Bad Heroes

1 Professor Estranho.


Notas iniciais
Esse é apenas o começo de uma grande jornada.

— Você sabe se trocamos de professores? — A garota morena ao lado de Megan perguntou, a olhando sem muito interesse.

— Disseram que Strauss saiu porque Oxford o chamou, mas não acredito muito nisso. — Megan começou a mexer as mãos de maneira agitada, não prestando atenção na reação da garota que ela julgava ser sua melhor amiga. — Afinal, quem iria querer um professor daqueles? A única coisa que ele sabia fazer era reclamar pelos meus atrasos!

Para Megan Amélia Heist, 16 anos, tudo era um grande atraso. Até mesmo quem não a conhecia sabia que ela era estabanada, desastrada, barulhenta e tagarela, inclusive o Sr. Strauss, seu antigo professor de Inglês Avançado. No primeiro dia de aula do ano anterior, Megan tinha o achado a coisa mais fofa do mundo. Ele era rechonchudo, com uma papa de gordura que caía de seu queixo por cima da gravata borboleta que ele consecutivamente usava e sempre, sempre vestia suspensório e tinha um sotaque francês muito engraçado. Mas depois que ele a levou até a reitoria por ter chegado vinte minutos atrasada na aula dele, Megan já não achava que ele fosse tão fofo assim. O motivo de ela sempre chegar atrasada nas aulas dele era por que o período de Inglês Avançado era sempre depois do almoço, o tempo preferido de Megan, e ela nunca conseguia acabar a refeição antes que o sinal soasse, indicando a volta às aulas. Então ela ficava sentada nas mesas de piquenique comendo até o último farelo que sobrava no prato, e isso até que demorava um pouco, vinte minutinhos talvez.

Ao seu lado, Jade ria de forma descontraída, segurando apenas uma alça de sua mochila no ombro. Eram amigas há oito anos, e Megan sabia que quando Jade ria daquela forma era porque ela estava tagarelando.

— Entendi, Srta. Pontual. — Jade disse em gesto de rendição. — Sabe de alguém mais?

Megan juntou os lábios pensativa. Tinha falado com Paisy Bookle noite passada, e não se lembrava muito bem do que a garota mais sabida dos boatos da escola tinha lhe dito.

— Acho que só. — Disse por fim, parando no hall de entrada de Jokeston High.

Perto da porta, sentados nas escadas de cimento, estavam dois meninos altos com roupas claras. Megan cerrou os olhos para enxergá-los de maneira mais aguçada, assustando-se quando os reconheceu. Um deles tinha cabelos de um castanho-claro, enquanto o outro tinha cabelos escuros como o breu. O de cabelos escuros se levantou da escada, parecendo tê-las enxergado, e se aproximou.

— Edward! — Megan gritou, e se agarrou a ele.

— Olá! — O outro garoto vinha logo atrás, com um sorriso de orelha a orelha.

— Oi, Logan. — Jade cumprimentou. — Todos já entraram? — Olhou para Edward.

— Ainda não. — Ele disse assim que Megan decidiu soltá-lo. Seus olhos castanhos brilhavam como pontas de âmbar.

— Já souberam que o Strauss está fora? — Perguntou Logan, com um fulgor pungente nos olhos, que pareciam ainda mais claros sob a luz do sol.

— Eu soube! — Megan disse, alegre, como se anunciasse que tinha um diamante Tiffany.

— A nova professora é uma gata! — Jade revirou os olhos assim que Edward disse.

— Meu humor ainda está instável, então se você não quer que eu seja grosseira ou estúpida, sem comentários desnecessários pela manhã, Ed. — Disse Jade, séria e fazendo uma cara de desgosto.

Edward a olhou em tom de desculpas, mas Jade estava mal humorada naquela manhã. Isso se dava principalmente pelo fato de um de seus três irmãos mais velhos ter passado quase a manhã inteira no banheiro que todos eles usavam, ruindo lentamente a pouca paciência que a irmã caçula tinha. Megan não a culpava, ela também tinha outros três irmãos, trigêmeos mais especificamente, e para piorar a sua situação, todos eram homens. — Pelo menos Jade tinha uma irmã. Às vezes, eles a beliscavam e puxavam seu cabelo cumprido para trás, sem falar que sempre a cortavam das brincadeiras que faziam entre si. Ruim mesmo era quando invadiam seu quarto nas manhãs de sábado e pulavam em cima dela enquanto Megan dormia e sonhava que era filha única. Só em sonho mesmo...

