Baker
1 I. Padeiro
Notas iniciais
Criticas e sugestões são sempre bem-vindas.
Deixem reviews ^^
Ele era só um padeiro.
Numa rua movimentada, frente a uma loja, sem chamar atenção, lá estava eu. Dezoito anos e a conquista de minha vida foi administrar uma pequena padaria num bairro pobre, patético não acha? eu não. Cresci até os sete anos com meu próprio esforço, meus pais viviam brigando e eu fugia de casa para não ter que ver aquelas cenas, mas o que esperar de um bebâdo e uma vadia não é mesmo? Me recordo que sempre que fugia ia para um orfanato perto de casa, lá tinham várias crianças da minha idade, percebia que lá eu conseguia me encaixar, mesmo tendo pais eu acho que conseguia entender o que aquelas crianças sentiam, mas sempre achei algo estranho. Aquelas crianças que não sabem nada sobre seus pais, nunca sequer chegaram a vê-los, pareciam bem mais feliz do que eu, eu nunca realmente entendi isso, porém, havia alguém assim como eu que não era tão feliz, seu nome era Max, na época ele tinha dez anos e era bem solitário, seus pais haviam deixado ele frente ao orfanato há anos, prometeram que voltariam para buscá-lo dentro de alguns dias, bem, eles nunca voltaram. Mortos? quem dera, na verdade, Max disse que os pais nunca gostaram dele e sempre procuravam um jeito de se livrar dele, bem, eles conseguiram isso quando o deixaram lá e se mudaram pra uma cidade no Equador. Max foi a única pessoa naquele lugar que eu consegui fazer amizade, ele era um cara realmente divertido e eu o considerava um irmão, a única coisa estranha era o seu hábito de procurar coisas estranhas e bizarras, ele sempre me arrastava pra esse tipo de coisa, desde a brincadeira do compasso até o homem da meia-noite, fora isso ele era bem legal, até que chegou um dia em que coisas aconteceram, coisas que não gosto de lembrar.
Espreguicei-me e peguei uma vassoura, varria a frente de minha pequena padaria como de costume, um padeiro, eu era apenas um padeiro, deve ser por isso que as pessoas me olham com deboche, eu também iria rir de mim no lugar deles, minha vida chegava a ser ridicula e eu sofria de depressão. Se já tentei suicidio? não irei negar que já pensei sobre, porém, antes disso, tem uma coisa que preciso fazer.
—Lá vai ela — Olhei de canto de olho para a menina que corria entre as pessoas, ela era ágil, muito ágil, poderia fazer muita coisa no futuro usando essa agilidade, porém, o que ela fazia era considerado "errado", mas aposto que as pessoas que a julgam não se colocam no lugar do outro nunca, somos egoístas demais para isso. Apenas observava enquanto ela corria pegando frutas na feira logo a frente, as pessoas tentavam segurá-las porém ninguém conseguia, policiais a seguiam de perto e sacavam suas armas, eles estavam dispostos a matar uma pequena garota por roubar frutas, como disse, somos egoístas. Vendo que não teria mais como fugir indo naquela direção, ela deu meia volta e correu vindo para minha loja, os policiais já começavam a carregar suas armas quando passaram na frente de minha loja.
—Opa — Joguei minha vassoura para o chão fazendo os policiais tropeçarem em seu cabo, não foi por muito tempo, mas com isso a garota conseguiu se esconder, ótimo. Com raiva eles se levantaram e vieram em minha direção, antes de começar a me xingar um deles bufou.
—Qual o seu problema? -perguntou —Ela estava roubando, isso é errado, não defenda criminosos, padeiro.
—Foi um acidente, me desculpem -Ri sinicamente —Eu posso pagar pelo que ela roubou e... -Fui interrompido com um "shhh" do tal policial que se abaixou e pegou uma pedra, ela coube perfeitamente na palma de sua mão.
—É o seguinte, idiota, se isso voltar a acontecer -Ele arremessou a pedra na janela de minha loja. —Você vai acabar com algo pior do que uma janela quebrada, entendido?
—Sim, me desculpem mais uma vez -Disse varrendo os cacos do chão —Olha só que bagunça haha -Ri sarcasticamente enquanto eles iam embora.
—Eles já foram? -Uma voz baixa me perguntou vindo de trás de um caixote, logo reconheci aqueles cabelos ruivos e aqueles pequenos olhos claros.
—Já sim, Patty, pode sair -Chamei a pequena garota para dentro da loja —Você deve estar com fome, né? -Perguntei
—Ah, me desculpe mesmo Josh, eles quebraram sua vidraça. -Patty disse olhando para o chão com olhos marejados, apesar de tudo ela era uma boa garota, e apenas roubava para se alimentar, ele sempre viveu sozinha, nunca teve ninguém cuidando dela e achou que roubar seria o único jeito de sobreviver, como disse, ninguém nunca se coloca no lugar de ninguém.
