Baker
2 II. Um Lugar Ignorado, Um Lugar Esquecido
Notas iniciais
Apenas um lugar ignorado, um lugar desconhecido.
11 anos antes.
—Já vai dar três horas -Olhei para o relógio, três horas era quando meus pais chegavam de seus trabalhos, poucas eram as vezes que chegavam de bom humor, geralmente os dias se resumiam a meu pai chegar irritado e beber até esquecer os problemas, o que levava a uma série de discussões e violência, foi dificil crescer vendo essas coisas todos os dias, eu sempre tentava fugir de casa, porém aquele bebâdo sempre me encontrava.
—Por que você nunca me ouve, sua puta? -Eles haviam chego, meu pai já parecia bêbado e minha mãe chorava enquanto berrava.
—Por que você não morre logo? filho da puta! -Ela gritou tentando secar as lágrimas —Minha mãe sempre esteve certa sobre você, seu imundo! -Ela tentou pegar o telefone e ligar para alguém, mas foi impedida.
—É? então por que não vai lá pra ele te foder gostoso? -Ele quebrou a garrafa de vodka que trazia consigo na cabeça dela, depois riu feito um retardado, esse tipo de cena era comum nessa casa, os vizinhos sabiam de tudo o que acontecia, porém, tinham medo de denunciar meu pai, provavelmente achavam que ele iria fazer o mesmo com eles, coisa que ele já fez.
—MÃE! -Gritei e tentei ajudá-la, ainda tonta ela se levantou e me empurrou com raiva. Cai com tudo em cima dos vários cacos espalhados pelo chão.
—Sai daqui resto de aborto! -Ela bateu a porta de seu quarto e se trancou, meu pai tinha ido para outro lugar, estava pegando os cacos misturados com vodka do chão, fitei minha mão e ela sangrava, as lágrimas não paravam, não entendia o porque de tanto sofrimento, será que Deus se divertia vendo isso? essa foi a primeira vez que questionei sua existência e não foi a última.
Sem olhar pra trás, sai de casa e fui para onde sempre me sentia bem, o orfanato, há pouco tempo havia descoberto esse lugar e não me sentia tão sozinho. Lá conheci muita gente, porém fiquei bem próximo apenas de um garoto chamado Max, ele tinha dez anos e era bem legal, gostava das mesmas coisas que eu, porém, tinham coisas no Max que me assustavam, tipo quando ele tentou fazer o jogo do homem da meia-noite e a brincadeira do compasso, ele era viciado em coisas macabras.
Ao chegar no lugar, fui logo puxado pelo braço por Max, ele me levou até o dormitório masculino, ele estava diferente, estava cheio de olheiras e sorria doentemente, parecia não ter sanidade alguma.
—Eu consegui, Josh -Disse rindo de um jeito que me deu medo —Veja, eu consegui, eu encontrei o simbolo dos ancestrais -Eu não fazia idéia do que ele estava falando, ele me mostrou um papel com um simbolo estranho e com algo escrito em latim, algo como "vendere anima vestra", eu estava assustado, que tipo de jogo seria esse? —Se tudo correr certo, nós poderemos ver o inferno, Josh! -Quando ele acabou de dizer isso, senti um frio na espinha, o que diabos ele queria fazer? o que diabos ele estava falando? Ele pegou uma faca e cortou seus pulsos deixando sangue cair na folha, tentei correr, porém ele me puxou e fez o mesmo comigo. As portas do local fecharam com violência, me causando um mini-infarto, meu coração quase saiu pela boca. Max acendeu várias velas no local e por último queimou a folha repetindo "videns anima vestra", tudo escureceu e me vi em um lugar horrendo, o cheiro de enxofre era muito forte e podia se escutar vários gritos de dor, Max observava o local com um enorme sorriso no rosto, ele nem sequer piscava, porém, quando as coisas não podiam ficar mais estranhas, um forte raio vindo de uma espécie de demônio que nos encarava desde que havíamos chego, nos acertou, a mim em minha mão direita e em Max em cheio no peitoral, tudo escureceu novamente e acordamos no dormitório, as camas estavam todas congeladas e pude ver Max correndo pra fora do orfanato, olhei para onde tinha sido acertado e vi que não havia um machucado, porém um simbolo, uma cruz... uma simples e única cruz preta. Depois desse dia nunca mais "vi" Max, mas as vezes sinto sua presença e ouço o barulho que seu sobretudo fazia quando o vento batia nele. A última vez que lembro de ter visto realmente seu rosto foi no enterro de meus pais, no mesmo ano eles acabaram falecendo em um acidente voltando do trabalho, mas ele estava diferente e estava bem longe, tentei ir atrás dele, porém ele havia sumido e a única coisa que havia restado era uma rosa feita de gelo, que por algum motivo não derretia com o calor. Depois de passar por tudo isso, eu cheguei a uma conclusão: O diabo existe, Deus não, e os demônios que deveriam estar no inferno, na verdade estão na Terra, são conhecidos como "seres-humanos". Essa é a filosofia de vida que levo até hoje.