— Acho melhor entrarmos. — Os cabelos cacheados e grandes de Logan voejaram com a rajada de vento que se lançou contra eles.

Lá dentro, os milhares de alunos estavam por toda parte. No refeitório, na cafeteria, nos vastos corredores brilhantes, nas salas, e até nas latas de lixo. Megan suspeitava que até dentro dos armários havia alunos. Apesar de a maioria ali ter entre dezesseis e dezoito anos, Megan sabia que eles cabiam perfeitamente dentro dos armários, pois já tinha visto Jade enfiar Hugo Leighton dentro de um, e ele tinha dezessete anos. Enquanto passavam pelo corredor, as pessoas acenavam para os quatro amigos e sorriam. Jade fazia high-fives com alguns alunos conhecidos e todos os outros também. Era bom ser conhecido por todos naquela escola, e apesar de ser a primeira aula do ano, parecia só mais um dia normal em que eles iam à escola, assistiam as aulas, bagunçavam e iam embora fazer peripécias pela cidade.

E com o inicio das aulas, todos se dispersaram já que não tinham os primeiros períodos juntos. Logan tinha aula de Economia; Edward de Química; Megan de Literatura e Jade de Inglês Avançado. Isso causou um resmungo de desagrado por parte dos quatro, mas se satisfizeram e foram para suas salas. Jade caminhou pensativa enquanto acenava para algumas garotas do time de Basquete Feminino, o qual ela fazia parte, e meio que de longe mirou Phillip Western parado na porta da sala dos professores.

Ele era o mais velho de quatro irmãos, e sempre que podia tentava colocar alguma ordem na casa que ele praticamente comandava, pois os pais de Jade trabalhavam em Londres e apenas vinham para casa nos fins de ano e muito raramente nos aniversários dos filhos. Jade os detestava. Mas em compensação, Phillip fazia de tudo para ser um bom irmão mais velho e até mesmo “pai”, ele só nunca conseguia colocar a cabeça de Jacke Western no lugar. De presença extremamente violenta e péssimo gênio, Jacke era uma espécie de filho problema. O provável câncer da família. Jade estimava ter puxado o péssimo gênio do irmão já que também repudiava os pais assim como ele, e sempre que podia se envolvia em brigas, assim como ele. Embora muitos dissessem, Jade não se achava nem um pouco parecida com Phillip, tanto em aparência quanto em personalidade. Ele era pálido, tinha cabelos negros e encaracolados, um nariz fino e pontudo e olhos escuros como seus cabelos, enquanto Jade tinha a pele cor de mel, cabelos castanhos e lisos, um nariz arrebitado e redondo e olhos castanho-amarelados. Phillip era calmo, compreensivo e gentil; Jade era explosiva, mal humorada e grosseira na maior parte do tempo.

Phillip era professor de História há dois anos em Jokeston High, e sempre fora um bom educador, embora Jade odiasse que ele mandasse nela durante as aulas. O pior era que não podia nem dar um pio na aula dele ou as coisas ficavam feias em casa, e ela não tinha muito saco para aguentar as reclamações sem fim do irmão.

Enquanto ele parecia compenetrado no que digitava em seu telefone, uma pessoa saiu da sala fazendo com que ele se assustasse. E Phillip prendeu os olhos assustados na jovem e magra mulher que de lá despontou, como se ela fosse um pote cheio de água no deserto, uma carroça de ouro num vilarejo pobre. Jade franziu o cenho. A seu ver, ela nem era tão bonita.

