Bad Reputation
9 Chapter 7
Notas iniciais
O reflexo no espelho mostrava o semblante cansado. Os olhos azuis estavam caídos, demonstrando a noite mal dormida, junto das olheiras pendentes. Os cabelos estavam penteados, mas ainda incomodavam, dando a sensação de que não estavam como deveriam estar. Margot respirou profundamente, ignorando a imagem a sua frente. Estava difícil de acreditar que era ela naquele reflexo. Antes era tão cheia de vida, tão bela e então, se tornou uma mulher sempre cansada, com olheiras e inchada.
Sua mão alcançou o batom vermelho no canto da pia e contornou os lábios carnudos, se orientando pelo espelho. Davam um contraste bonito contra sua pele clara, mas Margot se sentia com aspecto de doente. Encarou a boca pintada e tentou sorrir. Lembrava-se de como Bruce adorava aquele batom e se perguntou se ele continuaria gostando depois de vê-la naquela situação.
De repente, sentiu uma pontada na barriga que a fez suspirar. Alisou o volume devagar, sentindo um incomodo. Estava se sentindo culpada ultimamente, pois não conseguia sentir a felicidade que deveria. Sua mãe sempre lhe contava que, apesar das dificuldades de uma gravidez, a felicidade era tremenda. E não era bem assim o que Margot estava sentindo.
Tudo parecia mais difícil, mais complicado. Não conseguia dormir e comer direito. O peso da barriga atrapalhava para andar, fazia sua coluna doer e suas pernas mal se sustentarem. A vida dentro de si não parava de se mexer e a cada movimento brusco, a machucava. Às vezes, era preciso se encostar a algum lugar e esperar até que se acalmasse. Margot se sentia desesperada pela ansiedade do parto. Queria por um fim naquilo, mas sabia que seria só o começo. E o pior era saber que não teria Bruce por perto.
Ela saiu do banheiro, prendendo os cabelos em um rabo-de-cavalo bem alto e desleixado. Então, sentou-se sobre a beirada da cama para calçar as sandálias baixas e simplórias. Pietro continuava a se mexer, causando desconforto.
— Devíamos ter ido adiante com a ideia de abortar... — sussurrou a si mesma, lembrando-se da primeira reação entre eles.
Quando contou, pouco satisfeita, a Bruce que estava grávida, ele pareceu preocupado. Ele era um policial atarefado e ela uma advogada renomada. Mal paravam em casa, sequer tinham alguma responsabilidade com os serviços caseiros. Um filho significava uma mudança radical na vida deles e, por isso, cogitaram a ideia de interromper. Alimentaram o plano por algumas semanas, até decidirem que seria melhor prosseguir, afinal estavam na idade de terem um filho e logo seria tarde demais. O problema é que nenhum deles imaginou que seria tão difícil, principalmente para Margot.
Terminou de calçar os sapatos e se levantou, com dificuldade. Já vestida com o longo vestido azul escuro, ela recolheu apenas um fino casaco para por sobre os ombros. Então, seu celular despertou avisando que estava no horário marcado com o médico. Ela se adiantou, pegando o celular e as chaves de casa e do carro.
Teve de ajeitar o banco do motorista para conseguir ficar mais confortável, imaginando que Bruce estranharia quando chegasse. Antes de dar partida, ela alisou a barriga algumas vezes.
— Só por hoje, Pietro... Me dê uma trégua... — suplicou baixinho, então girou a chave.
O trânsito não estava problemático, mas também não estava amigável. Alguns sinais demoravam mais que outros e algumas vezes quase aconteceram acidentes na pista. Margot odiava enfrentar aquele tipo de coisa. Se Bruce estivesse ali, certamente já teria gritado inúmeros palavrões e enfrentado alguns homens. Ela sempre precisava podá-lo para não passar dos limites, mas agora compreendia o quão irritante era passar por aquilo.
A clínica que frequentava, desde o início da gestação, ficava longe de sua casa, mas era a melhor da região. Sua mãe que indicou, logo que recebeu a notícia. Margot lembrava-se com clareza a felicidade que a mulher sentiu, embora não gostasse de seu marido. E foi só pensar nela, que seu telefone tocou. Quando reparou no nome descrito no visor, soltou um risinho nasal. Colocou-o em viva voz e atendeu o chamado de sua mãe.
— Hoje você tem médico, sabe disso, não é? — ela a lembrou, fazendo Margot revirar os olhos.
— Já estou a caminho, dona Eleanor.
— Como está seu dia? E meu netinho?
Margot suspirou, fazendo uma curva devagar.
— Quer mesmo saber? — perguntou sem prestar atenção, estava dando passagem a outro carro na preferência. — Está uma droga! Eu sequer consigo andar direito! Pietro não para de se mexer e isso me incomoda! Estou irritada e tenho vontade de chorar e gritar o tempo todo! Meu aspecto é de doente, meus cabelos estão horríveis, eu estou com olheiras...
— Oh, querida, eu sei que parece difícil, mas...
