Bala

2 Capítulo 2


Ele tinha se acostumado a ficar naquela cama de hospital. Já estava ali há cinco dias, e para receber sua alta provavelmente não ia demorar tanto tempo.

Tinha chegado ali quase morto. Por sorte, alguém o viu na rua, sangrando, e chamou pela ambulância. O tiro havia atravessado seu pulmão, por sorte não atingindo seu coração. Entrou em cirurgia pouco tempo depois que chegou.

Infelizmente, ainda tinha ficado a cicatriz da bala e a queimadura em forma de estrela onde ela o atingira. Provavelmente as duas marcas iam ficar atenuadas com o tempo, mas não iam sumir completamente. E embora elas não o lembrassem do incidente, elas o faziam pensar ser único por ter chegado tão perto da morte e ainda viver para contar.

Não se lembrava de nenhuma experiência no tempo que ia para o hospital, o que o deixou desanimado, como se quisesse uma história a mais para contar.

Sua namorada estava do seu lado. Sua mãe falava com algum médico fora do quarto. Ou seria outro policial? Eles o vinham visitar todo dia para conseguir informações sobre o delinqüente, um retrato falado, qualquer coisa que ajudasse a capturá-lo, algo que eles não tinham obtido sucesso até então. E embora isso deixasse ele com medo de tudo voltar a acontecer, ele sabia que as chances eram poucas, e que provavelmente aquele louco não ia voltar a atacá-lo e arriscar ser preso.

A namorada tinha tentado acabar com o relacionamento, dizia que ela o deixava em perigo, que ele tinha quase morrido por causa dela. Mas ele não tinha deixado. Depois do incidente, ele realmente não se importava com o fato dos dois namorarem. Mas queria ter ela por perto. Isso causava excitação na sua vida. Fazia ela sair da rotina de sempre.

Mesmo estando seguro, ele gostava de sentir aquela adrenalina do talvez.

Para isso, bastava ficar perto dela, continuar causando aquele ciúme que quase tinha custado sua vida. E apenas por isso ainda se sentia atraído por ela – que por outro lado, parecia estar realmente gostando dele depois do quase-assassinato.

Sua mãe ainda falava lá fora, isso o incomodava. Queria um pouco de sossego. Era bom poder usar a desculpa que tinha levado um tiro para ter favores das pessoas à sua volta. Geralmente, não ia gostar de passar a imagem de coitado, mas dessa vez ele tinha uma desculpa (boa) para isso.

Resmungou alguma coisa. A namorada se aproximou dele para ouvir melhor. Ele comentou que queria dormir e que o barulho de fora o deixava sem sono, o que fez ela sair do quarto e dizer algumas palavras para as pessoas do outro lado da porta.

Fechou os olhos e se remexeu um pouco, fingindo dormir. Com os olhos semi-cerrados, viu que a namorada voltar para ficar ao seu lado. Os dois quase não conversavam, mas ele sentia que isso não era muito necessário. Ele não precisava se preocupar com ela, ela gostava dele e ia continuar ao seu lado.

E, em todo caso, ele tinha atingido a fama. Ele devia estar sendo comentado na escola, todos deviam estar preocupados, falando dele, falando bem. Não se fala mal dos doentes. Alguns até tinham mandado presentes, os amigos mais próximos iam visitar ele no hospital, passar um tempo falando de como as coisas estavam agitadas na classe.

Quando ele saísse daquele hospital, ia ter uma vida que não tinha imaginado ser capaz de ter. Mesmo que durasse apenas por um tempo, ele seria a pessoa mais importante da escola, todos dariam atenção para ele, talvez recebesse até certos privilégios. Podia falar que a ferida se abriu, por exemplo, para não ter que fazer provas. Isso não seria difícil.

Estava excitado com tudo aquilo. Tudo por causa de uma bala que quase o tinha matado. Lembrava, de certa forma, do ditado popular: “Há males que vêm para bem”. Ele sempre havia achado esses ditados estúpidos, mas a contragosto admitia que sua situação se encaixava bem no que esse, em particular, falava.

Ele sairia do hospital com uma queimadura em forma de estrela e uma cicatriz. Mas ele teria fama. E sua vida ia sair do dia-a-dia rotineiro. De resto, a polícia ia cuidar. Iam capturar o culpado, ele ia dar seu testemunho, e quando talvez o outro saísse da prisão ele já nem estaria mais naquela cidade.

Esperava que isso durasse até sair da escola, mas sabia que não ia ser assim. Então, decidiu aproveitar os meses que teria só para ele. Ele podia ter histórias – aliás, ele já tinha uma – sobre coisas que nenhum outro de seus colegas de classe podia fazer.