E com isso entrou na sala já com todos os alunos presentes, exceto pela tal professora muito gata, como Edward havia dito. Estavam todos conversando entre si em grupinhos divididos, as meninas do lado direito da sala, rindo e cochichando; os meninos do lado esquerdo, gritando e rindo. Algumas meninas acenaram para Jade antes de ela se sentar em seu lugar de costume, na última cadeira da última fileira, que ficava perto da parede. E ela até começou uma conversa com Emely Ferdinand, mas não teve nem tempo de completar sua segunda frase quando a professora entrou rapidamente, apressada. Primeiro Jade nem se importou em olhar para ela e continuou a falar sobre como ela sentiu falta dos colegas nas férias, mas se irritou e parou quando percebeu que Emely tinha parado de ouvir para prestar atenção na professora, que arrumava seus pertences em cima da mesa branca com afobação. Bufou e jogou o corpo para trás. Com certeza todas iriam babar a nova professora. Então olhou de novo para a tal tutora e percebeu que ela era muito magra, muito mesmo. Tinha um cabelo liso e loiro e era perceptível que ela usava tintura para mantê-los daquela cor, entretanto eram muito bem cuidados, começando da raiz castanho-escuro até as mechas louro-prateado. Percebeu que era a mesma mulher que Phillip admirou minutos atrás.

— Sou Jessica Goldsmith. — Disse indo até o centro da sala e escrevendo seu nome no quadro branco. — Sua nova professora de Inglês Avançado.

Ela pronunciou as palavras alegre como uma criança, sorrindo largo e brilhante. Jade apenas levou um dos lados da boca para cima e franziu o cenho de leve. Ela até que era agradável.

— Quero conhecer cada um de vocês. Quero que digam seu nome, idade e o que mais gostam de fazer. Vamos começar por essa fileira aqui. — Apontou seu dedo descarnado para a fileira do lado oposto ao que Jade estava.

A própria Jade agradeceu quando percebeu que a aula seria nada mais que isso. Apresentações e conversas paralelas sobre a vida de Jessica antes de dar aula em Manhattan e sobre como ela era amiga de Natalie May, a professora de Biologia. Jade gostava de Natalie, e sabia que ela não era amiga de garotinhas frescas e filhinhas de papai, que era o que Jessica parecia ser. Então se ela era amiga de Natalie, talvez ela fosse legalzinha, pensara Jade.

Os outros dois períodos de química não haviam sido nada empolgantes para o primeiro dia, mas ela conseguira vencer a imensa vontade de deitar a cabeça no livro e dormir. Quando o sinal para o almoço soou, Megan já estava na porta da sala com um sanduíche pela metade em mãos. Ela e Logan estavam à sua espera, e antes de Jade se aproximar o suficiente, Logan roubou uma mordida generosa no sanduíche, levando tapas de sua amiga pequena que nem sequer alcançava o rosto dele direito.

— E então, Jade, a professora é mesmo tão bonita? — Megan havia dito com a boca cheia de sanduíche enquanto os três caminhavam até o refeitório. Logan fez careta ao ver a boca dela.

— Ela até que é bonita. — Disse sem muita instância na voz. — Mas não uma gata.

— Sabe como Ed é exagerado. — Disse Logan, sereno, enfiando as mãos nos bolsos da calça jeans surrada.

— Falando nisso... — Megan começou com a boca livre dessa vez. — O professor de Literatura é muito estranho.

— Estranho, tipo...? — disse Jade.

— Tipo, do nada ele surgiu no canto da sala. — disse Megan, parecendo comprometida. Ela deu outra mordida no sanduíche e continuou. — Não sei como ele fez isso.

— Eu sei. — disse Logan, tranquilo. — Você não prestou atenção enquanto ele se movimentava e quando percebeu, ele já estava em outro lugar. Simples.

Apesar de ter sido uma resposta com sentido, Megan preferiu acreditar em si mesma. Ela sabia, sua intuição dizia que alguma coisa estava errada com o tal professor.

Chegaram ao refeitório, sentaram-se, e esperaram pela presença de Edward durante dois minutos. Jade remexia sua salada com tédio, e não parecia que pretendia comê-la; Megan revirava o pescoço para todos os lados atrás do Sr. Olsen, para que pudesse mostrar aos amigos o quanto ele era esquisito e Logan comia sua alface calmamente, como se nada pudesse atingi-lo e nem alcançá-lo. Edward surgiu não muito tarde, ele vinha do banheiro com seu ar zombeteiro estampando o rosto bem desenhado. Jade sabia que ele tinha visto algo engraçado e que assim que sentasse seu traseiro magro na cadeira de plástico, começaria a relatar. E foi o que ele fez quando sentou.

