Bala
3 Capítulo 3
Ele andava com a namorada. Desde que saíra do hospital, sabia que não podia mais andar sozinho, mas recusou a companhia dos seus amigos. Com ela, ele tinha vantagens. Ele sabia que o outro não ia atirar nela, mas ainda assim havia toda aqueça adrenalina de estar com a pessoa que quase lhe custou a vida.
O atirador era procurado agora em toda cidade. Seu retrato falado tinha aparecido no jornal do dia anterior. O caso não tinha ficado com tanta fama, mas ele se lembrava que deu uma entrevista para alguma das emissoras de televisão.
Os dois faziam o percurso para casa, como antes do incidente. Dessa vez, porém, ela tinha prometido que não ia deixar ele. Sabendo que ela estava segura, ela preferia ir até a casa dele e só depois fazer todo o caminho de volta para a sua própria casa.
Ele dava cada vez menos valor para ela, e provavelmente já a teria largado em situações normais e comuns. Mas ele próprio não era mais normal e comum.
Estavam chegando perto da sua casa. Ele reconheceu o policial à paisana na rua, e voltou a estranhar a cerca elétrica e a câmera de segurança na frente da casa.
Ele ainda não queria entrar, estava cedo. As aulas tinham acabado mais cedo aquele dia, e provavelmente os outros o queriam deixar sozinho com a namorada, como vinham fazendo todos aqueles dias. Todos achavam que o que existia entre os dois agora era realmente amor, e que o que ele mais gostaria de fazer era ficar perto dela.
Bobagem.
Ele convidou ela a ir para uma sorveteria, alguns quarteirões dali. Ela relutou, falou que não era seguro. Mas ele a convenceu. Sorveterias eram românticas, ele sabia que ela ia acabar concordando.
Ambos começaram a seguir na direção da sorveteria. Ela segurava a mão dele fortemente.
Um quarteirão depois, os dois pararam.
O atirador estava em frente a eles. Ele ficou paralisado, sua boca aberta. Provavelmente, ele tinha sido seguido, o outro tinha ouvido a conversa e tinha chegado lá mais rápido. E aquele era um bairro tranqüilo, poucas pessoas passavam...
Seu coração começou a bater mais rápido, seus olhos começaram a piscar. Ele começou a chorar e a soluçar. Sua namorada apertava sua mão muito forte, ele já não sentia a ponta dos dedos. Uma sensação de formigamento tomou conta de suas pernas. Ele se virou para correr, caiu, soltando a mão da namorada.
E começou a se lembrar da outra vez. Não adiantava correr, ele ia morrer. Ele sabia disso. Ele tinha sido idiota de ter achado que não por todo esse tempo.
Ainda no chão, de quatro, ouviu a namorada gritando. Os dois discutiam, mas ele não entendia o que. Esperava que tudo pudesse ser resolvido. Queria dizer que ela não significava nada para ele, que ele podia levá-la se quisesse, mas as palavras não saíam. Ele soluçava e tremia demais para conseguir dizer alguma coisa.
Tentou levantar, mas acabou caindo deitado no chão. Olhou para cima, os olhos semi-cerrados, desejando e não desejando ver a cena que se desenrolava. Estava indeciso e dividido. Não sabia o que fazer.
Voltou a ficar de costas e começou a rastejar para longe. Ela estava segura, os dois que se virassem. Apesar de estar gritando histericamente, ela estava segura.
E então ouviu o salto do sapato dela batendo na calçada, como se ela estivesse correndo. E ouviu um tiro.
Instintivamente, olhou para trás. Viu ela caindo no chão, seu rosto sangrando. Começou a soluçar, e implorar por sua vida.
O assassino estava com o olhar desesperado, vazio. Havia alguma coisa lá? – tristeza, ódio, paixão? — ... não sabia. Apenas via a arma nas mãos, tremendo.
Por que ele tinha feito tudo aquilo?
E se aproximava cada vez mais, a arma nas mãos. Puxou ele para cima, dizendo que não adiantaria implorar pela vida. Que a vida dos dois já não valia de mais nada. Colocou o revólver no queixo dele. Sentia o cano tremendo, ou seriam seus dentes?
Outro tiro. Sentiu a ardência da pólvora se espalhando pelo seu queixo, a bala perfurando sua mandíbula. Sentiu toda sua boca queimar quando a bala passou e começou a perfurar o céu da boca. Sentiu todo o caminho da bala até seu cérebro, onde ficou alojada. E teve uma grande dor de cabeça, mesmo que por instantes. Ouviu os barulhos se misturando, os cheiros se misturando, não estava mais entendendo o que acontecia a sua volta... Ou com ele próprio. Sentiu uma dor nas suas costas, mas não sabia o motivo.
Ele caiu, ainda tremendo. Sua cabeça sangrando.
E então, outro estopim.
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