— Parece difícil? — ela riu escarnecedora. — Se eu soubesse que seria assim, tinha aceitado a ideia de Bruce de interromper logo no início.
Eleanor estalou os lábios.
— Ainda bem que não aceitou! Não é porque o seu marido é irresponsável que você tem que ser também! Vocês fazem as coisas e tem de arcar com as consequências, embora eu acredite que Bruce não tenha essa capacidade...
— Bruce não é irresponsável, mãe! O problema é que ele é um policial, ele tem responsabilidades em qualquer lugar, não só comigo!
— Com você menos ainda, quer dizer! Você está passando por tudo isso e onde ele está? Está longe, fazendo sabe lá o quê!
— Ele está trabalhando, mãe! Ele não pode simplesmente negar ordens! Acha que eu não o queria perto de mim? — bufou irritada. — Porra, está difícil sem ele, mas o que você quer que eu faça? Diga a ele para escolher entre eu ou o trabalho?
— Bem, acredito que ele iria escolher o trabalho, mas...
Margot sequer esperou que ela terminasse de falar e desligou o telefone. Seu dia já estava difícil o suficiente para acabar se irritando ainda mais com sua mãe.
Dirigiu por mais dois quarteirões e conseguiu ver a clínica. Como não poderia estacionar na frente do estabelecimento, teve de dar a volta em mais outra quadra e parar perto de um beco. Assim que estacionou, Margot reparou no relógio. Estava atrasada há quase vinte minutos. Precisava se adiantar para não perder a vaga.
Como não era a primeira consulta naquela semana, ela já havia deixado os exames dentro do carro, no banco traseiro. Quando virou para pegá-los, reparou que tinha algo com um cheiro esquisito. Com uma careta de nojo, ela procurou o motivo do cheiro e achou uma camiseta preta de Bruce, melada de suor seco. Provavelmente, ele teria retirado-a depois do serviço e a jogou ali atrás. Encarou o pano preto amarrotado e decidiu que jogaria aquilo fora, mesmo que sua vontade era por fogo.
— Você não está tão errada assim, mamãe... — comentou sozinha, segurando a blusa com nojo.
Ela deixou o carro, pronta para seguir até a clínica, mas assim que trancou o carro, notou que havia esquecido o pedido de ultrassonografia no banco do carona. Com um suspiro impaciente, ela deu a volta até a outra porta.
Aproveitou que já recolhia a papelada e procurou para ver se não havia esquecido mais nada. Olhou para o banco de trás, hesitante em mexer na bagunça de Bruce, e decidiu olhar o porta-luva. Foi quando sentiu alguém agarrar seus cabelos com força e lhe puxar para trás.
Foi erguida a força e sentiu algo cutucar sua coluna. Seu coração acelerou ao perceber que era um cano de uma arma. Ela levantou as mãos, deixando a papelada e a blusa de Bruce cair.
— Pode me entregar tudo o que você tem, dona! Rápido, rápido! — o homem exigiu. Segurava-a por trás, prendendo seus cabelos com a mão e apontando uma arma pra suas costas.
Margot meneou, não havia nada de valor no carro que pudesse entregá-lo.
— Eu não tenho nada, eu juro! Só tenho exames e...
— Dona, não me enrola! Esse carro está cheio de coisa! — interrompeu-a, apertando a arma contra o corpo dela. — Eu vou contar até três para você me dar tudo o que tem nessa porra, se não eu atiro!
— Não tem nada, eu juro... — insistiu e sentiu ele lhe sacudir com força.
— Um!
— Por favor, eu te juro que não há nada! — fechou os olhos, sentindo o medo deslizar por suas veias.
— Dois...
— Por favor, eu estou esperando um...
E antes que ela pudesse concluir, três tiros foram disparados contra suas costas, um em cada ponta. Ela abriu a boca em um grito mudo, sem som algum. Seu corpo começou a despencar, escorregando pelo corpo dele, que a soltou. Os cabelos soltaram-se dos dedos dele e do elástico, formando uma cascata negra em volta do rosto pálido. E como um instinto, suas mãos seguraram a barriga perfurada por tiros, mole e morta.
Tudo parecia em câmera lenta. O encontro de seu corpo com o chão. O homem ignorando seu estado e vasculhando seu carro. O sangue escorrendo por todo canto, manchando seu vestido e sua pele. A vida escorrendo de sua barriga e fugindo do seu próprio corpo.
No entanto, seus pensamentos continuaram a correr como um rio. Pensou em sua mãe, na discussão que tiveram. Pensou na barriga mole que há minutos atrás carregava seu filho. E o filho de seu marido. Então, pensou em Bruce. E a última coisa que seus olhos viram antes de se fecharem, foi a blusa suja de Bruce.
O garoto encarava todo o escritório bagunçado e passava o olhar para o homem a sua frente. Ele parecia nervoso e agoniado, Oliver conseguia sentir isso no olhar dele. Talvez porque não era do feitio de Terrence pedir desculpas. Era o que o garoto imaginava.