— Cara, o novo professor de Literatura é pirado na batatinha. — Sorriu hílare ao contar aos amigos.

— Isso! — Megan comemorou, fazendo todos os rostos na mesa redonda se voltarem para ela. — Eu falei para vocês! — Apontou o dedo para Jade e Logan.

— Você disse que ele era muito estranho. — disse Jade. — Não pirado na batatinha.

Megan revirou os olhos.

— Como assim pirado? — Logan se colocou ereto na cadeira. De repente, ele parecia genuinamente interessado.

— Eu estava no banheiro quando ouvi ele falando ao telefone. — Ele ia continuar, mas Jade levantou a mão em sinal de que queria falar, ela engoliu um pedaço de aspargo e principiou.

— Espere um minuto, então quer dizer que você escuta conversas alheias enquanto está no meio de uma necessidade? Como consegue se concentrar entre ouvir e garantir que seu xixi não caia fora da privada?

— Você é desagradável. — Logan a olhou com uma demonstração de repulsa.

— Eu não sei, talvez seja um dom. — Edward respondeu, colocando as mãos em cima da cabeça e encostando-se ao apoio da cadeira.

— Dá para continuar com a história ou vão ficar falando de habilidades nojentas? — Megan se irritou com a distração dos amigos.

— Habilidades nojentas. — Jade rebateu.

— Continuando com a história... — Megan olhou para Edward e fez um gesto para que ele continuasse.

— Ah, sim. — Ele se ajeitou na cadeira. — Ele disse algo sobre ter encontrado um Filho da Escuridão e uma Filha da Pureza. Depois disse que hoje mesmo iria até Marte, mas antes tinha que consertar sua nave, e no mais tardar contornaria os anéis de Saturno. — Disse tudo com um riso preso, que estourou assim que terminou da falar. Jade e Logan gargalharam abertamente, como se assistissem a um show de stand-up.

— Sério? — Megan esbugalhou os olhos castanhos.

— Gostaria de poder ir junto. — Jade debochou, se levantando quando o sinal tocou. Ela teria essa aula em conjunto com Edward. Ainda bem, pensou, alguém realmente legal para conversar.

A próxima aula era de Literatura para Jade e Edward, já Megan e Logan conheceriam Jessica Goldsmith na aula de Inglês Avançado. Encontraram a sala somente com os alunos conversando, sem resquício do Sr. Olsen por nenhum canto.

— Preste atenção nos cantos, ele pode aparecer do nada. — Jade caçoou do que Megan havia dito minutos antes. Os dois sentaram-se lado a lado, para poderem cochichar melhor durante a aula.

A voz do professor Samuel Olsen ecoou pela sala de aula até a atraente jovem de olhos castanhos sentada no fundo, imersa em seus pensamentos, de cabeça baixinha, escrevendo furiosamente num caderno.

— Filha do Gelo?

Dez pares de olhos se viraram para seu rosto bronzeado, de cílios longos e para seus dedos que agarraram a caneta com força. Em seguida, os mesmos dez pares de olhos voltaram-se ao o professor, totalmente imóvel e com aspecto surpreso. Os óculos de armação preta contrastavam com seu rosto descorado, com os grandes olhos expressivos e os lábios finos em um tom bege. Tinha olhos muito pretos, um bigode castanho que Jade julgou ridículo, e o cabelo era despenteado e castanho também. Usava um casaco de moletom marrom e velho, sua camiseta por debaixo do casaco tinha o desenho de um par de fones de ouvido. Sua cintura sustentava jeans largos e também velhos, um tênis de corrida todo sujo e carregava vários papéis nas mãos. Ele parecia mais um adolescente nerd do que um professor. Jade ouviu alguém pigarrear discretamente à sua esquerda. Olhou, surpresa, para Edward, que ria silenciosamente, estava com o rosto vermelho de tanto rir. Os demais alunos de Literatura se remexeram em suas cadeiras e trocaram olhares furtivos. Suas expressões diziam: Que bicho mordeu o professor hoje? Mas eles ficaram calados.