—Isso não tem importância, eu já estava pensando em trocar ela mesmo -Servi um pedaço de bolo para ela e me sentei do seu lado —Mas o mais importante, eu não vou poder te defender para sempre, então pare de roubar, você é uma garota forte, vai achar outro jeito, se quiser pode trabalhar aqui comigo.
—Eu sei, bem, para isso primeiro você deveria ter lucros não é mesmo? e sua situação não está muito melhor do que a minha -Disse cabisbaixa -Você deveria se mudar pra um bairro mais rico e tentar a sorte lá, a situação está dificil aqui.
—Está mesmo não é? -Me levantei e caminhei em direção a pia —Bom, mas se eu não estiver aqui, quem era cuidar de você, moça? -Ri baixo e pude perceber que ela tinha ficado com vergonha.
—Josh -ela se levantou e falou meu nome em voz alta —Quando eu crescer irei me casar com você -Seu rosto estava ruborizado, mesmo com a personalidade forte ela ainda era uma garota e um dia será uma grande mulher.
—Haha, mal posso esperar, Patty -Ri baixo, porém aquele momento divertido iria acabar quando ouço a porta ser aberta com violência. —Estamos fechados -Disse me virando em direção a porta e lá vi o mesmo policial de antes.
—Eu sabia -Ele disse com um sorriso —Você realmente estava ajudando ela a se esconder não é!? irei levar vocês dois para a prisão -Ele deu um sorriso satisfeito, Patty rapidamente correu em minha direção e se escondeu atrás de mim, ela tremia, estava muito assustada.
—Oh, você é bem mal-educado, né? -Disse sarcasticamente —Eu pensei ter dito que estavámos fechados, por favor saia. -Uma veia saltou em sua testa ao ouvir isso.
—Não banque o engraçado -Ele veio em minha direção, puxou meus cabelos e com violência me jogou contra o chão.
–Josh -Patty me gritou, estava tudo meio embassado mas pude ver o policial a agarrando e a levando para longe, seus companheiros me levantaram do chão e me algemaram, vagarosamente fui levado até a viatura ali perto, não podia fazer nada.
Patty's PV
Aquele gordo careca estava quase que me arrastando junto dele, as pessoas viam a cena e aplaudiam ao invés de me ajudar, eles consideravam aquilo que o policial estava fazendo como algo certo, eu não podia acreditar, bom eu não os culpo, afinal eu sou uma ladra. Ele me arrastou até um beco um pouco afastado da feira, não passava muita gente por ali e já anoitecia, estava bem frio.
—Agora que reparei em você -O policial disse me jogando contra a parede —"Cê" tem um corpinho bem legalzinho hein? quantos anos você tem? quatorze? quinze? -Perguntou com a boca próxima ao meu ouvido
—Você é um nojento, me solta -Me debatia para tentar me soltar, mas ele era obviamente mais forte do que eu, não tinha chance alguma contra ele, fora o medo que estava sentindo que não me ajudava em absolutamente nada.
—Relaxa, você não vai ser a primeira -Ele passou a mão em minha coxa —E aposto que não vou ser o seu primeiro também, não é? -Ele agarrou meus seios com força
—P-Pare -Gaguejei, não podia fazer nada naquele momento, estava sendo controlada por aquele nojento, lágrimas não paravam de cair, naquele momento só pensava em onde o Josh poderia estar e sonhava com ele vindo me salvar, como sou idiota, não há nada que alguém podia fazer, ele era um policial, ninguém seria louco o bastante para se virar contra a "justiça" ou alguém que deveria servir ela pelo menos.
—Não diga que não quer -Ouvi o barulho de seu zíper, é agora, ninguém realmente veio me salvar.
—Opa, isso não me parece muito justo -Uma voz com suave dizia vindo atrás de nós -Oh, senhor policial, que coisa feia, não pode fazer isso com uma pequena garota, olha só pra carinha dela -Pude finalmente ver, lá estava ele, um homem magro, alto, vestindo um sobretudo vermelho, uma camisa preta e jeans, tinha uma mochila em suas costas. Tinha cabelos até os ombros levemente ondulado nas pontas e tinha várias tatuagens, porém só consegui reconhercer três cruzes inversas, duas nas laterais de seu pescoço e uma bem no meio de seu peito.
—Saia daqui garoto e esqueça tudo o que viu, ou então minha arma irá com uma bala a menos pra casa -Disse o policial empunhando sua arma.
—Oh, que bela arma hein? bom vejamos, você tem a arma, as balas e o dedo -Ele começou a caminhar vagarosamente em nossa direção —Mas será que você tem a coragem?
—Seu merda -Dois disparos, fechei meus olhos na hora e gritei protegendo meus ouvidos, com certeza ele estava morto, e não queria ver a cena. —Impossivel -Ele murmurou, abri os olhos e lá estava a cena. Ele havia parado as balas com seus dedos, parecia a cena de um filme, era algo inacreditável, quando olhei com mais atenção vi que suas tatuagens brilhavam e sua expressão era de ódio.
