Batman - Um Sonho De Aniversário
1 Um Sonho de Aniversário - Parte 1
Notas iniciais
Uma noite fria e traiçoeira... Madrugada gelada, ossos doendo por dentro e dentes rangendo, espremidos demais entre as mandíbulas contraídas e nervosas para que pudessem bater. O ar denso, carregado com a névoa cinzenta do cais, fedia a cachorro-quente estragado e mostarda envelhecida. Barriga roncava teimosamente, mas eu mantinha tudo sob controle por causa do meu treinamento no Tibet.
“Nada que eu já não tenha enfrentado antes”, pensei.
Era meu aniversário. Acho que era, estava meio confuso. Porém, se fosse, não o comemoraria. É uma perda de tempo. Enquanto isso, algum arqui-vilão maldoso meu pode estar roubando um pirulito de uma criança e eu comendo vários bombons de chocolate.
De cócoras sobre o gárgula da catedral amarela e imponente da cidade, observava os poucos barcos hipnotizantes que vinham e iam, iam e vinham, vinham e iam...
Se não tivesse amarrado a batcorda na cintura, já teria caído no sono e virado omelete lá embaixo. Não iam nem poder reconhecer o corpo e ligar tudo ao Bruce Wayne, formando o maior bafafá no noticiário do horário nobre da TV Gotham News, e um alvoroço na Wayne Enterprises... Mas a batcorda estava bem firme e me garantiu.
Quando parecia que seria mais uma típica noite pacata, todo encolhido, enrolado na capa e abraçado aos meus joelhos, escuto um grito de uma voz fina pelo meu flanco esquerdo:
– Oi, moço.
Graças aos meus reflexos apurados e à agilidade de acrobata olímpico, imediatamente ericei os pelos da nuca, esbravejei uma palavra de baixíssimo calão que nunca usava desde o dia em que o Alfred usou aguarrás pra lustrar o batmóvel, desenganchei a corda do meu cinto de utilidades e dei um duplo mortal carpado pra trás, aterrissando em frente do ser que me chamara, com a posição “pode-vir-treta-mãozinha-Matrix” pronto para o combate.
– Do que o senhor está brincando?
Para minha surpresa e eterna estupefação, bem diante dos meus olhos, encontrava-se uma menina de, no máximo, uns 8 anos, abraçada a seu felpudo ursinho de pelúcia identificado por uma etiqueta com a inscrição: Todd.
Não me lembro exatamente o que a garotinha começou a tagarelar, pois só consegui esticar os braços para frente para afastar a criança, apoderar-me do tal brinquedo, seguir andando e esquecer totalmente da existência da menininha.
“Todd”.
Alguém estava de sacanagem comigo. Não apenas pelo fato de ser um desrespeito à memória do Robin, mas também porque eu tenho uma reputação a zelar.
Decidi, a partir daquele momento, que iria até o fim naquela investigação. Mesmo sendo apenas uma pista bem fraca e superficial, não pude conter o sentimento de empolgação que brotava dentro do meu peito. Enfim, um caso para resolver!
Para poder pensar em tudo com calma, decidi voltar para minha mansão de busão, porque assim poderia analisar bem as evidências, além de coletar mais pistas. Tive que esperar umas três conduções passarem direto por mim, até que uma que tinha aparência velha e, mesmo com poucos, tinha passageiros com aspecto arrogante parasse para eu saltar dentro dela.
Ninguém foi idiota de mexer comigo, porque eles sabem que com o Batman o bicho pega. E, além disso, como eu estava absorto em devaneios com a evidência de pelúcia em minhas mãos, isso deve tê-los assustado um pouco também. Tanto faz.
As coisas começaram a ficar estranhas quando me preparava para descer do ônibus em frente à imponente Mansão e me virei pra dar tchau, boa noite e obrigado ao motorista.
Tive a ligeira impressão de que o motorista era a cara do Edward E. Nigma, vulgo o Charada, um dos meus arqui-inimigos mais cafonas e irritantes de se lidar. Não apenas pela máscara verde cobrindo os olhos ou pelo uniforme, este também de cor esverdeada, de motorista repleto de pontos de interrogações. Mas o que mais me fez desconfiar disso foi que, ao se despedir de mim, ele perguntou:
– O que é magro, chove pela manhã e come capim todas as terças-feiras?
Nunca consegui decifrar isso.
Bom, continuei o trajeto.
Quando cheguei à Mansão Wayne, já estranhei logo de cara que o portão estava entreaberto e a placa de “Aviso! Propriedade privada. Cuidado! Morcegos bravos”, havia sido removida e jogada de qualquer jeito sobre o jardim. Só aquilo já me deixou enervado o suficiente para começar a maquinar um castigo memorável para aplicar no Alfred, e que o faria pensar duas vezes antes de me enfurecer novamente.
Esbaforido, abri a porta da Mansão e, lá dentro, estava um breu.
Muito dark e escuro e sombrio. Como meus filmes feito pelo estrelinha (mas bom diretor) Christopher Nolan.
Fiquei tenso.
Assim que meus olhos começaram a se acostumar com a escuridão, pude enxergar uns vultos se movendo aleatoriamente e agachados, se escondendo atrás das mobílias e relíquias da minha família.
Confesso que, naquele momento, fiquei um pouco encagaçado e cogitei dar no pé pra ligar pro Comissário Gordon. Mas, ainda bem que não fiz isso.
Ainda bem.
Porque, assim que liguei o interruptor, algo difícil de explicar, simplesmente o inimaginável, o inominável, aconteceu:
– SURPRESA!
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