O professor balançou a cabeça tentando dissipar suas ideias, quando foi andar até sua mesa, tropeçou em uma mochila no chão e caiu, fazendo chover papel. A sala deu uma risadinha conjunta e ele bufou. Por que tão desastrado? O professor franziu a testa de modo quase imperceptível, para ninguém em especial, juntou seus papéis e se virou para escrever no quadro. Poucos minutos depois, enquanto o professor continuava seu lenga-lenga sobre o conflito entre os guelfos e os gibelinos, um pedaço de papel dobrado surgiu em cima do dicionário de italiano de Jade. A princípio, ela não notou, mas Edward pigarreou baixinho, chamando novamente sua atenção. Ela abriu um sorriso mais largo, quase impaciente e baixou os olhos para o papel.

Um tremendo babacão, não é mesmo?

Ela sorriu, não o suficiente para mostrar os dentes nem covinhas ou uma outra marca de expressão, mas ainda assim era um sorriso.

No fim da aula, restaram apenas os dois na sala. Edward se aproximou dela rindo.

— E aí, Filha do Gelo? — Riu de novo.

— Qual o problema dele? — Jade puxou o zíper da mochila e se apressou em sair da sala com Edward em seu encalce. Ele levantou os ombros, dizendo que não sabia entre uma risada e outra.

O caminho até a saída foi tranquilo, Jade queria ter encontrado com o Sr. Olsen para rir ainda mais, mas ele não deu as caras. Deveria estar em Marte uma hora dessas, pensou. Tinha treino de Basquete depois da aula, então se despediu de Edward com um tapa nas costas e um “a gente se vê” descontraído. Passeou até a quadra externa de Jokeston High com um semblante altivo depois de ter se trocado no vestiário, encontrou suas companheiras de time já com seus costumeiros tops curtos (mostrando suas barrigas lisas), calças leggins e cabelos amarrados em rabos de cavalo. E logo que o treino começou, Jade se sentiu como nos velhos tempos. Empurrando as colegas com força e não se importando se tinham se ferido, trapaceando sempre que possível e fazendo muitas cestas. Era preciso admitir que, apesar de fingir faltas e machucar as parceiras, Jade conseguia fazer as melhores cestas do time, motivo pelo qual ainda não tinha sido expulsa do mesmo. Numa tentativa de impedir que o time adversário fizesse um ponto, Jade deu um forte tapa na bola, fazendo-a voar por cima do cercado de ferro que rodeava a quadra, e cair no pátio externo, onde milhares de alunos esperavam por seus pais e matavam o tempo. Jade nunca ia pegar a bola quando isso acontecia, mas preferiu sair da quadra antes que acabasse dando um soco na cara de Paisy Bookle por sua gigantesca falta de trabalho em equipe, nunca passando a bola para Jade quando a mesma estava livre de alguma marcação e perto da cesta. Saiu da quadra ainda limpando o suor que escorria pelo rosto moreno com a costa da mão direita e caminhou pelo pátio lentamente, incrivelmente, ela não estava nem um pouco cansada e não sabia o porquê disso. Olhou para os lados enquanto andava a procura da matéria esférica de cor laranja e com listras pretas, encontrando-a na mão de uma pequena mulher.

Jade parou diante dela e estendeu as mãos, pedindo a bola silenciosamente. Péssima ideia. A mulher lançava tão mal que quase atingiu seu rosto, mas suas mãos sagazes e rápidas apanharam a bola antes que a catástrofe acontecesse.

— Me desculpe. — A mulher se explicou depressa, parecendo nervosa.

