo até o carro e dando ignição e saindo de lá, já alguns quilômetros mais a frente, saindo da vizinhança ainda admirando a minha bela estratégia de bancar a estudante, e sinceramente era muito bom pra minha auto estima saber que eu ainda podia passar por ter dezesseis anos. Quando eu estava suficientemente longe da casa dele, eu parei o carro, estacionando no meio fio e puxando a camiseta que eu havia pego e dando uma olhada nela, completamente preta com o nome DOTA escrito, de todos os garotos no mundo que poderiam virar lobisomens tinha que ser um nerd.

Chamei o meu cachorro, fazendo com que ele cheirasse a camiseta para pegar o cheiro, já que de inúmeras habilidades que eu poderia ter desenvolvido ou poderia ter vindo no pacote de esquisita sobrenatural, junto com superforça, fator cura, quem sabe umas garras do metal mais resistente do mundo, pegar cheiro e poder seguir não tinha sido umas das coisas legais que eu tinha. Kylo ficou agitado, provavelmente o cheiro de cachorro familiar a ele.

―Garoto bonzinho, vamos achar um amiguinho pra você mais tarde, na lua cheia ― eu disse, com a minha típica voz de bebê que mesmo contra a minha vontade sempre saia quando eu me referia a Kylo. Dentro da minha bolsa, peguei uma das comidinhas de cachorro que eu sempre mantinha pra quando eu saísse por muito tempo e levasse kylo comigo. Coloquei a coleira nele, e fui a caça mais uma vez. ― Você sabe o que fazer pra conseguir um desses.

Já fora do carro, Kylo começou a me guiar pelas ruas que eu não conhecia, até uma parte da cidade meio deserta, onde provavelmente deveria ser onde hipsters tomavam seu café de soja com açúcar de cana. E numa dessas lojinhas hipsters, Kylo me guiou até uma loja de quadrinhos, onde pelas janelas de vidros mal abertas eu podia ver um garoto escavando pelos quadrinhos com óculos grossos de leitura, uma blusa que apesar da distancia eu tinha 89,7% de certeza que era da nasa, jeans e tênis normais. Não parecia em nada um potencial lobisomem, só um nerdizinho aleatório que eu provavelmente nunca teria notado. Kylo latiu, como um lindo cachorro que ele é indicando que “sim mamãe, eu encontrei o alvo, agora me dê a carne seca pra eu comer” e um segundo antes dele virar, eu me abaixei, dando a carne seca pro meu lindo animal e consequentemente me escondendo.

O garoto não pareceu me perceber, só continuou olhando as suas revistinhas até eu me cansar de ficar olhando do lado de fora como uma psicopata e sair de lá, pedindo um café de soja e calda de musgo verde africano que apesar do nome, não era tão ruim quanto parecia, mas ainda assim era bem ruim. Muito a beira de ser nojento.

Até o garoto sair da loja, parecendo puto da vida, e já eram quase anoitecer, eu o acompanhei, parecendo só mais uma garota estranha sonhando com um hambúrguer cheio de bacon e queijo com uma coca gigante mais queijo, tipo muito queijo. Mas infelizmente eu não podia parar em qualquer lugar, eu tinha trabalho a fazer. Tom, aparentemente não estava muito afim de ir para casa, e sinceramente com a cool mom dele eu não estou culpando e julgando.

Por um segundo eu achei que ele deveria ter percebido que eu estava seguindo ele, então peguei o meu carro e comecei a dar voltar, sempre mantendo os meus olhos nele, até que um certo ponto, quando o sol havia se posto completamente ele tinha subido em direção a floresta, e com muita maestria eu coloquei a minha roupa de garotinha para as minhas roupas de ginástica, escondido a minha wolfsbane e uns band aids na bolsinha que eu carregava meu celular e fingido que era apenas mais uma correndo pela floresta a noite. Como toda pessoa normal.

Como Kylo ainda estava com a coleira, e por via das dúvidas eu dei a camisa pra kylo cheirar mais uma vez, antes de ir em direção a floresta. A floresta começava a escurecer, e tudo parecia sombriamente estranho, como se uma neblina cobrisse tudo por lá. O meu celular começou a tocar, durante a minha caminhada e eu deixei ir pra caixa postal duas vezes, antes de finalmente de dar por vencida e atender, vendo no visor um número que eu não conhecia. Mesmo estando desconfiada, de quem estaria me ligando uma hora dessas eu atendi.

―Alô? ― a linha que antes estava muda foi preenchida por uma voz estranha, levemente abafada.

―Oi, Adelaide não é? ― a voz disse do outro lado.

―Desde que você me ligou, deve-se supor que você saiba pelo menos quem eu sou.

―É Scott, do pet shop. ― eu parei de andar, okay, respira e mantenha o tom.