Notas iniciais
Olá, meus amores! Como estão? Então, eu deveria ter postado esse capítulo ontem, mas eu tive inúmeros imprevistos, por isso, peço desculpas pela demora. Preparem-se! Vocês que assistiram Containment, esse capítulo vai te lembrar muito o Jake e a Katie (shippei horrores, sofri mais ainda) Enfim, preparado para mais tiros no coração? ♥

Bruce respirou fundo. Inspirou o máximo de ar que pode. Expirou-o logo em seguida. Tornou a inspirar e expirar, seguidas vezes. Sempre profundamente. Não importava quantas vezes fossem necessárias, ele continuaria respirando profundo até ter certeza de que as lágrimas não retornariam.

Ele fechava os olhos e precisava esfregar o rosto. Tantas coisas surgiam em sua mente em milésimos de segundos que pareciam um raio. Inúmeros rostos das mesmas pessoas. Todos eles em expressões diferentes, de um extremo ao outro. Todos eles eram lembranças. E todas essas lembranças o machucavam como um mesmo raio cortando sua pele.

Sua mente trazia lembranças de quando magoava Margot e a fazia chorar. Odiava se lembrar daquelas cenas, mas parecia inevitável. Conseguia escutá-la lhe chamando de idiota e patético. Até mesmo quando ela dizia lhe odiar e que se arrependia de ter se casado. Ele também se lembrava que no dia seguinte faziam as pazes e que não era verdade. Entretanto, às vezes, Bruce queria que ela estivesse falando sério.

Ela quebrou tantas regras próprias quando aceitou aquele casamento. Porque jurou nunca casar com um policial, justamente por não gostar de tudo o que envolvia aquele cargo. Porque, quando nova, disse que só casaria depois de atingir todas as expectativas profissionais. Porque não haveria homem mais belo no mundo que a faria mudar de ideia. Bruce foi a exceção de todas essas regras e se sentia culpado. Talvez se não tivesse ligado no dia seguinte, como sempre fez, Margot estaria viva. Talvez se não tivesse cogitado a ideia de casar com ela, nada daquilo estaria acontecendo. Nem mesmo Oliver.

Sempre que fechava os olhos por mais de dois segundos, era capaz de se lembrar do semblante dele. Conseguia ver o medo e a tristeza no olhar. E Oliver nunca o olhara daquele jeito. Olhou para Maxwell daquele jeito. Provavelmente, olhou para todas as outras pessoas daquele mesmo jeito. Todas as pessoas que o machucaram. E Bruce tinha feito o mesmo. Era exatamente o mesmo que eles.

Arrancando-lhe os pensamentos difíceis, subitamente, bateram na porta. Bruce esfregou os olhos, tentando limpar os resquícios das lágrimas antes que entrassem. Tratava-se de Roy, com um sorriso tristonho.

— Terrence pediu para avisar que virão te buscar no horário de almoço. — informou e Bruce assentiu com a cabeça. — Vai esperar aí dentro mesmo?

Ele se levantou e recolheu a blusa fina preta, vestindo-a sobre a regata.

— Não, se eu ficar mais um minuto aqui, sinto que vou enlouquecer.

Acompanhou Roy para fora e logo receberam a luz branca do sol morno daquela manhã.

Tudo parecia arrastado e descolorido. Nem mesmo a grama que cobria todo o terreno parecia colorida. Pelo menos para Bruce, tudo estava em tons de cinza, do mais claro ao mais escuro. Ele observou todo o ambiente, procurando por alguém que não fosse Roy. Encontrou alguns dos rapazes se preparando para a revista e preferiu não seguir o amigo até lá. Quando virou o tronco, viu Terrence ajeitando o café da manhã e se deslocou.

Ele o recebeu com um sorriso compreensivo.

— Isso aqui vai acabar sem você! — admitiu enquanto arrumava alguns copos de leite.

— Nunca foi grande coisa. — deu de ombros, resolvendo ajudá-lo.

Terrence suspirou.

— Na verdade, está com os dias contados. Martin ligou avisando que essa joça está nas últimas semanas e bem... Eu também!

Bruce não respondeu, sabia que era culpa sua, mas não se sentia mal.

— Pense pelo lado bom, Terrence. Não vai ter de bancar a babá de marmanjo novamente. — brincou, olhando-o.

— Não se engane! Tenho duas donzelas para cuidar em casa e acredite, é mais fácil vencer uma guerra do que ter de lidar com filhas! — ambos riram e voltaram a ajeitar as coisas.

Aos poucos, os garotos foram se aproximando e pegando o lanche. Terrence continuou direcionado a Bruce, como se não os visse.

— De qualquer maneira, seu lugar não é mesmo aqui! — Terrence comentou, terminando de entregar o lanche para um dos rapazes e focalizando a figura de Oliver em seu olhar. — Veio para punir pequenas mentes criminosas e, na verdade, ganhou uma tiete!

Ele arqueou as sobrancelhas, bufando. Seu olhar também alcançou Oliver, notando o semblante chateado dele.

— Acho que ele vai ficar chateado por você ir embora. — Terrence provocou, mas notou que Bruce não riu.

— Ele vai superar.