Jade viu uma oportunidade de contrapor grosseiramente, mas não o fez. Alguma coisa nos olhos azuis e brilhantes da loirinha não deixou. Ela era minúscula, provavelmente tinha a mesma altura de Megan, os cabelos eram adoravelmente louros, claros e lisos. Louros naturalmente, Jade notou. Algo que a fazia ser mais bonita do que Jessica. Tinha um nariz cortês e propriamente primoroso, uma boca fina e intensa, olhos alegres e azuis. O rosto em si era afilado. Vestia uma calça de corrida junto de uma camiseta que dizia MULHERES SAUDÁVEIS, os cabelos estavam amarrados em rabo de cavalo também. Uma ideia percorreu a cabeça de Jade.

— Hm... Você deve ser Stacy Baker, certo? A nova professora de Educação Física... — Perguntou enquanto mexia a bola entre suas mãos. Os olhos azuis da mulher peregrinaram pela barriga lisa de Jade antes de voltar à realidade.

— Certíssimo. — Ela respondeu prontamente. As companheiras de time haviam comentado com Jade sobre a nova professora, sobre o quanto era bonita e extremamente legal.

— Sou Jade Wetters. — Se apresentou tentando sorrir, mas ela não era muito boa quando se tratava de sorrir para estranhos. Ela assentiu e Jade percebeu que as veias do pescoço de Stacy começaram a pulsar, á medida que seu coração acelerava. Como não conseguiu encontrar explicação para essa reação, resolveu ignorá-la. Mas se lembraria dela mais tarde.

Paisy Bookle apareceu na entrada da quadra e gritou pelo nome de Jade, fazendo-a girar os olhos enquanto apertava a bola com força.

— Vou indo nessa. — Jade se despediu com outro sorriso forçado e deu as costas morenas e suadas. Mas depois de alguns passos, olhou sobre o ombro e disse: — Bem-Vinda à Jokeston High.

***

— Aquele não é o esquisitão? — Edward apontou o dedo para o outro lado da rua.

A falta de miolos na cabeça de Megan não era sua principal característica. Sua melhor qualidade, aquela que a definia, era sua compaixão — que não havia sido herdada de seus pais. O pai era um homem decente, mas severo e inflexível. A mãe, que já tinha morrido, não havia sido compassiva em nenhum sentindo, nem mesmo com sua única filha mulher. Mas se seu principal atributo era a compaixão, o de Edward era rir da cara dos outros, não importava a situação.

Os quatros amigos estavam juntos, como de hábito, saboreando os sanduíches do Jim Sun em uma mesa na calçada do estabelecimento e conversando sobre trivialidades quando uma figura conhecida deu as caras. Em frente ao Panic Food, Samuel dava passos rápidos pela calçada com uma caixa de papelão nas mãos pálidas e esbarrava em algumas pessoas que perambulavam por ali. Foi em um desses esbarrões que deu de encontro aos ombros rígidos de um homem elegante que por acolá caminhava, a caixa voou de suas mãos e foi de encontro ao chão junto com sua dignidade, que foi colocada a prova quando o homem de terno gritou com Samuel como se ele fosse um garoto de onze anos.

— Olha por onde anda, imbecil! — A voz do homem era grossa e firme. Megan estremeceu na cadeira de plástico enquanto seus amigos testemunhavam a cena com atenção.

— Me desculpe, senhor, não era minha intenção atrapalhá-lo. — Samuel praticamente beijou os sapatos italianos à sua frente. O homem não deu muita importância, passou as mãos pelos ombros como se estivesse os limpando e continuou seu caminho.

O professor de Literatura se abaixou para juntar os pedregulhos que da caixa escaparam no momento da queda. Por mais constrangedor que tenha sido, ele já estava acostumado a ser tratado de tal maneira desde que virara um frequentador assíduo da Terra. Mas nem todos os humanos era tão repugnantes quanto ele uma vez pensara, alguns viam a injustiça que era cometida e, por sorte, não se calavam. A garota que se colocou diante dele parecia um exemplo disso, se ela fosse humana...

Megan nem sabia ao certo porque tinha deixado seu assento e se dirigido até o atrapalhado homem de bigode ralo e estilo nerd, talvez fosse por ser tão desastrada quanto ele. Achava que entendia o lado dele, mesmo que nunca ninguém tivesse gritado com ela daquela forma, até porque ela nunca deixaria que isso acontecesse.

