Bandana Vermelha
2 Dicussão com Vikrum e Encontro com Liana
Asara não conseguiu evitar sorrir quando fora carregada para fora da academia de luta pelo público eufórico. Punhos a erguiam fazendo-a se sentir em uma espécie de oceano selvagem onde gritos a cercavam e bebida gelada respingava em si. Alguns dos mais malucos acenderam fogos de explosão ao fim da rua, provocando um urro.
— Bandana! Bandana! — a multidão anunciava para as ruas já desertas. Era tarde da noite e, geralmente, toda aquela bagunça poderia resultar em prisão imediata por parte da guarda municipal. Mas com a chegada das festas de fim de ano, onde relaxavam deliberadamente, talvez não se importariam em tentar manter a ordem antes disso.— Tragam-na para o bar — diziam alguns deles.— Sangue-de-Pêssego é por minha conta hoje — dizia outro.Mas Asara sabia que a diversão não duraria por muito tempo. Ela precisava sair do meio da multidão, e rápido. Desvencilhou-se dos braços erguidos e procurou a voz de Tayton abaixo de si. Ele surgiu ao seu lado, carregando o saco de moedas que ela havia ganhado. — Venha — ele estendeu a mão e ela o alcançou, pondo-se de volta no chão. O suor e bebida se misturavam em sua pele e escorriam para o tecido que a cobria. — Você está nojenta. — Isso não importa, querido Tay — ela disse, sorrindo e se afastando da multidão que se espalhava para as ruas, procurando a taverna mais próxima. — Vencemos a luta. — Você venceu. Eu não consegui sair debaixo daquele pedaço enorme de carne — ele disse. — E nem me venha dizer suas técnicas mirabolantes. Eu sei que só teve sorte.— Sorte? — É claro, estava acabada quando Touro estava prestes a te jogar pra fora. Asara deu uma risada alta e puxou o saco de dinheiro das mãos de Tayton. — Eu fiz ele me jogar para dentro de novo. — Como é que é? — Poderes femininos, Tay. É tudo uma questão de encanto. — Nunca é encantadora quando está no ringue — ele disse. — Quer dizer, não como as outras garotas que andam por aí de vestido e tal. Parece feroz. — E adivinha só? Posso ser feroz e graciosa ao mesmo tempo. É um dos nossos truques — ela sorriu e tirou cinco moedas de dentro do saco. — Toma, só por que você é bonitinho. — Ah, claro que é por isso — ele deu um sorriso emburrado e pegou as moedas com as mãos em concha. — Vai chegar em casa nesse estado? — Vikrum só aparece ás quatro. Acho que ainda temos tempo — ela disse, olhando em volta a procura da torre do relógio. A lua não havia aparecido naquela noite, tornando os arredores mais escuros do que o normal. Algumas lanternas coloridas permaneciam acesas nas esquinas, algumas para proteção e outras anunciando bares ou casas de jogos. — Os seus amigos estão por ai? — disse Tayton, observando as entradas das ruas. — Sempre estão — ela respondeu, tentando encontrar um deles no topo dos telhados ou escondidos entre os becos. Asara sempre podia andar a noite sem medo. Os Bandoleiros foram o seu grupo desde que havia migrado para Porto do Mar, logo após fugir da casa da mãe. Asara descobriu que viver por si só em uma cidade como aquela era difícil, então se juntar a eles foi a melhor alternativa que encontrara.Mas naquela noite, não enxergava nenhum em meio as sombras. Temia o que aquilo siginificava. Algo havia acontecido ou era apenas coisa de sua cabeça? "Devem estar ocupados com outra coisa", pensou. Sempre que podiam verificavam do alto dos telhados o porto lá embaixo, nas marés. Se vissem o barco de Vikrum subindo o oceano, davam sinal verde para a garota continuar seu percusso para a academia de luta. — Não vi nenhum deles — disse Tayton. — É por que são muito furtivos para alguém como você notar — disparou. — Lutar contra o Touro te deixou mais esperta ou é impressão minha? Ela sorriu e continuou a descer a rua, seguindo por um caminho que a levaria para casa. Pararam em um cruzamento e Tayton se despediu com um aceno. Ela retribuiu e seguiu seu caminho sozinha, até parar na porta de casa. A madeira já estava desgastada por causa do tempo e o pequeno portão que se abria para a tapeçaria também. Revirou os olhos só de lembrar que precisaria trabalhar no dia seguinte. Retirou a bandana do pescoço e guardou dentro do saco de moedas. Bateu duas, três e depois quatro vezes, um sinal que criara com Paco para identificar que era ela voltando. Mas ao invés de ouvir os passos do garotinho se adiatando para a porta, ela ouviu passos pesados e decididos. Antes que pudesse reagir, o ferrolho deslizou para o lado e ela se deparou com Vikrum e sua expressão vermelha no rosto. Puxou-a pelo colarinho e arrastou para dentro. — Como ousa sair — ele quase gritava. — Já falei pra você mil vezes, Asara, MIL VEZES! Meu filho não tem idade pra cuidar da casa e você sai de noite, DE NOITE, óh céus. Ele se adiantou para o pequeno corredor, passando o corpo grande com dificuldade pelo portal da cozinha.— Só me dá trabalho — ela conseguia ouví-lo dizer. — Só me dá muito, mas muito trabalho. Aquilo não era verdade. Asara fazia muita coisa para Vikrum, talvez até mais do que ele. De dia cuidava da tapeçaria, enquanto ele usava o tear para produzir novas peças. De tarde, Asara treinava na academia para só depois cuidar de Paco enquanto Vikrum e mais uma porção de marinheiros e comerciantes viravam a noite transportando peixes, tapetes e especiarias para cidades próximas.