Bruce se afastou e foi em direção a Roy. Nesse momento, passou próximo a Oliver, que virou o rosto, evitando o contato, mesmo sabendo que era o que Bruce estaria fazendo.

Seu nariz estava congestionado pelo pranto que durou a noite toda, por isso, sua cabeça também doía um pouco. Ele tentava segurar toda uma postura falsa. Sabia que não poderia desmontar, por mais que estivesse quebrado e magoado. Precisava permanecer de pé e aturando tudo aquilo. Sempre foi capaz de se levantar quando era derrubado. Nunca foi problema erguer o rosto depois da agressão. Oliver estava acostumado a dar a cara a tapas, receber os tapas e depois dá-la novamente. Depois de tudo que já viveu e aturou, aquele tipo de coisa deveria ser fácil de aguentar, mas não era.

Era tão difícil por se tratar de Bruce. A única pessoa que ele conseguiu nutrir um sentimento bom. O único que conseguiu sua confiança e que a cativou. E por mais que soubesse que não tinha sido a melhor ideia beijá-lo em momento como aquele, doía ter visto todo aquele sentimento ter se transformado em medo. Doía muito se lembrar da raiva e das ameaças. Principalmente das ameaças, pois nunca imaginou escutá-las de Bruce, porque Bruce não era como os outros. Ou não deveria ser.

Apesar de tudo, de estar magoado e chateado, tinha noção que precisava pedir desculpas. Não queria passar a ideia de que se aproveitou do momento de fragilidade ele, mas também não sabia como explicar aquela ideia. Não conseguiria uma explicação para aquilo, para o motivo de tê-lo beijado. Oliver simplesmente o fez. Não porque parecia tentador ou para se aproveitar. O beijou porque, talvez, era isso que se fazia quando se amava. E talvez, se tentasse explicar isso a ele, as coisas mudariam. Oliver se recusava acreditar que Bruce realmente tinha dito aquelas palavras com vontade ao literal.

Seguiu para a fila do café da manhã e recolheu seu lanche das mãos de Terrence, que pareceu lhe analisar com o olhar. Ignorou aquilo e se sentou sobre o gramado para comer. Seu olhar encontrou o de Bruce, que logo desviou. Permaneceu olhando-o, notando o quão cansado aparentava. Os olhos caídos e avermelhados. O rosto marcado. Bruce estava passando por um momento difícil e isso acabava por machucar ainda mais Oliver, que não poderia sequer tentar ajudar.

Quando o café da manhã terminou, Terrence logo deu as ordens para se ajeitarem nas fileiras. Ordenou que começassem os exercícios e, como um robô, Oliver obedeceu.

Seu corpo não estava nas melhores condições para os exercícios, mas ele insistiu, forçando o corpo a se alongar até os músculos reclamarem. Fez todos os abdominais ordenados, mesmo que seu ritmo tenha diminuído consideravelmente ao longo das repetições. Depois, forçou os músculos a cumprirem as flexões, mas eles cansaram logo de início, como se não estivessem acostumados a fazer aquilo sempre. Sabendo que não teria escapatória, Oliver forçou o máximo que pode. Até que seus braços tremessem e ele sentisse que fosse desabar.

O bom em se empenhar naqueles exercícios até que o corpo canse, era que podia esquecer, por um tempo, tudo o que aconteceu. Forçar seus músculos a agirem fazia sua mente esvaziar por um momento. O fazia esquecer daquele beijo e das consequências dele. Mesmo que por pouco tempo, o fazia esquecer em lidar com aquilo.

Assim que os alongamentos e exercícios terminaram, Terrence exigiu a revisão dos campos semeados e seus cuidados para a futura lavoura. Roy e Bruce os acompanharam até a casa de ferramentas e, nesse momento, Oliver engoliu a seco.

Se fazer os exercícios permitiam-no de esquecer o que aconteceu na casa de ferramentas, aquele lugar fazia exatamente o contrário. Conforme adentrava para recolher os equipamentos, ele podia reviver cada cena com avidez. Cada fala, cada olhar, cada instante. Tudo repassava na mente de Oliver e não só na dele. Quando olhou para Bruce, notou que ele tomava ar e então, deu as costas ao lugar.

Sem tempo para se afogar naquelas lembranças, nem tão boas assim, Oliver recolheu o material necessário e adiantou-se até os campos. Estavam bem tratados, embora não estivessem focando total atenção neles. Junto dos outros rapazes que restavam, começou a executar sua tarefa manual.

Bruce caminhava junto de Roy, prestando atenção nos movimentos dos garotos. Não tinha nenhuma obrigação de fazer aquilo, pois já estava liberado, mas preferia continuar enquanto dava, só para ocupar sua mente. Não queria continuar pensando em Margot e toda aquela tragédia. Quando chegasse, teria de lidar com o funeral da mulher da sua vida e aceitar que ela se foi. Portanto, ele não queria pensar naquilo por um bom tempo, até quando não fosse mais possível. No entanto, sua mente, na tarefa de esquecer aquela tragédia, acabava se lembrando de outra.