Havia sido chamado por ele, no horário de almoço, para conversarem sobre o ocorrido. Oliver imaginou que poderia se tratar de qualquer coisa, menos que ele estaria disposto a pedir desculpas. Não sabia como reagir àquilo e nem se seria capaz de conseguir palavras ou perdão.
— Então, pode me desculpar? — ele insistiu ao perceber o silêncio do rapaz.
Oliver ergueu os olhos, desviando dele.
— Pelo o que, exatamente? — questionou, passando a vista para os próprios dedos. — Por ter abuso de poder o tempo todo sobre mim, por ter duvidado de que um maníaco tentou me agarrar e ter pagado para ver?
Terrence suspirou, meneando.
— Você não é nenhum anjo, Oliver! Sabe muito bem que suas punições foram necessárias!
— Ah, claro, mas e quanto a Luke? De todas as punições que eu tive, ele merecia tanto quanto! — contestou com certo tom de irritação.
— Não estamos falando de Luke, estamos falando de Maxwell.
Oliver desviou o rosto, sentindo certa repulsa ao escutar aquele nome. Ainda estava tudo muito recente em sua mente e ele não queria ter de lembrar daquilo, nem tão cedo. Entretanto, Terrence continuava a lhe olhar, esperando pelas desculpas. Oliver sabia que tudo o que tinha de responder era algo positivo, mas que não importava. Ele podia estar se sentindo um lixo e Terrence não se importaria, só queria colocar um pano sobre o assunto.
De repente, o telefone tocou. Ambos encararam o aparelho com surpresa. Era um chiado estranho para um telefone e que incomodava, portanto Terrence logo tratou de atender. Oliver permaneceu, escutando a conversa dele. Então, reparou no semblante dele transformar-se em espanto em questão de milésimos.
— Como é? Você está falando sério? — perguntou chocado, seus lábios estavam trêmulos.
Oliver franziu o cenho. Não conseguia escutar o que a outra pessoa falava, mas não era algo bom, isso era notório.
— Você tem certeza de que é ela? — Oliver notou que as mãos dele tremiam e que a cada segundo que se passava, o desespero em seu semblante só piorava. Aquilo o deixava ainda mais curioso. — Como vou falar isso para o Rogers?
O sobrenome de Bruce chamou a atenção de Oliver. Tentou ligar os pontos e concluiu que deveria ser algo com a esposa dele. Lembrou da enorme barriga que ela trazia e imaginou que se tratasse do nascimento. Entretanto, Terrence parecia chocado demais para se tratar do nascimento de uma criança.
Ele desligou o telefone com brutalidade. Encarou o aparelho por alguns segundos e esfregou o rosto, de puro nervosismo.
— Oliver, vá chamar o Rogers! — ordenou com a voz embargada.
— O que aconteceu?
— Nada que você precisa saber, rapaz! Só o chame e diga que é urgente! — explicou, apontando a porta para ele.
— Aconteceu algo com a esposa dele? — insistiu.
— Oliver! Só faça o que eu falei, por favor!
O garoto assentiu nervoso e se levantou depressa, indo em direção a porta. Sua cabeça tentava adivinhar o que estava acontecendo, desesperadamente. A curiosidade era algo infernal e mesclava-se com a preocupação.
Caminhou pelo pátio, observando os rapazes saírem do refeitório e procurou por Bruce. Seu coração estava acelerado, imaginando ser algo ruim. Passou o olhar por todo o campo, notando Roy se aproximando. Ignorou-o e continuou procurando por Bruce, que parecia ter sumido. Decidiu ir até o refeitório e o encontrou sozinho, comendo uma maçã.
Um misto de medo e ansiedade atingiu Oliver. Estava com medo de se tratar de uma notícia trágica e não queria que Bruce lidasse com aquilo. Assim como ele o protegeu, Oliver queria fazer o mesmo. Entretanto, não tinha outra escolha, senão fazer o que Terrence havia pedido.
— Bruce... — chamou-o de maneira receosa.
Ele não o olhou de volta, permaneceu encarando a maçã. Não tinha coragem de olhá-lo depois de quase beijá-lo. Estava o evitando a manhã inteira, mas parecia impossível negar aquele chamado. Resolveu olhá-lo e percebeu que ele parecia nervoso.
— O que houve?
— Terrence... — começou, mas sua voz pareceu falhar. Foi preciso respirar fundo. — Terrence recebeu uma ligação, parecia séria... Ele não quis me contar, mas... Bruce, ele disse que precisa falar com você e é urgente.
Bruce se ergueu, franzindo a testa. Pela manhã sentiu uma sensação estranha e não conseguia parar de pensar em Margot, achou que era por culpa. Porém, ao escutar aquele chamado, a preocupação tornou a tomar sua cabeça.
