Bandeira Erguida
1 Sou Eu
Notas iniciais
Giovanna se sentia muito feliz. Aquele momento era só dela e por isso decidiu ir sozinha à Parada LGBT. Fazia dois anos que havia iniciado a transição e agora sua aparência estava muito mais condizente com quem ela era. Uma mulher, sempre foi uma mulher. Não importava o tanto que seus pais lhe diziam o contrário, apenas ela poderia sentir os próprios sentimentos.
Foram dois anos difíceis desde que ela começou todo o processo de transição do corpo. Seus pais não a aceitavam. Quando comunicou a eles de sua condição e a mudança que faria para adequar seu corpo à sua mente, foi expulsa de casa. A única que a amparou foi sua tia Joelma. Era imensamente grata por tudo que a tia fez por ti, enfrentando a família para defende-la e, consequentemente, afastando-se dos parentes. Joelma se tornou uma verdadeira mãe para Giovanna e a menina faria tudo por ela.
Ainda na Parada, a menina resolve abrir o Tinder para descolar algum contratinho. Sendo bissexual, ela passa as fotos de homens e mulheres e dá match em alguns. Uma mensagem de um garoto chega, o seu nome era Saulo. Os dois marcam de se encontrar em trinta minutos.
Giovanna aproveita aquela festa e dança até cansar os pés. Quinze minutos depois, resolve ir para o barzinho que havia marcado com Saulo. O bar não era longe, mas a multidão dificultava a caminhada. Quando chegou ao bar, estava cinco minutos atrasada.
Avistou Saulo, que era igual a foto pessoalmente, sentado numa mesa no centro do bar e fui até ele. Percebeu que ele não havia lhe reconhecido de primeira, então se apresentou. Saulo abriu um sorriso forçado e a menina se sentou.
— E então, veio pra Parada sozinho? – perguntou a menina puxando assunto.
— Não, vim com uns amigos. A gente sabe que um monte de mulher de verdade vem pra essas coisas. Mas se uma lésbica der mole, a gente pega também. – Giovanna se sentiu extremante desconfortável com aquela resposta. – E você é mulher mesmo?
— Eu preciso ir. – ela se levantou e antes de sair do bar, virou-se para Saulo – Você é um escroto, sabia? – o homem deu de ombros com um sorriso no rosto.
Giovanna saiu daquele bar decepcionada. Queria que tivesse sido a primeira ou última vez que algo assim acontecesse, mas infelizmente ela sabia que não seria. Sem falar que aquele tipo era muito babaca em muitos sentidos. Pelo menos ele não chegou ao ponto de insulta-la, como já aconteceu uma vez antes.
Ao sair com um rapaz que conheceu por meio de um aplicativo de encontros, o homem ficava lhe encarando com uma expressão estranha o tempo todo. Quando perguntou se Giovanna era uma transexual e ela confirmou, o rapaz ficou transtornado e disse que ela havia o enganado, xingando Gio de vários nomes e fazendo um escândalo em local público que a garota nunca esqueceu.
Ao chegar em casa, a garota foi até a cozinha. Deu um beijo na bochecha de Joelma, e pegou um pão que estava na mesa para comer.
— Como foi essa Parada? – perguntou a tia que estava sentada numa cadeira, fazendo crochê.
— Começou ótima e terminou ruim.
— O que aconteceu, querida?
— Nada importante. Não vou deixar que isso me entristeça. Acho que já vou dormir. Boa noite, tia.
— Boa noite, durma com os anjos.
A garota foi para o seu quarto. Vivia sozinha com a tia que era separada e o único filho vivia numa outra cidade por contas dos estudos. Não demorou para que Gio pegasse no sono.
Alguns dias após a Parada, Giovanna estava lendo um livro na biblioteca da faculdade. Quando baixou o livro por um momento, percebeu o olhar de uma menina sobre si. E a menina nem disfarçou, continuou olhando e abriu um sorriso. Levantou e veio em sua direção, sentando-se ao lado.
— Olá. – disse a menina com um sorriso que fazia parecer que elas já eram íntimas. – Prazer, Carolina. Mas eu gosto que me chamem de Carol.
— Giovanna. Eu posso te ajudar em alguma coisa?
— Na verdade, eu só estava entediada e precisava conversar com alguém. Sei que parece estranho, mas não consigo ficar sem comunicar com outra pessoa por muito tempo.
— Tudo bem.
Gio ainda não havia entendido o que a menina queria, mas conversaram um pouco. Falaram sobre o curso que faziam: Giovanna cursava Turismo e Carol fazia Teatro. Gio inventou uma desculpa de que precisava ir para poder se livrar da outra menina. A conversa estava até legal, mas não fazia ideia do que ela queria, então o melhor era se afastar. Essa era uma espécie de defesa para evitar futuras mágoas.
Quando reviu Carol, fazia umas duas semanas desde o encontro na biblioteca. Ela a abraçou como se fossem amigas há anos.
— Então, tem essa festa na sexta na casa de uma amiga. Você me passa seu número e eu te mando o endereço. Vai ser muito boa, eu prometo. E aí, vamos poder conversar e colocar a conversa em dia.
— Não sei se estou livre na sexta.
— Dá um jeito, por favor. – ela me passou seu celular e eu salvei meu número. — Agora eu preciso correr pra aula porque já estou atrasada. – Carol se despediu com um abraço rápido e um beijo na bochecha.
Na sexta, lá estava Giovanna, pronta em frente ao espelho e com o estômago borbulhando. Ela se sentia atraída pela outra garota e pensava que talvez fosse recíproco, dado que duas conversas muito pouco pra convidar alguém pra uma festa.
As meninas passaram a conversar com certa frequência pelo Whatsapp. As conversas eram recheadas de risadas e Gio até mesmo lhe contou a sua história. Nesse dia, Carol havia chorado e dito algo sobre como a sociedade era um lixo e o mundo deveria acabar logo.
Na festa, Giovanna avistou Carol na entrada lhe esperando. Carol estava tão linda. Usava um vestido vermelho que parecia ter o propósito de deixar Gio louca. Conversaram um pouco e foram pegar uma bebida. Gio encontrou um povo que conhecia da faculdade e Carol também encontrou alguns amigos.
Quase no fim da festa, com muita gente bêbada e outras desmaiadas pelos cantos, Giovanna ainda tinha pique para dançar ao som da música. Carol apareceu depois de uns minutos sumida e passou a acompanhar a amiga na dança.
— Bêbada? – perguntou Gio dançando ao som de Poker Face.
— Um pouco tonta. E você? – retribuiu Carol.
— Com certeza precisarei de uma carona pra voltar pra casa.
— Eu vou dormir aqui. Você pode ficar também.
— Não sei se deveria.
— Okay. Faça o quer fazer.
Giovanna tomou a iniciativa e puxou Carol para um beijo. A menina primeiro retribuiu, mas acabou se afastando após parecer recobrar a consciência.
— Eu sou hétero. – disse Carol, mas no instante seguinte voltou a beijar Giovanna.
As duas ficaram um bom tempo se beijando até a hora que não aguentaram mais de cansaço e foram dormir.
A partir desse dia, Giovanna e Carolina ficaram ainda mais amigas. Em praticamente todas as festas em que iam acabavam ficando. Mas apesar disso, elas não iniciaram um relacionamento. São apenas duas garotas livres que se curtem quando querem. Uma apimentada amizade colorida.
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