Olhar Oliver depois de tudo o que aconteceu trazia emoções estranhas, dentre elas nenhuma comparada a raiva. Não conseguia sentir raiva pelo que ele tinha feito, embora sua reação refletisse isso. Era um momento intenso, até mesmo íntimo. Não era a primeira vez que se abraçavam e desde a primeira, a sensação era a mesma. Não podia culpá-lo por sentir aquilo, mas não podia corresponder. Nem mesmo se quisesse, e ele não podia negar que parte sua realmente queria corresponder. Seria mentira se ele negasse essa parte, mais ainda se negasse que não sentiu nada naquele beijo. Mas ia muito mais além do que só considerar o que ele sentiu ou não.

Ele observou os garotos junto de Roy e conforme o tempo foi passando, a temperatura aumentava, obrigando Bruce a retirar a blusa preta e ficar somente com a regata cinza, que já estava marcada de suor. Não demorou muito mais quando os rapazes começaram a serem liberados e Terrence anunciou a Bruce que já estavam a caminho. Ele assentiu e decidiu terminar de arrumar suas coisas.

Oliver observou-o se afastar e teve de morder o lábio inferior para segurar as lágrimas. Provavelmente seria a última vez que o veria e não poderia dizer algo a ele. Tudo acabaria ali e Oliver não diria nem mesmo um "adeus" a ele. Isso o destruía por dentro. Tanto pelo fato de Bruce estar indo embora quanto por não poder se despedir dele.

Seguiu para o refeitório, suspirando em conformidade perante aquela situação. Parte sua tentava se convencer de que aquilo era a coisa certa. Talvez estivesse sendo do jeito que era para ser. Oliver sabia que Bruce estava além de todos os seus desejos e que jamais o alcançaria. Ele seria um homem casado se a tragédia não tivesse acontecido. Formaria uma linda família onde Oliver não teria lugar. Tinha de aceitar isso.

No entanto, quando estava quase entrando no refeitório, viu Bruce seguir até o vestiário dos monitores. Olhou em volta e percebeu que todos estavam ocupados com o almoço. Sabia que era sua única chance de, ao menos, se despedir dele. Mesmo que ele o ameaçasse de novo, Oliver precisava fazê-lo. Antes que fosse tarde demais.

Como um gatuno, ele se deslocou da fila do almoço para o vestiário. Teve de dar a volta na cabana do refeitório, mas conseguiu sair da vista de Terrence e Roy, ou de qualquer outro. Adiantou os passos até o vestiário e quando estava diante da porta, pareceu hesitar. A atitude grosseira dele fez o receio retornar, por isso foi preciso respirar fundo e engolir o medo. Era sua última chance e ele não a perderia por nada.

Encontrou Bruce trocando a blusa, de costas para a porta. Vestia uma camisa preta de mangas curtas e jogava a jaqueta do uniforme por cima dos ombros. Um curto sorriso surgiu nos lábios de Oliver por ter aquela chance de observar o corpo dele. Sem mais delongas, ele se aproximou cuidadoso enquanto pensava no que diria. Seu coração acelerava a cada passo que dava e teve medo de que Bruce fosse capaz de ouvir. Assim que chegou bem perto, tocou suas costas com a palma da mão.

— Eu precisava te... — sequer teve tempo de terminar, pois Bruce o empurrava contra a parede, segurando sua camisa pela gola, novamente.

Sua respiração falhou quando reparou o semblante enfurecido no belo rosto dele.

— Eu falei para você ficar longe de mim! Não quero você falando comigo, me tocando, nem mesmo pensando em mim! Se você insistir, eu vou ser obrigado...

— Tudo bem! Me mate! — cortou-o, segurando seus pulsos. — Faça isso! Eu não me importo que você faça, não há nada para mim lá fora!

Bruce franziu o cenho, ainda forçando-o contra a parede. Oliver deslizou as mãos pelos braços dele até o rosto, segurando-o. Sentia, bem no fundo, que morrer pelas mãos de Bruce não seria tão má ideia assim.

— Oliver, eu já te avisei e é a última vez que vou avisar... — ele murmurou sério. — Se afasta de mim, eu não quero ter de machucar você...

— Você acha que eu tenho medo de ser machucado? Acha que ameaças como essa me intimidam? Bruce, eu sei o que significa ser machucado, no pior sentido da palavra! — respondeu, tentando conter as lágrimas. Bruce lhe olhava fixamente. — Mas acredite em mim... Não vai ter ferimento que doa mais do que eu te ver partir e não dizer nada!

Bruce fechou os olhos por um momento. Parte sua lutava a favor de Oliver, querendo acolhê-lo. Entretanto, a outra parte queria por um fim naquilo tudo, pois sabia que seria o melhor jeito. Ele precisava escolher qual parte ele apoiaria.

Decidido, aproximou seu rosto do dele.

— Então é melhor você se acostumar com essa dor! Acredite em mim, você não quer ser machucado por mim no pior sentido da palavra! — segredou-lhe a ameaça e o empurrou para o outro lado, o afastando de si.

Oliver comprimiu os lábios, abaixando a cabeça, e mesmo assim, foi impossível segurar as lágrimas. Bruce o observou chorar e sentiu seu coração ser mais esmagado ainda. Portanto, decidiu deixá-lo para trás de uma vez por todas, pois se demorasse mais um pouco, seria incapaz de fazê-lo.

