Bandana Vermelha

1 A Luta com Touro


Os gritos eram ouvidos mesmo metros abaixo na sala de preparação. Asara Sunago envolvia os nós dos dedos e a palma da mão em suas faixas de proteção, como um ritual sagrado que sempre fazia antes de qualquer luta. Respirou fundo e olhou para um fragmento de espelho preso a parede. A luz das velas deixavam sua pele mais morena e seus cabelos negros e curtos pareciam ruivos e rebeldes.

— Asara? — Tayton surgiu na entrada do recinto. Ele usava apenas calças de combate e o suor do seu corpo já dizia que sua luta havia terminado. — Está pronta? Estão todos querendo te ver.

— Estou, claro — ela disse, dando uma última olhada antes de se virar e encará-lo. — Já sabe quem vou ter que enfrentar?

— Não, estão mantendo em segredo dessa vez.

— Por quê?

— Querem fazer algo especial para o último torneio desse ano. Ainda mais com você sendo o grande final.

— Não diga isso. Já não basta os loucos que vêm ver a luta — ela disse, sorrindo um pouco. Mesmo recusando os diversos elogios que recebia, lá no fundo ela gostava. Aquilo era algo que havia se tornado, algo que antes não era nada mas que havia se tornado boa. — Vamos, tenho uma luta para vencer.

Tayton sorriu e fez um gesto para que a garota subisse as escadas que levariam ao ringue. Subir os degraus era sempre um desafio, pois já havia uma luta acontecendo dentro de si. O seu coração batendo forte, sua mente repassando movimentos que poderia fazer, sua respiração indo e voltando ao normal. Tinha que estabilizar tudo antes de pisar lá fora. Ainda era difícil, mesmo depois de tantas outras vezes.

Faltando apenas uma curva nas escadas, Asara parou e retirou o lenço vermelho do bolso detrás. Sua marca registrada não poderia faltar, nunca. Ela amarrou o lenço ao redor do nariz e boca e apertou atrás da nuca.

— Está deslumbrante — disse Tayton, tentando arrancar um sorriso.

— Cala a boca — ela respondeu, apertando os punhos, preparando-se para subir o último lance de escadas.

O calor da platéia a atingiu antes mesmo de aparecer. "Bandana Vermelha, Bandana Vermelha, Bandana Vermelha!", gritavam eufóricos o seu nome de combate que carregou desde a primeira luta, quando acharam que ela era um homem e se surpreenderam ao ver que, na verdade, era uma garota de apenas dezenove anos. Ela podia recusar os elogios a sua luta, mas adorava o arrepio de quando entrava no salão dos combates.

Tayton surgiu ao seu lado.

— Quer dar as boas vindas aos juízes? — ele perguntou, apontando para uma mesa grande ao fundo.

— Faz diferença? — ela disse, olhando em transe para o círculo de pedra que ficava um metro acima do chão. Em um minuto estaria ali em cima.

— Eu que lhe pergunto.

— Vamos logo com isso — ela piscou duas vezes e respirou fundo, sentindo os olhares sobre si. Deu alguns acenos e cumprimentou outras pessoas, fazendo a sua melhor cara de ídolo da luta. Ás vezes, agradecia a si mesma por pensar em uma marca que cobriria parte do seu rosto, logo os seus lábios, pois assim não precisaria sorrir o tempo todo.

Eles andaram até a mesa dos juízes, um grupo de homens que pintavam parte do corpo de preto e decidiam quem iria lutar contra quem. Eram os organizadores dos campeonatos legais de Porto do Mar, que deram início a um dos maiores meios de entreternimento da região. Quando começaram, não levou muito tempo até que virasse uma febre entre os cidadãos e passasse a ser considerado um esporte da própria cidade.

Ao redor da mesa quadrada ficavam os cinco principais membros juízes. Alguns fecharam a cara quando viram a Bandana Vermelha chegar, já outros a cumprimentavam com um aceno de cabeça.

— O espetáculo da noite acaba de chegar — disse Sivo, o maior de todos e o responsável pela academia de luta em que ela treinava todos os dias. — Quer descobrir contra quem vai lutar agora ou quando subir no ringue?

