Bandeira Erguida

2 O homem que amei


Notas iniciais
Prontos para conhecer o Ariel? Boa leitura!

Ariel tenta se manter animado diante de todas aquelas pessoas eufóricas, cantando ao som de uma música conhecida. Aquele ambiente estava lhe causando náuseas, mas ele havia prometido aos amigos que não faltaria aquela Parada LGBT. E como já havia furado outras saídas, dessa ele não poderia se livrar.

O professor de 52 anos comunica aos amigos que vai comprar uma bebida e usa desse pretexto para se afastar um pouco daquele aglomerado. O calor estava insuportável. Ele para em um lugar menos movimento e compra uma água. Sua mente lhe leva para anos atrás, mais especificamente na primeira Parada do orgulho LGBT em Copacabana no ano de 1995.

Inevitavelmente, lembrou do seu falecido marido, Wesley. Apesar de já terem se passado 7 anos desde sua morte, causada pela AIDS, Wesley ainda fazia parte de sua vida. Como superar um amor que exigiu tantas lutas e sacrifícios e durou tanto tempo? O casal ficou junto por 17 anos.

Após uma enxurrada de lembranças, Ariel voltou ao encontro de seus amigos e lhes avisou que precisava ir, pois não se sentia bem. O professor universitário aproveitou o resto do dia para adiantar um cronograma de suas futuras aulas, já que um novo período começaria em breve.

Na terça, ele tem a primeira aula de História da Arte do novo período. A aula é mais uma apresentação de como se dará a disciplina e os métodos de avaliação dos alunos. Ariel pede para que cada um se apresente e dê um exemplo de arte com que tem afinidade. No meio das apresentações, um garoto abre a porta da sala. Pelo seu estado ofegante, é notável que havia corrido para chegar à sala.

— Desculpa o atraso. – diz o jovem negro, os cachos molhados e suor correndo pelo seu rosto.

Ariel presta atenção nele até que o mesmo vai se sentar junto aos colegas. As apresentações continuam e o menino atrasado acaba por último.

— Olá, meu nome é Vinícius e eu curso o quarto período de Design. Eu estou animado com essa matéria porque as várias manifestações de arte é algo que eu gostaria de aprender e usar em meu trabalho. Eu sou apaixonado por esse campo e quanto mais conhecimento eu puder ter, melhor.

Após Ariel dar as instruções finais sobre a matéria e liberar a turma, Vinícius continua na sala e se aproxima do professor que está arrumando sua pasta.

— Eu sinto muito mesmo por ter chegado atrasado. Acabei atrapalhando a aula né? – fala o aluno com uma feição preocupada.

— Não tem problema. Você parece ter tido um imprevisto.

— Eu prometo que isso não acontecerá mais professor. Se soubesse o quanto estou animado com a disciplina.

— Espero que seja como diz. Se me der licença, preciso ir agora.

— Tudo bem, eu te acompanho.

— Estou indo para a sala dos professores. Alunos não podem entrar lá.

— Vou com você até a porta. Preciso resolver umas paradas que fique perto da sala dos professores.

Ariel estranhou as alegações de Vinícius, mas decidiu ignorar. Na pior das hipóteses, o garoto estava dando em cima dele para conseguir uma boa nota futuramente, porém ele não cairia nessa. Não mesmo!

Ao final das aulas seguintes, Vinícius tomava um tempo de Ariel para discutir os assuntos tratados em sala e as conversas ultrapassavam o universo acadêmico. Eles acabaram criando uma intimidade e falavam sobre seus gostos pessoais, sobre filmes recém-lançados, os museus da cidade.

Vinícius não era apenas um aluno. E Ariel não podia negar que se sentia atraído pela sua beleza. Mas haviam tantas dificuldades para uma possível relação entre eles. Ariel era professor de Vinícius e 30 anos mais velho que ele. Ele não acreditava mais que o aluno poderia estar tentando uma relação com ele por nota, como no início. De uma maneira que nem ele mesmo entendia, conseguia decifrar coisas sobre Vini que talvez o próprio não soubesse.

Porém, o pior dos fatores contra esse relacionamento certamente era o fato de que ele nunca havia se envolvido sério com ninguém após Wesley. E entrar nessa conturbação só lhe faria mal.

Ariel estava disposto a usar todas as suas forças contra isso, mas Vinícius começou a investir mais explicitamente no professor. Certo dia, os dois conversavam sobre um livre e Ariel comentou que tinha um exemplar. O garoto sugeriu ir pegar na casa do professor e o mesmo concordou num momento de fraqueza, já imaginando o que poderia acontecer.

— Eu nem sei a quanto tempo estou querendo comprar esse livro. Está em falta nas livrarias daqui e eu não queria comprar pela internet, pois fico muito ansioso esperando chegar e isso acaba me atrapalhando. Chego até a ficar sem dormir.

