Bala

1 Capítulo 1


Ele queria dormir. Tinha ido para a cama tarde demais e acordado mais cedo do que queria. A escola o cansava, era sempre a mesma coisa, uma repetição dia após dia. Não ligava que no próximo ano teria que prestar vestibular. Por ele, preferia dormir até tarde, depois encontrar sua namorada...

Ela estava ali, esperando por ele. Os dois provavelmente iam seguir o mesmo caminho, como faziam todo dia. Fazia pouco tempo que estavam juntos, algo em torno de uma semana. Eles se conheceram em uma festa, ela disse alguma coisa sobre o namorado, mas os dois já estavam suficientemente bêbados para não dar importância a isso. E ela, em todo caso, pareceu preferir ele que ao ex.

Provavelmente ela tinha inventado alguma desculpa para sair da aula mais cedo, e tinha ficado ali. Talvez lendo alguma coisa, embora ele não pudesse ter certeza, já que não havia nada nas mãos dela.

Era sempre assim.

Eles saíram pelos portões da escola, e caminharam de mãos dadas. Na verdade, ela que aproximou as mãos das mãos dele. Ela parecia ser assim, romântica. Ele não ligava para essas coisas. Mas pelo menos era melhor que nada...

Tentaram conversar, falaram sobre o que iam fazer naquele final de semana, planos que tinham feito na noite anterior. Ela também disse que estava começando a ler um novo livro, o que explicava o que ela tinha ficado fazendo enquanto esperava o sinal do fim das aulas bater.

Os dois se despediram, ela seguiu uma rua transversal enquanto ele continuou na mesma, seguindo reto até sua casa.

No caminho, ele começou a pensar... Talvez o final de semana fosse bom, mas era tudo tão repetido. Ele já tinha feitos aqueles mesmos planos com suas outras namoradas. Era tudo tão normal, tão repetido.

Amanhã ele acordaria cedo, iria para a escola, sairia de mãos dadas com a namorada, chegaria em casa, talvez fosse dormir, talvez fizesse outras coisas, mas nada de fantástico ia acontecer. E no fim de semana ia sair, cinema e talvez comer em algum lugar fora. E daí voltaria para casa.

Precisava de mais festas. Fazer algo diferente naquele dia.

Pegou o celular, mas lembrou que assim como ele, provavelmente nenhum dos seus conhecidos tinha chegado em casa. E ainda tinha que pensar no almoço. Só ia conseguir falar com eles dali pelo menos uma hora.

Mas ir na casa de alguém...

Queria uma coisa diferente, e não exatamente isso.

Começou a pensar como seria divertido se acontecesse algo inesperado. Se ele fosse mais rico, sua vida não seria assim. Ele poderia viajar quando quisesse, fazer o que quisesse, sair daquela vidinha comum e rotineira dele.

Alguém cruzou a rua de bicicleta. Parou. Ele não deu atenção, aquele era um bairro tranqüilo, provavelmente não era ninguém com quem devesse se preocupar. Devia ser só algum novo morador.

A pessoa voltou a montar na bicicleta, e começou a vir na direção dele. Rápido demais.

Ele pulou para o lado, a bicicleta passou ao seu lado, meio que desequilibrada. Olhou para trás, vendo ela cair, a pessoa que a usava saindo dela um pouco antes. Pensou em perguntar se estava tudo bem, e se aproximou da pessoa. Era um adolescente também, um pouco mais velho (?).

E então, a pessoa se aproximou, os passos firmes e pesados. Gritou:

- Por que você roubou minha namorada, seu cretino filho da puta?!

E então ele entendeu. Aquele era o ex da sua namorada. Devia explicações, entendia isso. Abriu a boca para falar, mas não disse nada. A pessoa a sua frente tirou um revólver da cintura de sua calça jeans.

Ele deu alguns passos para trás, e começou a virar para correr. Quem sabe, aquilo fosse só para intimidar. O outro não ia atirar, ninguém ia matar só por uma menina como aquela. Ele não faria isso.

O outro começou a correr e agarrou seu ombro, deixando ele de frente. Colocou o revólver no seu peito.

E atirou.