Agradeceu a Oliver pelo recado e se afastou. Oliver esperou que ele ganhasse certa distância, então resolveu segui-lo. Tinha notado que ele estava lhe evitando a manhã inteira e isso o impediria de contar o que estava acontecendo, portanto descobriria de uma maneira ou outra.
Tentou despistar Roy, que não parecia prestar muita atenção. Alguns rapazes o olharam, mas por conta de outra coisa. Todos pareciam curiosos pelo o que tinha acontecido e alguns tiveram a coragem de perguntar no dormitório. Oliver os respondeu a verdade com uma conformação lamentável.
Observou Bruce adentrar no gabinete de Terrence e, olhando de um lado para o outro, se adiantou até a porta. Não era de seu feitio escutar a conversa alheia, mas era em relação a Bruce e tudo em relação a ele, Oliver sentia necessidade de saber. Colou a orelha na porta e a primeira voz que escutou foi de Terrence.
— Sugiro que se sente primeiro, acredite... É melhor! — sugeriu, indicando a cadeira.
Bruce meneou nervoso.
— O que aconteceu, Terrence? Oliver estava nervoso quando foi me chamar.
— Tem certeza que não quer se sentar? — insistiu e mais uma vez, Bruce negou. — É sobre sua esposa, Rogers...
Ele piscou algumas vezes. Sua mente tentava decifrar aquilo antes mesmo de saber a verdade. Terrence suspirou e abaixou o rosto.
— Eu sinto muito, mas...
— O quê? O que houve com ela? — perguntou exasperado, ansiando e temendo a verdade ao mesmo tempo.
— Ela foi assaltada, mas parece que ela reagiu, não sabemos direito... A rua estava vazia e o criminoso não falou muito...
Os olhos de Bruce encheram-se de lágrimas e seus lábios começaram a tremer.
— Enfim, ela parece ter reagido e... Ele atirou três vezes contra ela. — Terrence prosseguiu, sentindo o peso daquelas palavras. — Ela não resistiu, Rogers...
A voz dele parecia ter sumido diante da notícia. O mundo inteiro pareceu ficar mudo, tudo o que ele conseguia escutar era a frase de Terrence anunciando a morte dela. Ficou difícil de respirar e de segurar as lágrimas.
— Eu sinto muito, Rogers! Sei que não adianta muita coisa agora, mas... Prenderam o rapaz. Ele tem dezessete anos e já tem uma ficha criminal bem recheada de assassinatos e assaltos. Acredito que ele não vai durar muito...
Ele continuava sem responder, apenas absorvia as palavras de Terrence. Havia um turbilhão de sentimentos que trafegava pelo corpo de Bruce. Raiva, ódio, dor, tristeza, chateação. Tudo junto destruindo cada parte dele.
— Eu te liberaria hoje, mas não tem como te buscarem hoje, mas amanhã logo cedo você será levado para casa. — concluiu, batendo levemente sobre o ombro dele. — Por enquanto, você está liberado dos seus afazeres.
Bruce se desviou, ainda sem palavra alguma. Ignorou tudo ao seu redor e foi em direção a porta. Seus passos pareciam pesados e sua respiração doía para ser executada. Deixou Terrence sozinho e abriu a porta, ignorando a silhueta de Oliver. O mundo parecia vazio. Só havia ele e o fantasma de Margot.
Todos os sons estavam abafados ao seu redor. Sua visão estava turva. Havia um zunido em sua cabeça que aumentava gradativamente, engolindo todos os outros sons e os ensurdecendo. Ele não conseguia pensar direito onde estava indo, apenas seguia.
As lágrimas banhavam seu rosto sem controle algum e por mais que fosse um pranto silencioso, era visível a dor naquelas lágrimas. Suas mãos tremiam e as juntas de seus dedos doíam de tanto apertá-las no punho fechado. Seus passos pareciam rachar o solo de tão forte que pisavam.
Ele alcançou o canto isolado do acampamento, onde guardavam as lenhas para serem usadas e futuramente, cortadas. Sua mão agarrou o machado escondido por baixo dos tocos e sem delongas, acertou-o feroz contra o primeiro tronco de madeira que achou. Acertou a primeira vez. A segunda. Terceira e quarta. Continuou acertando, seguidas vezes, descontando toda a raiva e frustração naquela madeira.
Não era justo, nada daquilo. Margot estava esperando um filho seu e como se não importasse, a vida dela foi roubada. Eles tinham uma vida juntos para viverem, havia tanta coisa para verem, para compartilharem. Tinham toda uma felicidade para construir. Tantos planos e tantas emoções. Tantos momentos e tantos desejos. Era injusto que a morte desconsiderasse tudo aquilo e tomasse a vida dela.
Era tão difícil de acreditar e mais difícil ainda de suportar, pois era como um ponto final no meio de uma frase. Sem sentido e desconexo. Não havia vírgula ou reticências. Não dava ideia de continuidade. Era o fim e por isso doía tanto. Não havia nada mais além dele, apenas as lembranças que ficavam antes.