— Eu sabia que era problema — ele dizia, usando um pedaço de pano para secar o suor que surgiu em seu rosto. — Não devia ter lhe acolhido, foi um erro, um erro, eu sabia. Asara permaneceu calada. Era assim todas as vezes. Ele ficava louco, dizia sempre as mesmas coisas no calor do momento. Mas ela sabia que na manhã seguinte ele parava e pedia desculpas tortas, e ela só concordava com a cabeça. No fundo, Vikrum só ficava preocupado com a segurança do seu filho e ela sabia disso. Após algo trágico acontecer com a mulher dele, um mistério para Asara, Vikrum passou a viver perturbado. Mas ela não podia evitar sair para os campeonatos. Era viciante, tentador. Queria participar e ao mesmo tempo contar com o bem estar de Vikrum. É por isso que Paco estava ao seu lado quando escapava de casa. Era como uma irmã mais velha para ele e o garoto adorava ter alguém para lhe preencher o vazio da mãe. Asara lhe dava alegria e moedas douradas em troca de manter segredo sobre as lutas. — Me desculpe — ela conseguiu dizer. Mas Vikrum já parecia distante. — O que tem ai dentro? — ele perguntou apontando para o saco. — O prêmio da luta — ela disse, sentindo o coração apertar. Não queria que ele tomasse o dinheiro. Já havia feito isso, só uma vez, mas fora o suficiente para deixá-la furiosa. Passaram dias sem se falar, mas Vikrum voltou atrás e lhe devolveu apenas uma parte. — Não quero que se meta nessas lutas, garota — ele dizia. — Lhe coloquei na academia como um esporte, para se ocupar com alguma coisa e liberar seus instintos, não lhe coloquei para lutar em campeonatos. Sabe como são arriscados. Depois de tentar saquear o barco de Vikrum quando era parte dos Bandoleiros, Asara pensou que iria parar na cadeia. Mas o homem da época parecia mais solidário do que o atual, e lhe ofereceu os benefícios em troca de não entregá-la para os guardas. Ela, sem escolha, decidiu trabalhar para ele e tem sido assim desde então. — Me desculpe — ela repetiu. — Guarde as desculpas para si — ele disse. — Sei que vai repetir isso de novo, então já aviso. Na próxima eu tomo todo o dinheiro que conseguir. Não quero ver você ganhando dinheiro de forma ilegal. Não era ilegal, mas Asara decidiu não dizer nada. Vikrum já estava estressado demais. — Só uma pergunta — ela disse.— Diga. — Por quê voltou tão cedo? — Problemas do fim de ano, você deve saber. Os festivais ocupam demais o nosso tempo e as cidades vizinhas não querem saber de muita coisa — Asara lembrou que precisaria ajudar nos preparativos do festival no dia seguinte. Suspirou. — E é difícil sair quando tem outras mil coisas lhe tomando tempo. Ele disse, olhando bem nos seus olhos. Ela mordeu o lábio e desejou poder sair logo dali. — Já posso ir? — perguntou, resoluta. — Pode sim. E aproveite enquanto ainda pode dormir. Amanhã vai ter muito trabalho pela frente. Ela apertou o saco de moedas entre as unhas. Estava mais disposta a saquear o barco de Vikrum uma outra vez do que completar suas obrigações para o dia seguinte, ela pensou. "Mas o maldito marinheiro conseguiu me pegar antes que pudesse completar o roubo", a voz na sua cabeça fez questão de relembrar. Revirou os olhos e foi em direção a cama.Acordou sentindo dores nas costas e nos braços. A noite anterior já mostrava seus sinais de reação. Levantou com a ajuda dos cotovelos e cobriu os olhos do facho de luz que entrava pela janela. Era hora de trabalhar. Vestiu uma roupa qualquer, a mais leve que tinha, e saiu em direção ao portão ao lado da casa, onde Vikrum já se encontrava varrendo o chão e tirando a lona que cobria alguns rolos de tapete. — Cuide disso — ele lhe estendeu a vassoura -, deixe o mais limpo que puder. Soube que navios estrangeiros vão atracar aqui, quero que tenham a melhor