—Já fazem onze anos, por onde você esteve, cara? -Caminhava por um bairro estranho, ouvia músicas agressivas ao fundo em alguns lugares e algumas mais leves em outros, pelo meu conhecimento seria post-hardcore e deathcore, mas não parei para prestar atenção, apenas continuei andando e comecei a ver coisas estranhas. Nas calçadas haviam vários jovens se drogando, outros traficando, maconha era o que não faltava ali, além disso, a maioria deles andava armado e parecia que a policia não chegava perto desse local, logo a frente havia uma boate, sim, a boate estava aberta pela parte da manhã, dei uma olhada e vi várias pessoas jogadas no chão, vômito por toda parte e camisinhas ao chão. Olhei para dentro do local e via desde crianças até idosas se prostituindo, uma delas que aparentava ser um pouco mais nova que Patty estava fazendo um boquete em um cara de uns quarenta e poucos anos, e o pior, ninguém falava nada sobre isso, todos achavam uma coisa comum. Me afastei devagar e esbarrei em duas meninas que estavam "se pegando" ali, uma delas me ofereceu "seus serviços" por um quilo de maconha ou por algum calmante, era algo muito triste de se ver.
—É sua primeira vez passando por aqui? -Ouvi uma voz falar enquanto me puxava pelo braço pra longe dali.
—É sim -Disse —O que diabos é esse lugar? por que a policia não faz nada sobre isso? tem crianças se prostituindo e se drogando aqui, não quero ser moralista, mas essa porra tá muito errada.
—Meu nome é Becca, e o seu? -Ela acendeu um cigarro
—Josh... espera, não me ignore, eu te fiz uma pergunta, merda -Bufei enquanto ela riu de mim.
—Calma, Josh, bem como posso explicar... essa cidade, na verdade não existe... bem, pelo menos não para a policia.
—Como assim? -Não havia entendido isso muito bem, como esse lugar podia não existir?
—Bem, tem um chefão aqui, ele tem contato com os grandes dentro da policia, então ele simplesmente paga uma pequena taxa do que ganha com as boates e as drogas que vende, e a policia finge que esse lugar não existe -Ela disse caminhando
—E por que ninguém denuncia esse lugar? sei lá, não é possivel que todos os policias sejam filhos da puta assim -Disse irritado. Eu era uma pessoa calma, mas, vendo essas crianças se prostituindo imaginei Patty fazendo isso e isso só me deixava mais irritado.
—Bem, é como eu disse, os grandes fingem que esse lugar não existe, e bem, os menores realmente não sabem que ele existe, ninguém denuncia porque todas as pessoas que chegam aqui são seduzidos pelas drogas ou pelas mulheres, se eu não tivesse salvo você ali atrás você estaria perdido, me deve um doce -Ela riu levemente
—Na verdade eu não seria seduzido, eu tenho um objetivo em mente e não pretendo me desviar dele.
—Uh, que homem decidido -Debochou —Posso saber do que se trata?