— Agora — ela disse, tentando soar o mais irritada possível. Não era comum fazer jogos mentais antes de uma luta. Talvez queriam testá-la ou apenas tirá-la do sério.

— Tayton sabe quem é — disse, apontando para o garoto ao seu lado. — Acabou de perder para ele.

Tayton ergueu as sobrancelhas.

— Ela vai lutar contra o Touro? — perguntou, boquiaberto. Touro era um lutador das antigas, considerado o melhor nas lutas de campeonato. Seu nome de combate veio de uma técnica que consistia em usar o terreno a seu favor. Como não haviam paredes no ringue, Touro usava o chão como o seu aliado. Pressionava os oponentes contra ele, seja jogando-os para o alto e saltando sobre si ou dando rasteiras mortais e esmagando suas costelas sob o piso. Muitos acabavam destruídos após uma luta contra ele, mas nunca ninguém havia morrido. — Eu perdi, mas consegui sobreviver. A Bandana aqui tem pouca massa pra ir contra ele.

— Bobagem, ela é uma das melhores, assim como ele — disse Sivo, gesticulando para Asara e para alguém ao fundo. Era Touro, se preparando para destruí-la, apertando os nós dos dedos contra a palma da mão e fechando o rosto todo pintando de branco.

Asara tinha todos os motivos do mundo para temer uma luta contra ele. Desde que começou, suas lutas eram sempre justas, com um oponente equivalente ao seu nível. Mas Touro era algo além, tanto em técnica quanto em força. Um arrepio percorreu o seu corpo.

"No Torneio das Ruas há oponentes muito piores do que eles", o pensamento ecoou no fundo da sua mente. Se quisesse ter uma prova do que era participar do Torneio, ela teria que lutar contra Touro. Seria como um teste.

— Sim, é isso ai. Eu quero lutar contra ele — ela concordou com a cabeça e Sivo sorriu.

— É assim que se fala. Vamos logo, Tayton. Saia da frente e deixe a garota lutar.

— Tem certeza de que pode? — ele perguntou para Asara, lançando um olhar desconfiado para ela.

— Já vi ele lutando. Tenho ideia do que ele pode fazer — disse. — Se algo acontecer não me leve para casa. Chame Liana ou alguém das Mães das Águas.

— Tudo bem — ele apertou as mãos enfaixadas de Asara.

A garota virou e adiantou-se para o ringue, sentindo o seu coração pulsar forte. A platéia voltou a loucura, compraram mais garrafas de bebidas e espremeram-se contra o cercado de madeira que ficava a poucos metros do círculo de combate. Asara se puxou para cima, e olhou em volta, dando pequenos saltos e tentando acalmar os pulmões. Usava apenas um colete apertado que mostrava os braços e uma calça alta de tecido leve.

Era o campeonato final e só haveria uma luta. Era levar o prêmio ou nada. Só havia uma chance. Sivo apareceu entre eles, carregando uma tocha exatamente igual ás outras que revestiam as paredes do recinto. Ele iria iniciar o round.

— Atenção todos — ele gritou e mesmo assim o público continuou vibrando com a luta que estaria por vir. — As regras são as mesmas. Um minuto para cada round. Apenas movimentos legais serão permitidos e nada de armas. O primeiro a cair do círculo ou desmaiar, perde a luta. Rendições apenas com três toques no chão ou pular para fora do círculo. Ajuda de externos ou de meios inapropriados resultarão em derrota imediata. Entendidos?

Ele disse, e Asara concordou, olhando nos olhos de Touro, que já estava a menos de dois metros de si.

— E para finalizar a noite e a temporada de campeonatos do ano, temos a luta mais esperada entre o público — ele levantou a tocha e pocicionou acima de Asara. — Bandana Vermelha enfrentará Touro, o Esmagador.

A tocha descreveu um arco e parou sobre a cabeça branca e raspada de Touro. Um fragmento de tecido em chamas caiu entre eles, como uma faísca que inicia uma explosão.

— Dez, nove, oito, sete... — Sivo recuava enquanto contava regressivamente. — Seis, cinco, quatro, três, dois...

Ele já estava de volta a mesa e um silêncio enervante pairava sobre eles.

— Um. Comecem! — o gongo soou, disparando a ampulheta de um minuto.