impressão dos nossos produtos. Se tudo der certo sairei para barganhar hoje ou amanhã. — Tudo bem — ela se forçou a pegar a vassoura e começar a limpar o local. Conciliar a dor e o trabalho não foi fácil. Encontrou-se muitas vezes parada, respirando fundo, tentando conter a queimação nas costelas. Era certo de que precisaria passar nas Mães das Águas para tratar o seu corpo. E foi o que fez em seguida, quando a tarde chegara. Encontrou Liana no jardim de entrada do pequeno palácio. Ela usava um leve vestido azul, igual a de outras Mães que trabalhavam ali. A garota sorriu quando Asara se aproximou. — Andou aprontando novamente? — perguntou. — É, lutei ontem a noite. — Não quero nem ter detalhes. Venha — ela chamou, se despedindo das suas companheiras de trabalho. — Como está se sentindo? — Dores na costela, sinto inchaço nos dedos e um pouco o braço. — Posso resolver isso num instante. Elas se dirigiram para o interior do prédio, onde outro jardim repleto de flores azuladas cobriam o chão. Um facho de luz escorria de uma clarabóia, iluminando a água reservada em um grande tanque de pedra no centro do local. Era ali que a cura acontecia. Liana lhe estendeu o tecido fino que usaria para entrar na piscina e apontou para o cubículo de madeira em que poderia se trocar. Quando voltou, Liana já remexia a água, adicionando sais e pequenos cristais azuis, que brilhavam em contato com o líquido.— Nunca entendi como isso funciona — disse Asara, se aproximando. — E não precisa. Só mentes dispostas a viver disso que precisam saber. É um trabalho para a vida toda — ela sorriu. Gostava mais do que tudo de fazer o que fazia. Curar os outros e lhes proporcionar um momento de paz a cada dia era algo que lhe alegrava imensamente. Liana não trocaria isso pelas lutas selvagens de Asara. — Entre. Ela mergulhou os pés, sentindo os cristais cutucarem a pele. Um segundo depois estava deitada e submersa, respirando através de um tubo de madeira. O ar fresco entrava nos seus pulmões enquanto a água agia ao redor do seu corpo, consertando o que estivesse fora do lugar. Aquilo era algo mais mental do que físico, Asara sabia. Talvez até sobrenatural. Minutos depois, Liana agitou a água e a trouxe de volta para a superfície. Os cristais tinham ido embora, deixando apenas o seu corpo recuperado ali. Asara voltou a respirar fundo novamente; não sentia mais a dor de queimação nas costelas.— Obrigado, de novo — ela disse, enxugando os cabelos. — Sempre a disposição. — Liana estendeu uma toalha branca para ela se secar. — Vai nos ajudar hoje? — Eu realmente preciso? — ela perguntou.— Bem, é importante. E vai passar uma boa impressão para todos. É sempre bom ter novos rostos nos ajudando — ela disse. Asara quase respondeu que a boa impressão que tinha era nos ringues, mas ficou calada. Liana estava quase completando o seu primeiro ciclo de Mãe, mesmo tão jovem quanto ela, já estava em um posto avançado. E participar da preparação do festival significaria muito para ela. — Tudo bem, eu vou com você — respondeu, levantando-se e enrolando a toalha em volta do corpo. — Mas quero poder comer os bolinhos de peixe. — Hoje é dia de decoração, preparação das comidas só amanhã.Asara revirou os olhos e expirou. — Decoração?— Não é nada demais — Liana riu da expressão da amiga, mas logo em seguida tentou encorajá-la. — Vamos, Asara, é bem simples. Se fizer um bom trabalho hoje prometo que te levo para a cozinha. Posso até te mostrar uma receita especial. — Eu não sei cozinhar nada. — Você só sabe bater nos outros, isso sim — ela sorriu e Asara, tentando manter a expressão emburrada, desatou em uma risada em seguida, não sentindo dor alguma ao fazer. Era bom estar bem.
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