—É meio que um segredo, me desculpe, porém estou a procura de um "amigo" -Disse, já estavámos afastados das boates —Você pode me dizer onde posso encontrar o tal chefão?
—Pode me dizer pelo menos o nome dele, não é? -Me fitou —Eu poderia, mas por que iria dizer? pra você ir lá se matar? -Ela tinha razão, eu seria massacrado só de chegar perto, mas como esse cara é importante por aqui, ele deve saber algo sobre Max, não posso deixar essa oportunidade passar.
—Diga onde posso achá-lo e eu digo o nome -Levantei uma sobrancelha e olhei diretamente para seus olhos.
Ela jogou a bituca do cigarro no chão e pisou em cima, respirou fundo e olhou pra mim com cara de tédio.
—Na parte norte... tem uma mansão com muros enormes e desenhos de anjos, ache esse lugar e você achará Beck, ele costuma tomar chá as três, não vai ser tão dificil encotrá-lo, já que vai estar cercado de seguranças. -Ela acendeu outro cigarro —Agora me diga, qual o nome do seu amigo?
Sorri de canto e a agradeci, comecei a caminhar na direção norte enquanto dizia "Max Valentine" por algum motivo ela ficou chocada ao ouvir o nome, mas não tinha tempo para distrações, tinha que achar esse tal de Beck, e rápido, isso não deve ser dificil, né? afinal ele está em uma fucking mansão num bairro que só tem boates.
Lembram quando disse que não ia ser dificil? pois é, tá sendo dificil pra caralho. Já andei por mais de uma hora pelo bairro e não achei a maldita mansão, sério, eu vi um mendigo dançando free step, mas não achei uma mansão, qual o problema desse lugar? Ah, a propósito, ele dançava super bem.
—Ei, Josh -Ouvi a voz da garota de antes me chamar, ela transpirava bastante e estava ofegante, parecia ter corrido bastante, ou participado de uma orgia, não sei, mas enfim, ela se aproximou e se apoiou em meu ombro —O cara que você está procurando... seu nome é realmente Max Valentine? -Ele me fitou com uma seriedade estranha
—Sim -Respondi seco —Você o conhece?
—Eu tenho assuntos a tratar com ele -Ela acendeu outro cigarro, seu vicio por nicotina chegava a ser assustador, e a fumaça me incomodava muito —Eu vou acabar andando com você por um tempo, o que você acha?
—Acho que você deveria parar de fumar -Disse irônico —E não acho que seja uma boa idéia você vir comigo.
—Eu sei onde a mansão fica -Foram necessárias apenas essas palavras para eu mudar de idéia e me juntar a ela, não demorou muito para chegarmos ao local, era um terreno gigantesco, estranho eu não ter notado ele de longe. Os muros eram realmente gigantes e tinham anjos esculpidos, era muito bonito, mas ao mesmo tempo macabro, era algo muito estranho, um paradóxo. O portão do local parecia ser feito de alguma pedra preciosa, isso mostrava o quão rico Beck devia ser, observei cautelosamente pelo portão e vi uma rodinha de homens de terno observando todos os cantos do terreno, estavam armados com fuzis e não deixavam nem ao menos uma mosca se aproximar da pessoa ao centro. Observando melhor pude ver quem era, lá estava ele, um taça em uma mão, um xaruto na outra, usava roupas socias que quase cobriam todas suas várias tatuagens no braço direito, estava usando um chápeu e óculos escuros, parecendo desconfiado ele se levantou da cadeira e olhou para minha direção, caminhou um pouco e desapareceu do nada, sem deixar rastros. Com medo me afastei do portão e me sentei no chão, Becca me olhou assustada.
—Qual o plano? -Perguntou nervosa e apreensiva.
—Verdade... -Ouvi uma voz vindo de cima de nós —Qual o plano? -Lá estava Beck, no topo daquele gigantesco muro, olhando para nós como um gigate olhando para uma formiga, sua presença me assustava muito e não conseguia me mover, nesse momento me senti como quando vi o inferno. —Estou curioso haha -Aquele sorriso me fez gelar por algum motivo.
Notas finais
~K
Fale com o autor