Não conseguia imaginar uma manhã que acordaria e não encontraria Margot ao seu lado, para poder admirar o quanto ela ficava bonita mesmo com os cabelos bagunçados e o rosto amassado, escutá-la reclamar da preguiça de ir trabalhar. Ou então, chegar em casa depois de um longo dia e receber seus sorrisos e abraços, ouvi-la dizer o quanto sentiu sua falta. Era insuportável pensar que quando retornasse ao lar, estaria sozinho. Não teria sorrisos. Não teria abraços e beijos. Não teria Margot. Teria só ele. E ele não queria essa realidade.
Estavam indo tão bem. Haviam feito as pazes. Não havia mais brigas e discussões entre eles. Margot estava sentindo sua falta e era recíproco. Ele não via a hora de retornar e abraçá-la, sentir seus lábios. Queria poder chamá-la de "sua" e alisar sua barriga enquanto conversava com Pietro. Entretanto, tudo se tornou um verdadeiro nada. Tudo aquilo se desmanchou no vento no momento que tiraram a vida dela.
A raiva explodia em seu interior junto com a impotência. Era seu dever como policial proteger as pessoas. Estava sempre as protegendo, dando a vida para garantir que essas pessoas retornassem a sua família e, no entanto, ele não foi capaz de proteger a sua própria família. Queria tanto proteger todo mundo e não conseguiu proteger a parte mais importante de si. Não estava lá para enfrentar aquilo por ela, mesmo que isso significasse entrar na sua frente e receber seu tiro. E era algo que Bruce faria, sem pensar duas vezes. Morrer no lugar da mulher que ama não parecia uma ideia tão má, mas sequer houve essa possibilidade. Ele estava tão longe, tão inerte a tudo, que nem cogitou a ideia de poder fazer algo para salvá-la. E isso lhe causava uma culpa inimaginável.
Sentia como se fosse uma responsabilidade sua, mesmo que não estivesse ao seu alcance. Uma obrigação de Bruce, proteger sua esposa, quando ele também protege a todos o tempo todo. Ele sentia que deveria ser capaz de fazer isso, já que o faz para outros que sequer conhece. Se ele era capaz de proteger um rapaz de um estupro, ele deveria ser capaz de proteger sua esposa. Mas essa não era a realidade. Ele não pode proteger aqueles que amava, foi incapaz de poupá-los de uma situação como aquela. E mesmo que não fosse sua culpa, ele sentia como se fosse. Estava a tanto tempo preparado para manter a segurança de qualquer um, inclusive sua família e então, não poder fazê-lo era como uma tortura.
A madeira a sua frente estava destruída e ele insistia. Seus músculos doíam pela força utilizada. Sua regata cinza melava-se de suor. Sua pele brilhava de úmida. Sua respiração estava ofegante. Ele estava cansado, não só de martelar contra a madeira, mas de tudo aquilo.
Berrou de raiva e arremessou o machado contra a grade, vendo a cerca elétrica chiar e soltar faíscas de encontro ao metal da lâmina. Agarrou os próprios cabelos e deixou o corpo cair sobre a grama. Os olhos fecharam-se enquanto as lágrimas escorriam, fazendo sua cabeça doer. Ele lembrava-se de todos os momentos ao lado dela. E não só ela. Morte já era um assunto conhecido por Bruce, mais do que ele gostaria.
Lembrava de seu pai e sua mãe. De quando observava-os dentro de casa, abraçados no sofá e torcia para um dia ter um casamento feito o deles. De como queria seguir os passos de seu pai, que era um policial respeitado e honesto. E também conhecer alguém amável como sua mãe, alguém que ele admirasse acima de tudo. Cresceu querendo ser como seus pais, mas sua adolescência mostrou o contrário. Era um rapaz inconsequente e impulsivo. Quando a raiva tomava conta, era quase irreversível. No dia que seu pai morreu num confronto, a raiva de Bruce o fez querer caçar um por um e dar-lhe o mesmo destino que deram a seu pai. Sua mãe tentou lhe acalmar e acabou machucada. Então, nesse dia, Bruce decidiu que mudaria. E agora, sentia esse mesmo sentimento de raiva impulsiva e parecia difícil de controlar.
Se erguendo novamente, ele esfregou o rosto. Precisava respirar fundo, ou faria alguma loucura. Afinal, já estava passando por sua cabeça ir atrás do bandido e dar-lhe a punição que achava justa, mesmo que não adiantasse de nada. Entretanto, a imagem de Margot o fazia lembrar que ela não concordaria com algo assim. Às vezes, ela era politicamente correta demais, muitas vezes reclamava sobre a polícia e ele precisava pigarrear, para lembrá-la que ele era um policial. Mas ele sabia, quando se lembrava dela. Se ele era um policial justo e correto, metade foi pelo que seu pai ensinou e outra metade foi Margot que auxiliou.