Caminhou apressado para fora do vestiário, ainda escutando o pranto de Oliver ecoar em sua mente. Teve de morder os lábios e respirar fundo para se manter no controle. Doeu ter feito aquilo, ter dito aquilo, mas ele sabia que era necessário. Recolheu a mochila que havia deixado na entrada e então, reparou em Ginger saindo da viatura.

Acelerou os passos, colocando a mochila sobre os ombros e viu Terrence e Roy se aproximarem. Bruce estampou o rosto com um sorriso amigável, mas levemente forçado. Sabia que viriam as lamentações e condolências, e ele ainda não queria pensar sobre isso.

— Vamos sentir sua falta. — começou Roy, apertando sua mão. — Isso aqui não vai ser o mesmo sem você.

— Rogers, peço desculpas por qualquer coisa que tenha sido inconveniente entre a gente. — foi a vez de Terrence e Bruce forçou o sorriso a se alargar. — Sentimos muito pela sua perda!

— Cuidem bem desses marmanjos. — concluiu e logo começou a se afastar ao lado de Ginger.

Ela não havia aberto a boca, o que Bruce considerava bom. Não aguentava mais ter de ouvir condolências e comentários sobre Margot e tudo aquilo. Tudo o que queria, era entrar naquele carro e finalmente, ir embora. Porém, assim que entraram no carro, Ginger decidiu falar.

— Sei que todo mundo deve estar te enchendo o saco com isso, mas... — começou, girando a chave e dando partida. — Como está se sentindo?

Bruce suspirou, virando o rosto na direção da janela e observando o acampamento diminuir gradativamente. Ficou mudo por um tempo, apenas olhando. Em sua mente, despedia-se de Oliver.

— Me sinto péssimo. — confessou depois que Ginger já estava desistindo de esperar pela resposta. — São tantas coisas ao mesmo tempo. Raiva, tristeza, saudade... Culpa. Principalmente culpa!

Ginger o olhou pelo retrovisor interno, notando o quão destruído estava sua aparência.

— Culpa? Você não tem culpa alguma, Rogers! Estava longe demais para tentar protegê-la!

— Exatamente por isso, Ginger! Era meu dever estar lá com ela, como marido e policial!

Ela meneou enquanto acelerava um pouco mais.

— Não tem que se culpar por isso! Rogers, você sempre protege todo mundo o tempo inteiro, até mesmo os delinquentes! — estimulou-o, gesticulando com as mãos encostadas ao volante. Percebeu o olhar curioso dele e abriu um sorriso. — Acha que o delegado não me contou sobre o quase estupro do Oliver? Olha para isso! Eu duvido que Roy ou Terrence teria feito isso por qualquer um daqueles marmanjos, mas você... Você o salvou do pior trauma que ele poderia ter!

Ele abaixou a cabeça, discordando.

— Não salvei o Oliver, Ginger. — respondeu baixo, recordando das palavras dele. — Somente o poupei.

— O que quer dizer?

— Ele já foi estuprado uma vez. Já foi maltratado, escorraçado, ameaçado e... Droga! — ele socou o porta luvas ao perceber que havia se tornado como os outros para Oliver. Um monstro. Ginger arregalou os olhos diante da ação. — E eu só fiz isso piorar.

A tarde já avançava no céu, aos poucos dando lugar para a noite. Fazia frio e parecia que a chuva não tardaria a aparecer. O céu alaranjado trazia uma melancolia intensa para o lugar, que já era naturalmente melancólico. As nuvens em diferentes tons se mexiam sobre a pequena capela e relâmpagos no fundo do horizonte passavam despercebidos pelas pessoas vestidas de preto, pois todas só tinham atenção para a mesma coisa; o caixão que jazia o corpo morto de Margot.

Bruce chegou minutos depois do corpo. O trânsito não estava nos melhores dias e ele precisou tomar banho para visitar o funeral. Vestiu-se todo em preto, como dizia a tradição e lembrou-se de que era a cor favorita de sua esposa. Ela ficava linda quando vestia qualquer dos vestidos negros que tinha. Eles faziam seus belos olhos azuis cintilarem como um oceano límpido ou um céu azul num dia ensolarado.

Observou a capela e pareceu receoso ao entrar. Não tinha certeza se era da vontade da sua mulher ser velada em um lugar como aquele, afinal nem mesmo tinham se casado na igreja. Entretanto, ele não pode interferir na escolha do lugar, pois quem estava resolvendo tudo era a família dela e, do jeito que os conhecia, não teria o direito de opinar.

Era pequena e simplória, pintada em uma cor creme que trazia calma, mas não paz. O teto era baixo e todo desenhado com figuras santas. Os bancos foram afastados para os cantos das paredes e bem ao centro, encontrava-se a mesa que suportava o caixão e o corpo de Margot.