Touro avançou, erguendo os braços e tentando alçancar o que parecia ser o rosto de Asara. Ela recuou instintivamente e empurrou os braços em um movimento bastante estranho para uma luta profissional. Alguns risos borbulharam entre o público e Asara fez o possível para manter a calma.

Touro já erguia o braço esquerdo em um gancho que acertaria em cheio sua costela, mas Bandana foi mais rápida e com um salto, ergueu o joelho e acertou o abdômen dele, antes de completar o movimento. Touro apenas abaixou, absorvendo o impacto e empurrando Asara para cima com seu flanco.

Ela quase se desequilibrou, mas os seus pés não falharam em alcançar o chão graciosamente. Asara usou sua perna para atingir Touro nos joelhos, mas acabou acertando um pouco acima na sua coxa. Usou do tempo de reação de Touro para acertá-lo na mandíbula com o seu cotovelo.

Urros da platéia encheram o lugar no momento em que Touro cuspia uma torrente de sangue de seus lábios, manchando de vermelho a tinta branca que cobria sua cabeça. Era quase como uma cópia terrível de sua bandana. Ela sorriu por debaixo dos panos. Touro limpou o máximo que pode e deu um suspiro, como se estivesse lidando com algo que o tirasse do sério.

Asara esperou ele avançar por cima, como fizera das outras vezes, mas Touro deslizou o pé debaixo de si tão rápido quanto ela mesma poderia fazer. O mundo girou e ela só parou quando sentiu as costas arranharem contra o piso de pedra. Ele sabia que o salto viria em seguida. Precisava se mover, e rápido. Girou na direção dos pés dele, diminuindo a distância entre eles e tornando inútil o seu salto. Touro reagiu apenas chutando-a para longe, para perto da borda. A distância havia voltado e dessa vez estava prestes a cair do ringue.

Ela fez o possível para levantar antes que ele a alcançasse, mas quando estava de joelhos ele já estava em cima de si, erguendo-a no ar e se preparando para jogá-la para fora. A platéia foi á loucura e Touro sorria entre o sangue e a tinta branca. Asara tentava agarrar o rosto dele, fazer alguma coisa que o parasse, mas era inútil. Ela esperou que ele a jogasse para fora, mas não fez isso.

Touro queria se divertir mais, ainda tinha alguns segundos restantes. A luta já estava ganha, então jogou-a de volta para o ringue, divertindo-se com os urros do povo. Asara não acreditou no que acabara de acontecer. Touro, em sua mais completa burrice, não terminara a luta quando pode e agora queria apenas mostrar o quão imbatível ele era. As palavras de Tayton voltaram em sua mente, em uma de suas primeiras aulas. "Nunca estenda uma luta se pode acabar com ela bem rápido". Era algo básico que todos deveriam fazer. Mas Touro não era uma dessas pessoas.

Asara sorriu para si mesma e levantou, fechando os punhos para atacá-lo em seguida. Tentou parecer fraca e indefesa, fingindo uma dor lateral que a fazia dobrar. Mas quando Touro avançou com seus braços, ela bloqueou o ataque e o atingiu novamente no rosto, em um golpe tão forte que duvidou que aquilo saíra de si.

Os olhos do homem giraram, ele recuou confuso e balançando a cabeça para se livrar do choque. Asara não deu trégua, avançou como uma cobra e atacou em botes, dando socos baixos e altos, desferindo ganchos contra o seu diafragma e pescoço. O homem chutou a sua barriga e ela tentou se livrar, mas suas mãos imensas a agarraram e jogaram-na contra o chão, apertando como um bloco de pedra. Ele cerrava os dentes em uma expressão sombria.

— Tire esse pano maldito da cara — ele segurava suas mãos no topo da cabeça, tornando-a imóvel. Asara virou o rosto e tentou se desvencilhar, mas o homem puxou a bandana. No mesmo momento ela reagiu, dando uma cotovelada em seu nariz e empurrando o seu braço de sustentação, fazendo-o cair sobre si.

Ela teve que usar toda a sua força para o empurrar para o lado, mas quando ouviu o baque surdo do corpo de Touro atingindo o chão ela finalmente pode respirar. A luta havia acabado e a Bandana permanecia dentro do ringue, presa ao seu rosto.