— Você é muito sentimental, Vinícius. Precisa tomar cuidado com o coração.

— Meu coração? Ih, ele vem sendo judiado ultimamente.

— Ah, é mesmo? E por que?

— Por quem seria a pergunta correta. E você deve saber a resposta.

— É algum colega da turma?

— Somos tão próximos que é como se fosse. Mas não. Não mesmo.

O livro foi completamente esquecido assim que os dois entraram na casa de Ariel e Vinícius lhe puxou para um beijão. Fazia muito tempo que o mais velho não era beijado daquela forma. O desejo era explícito de ambas as partes. Era uma mistura absurda de sentimentos e logo os homens começaram a se despir, ainda se beijando de maneira selvagem.

Vinícius sabia o que queria e não tardou a tentar provocar o máximo de prazer a Ariel. O sexo oral levou o professor a se esquecer até do próprio nome por um momento. Quando decidiram partir para a penetração, Ariel lembrou que não havia camisinha na casa, mas Vini estava pronto. A única coisa que faltou foi o lubrificante, mas o professor tentou contornar esse detalhe ao máximo, lambendo a entrada do mais novo com vontade e fazendo o mesmo revirar os olhos já em cima da cama de casal no quarto de Ariel.

E depois de momentos extremamente prazerosos, ambos acabaram ofegantes em meios aos lençóis da cama do professor.

— Isso que fizemos não pode se repetir. Falo sério, Vinícius. – disse Ariel quebrando o clima.

— Se você diz. – respondeu um convencido Vinícius.

E ele tinha razão em estar convencido. Usando de sua melhor arma, o conhecimento de arte aplicado a sedução, sempre acabava levando o professor no papo e conseguia mais e mais noites de sexo e carícias. Os dois já até tinham algumas manias que os fariam ser confundidos por um casal, mas Ariel sempre parecia muito fechado quando o assunto namoro vinha à tona.

Aquele período de aulas acaba e Vinícius decidiu dar um ultimato a Ariel sobre a história dos dois. Agora não eram mais professor e aluno e a única coisa que dificultava aquele relacionamento era o mais velho.

— Você precisa decidir de uma vez o que somos, Ariel. Eu gosto muito de você. Estou apaixonado e já te disse várias vezes. Me engano ao pensar que sente o mesmo?

— Sabe que não.

— E então por que não me assume? Por que não nos tornamos namorados de verdade? Você não pode me oferecer isso?

— Eu não sei, Vinícius. Eu queria que as coisas fossem mais simples, mas pra mim não é.

— É sobre o seu ex-marido? Você sabe que pode me contar sobre ele. Eu não tenho problemas com isso. Seria até meio louco da minha parte me sentir com ciúmes dele.

— Às vezes eu acho que nunca deixei o Wesley ir completamente. Sempre me agarrei a uma parte dele pra não me sentir sozinho. E agora essa parte parece que se integrou a mim. Não espero que você entenda, porque acho que só se vivesse nossa história, você conseguiria entender.

— O Wesley sempre será parte da sua vida. Eu estou de boas com isso. Seria indelicado pedir pra que você o esquecesse sabendo o quanto você o amou e continua amando. Mas o que eu quero saber é se há espaço pra mim também.

— Sinto que se eu ficar com você, estarei traindo ele.

— Você acha que ele seria contra você recomeçar a sua vida com outra pessoa?

— Não.

— E então?

Ariel começou a chorar e foi acolhido nos braços de Vinícius. Um choro pela perda. Pela chance de um recomeço. E Ariel entendeu que precisava daquilo. Precisava conhecer Vinícius. Precisava recomeçar a viver. Tudo o que ele viveu nos anos depois de Wesley lhe deixar poderiam ser facilmente apagados, pois sua vida foi vazia.

Mas agora ele tinha alguém para alegrar seus dias. Para lhe devolver a esperança e os sonhos. Era um amor jovem, selvagem, livre. Uma luz parecia irradiar por dentro de Ariel e, consequentemente, de Vinícius.

Sem mais amarras e se sentindo livre para recomeçar, Ariel aceita os sentimentos de Vinícius e os dois começam um namoro, com direito a apresentação para os amigos cordialmente e tudo.

Meses se passam. Os dois agora estão na Parada LGBT 2018 de São Paulo, aproveitando o evento juntos. Eles dão a mão e começam a pular ao ritmo de uma música animada. Olham um para o outro e se reconhecem nesse olhar. Por fim, trocam um beijo apaixonado, enquanto nas mãos é possível ver as alianças de noivado.

Notas finais
E aí? O que acharam? Amanhã tem o último conto e conheceremos a louca da Bárbara. Até mais!
Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.