Assim que adentrou o lugar, as pessoas começaram a vir em sua direção. Todas traziam o mesmo misto de chateação e surpresa no aspecto. Um por um, estendiam as mãos para Bruce e pronunciavam palavras positivas. Alguns, mais íntimos, o abraçavam e quase choravam em seu ombro. Outros ele não estava tão feliz em ver, como algumas amigas suas que, no passado, não eram bem amigas, mas não reclamou. Ele cumprimentou um de cada vez, agradeceu o apoio e retribuiu o carinho. Não gostava de toda aquela ladainha, mas Margot era uma pessoa querida. Todos os seus amigos estavam ali. Desde os amigos de infância até os que ela fazia na calçada. Quando estava viva, todos faziam questão de mexer com ela e receber o seu doce sorriso como resposta. Bruce olhava para todos eles e sentia uma dor ainda maior, porque a vida daquelas pessoas foi boa por ter a presença de Margot e então, se entristeceram porque tiveram que enterrá-la.

Encontrou com alguns amigos seus também, quase todos fardados. Alguns compreendiam muito bem a dor que Bruce estava sentindo e transmitiam isso nos abraços. Quando se afastavam, permaneciam de cabeça baixa, numa continência triste. Tiveram a chance de conviver com ela. Puderam vê-la vestida de noiva e carregar a pesada barriga da gravidez. Mas nenhum deles foi capaz de imaginar que a veriam dentro de um caixão tão precocemente.

Finalmente, Bruce conseguiu enxergar a grande caixa amadeirada a sua frente. Ainda não era capaz de ver a silhueta dentro dela e nem sabia se teria coragem. Não queria estragar as memórias de uma Margot cheia de vida e sorridente com a de seu rosto morto, mas não poderia deixar de dizer adeus a ela, uma última vez.

As pessoas o seguiram com o olhar. Algumas conseguiam assemelhar aquela caminhada à mesma que eles fizeram no dia em que se casaram. Entretanto, era Bruce quem esperava ao lado do juiz enquanto Margot caminhava em sua direção, tão bela como uma princesa de contos de fada. E naquele momento, era o contrário e de um jeito melancólico. Margot jazia na sua eterna cama de madeira enquanto Bruce caminhava em sua direção. Mesmo que ele parecesse um príncipe de contos de fadas, aquele não era o momento para ser um.

Ele fechou os olhos, se negando a ver, momentaneamente. Não sabia se conseguiria enfrentar aquela situação. Encostou a mão no caixão e respirou fundo, tentando manter a calma. Aos poucos, seus olhos foram abrindo e observando Margot que, apesar de tudo, permanecia linda.

Seus cabelos formavam uma coroa negra em torno de sua cabeça. O rosto, apesar de pálido, demonstrava um semblante calmo, de descanso. Seus lábios tão bonitos perderam o rosado e deram lugar a palidez. E seus olhos tão belos estavam fechados. Era o que mais doía em Bruce. Ele encarava as pálpebras fechadas e lamentava por terem de apagar aquelas íris tão belas e tão azuis. Internamente, suplicou para que elas reabrissem e então, ele pudesse se envolver no mar azul que eram os olhos de Margot.

Deslocou sua mão até o rosto dela e o tocou de forma gentil. Estava fria, mas permanecia macia. Deslizou os dedos desde sua testa até seu queixo. Seus lábios tremeram e foi impossível conter um soluço de choro. Era tão difícil acreditar que era sua esposa ali.

— Lembra de quando nos conhecemos, ainda na delegacia? Você estava tão meiga naquele terno formal que eu fui capaz de sorrir antes mesmo de ouvir você falar. — sussurrou a ela, ainda tocando seu rosto. As lágrimas ardiam em seus olhos e respingavam na pele dela. — Se lembra da primeira vez que eu disse que te amava? Disse que eu te amava desde o primeiro grão de areia de uma praia até o último, no mais profundo oceano. Você adorou essa frase, lembro que me disse que até a tatuaria, mas você era medrosa com agulhas...

Ele tomou ar e enxugou as lágrimas, tanto de seu rosto quanto do dela. As pontas de seus dedos deslizaram pelos olhos dela, bem delicadamente. Doía tanto vê-los fechados.

— Você se foi tão cedo, Margot... Tínhamos tanta coisa para vivermos juntos. Conquistar glórias, arrumar os erros e depois contar todas essas histórias a Pietro... — ele engasgou ao falar do filho, sequer tinha coragem de encarar a barriga dela. Teve de esconder a face nas mãos por um momento e então, prosseguir. — Algum dia vamos nos encontrar de novo, eu tenho certeza. Algum dia, no futuro, iremos nos reunir e falar sobre nossos dias juntos. Talvez, em algum lugar do outro lado, mas eu sei que eu vou te encontrar.

Bruce curvou-se até que seus lábios conseguissem tocar a testa dela e a beijou brevemente. Tornou a alisar seus cabelos, ajeitando-os em volta da face. Nesse momento, um de seus companheiros tocou seu ombro, não só amparando, mas indicando que outras duas pessoas haviam chegado.

Ele nem mesmo precisou se virar para saber que eram Eleanor e Anthony, os pais de Margot. Um pouco receoso, ele virou para poder contemplá-los, mas pareceu não ter sido notado. Eleanor estava destruída, mais magra do que já era. O rosto estava ossudo, embora ainda muito parecido com o da filha. Os cabelos, manchados de branco, preso em um coque formal. Já Anthony, permanecia rechonchudo e com o rosto redondo. Era menor que a esposa, mas não menos venenoso e carrancudo. Nenhum deles gostava de Bruce, sequer simpatizavam com ele. Desde que Margot apresentou Bruce como namorado, eles não foram a favor. Ela tivera que enfrentar muitas brigas com eles para que, ao menos, fossem ao casamento.