Seu pé acertou um chute violento em um toco de madeira, isolando-o pelo gramado. Não importava o quanto descontasse em qualquer objeto, aquela dor simplesmente não sumia. Jamais sumiria. Ele poderia gritar, socar, rasgar, quebrar... Nada daquilo adiantaria no fim das contas. Nem mesmo todo aquele pranto de lamento que escorria por seu rosto.
Não teve chance de dizer a ela que a amava. De abraçar seu corpo pequeno contra o seu. De dizer que Pietro teria seus olhos e seus lábios. Não teve a chance de embalar o corpo dela nos lençóis e beijar suas bochechas. De tocar seus cabelos com carinho e dizer o quão lindos eram quando estavam soltos. De dizer que ela era única e que sem ela, estaria sozinho. Não havia mais ninguém que dividiria a cama com ele, que discutisse com ele, que preenchesse aquela casa imensa. Não havia mais ninguém. E ele não sabia como lidar com isso.
A noite estava pendendo no céu, tomando o lugar da tarde alaranjada. Oliver acabava de sair da casa de banho, depois de cumprir uma prova de resistência, mesmo sem concentração nenhuma para tal. Estava preocupado com Bruce, desde que ele saíra do gabinete de Terrence e seguiu até os fundos, não o vira mais. Não tinha permissão para deixar as fileiras e por isso, não tinha ideia do que ele estaria fazendo.
Sequer conheceu a esposa dele e era inegável o ciumes que tinha, mas aquela notícia o acertou como uma pedrada. A família de Bruce havia sido arruinada por um delinquente e isso era irreversível. Não tinham o direito de tomar a felicidade dele. Não era certo. E Oliver tinha vontade de chorar só de imaginar o quanto ele estaria sofrendo.
Queria poupá-lo de toda aquela dor. Imaginar o quão destruído ele estava, o deixava arrasado. A última coisa que queria era vê-lo triste, mas sabia que impossível. E que também, não estava o seu alcance fazer nada para ajudá-lo. Tudo o que teria para oferecer era um ombro amigo e certamente, seria negado. Não o culpava por tentar lhe evitar, mas queria ser, ao menos, um amigo que o ajudaria num momento tão difícil quanto aquele.
Seguindo pelo terreno, observou Terrence chamar os detentos. Oliver seguiu o chamado, juntando-se nas fileiras, que estavam cada dia mais curtas. Os garotos iam se alinhando ao seu lado, todos reparando no semblante chateado de Terrence e Roy. Todos estavam se perguntando o motivo daquelas expressões, mas só Oliver sabia e desejava o contrário. Preferia não ter sabido de nada, já que não seria capaz de ajudar Bruce.
— Por motivos de força maior, hoje vocês estão liberados... Não haverá prova e nem tarefa noturna! Se quiserem, podem ir para o dormitório de vocês ou então ficarem pelo terreno, mas sem baderna! — explicou brevemente. — E, por favor, tentem não perguntar o motivo!
Por mais que eles notassem a chateação na voz de Terrence, não ficaram tristes por serem liberados. Logo, se dispersaram. Alguns seguiram até o dormitório, outros ficaram espalhados pelo terreno. Oliver permaneceu no mesmo lugar, em pé, encarando os próprios pés, minutos a fio.
Quando decidiu que não havia nada a se fazer, ele resolveu partir. Já que não poderia fazer Bruce esquecer a dor, trataria de esquecer sozinho. Seria melhor agir como se não soubesse daquilo do que ter que lidar com a dor de Bruce e não poder fazer nada. Entretanto, reparou na silhueta conhecida que se aproximava depressa.
Bruce passou como um raio, sem notar sua presença. Estava ensopado do suor que manchava sua regata e fazia sua pele brilhar. Mesmo com a pressa com que passou, Oliver conseguiu notar o rosto marcado de choro. Também carregava um machado na mão e seguia em direção a casa de ferramentas. Oliver ficou alguns instantes apenas observando-o.
Adiantou-se até a casa de ferramentas, ignorando todos os olhares curiosos dos rapazes no pátio. Abriu a porta com a mesma brutalidade que a fechou em seguida. Observou todo o lugar e fechou os olhos, se controlando para não quebrar tudo aquilo. Seguiu até a mesa nos fundos, onde ficavam outros machados e começou a amarrar o que usou junto dos outros. Nesse momento, escutou a porta se aberta. Imaginou se tratar de Roy e estava pronto responder tudo com algumas palavras automáticas quando escutou a voz da pessoa.
— Bruce?! — chamou-o baixo, parecendo um pouco incerto.
Bruce apoiou as mãos sobre a mesa, meneando. Não era preciso virar o rosto para saber que se tratava de Oliver. Havia escutado-o o suficiente para conseguir gravar seu timbre.
— Hoje não, Cherry Bomb! — respondeu breve, voltando a amarrar os equipamentos e se complicando nos nós detalhados.
— Eu escutei sobre sua esposa... — comentou, fazendo Bruce se irritar e jogar os machados pelo chão. Oliver tomou ar, um tanto receoso depois da reação dele. — É mesmo verdade? — questionou mesmo sabendo a resposta.