—Você não teve a coragem -Ele segurou o cano da arma e o entortou apenas com suas mãos nuas —Por que não mirou em minha cabeça? você não tem coragem pra matar alguém -Tudo escureceu.
Josh's PV
Com certo esforço consegui escapar dos policiais, pra falar a verdade eles eram bem idiotas, tinham deixado as chaves das algemas caírem sem perceber e ao perceber isso pedi um copo de água e enquanto os idiotas iam buscar, consegui me soltar.
No momento estava correndo com bastante pressa e perguntava para todas as pessoas se elas haviam visto Patty, porém, todas me diziam algo como "Você ajudou ela da última vez, não irei dizer" ou então "Pra quê? deixe ela ser presa de uma vez" eram todos hipócritas sem coração, não sabem a dor de ser sozinho, não devem ficar nem cinco horas sem comer algo.
Estava vasculhando cada ponto do bairro e cheguei em um lugar afastado da feira, estava bem escuro, porém, algo em meio a escuridão brilhava, caminhei vagarosamente com cuidado e lá vi Patty deitada no chão encolhida por causa do frio, coberta com um sobretudo vermelho e o policial... eu não podia acreditar, ele estava completamente congelado, olhando em seus olhos eu via pavor, estavam esbugalhados e pareciam chorar, não sou a favor da violência, mas se ele estava em um beco com a Patty não devia estar querendo fazer algo certo, teve o que merecia.
Peguei Patty no colo e comecei a andar pelos arredores observando tudo com cuidado, não fazia idéia de quem era aquele sobretudo, mas não é a primeira vez que tenho experiências com esses congelamentos repentinos.
—Meu trabalho acabou, tomem mais cuidado da próxima vez -Ouvi alguém dizer isso, porém não o encontrei em parte alguma, ainda não tinha idéia do que tinha acontecido, acho que nem queria saber, pela manhã tentaria descobrir. Como tudo isso foi acontecer do nada? e por que comigo? droga, eu sou apenas um padeiro.
Levei Patty para minha casa e a coloquei em minha cama, ainda estava pensativo com o que tinha acontecido hoje, me sentei no sofá e tentei afastar esses pensamentos, tentei pensar que não era ele, queria pensar que não o havia encontrado, mas os sinais não paravam, o congelamento, aquele sobretudo, aquela voz e o fato das minhas tatuagens na mão coçarem, tudo se encaixa, ele está aqui, eu finalmente irei vê-lo, depois de todos esses anos, por algum motivo lembrei da época que éramos crianças.
Horas se passaram e finalmente amanheceu, não consegui pregar os olhos e estava com olheiras. Patty havia acordado e estava tomando café, ela ainda não havia dito nenhuma palavra, então decidi tentar dialogar.
—Patty... -Disse e ela olhou pra mim, estava um pouco trêmula —Você se lembra o que aconteceu ontem? pode me dizer algo? -Puxei uma cadeira e me sentei ao seu lado.
—Bom... -Ela disse e respirou fundo —Aquele policial havia me arrastado para longe da feira e começou a dizer um monte de idiotices pra mim e bem... ...ele me tocou -Me levantei da cadeira quando ouvi isso
—O quê!? eu ouvi direito? ele passou a mão em você?
—Sim, mas -Ela disse olhando pra baixo —Antes dele fazer qualquer coisa, um cara apareceu e parou as balas dele e... tudo tá confuso, só lembro de sentir muito frio na hora e acordar aqui.
—Realmente é ele -Falei baixo e fui até meu quarto, peguei uma mochila que estava jogada no canto e comecei a enche-la de coisas, não pretendia ficar mais aqui, finalmente meu objetivo estava perto de mim, não o deixaria escapar.
—Josh... -Patty entrou no quarto —O que está fazendo? pra onde vai? por que está pegando suas coisas? -Ela se aproximou e tentou me impedir
—Patty, você já é grande, já pode se cuidar sozinha, não é? -Disse olhando em seus olhos —Tem uma coisa que eu preciso fazer já faz algum tempo, e não posso te levar, então quero que você tome conta da padaria pra mim, acha que pode fazer isso?
—Mas pra onde você vai? é arriscado? não vou deixar você ir assim sem mais nem menos -A personalidade dela realmente era muito forte, ela me observava séria com as bochechas infladas e os olhos marejados, não pude deixar de dar um leve sorriso.
—Por que está tão preocupada, Patty? -beijei sua testa —Eu te prometi que nós vamos no casar, não é? então relaxe.
Depois disso ela pareceu aceitar a situação, ela tomaria conta da loja enquanto eu iria atrás de meu objetivo, claro que deixei alguém de confiança tomando conta dela, depois de tudo ela ainda tem apenas quinze anos e não iria conseguir fazer tudo sozinha, então minha vizinha, que no passado foi a primeira pessoa a me dar um voto de confiança para abrir a loja iria tomar conta dela e daria cobertura caso a policia fosse atrás dela de novo, não havia mais nada para me preocupar, poderia me concentrar em meu objetivo.
—Espero que não tenha esquecido meu rosto, Max.
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