Eleanor adiantou-se, deixando o marido para trás e indo direto ao caixão da filha. Pareceu não ter visto Bruce ao lado ou apenas o ignorou, mas ele pode ver seu rosto inchado pelas lágrimas e o desespero estampado em sua feição. Ela curvou-se diante da caixa e segurou o rosto da filha, suplicando desesperadamente por um resquício mínimo de vida que houvesse ali. Bruce observou, torcendo que ela encontrasse e trouxesse Margot de volta.

Anthony viera depois, mais na tentativa de conter a esposa do que ver a filha. Talvez por não ter coragem de encarar a única filha morta. E mesmo que pouco, Bruce entendia o que ele estava sentido. Também havia perdido o filho que sequer pudera ver o rosto e talvez, se pudesse ter visto, teria escolhido não fazê-lo.

Ele também pareceu ignorá-lo, focando-se somente na esposa e na sua filha. Bruce não esperou mais que isso. Não era porque ambos estavam lutando com a dor da perda da mesma pessoa, que eles o tratariam de forma diferente. Ficou feliz por Margot não ser como eles. Eram tão doce e amorosa que nem se comparava a mãe que tinha. Por mais que discutissem, nada se comparava as brigas de Eleanor e Anthony.

A mulher parecia desesperada, quase sacudindo o corpo da mulher. O marido tentava contê-la, mas era difícil, pois ele também parecia prestes a desmoronar. Era uma cena difícil de ser vista, todos choravam ao ver uma mãe suplicando pela vida de uma filha. Até mesmo Bruce, que não era querido por eles, não conseguir não sentir empatia.

Com muito custo, Eleanor foi amparada. Anthony a abraçou contra o corpo gordo e acariciou seus ombros. Ela chorava copiosamente, chamando o nome de Margot até que reparou em Bruce. Então, todo aquele lamento transformou-se em ira. Empurrou o marido e aproximou-se como um caminhão para cima de Bruce, que se afastou simultaneamente. Ela o fuzilou com aquele olhar acusador e lhe apontou o dedo.

— Isso é sua culpa! A culpa é toda sua! — berrou para ele, causando um eco estrondoso na capela e puxando a atenção de todos. Alguns parceiros fardados logo se deslocaram para tentar conter a mulher. — Minha filha morreu por sua causa, seu irresponsável!

— Senhora, por favor! — Ginger aproximou-se, intervindo entre eles e mantendo a mulher afastada dele.

— Tire suas mãos de mim! Esse irresponsável deveria ter protegido a minha filha! Você não é a porra do policial mais respeitado dessa cidade? Cadê sua moral na hora de proteger minha filha?

Bruce mordeu os lábios, engolindo a seco. Ele sentia a culpa caindo sobre seus ombros e a verdade daquelas palavras perfurando seu corpo.

— Me desculpe, me desculpe... — ele suplicou com a voz embargada pelo pranto.

— Não, Rogers! Você não tem que pedir desculpas! Você não tem culpa de nada! — Ginger o repreendeu, recebendo a ajuda dos outros companheiros.

— É claro que tem! Ele preferiu o trabalho a cuidar da esposa grávida! Ela estava esperando um filho seu, seu insensível! — insistiu, vociferando contra ele. — Não adianta agora ele pedir desculpa, ela já está morta!

Bruce não tinha mais capacidade para responder, apenas recebia aquelas palavras e fazia delas a verdade absoluta.

— Você não merecia a minha filha! Não merecia o amor da nossa princesinha, seu monstro! — ela estava aos prantos, assim como ele também estava.

— Senhora, tenha respeito ao marido dela! Respeite esse momento dele, ou vamos ter que te tirar daqui! — alertou um dos homens fardados.

Ela olhou incrédula para eles e tentou se soltar de todas as mãos que o seguravam.

— Eu sou a mãe dela! Vocês não podem privar uma mãe de ver a filha morta! E quem não deveria estar aqui era ele! E eu o quero fora daqui, agora! — exigiu tão irritada a ponto de se descabelar. – Não o quero presente no funeral da minha filha!

— Querida, por favor... — Anthony tentou persuadi-la, mesmo que não gostasse de Bruce.

— Está tudo bem... — Bruce falou alto, interrompendo todos. — Ela tem razão. Se eu não fui capaz de salvá-la da morte, eu não tenho o direito de enterrá-la.

Os olhares caíram sobre eles, com um remorso e lamento pesado. Ele acenou para todos e aos poucos, foi dando as costas para o lugar. Atrás de si, Eleanor continuava a profanar palavreados horríveis. Ele ignorou tudo aquilo, só precisava fugir dali.

Apressou-se para fora da capela com o coração acelerado. Estava difícil de respirar, seus pulmões pareciam corrompidos. Ele acelerou os passos até a esquina e então, curvou o corpo, apoiando as mãos sobre os joelhos. Assim, pediu desculpas a Margot, pois não poderia acompanhá-la até o fim.