— Sim, Oliver, é verdade! Por quê? — finalmente, ele virou para encarar Oliver. Cruzou os braços diante do corpo e fitou o rosto dele.
— Eu sei como é perder alguém que amamos, então...
Bruce o interrompeu, se aproximando.
— Olha, eu realmente não quero ter esse tipo de conversa com você, certo? — respondeu grosso.
Oliver chateou-se ao escutar aquilo, mas respeitou. Apenas abaixou a cabeça, assentindo a ele.
— Bem... Se precisar, vou estar aqui. — acrescentou baixinho, quase em um fio de voz.
Bruce o observou dar as costas, se afastando como um cão com o rabo entre as pernas. Rolou os olhos para cima e suspirou, então encostou o quadril na mesa.
— Ele tem a sua idade, Cherry Bomb! — comentou repentinamente em um tom sugestivo, fazendo Oliver interromper sua caminhada para lhe escutar. — Dezessete anos e ele matou minha mulher e meu filho que sequer chegou a nascer, Oliver! Sabe o que é isso?
Havia um tom de escárnio na voz de Bruce, mas o garoto não se intimidou. Aos poucos, retornou até ele e o olhou nos olhos.
— Eu nunca tive uma esposa e eu nunca irei ter, é verdade. Filhos então... Só no caso de adotar, você sabe. — arqueou as sobrancelhas, devolvendo a resposta no mesmo tom. — Mas eu perdi minha mãe quando tinha nove anos, em um assalto. Eu não lembro quantos anos o bandido aparentava ter, mas eu lembro de todo o resto. Eu estava do outro lado da rua, comprando um sorvete. Ele a pediu que o desse todos os seus pertences. Ela não deu. Ele atirou cinco vezes contra ela, bem na minha frente.
Bruce abaixou o olhar, mais pasmo do que desejava. Estava na ficha criminal que Oliver perdeu a mãe, mas ter a versão detalhada do próprio era um tanto chocante. Ainda mais depois de conhecer toda a vida dura que ele tinha.
— Eu imagino que nada se compara a dor de perder um filho, mas eu entendo, mesmo que bem pouco, a dor que você está sentindo...
Ele ignorou a presença de Oliver e deixou que as lágrimas manchassem seu rosto novamente. Era impossível controlá-las quando o assunto retornava a Margot. Escondeu o rosto entre as palmas das mãos e o esfregou com violência. Oliver retorceu os lábios, observando-o tão vulnerável e fraco. Era a primeira vez que o via daquela maneira e preferia nunca ter visto.
Doía de uma maneira desconhecida ver Bruce magoado. Era como se parte sua estivesse sendo maltratada e humilhada. A melhor parte de si estava chateada e Oliver odiava lidar com isso. Gostava de Bruce animado, abrindo aquele sorriso tão marcante e belo. Ou quando respondia suas provocações e até mesmo quando lhe aplicava punições. Daria tudo para tirar aquela dor dele e senti-la em seu lugar, tudo para poupá-lo.
Então, ele ergueu o rosto avermelhado, exibindo um semblante de misto entre raiva e tristeza. Oliver procurou algumas palavras, mas quem abriu a boca foi Bruce.
— Eu não pude proteger a mulher que eu amo! Eu deveria estar lá fora, protegendo os que eu amo de bandidos e não aqui, bancando a babá para um bando de marmanjos delinquentes! — vociferou, balançando a cabeça de modo negativo.
— E o que você poderia ter feito? — Oliver franziu o cenho, balançando os ombros.
— Eu teria acertado uma bala no meio da testa dele! — rugiu, quase avançando sobre o rapaz, que não se afastou, embora sentisse certo receio diante de toda aquela raiva.
— E isso teria resolvido? Isso traria a vida de sua esposa e de seu filho de volta? — arqueou as sobrancelhas.
O olhar de Bruce se estreitou de maneira severa ao escutar aquilo. Era algo que sua mãe lhe disse quando seu pai morreu, ou que Margot lhe dizia quando perdia algum amigo em combate.
Um riso nasal escapou de Bruce e ele meneou, revirando os olhos.
— Não sei por que estou falando disso com você. Você é outro delinquente! Aliás, não duvido que poderia ter sido você! — retrucou injustamente, dando de ombros.
Oliver sentiu a injustiça daquelas palavras e de como elas a feriram, mas permaneceu diante dele.
— Não, Bruce. Não seria eu, porque eu sei o que significa matar alguém. Sei a dor que causa nas outras pessoas. — concluiu calmo, olhando-o fixamente.
Bruce não o respondeu mais nada, então ele resolveu deixá-lo sozinho. Por mais que o amasse, sabia que sua presença ali não adiantaria nada, senão um alvo para descontar toda a raiva e frustração e Oliver já tinha sido alvo de muitas coisas para suportar mais aquilo. E mesmo que seu coração doesse de deixá-lo sozinho, Oliver o fez.