— Tudo bem, professor? — Perguntou insegura, se abaixando para ajudá-lo com aquelas coisas que tinham caído.

Primeiramente, ele nem sequer pareceu ter ouvido a voz dela, mas depois se assustou a ponto de quase cair para trás. Megan sabia que provavelmente seus amigos estavam com sinais de interrogação tatuados nas testas, e riam internamente do comportamento inusitado que Samuel tinha.

— Oh, sim! — Ele pôs a ponta do dedo nos óculos e o escorregou para cima até que ficasse no meio do nariz. — Claro! — Tornou a falar.

— Não quer ajuda?

— Estou ótimo! — Ele começou a juntar suas tralhas rapidamente. Megan não fazia ideia do que eram aquelas coisas. Peças de metal com formatos estranhos? Nunca tinha visto nada igual. Então se lembrou do que Edward havia dito mais cedo na escola.

— São para sua nave? Para consertá-la? — Disse Megan, com uma doçura extraordinária na voz.

Não que houvesse alguma possibilidade de ele ter mesmo uma nave, mas Megan queria saber onde ele tinha arrumado aquelas coisas e fingir acreditar nas fantasias nerds dele pareceu uma boa opção.

— Uh... — Samuel entreabriu os lábios e ficou meditativo. — Eu devo ir embora.

Nem deu tempo de perguntar para onde, pois ele já estava de pé e logo saiu de vista.

— O que você fez? — Jade a repreendeu com o olhar acastanhado em chamas.

— Ele poderia tentar te raptar, sabia? — Logan destacou.

— Até você, Logie? — Ela o olhou, reprovadora.

— Não me diga que está se interessando por ele, pelo amor de Deus. — Disse Edward. Sua feição era pura brincadeira.

— Estou e muito. — Megan voltou a se sentar em seu lugar. Jade a observou como se fosse um alienígena.

— O que?

— Mas não dessa forma, Jade. — Da sua visão periférica, viu Edward respirar aliviado. — Estou dizendo que quero saber qual é a dele.

— Loucura, lerdice sem fim, esquisitice em nível máximo, falta de bom gosto para roupas e um bigode grotesco? — Jade sugeriu sarcasticamente dando um gole em seu café expresso.

— Concordo. — Edward voltou a encostar-se ao apoio da cadeira.

— De qualquer forma, hoje eu e Brianna temos que arrumar nossos quartos, então se eu não quiser ver Phillip muito bravo, tenho que ir. — Jade se levantou enquanto falava. — Até mais. — Se despediu bagunçando as mechas lisas do cabelo de Megan, e então indo embora.

— Ela nem pagou pelo que comeu. — Logan observou como se fosse algo surpreendente.

— Novidade seria se pagasse. — Disse Edward.

Fez-se um silêncio que prevaleceu por alguns minutos, até Logan se pronunciar. Só era Jade ir embora que o assunto era praticamente assassinado.

— Foi ótimo conversar com vocês, mas tenho que dar uma olhada no novo episódio de Doctor Who. — Disse Logan. Ele vasculhou os bolsos furados da calça jeans que tinha ganhado ano passado à procura de alguns trocados, pescou de lá oito dólares e depositou na mesa. — Tchau! — Cantarolou alegremente antes de sair caminhando pela calçada.

Edward bufou entediado, provavelmente, ele e Megan eram os únicos desocupados ali e não tinham muito sobre o que conversar.

Ele balançou a cabeça determinado.

— Quer um café? Algo mais?

— Só café.

Edward saiu em direção à parte interna do Jim Sun, resmungando para si mesmo que o que ele fazia agora era algo muito, muito melhor do que qualquer outra coisa que jamais houvesse feito antes. A cafeteria estava cheia para uma segunda-feira; a maioria dos sofás e poltronas surradas estava ocupada por adolescentes que aproveitavam uma tarde — quase noite — de dia útil livre. O cheiro de café e cigarros de cravo-da-índia era insuportável. Ela remexeu os pés e olhou ao redor, somente para dar de cara com seu professor estranho novamente. Samuel tinha voltado para a mesma calçada em que fora humilhado minutos atrás e se abaixado para pegar alguma coisa de aparência miúda no chão. O que ele está fazendo?