Seus amigos vieram em sua direção, preocupados. Ele os olhou e desejou que não tivessem feito aquilo, preferia que eles ficassem ao lado de Margot, já que ele não poderia. Porém, não poderia escapar deles. Tentaram lhe consolar, mas foi em vão. Nada do que dissessem poderia aliviar tudo o que estava sentindo. Então, optaram por outra escolha:

— Vamos sair daqui então! Beber uma cerveja e tentar esquecer tudo isso... — propôs um dos rapazes.

— Sim, vai ser melhor assim, Rogers! Você vai se sentir melhor! — Ginger concordou junto dos outros.

Bruce ajeitou a postura e os olhou, pensando por um momento. E, sem delongas, ele meneou.

— Eu agradeço a preocupação, mas se querem realmente fazer algo por mim... Voltem lá e acompanhem o enterro de Margot. Eu não poder estar lá, mas se vocês estiverem... De algum modo, eu vou estar. — pediu, conseguindo controlar a emoção.

Eles se entreolharam e acabaram por concordar. Logo, um por um se despediu de Bruce, abraçando-o e lhe desejando força. Bruce os observou se afastarem até sumirem de sua vista, esperou um pouco e seguiu até o carro, estacionado ali perto.

Era difícil entrar naquele carro e se lembrar de que era o último lugar em que Margot esteve antes de morrer. Ainda tinha o cheiro do perfume dela e o banco do motorista estava desregulado. Bruce não tivera coragem de desfazer nada, só pela lembrança dela naqueles mínimos detalhes e cada um deles importava.

Depois de um bom tempo observando todo o carro, ele deu partida. Seguiu o caminho de casa, tentando conter as lágrimas para conseguir enxergar direito.

A cada esquina que cruzava, ele imaginava que viria um caminhão em sua direção, pronto para esmagar o carro e o corpo dele junto. Não achava uma má ideia que morresse, afinal estava sozinho. Não havia ninguém ao lado dele. Seus pais já não eram vivos, Margot e Pietro se juntaram a eles. Nem mesmo o cachorro Bob estaria ao seu lado. No entanto, algo em seu interior o proibia de morrer. Além de saber que Margot ficaria decepcionada com sua fraqueza, havia algo que o forçava a viver. Que o forçava a erguer a cabeça e continuar seguindo em frente. Ele não conseguia explicar o que era, mas também não conseguia ir contra aquilo.

Quando chegou a sua casa, a noite já havia apossado o céu, transformando-o num breu repleto de nuvens. Assim que saiu do carro, Bruce pode ver os relâmpagos se espalhando pelo céu noturno e resultando em trovões. Antes mesmo de chegar à porta, a chuva despencou grossa do céu, lavando todo o ambiente. Ele observou os pingos grosseiros por um momento, demorando a entrar. Sabia o que lhe esperava dentro de casa. Mesmo que já tivesse entrado para tomar banho, dessa vez seria diferente.

Evitando ficar encharcado de chuva, ele destrancou a porta e entrou em seu antigo lar. Havia toda a saudade de voltar para casa depois de todo aquele tempo longe. Entretanto, havia toda aquela desilusão do retorno. Ele imaginava que quando retornasse do acampamento, escutaria Margot chamando seu nome da sala e pulando em seus braços. Mas o que encontrou foi um completo nada. Apenas uma casa bagunçada com o cheiro de sua esposa.

Caminhando pela sala, ele ainda conseguia ver roupas para dobrar sobre o sofá. Quando olhava para oeste, conseguia ver a cozinha, ainda com o lanche característico de Margot em cima da mesa. E quando olhou para leste, no corredor dos quartos, ele hesitou. Era a parte que ele mais temia enfrentar. Seu quarto junto com Margot e o quarto que seria de Pietro.

Passo a passo, ele foi se aproximando. A primeira porta que entrou foi o seu próprio quarto. A cama estava desarrumada, provavelmente porque Margot estava evitando o esforço de ficar curvada. Havia roupas dela espalhadas pelo colchão e acessórios sobre as cômodas. Cada um deles era um pedacinho de Margot, que ela tivera o capricho de deixar para trás.

Bruce recolheu a camisola de pijama dela e levou até o nariz, sentindo o cheiro adocicado de seu perfume. Era como estar cheirando o pescoço dela e isso o arrepiava. Aquelas roupas nuca mais envolveriam o belo corpo dela, ou então, nunca mais descobririam suas belas curvas. Estariam inutilizadas, trazendo apenas o cheiro característico e algumas lembranças. E se Bruce não poderia ter o corpo de Margot vestido naquelas peças de roupas, lembranças ele não iria aceitar.

Saindo do seu quarto, ele encarou a porta decorada com o nome de Pietro. Bruce esfregou o rosto e cruzou as mãos atrás da cabeça, observando a porta. Aquele quarto significava tudo o que poderia ter sido e não foi. Era o real significado de ilusão.

Ao entrar, um mundo de planos impossíveis invadiu sua mente e sua visão. Bruce olhou para o canto da parede e admirou o berço com o móbile logo acima; ambos pintados de verde claro. Do lado da janela, na parede contra a porta, havia a cômoda da mesma cor. Tantos brinquedos sobre ela. Brinquedos que Pietro nunca brincaria. Nunca se divertiria. Quando olhou para cima, encontrou um teto repleto de estrelas. Todas elas penduradas por fios transparentes e quando a luz era apagada, elas brilhavam como se fossem de verdade. Pietro jamais se sentiria no universo infinito como Bruce imaginou que ele se sentiria.