Estava afastando-se quando escutou-o jogar todas as coisas que estavam sobre a mesa no chão enquanto berrava. Aquilo soou quase como um pedido de socorro e o impediu de continuar.
Quando retornou a ele, viu-o chorando esmurrando a mesa. Se aproximou com cuidado e tocou seu ombro, amparando-o. Alisou a pele suada dele com carinho, procurando por alguma palavra que pudesse ajudar. No entanto, invés de palavras, num ato de insanidade, Oliver o puxou para seus braços, o recebendo em um abraço apertado e compreensivo.
Não importava se ele estava sujo e suado, não importava se iriam abrir a porta e encontrar os dois juntos. Tudo o que importava para Oliver era tentar tirar aquela dor de Bruce, fazê-lo esquecer de tudo por um minuto que fosse. E então, quando sentiu as lágrimas dele molhando sua blusa, percebeu que quase chorava junto dele.
Bruce envolveu os braços na cintura de Oliver, o apertando com força. Afundou o rosto no pescoço dele, chorando ainda mais e manchando o uniforme branco dele. Sentiu-o lhe mantendo firme entre seus braços e alisando seus cabelos com ternura. Era algo novo para Bruce, que nunca imaginou receber tal toque carinhoso de Oliver, mas aceitou de bom grado. Era tudo o que estava precisando naquele momento e o colo dele era aconchegante.
O garoto encostou o rosto em seus cabelos molhados, sussurrando-lhe coisas positivas. Bruce o escutava e a cada frase, agarrava-se mais a ele, mostrando necessidade daquela ternura reconfortante. Oliver notou o desespero nos apertões em sua cintura e não foi capaz de impedir que o choro viesse à tona. Respirou fundo e encostou seus lábios nos cabelos dele, então os beijou seguidas vezes. Nesse momento, Bruce parou de se movimentar. Oliver engoliu a seco, praguejando mentalmente por ter tomado aquela atitude impulsiva. Certamente, ele ficaria irritado.
Aos poucos, Bruce foi erguendo o rosto em direção ao de Oliver. Olhou seus olhos surpresos e manchados de lágrimas. Depois, passou o olhar para os lábios que beijaram seus cabelos, entreabertos e úmidos. Bruce notou a proximidade dos rostos ao reparar na respiração dele contra seus lábios.
Segurou o rosto dele com a destra e fitou seus olhos curiosos, reparando no quanto eram expressivos e bonitos. Alisou sua bochecha, sentindo a umidade das lágrimas que escorreram ali. Começou a deslizar o olhar junto do polegar por sua pele, sentindo a textura lisa, chegando até os lábios, apertando-os levemente com o dedo. Eram macios e quentes, o que causava uma sensação tentadora nele. Os olhos se encontraram mais uma vez e então, Oliver avançou com os lábios até os dele, beijando-o de súbito.
Poderia ter se arrependido no segundo seguinte depois da ação, mas quando notou que Bruce retribuiu, insistiu, beijando-o com vontade. Era um beijo úmido por conta do choro, mas não menos gostoso. Os lábios envolviam-se com ganância, revelando todo desejo entre eles.
Entretanto, o beijo não durou muito. Por mais que o corpo de Bruce insistisse que ele continuasse, sua mente refletiu um choque de realidade, o fazendo lembrar de Margot, de tudo o que passaram juntos e da sua morte tão recente. Então, empurrou Oliver para longe.
Encarou o garoto a sua frente enquanto limpava o canto da boca. Estava incrédulo diante da ação dele de lhe beijar em um momento como aquele. Já Oliver notou o semblante dele mudar em segundos e prendeu a respiração, ficando receoso.
— Que porra foi essa? — perguntou se afastando de Oliver, que estava nervoso.
— Bruce, eu... Eu não sei... Por favor...
Bruce o cortou, avançando em sua direção. Oliver afastou-se simultaneamente, temendo a raiva estampada no rosto dele.
— Que porra você pensa que está fazendo? — trovejou enfurecido, agarrando sua camisa pela gola.
Oliver sentiu lágrimas brotarem em seus olhos diante da reação dele. Sabia que havia passado dos limites ao beijá-lo, mas ver Bruce daquela maneira, além de lhe dar medo, lhe magoava.
— Bruce, me desculpa, por favor... Eu juro que...
— Se você se aproximar de mim mais uma vez, eu mato você! Está me entendendo? — rugiu contra a face dele, que quase chorava.
— Bruce...
— Cale a boca, eu não quero mais escutar sua voz! Se você falar comigo, se encostar em mim, eu vou acabar com você! — sentenciou em voz alta, empurrando-o contra a mesa.
Oliver assistiu Bruce se afastar e antes mesmo de escutar a porta se abrir, caiu sentado no chão, aos prantos. Sua mente reproduzia as falas grosseiras de Bruce e as assemelhava de todos os outros. Todos os outros disseram a mesma coisa. Todos os outros o ameaçaram de mortes. E o maior medo de Oliver se concretizou. Bruce se tornou como todos os outros.
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