Ele coçou os cabelos, sentindo um desespero crescente em seu interior. Se lembrava de cada plano que fez com Margot naquele quarto. Era capaz de escutar a porta ser aberta, ver a silhueta redonda entrar e ouvi-la comentar sobre as estrelas. Ele caminhou até a cômoda e recolheu um urso de pelúcia, branco e felpudo. Olhou para ele, lembrando-se de como Margot o achou fofo. Apesar de estar na ala de brinquedos para meninas, ele e Margot decidiram que levariam e tinham certeza que Pietro adoraria dormir abraçado com ele. Apertou o urso entre as mãos grandes e encostou-se na parede a favor da porta, estava vazia, apenas com alguns adesivos decorativos. Seu olha analisou todo o lugar e quando olhou para a porta, foi mesmo capaz de ver Margot.

Margot estava parada diante da porta, olhando para dentro do quarto e o admirando enquanto alisava a barriga. Sussurrava coisas fofas a Pietro, contando a ele o que haviam montado em seu quarto. Bruce permaneceu a olhando, sentindo as lágrimas escorrerem por seu rosto. Ele apertou o urso com força, soluçando em pranto. Margot passou o olhar azul por todo o quarto e por fim, direcionou-o para Bruce. Os lábios dela se movimentaram em uma fala muda, mas que ele conseguiu decifrar. Ela dizia que o amava. Então, um sorriso grandioso estampou seu belo rosto e sua imagem se desfez no ar.

Bruce passou o olhar para o urso a sua frente e sentiu sua respiração se ofegar. Seu coração acelerou e as lágrimas em seus olhos cessaram por um momento. Seus dedos continuavam a apertar o tecido da pelúcia.

De repente, ele gritou. Gritou o mais alto que pode. Deu o mais forte berro que foi capaz. E quando se emudeceu, tudo aconteceu em segundos.

Num segundo ele estava encostado na parede e no próximo, quebrava todo o quarto. Jogava todos os brinquedos de cima da cômoda no chão, quebrando-os. Arrancava todas as gavetas e as jogava pelo quarto. Quebrou o berço e o móbile, transformando ambos em pequenas partes de madeiras. Suas mãos agarraram as estrelas e as arrancaram sem dó, quebrando-as entre os dedos. E então, quando o ataque fugaz de raiva passou, ele observou o estrago que causo e agarrou os próprios cabelos.

Tudo havia se reduzido a uma pilha de objetos quebrados. Ele sequer conseguia reconhecer os pedaços ou o que eles foram antes de serem destruídos. Bruce observou tudo aquilo, sentindo-se ofegante pelo acesso de raiva breve. Ele fechou os olhos e decidiu abandonar toda aquela bagunça para trás.

Enxugando as lágrimas com as costas das mãos, Bruce seguiu até a cozinha e abriu a geladeira. Ainda estava cheia pela compra do início do mês. Na prateleira mais alta, encontrou suas cervejas e escolheu uma. Abriu-a com a própria mão e jogou a tampinha sobre a pia. Virou um gole bem generoso garganta abaixo e suspirou aliviado, sentindo seu corpo se acalmar gradativamente. Apoiou a garrafa de vidro sobre a bancada da pia e olhou por cima do ombro, fitando o fim do corredor e as portas dos quartos. Precisava fazer algo com aquela bagunça que fizera. Então, olhou para o fogão e observou a caixa de fósforos.

Com a cerveja em mãos junto de uma garrafa de álcool, e a caixa de fósforos no bolso, ele retornou ao quarto de Pietro. Tomou ar ao observar a pilha destruída. Apoiou as garrafas no chão e adentrou, logo recolhendo os destroços. Levou todos eles até o jardim, formando outra amontoação. Quando terminou de transferir os objetos para fora, ele encharcou-os com álcool, mas antes que pudesse riscar os fósforos, ele se lembrou das roupas de Margot.

Talvez ele se culpasse mais tarde, considerasse aquela atitude impulsiva e burra, mas sentiu que precisava fazer aquilo. Por isso, retornou ao próprio quarto. Abriu todas as gavetas das cômodas, todas as portas do guarda-roupas. Começou a retirar todas as roupas de Margot para fora, recolhe-las em montes e levá-las para fora, jogando sobre as pilha. E só assim, ele pode riscar o fósforo e arremessá-lo sobre a acumulação.

Sem se esquecer da cerveja, ele levou o gargalo até os lábios, tomando outro gole generoso da bebida alcoólica. E então, ali Bruce permaneceu, assistindo as chamas consumirem os objetos e as lembranças se transformarem em fumaça até que se reduzissem as cinzas.

Notas finais
Foi um capítulo mais focado na situação do Bruce, afinal, ele tá sofrendo. E cara, esse ataque de raiva... Partiu meu coração 3 Esperamos que ele consiga seguir em frente agora. Será com o Oliver, será que não... Afinal, eles estão bem longes um do outro agora. Espero que tenham gostado!