Megan se viu poupada de ter de responder a isso, pois Edward estava perto demais. Ela se pendeu apressadamente ao encosto da cadeira enquanto ele colocava os copos sobre a mesa e se jogava ao lado de Megan.

— Eu odeio quando acabam as canecas. Esses copos ficam quentes demais. — Ele soprou os dedos e franziu o rosto. Megan tentou conter um sorriso enquanto o observava. Normalmente ela nunca pensava se Edward era bonito ou não. Ele tinha um belo par de olhos claros, concluiu, e se desenvolvera muito bem no último ano. Com o corte de cabelo certo... — Você está me encarando. — Disse Edward. — Porque está me encarando? Tem alguma coisa errada com meu rosto?

— Nada. — Ela olhou para o outro lado da rua. Samuel ainda estava lá, encarando o chão como se caçasse por algo mais. — Escute, sei que isso vai parecer obsessivo, mas você não quer me ajudar a segui-lo?

Ele adotou o olhar dela e os dois viram a mesma coisa: Samuel já de pé e admirando algo que tinha na mão direita.

— Por quê?

— Ele não te desperta curiosidade? — Ela o encarou.

— Sinceramente? — A enfrentou de volta. — Nem um pouco. Ele só é esquisito, Megan, esqueça-o. — Parecia chateado, Megan notou, mas não desistiu.

— Por favor, Ed, não quero me meter nisso sozinha. — Pediu com cara de cachorro sem dono.

— Então não se meta! — Bufou irritado.

Megan olhou para Samuel, ele já se afastava, assim como a vontade dela de permanecer sentada ali.

— Desculpe, mas é muito provável que ele esconda um segredo anormal, e tenho que descobrir com ou sem a sua ajuda. — Ela se levantou rapidamente e se afastou em passos curtos.

— Ah! — Edward suspirou na cadeira. — O que eu não faço por... — Se interrompeu antes que dissesse um equívoco. — Pelos meus amigos, é claro.

Deixou sua parte do dinheiro na mesa junto com os dólares de Logan, e saiu correndo para ver se alcançava sua pequena amiga.

Os dois seguiram Samuel por dois quarteirões enquanto Megan se perguntava como era o lugar onde ele morava. Seria um buraco promíscuo e nojento? Ou uma mansão na parte sul da capital? Não sabia o que esperar. Manhattan era uma cidade caótica, sempre tinha gente por todos os lados, então não foi difícil se esconder de Samuel, além disso, ele estava distraído e era absorvido pelos próprios pensamentos com facilidade. Edward resmungava reclamações ao seu lado, mas nunca deixava de acompanhá-la. Quando a noite já caía como um manto sobre a cidade, Samuel finalmente entrou em uma casa grande e espaçosa em um bairro calmo da cidade.

— Vamos entrar. — Megan decidiu, observando o gramado bem aparado do jardim. Perguntou-se se a família dele também morava lá. Era bem provável que ele ainda morasse com a mãe.

— Você só pode estar brincando. — Disse Edward, cruzando os braços sobre o peito. — Nós não podemos invadir a casa de um professor assim.

— Ah, qual é. — Ela abaixou os ombros estreitos e frágeis. — Vai dar para trás agora?

— Isso não é questão de dar para trás, é questão de um pouco de bom censo. — Os olhos claros de Edward estavam densos, existia repreensão neles.

— Eu já disse que vou descobrir com ou sem você.

Edward deu de ombros, repentinamente entediado.

— Tá bom...! Vou entrar com você.

Megan passou por ele, rápida como um raio, e foi imponente até a porta. Ele a seguiu hesitante. A porta estava destrancada, o que já era de se esperar vindo de Samuel, o Senhor Distraído. Eu não acredito que ele deixou a porta aberta, pensou Edward, afinal aquilo só facilitava as coisas para Megan e atiçava cada vez mais sua curiosidade. Lá dentro, as luzes estavam desligadas, o que impediu que enxergassem a mobília com clareza. Megan foi logo dando de encontro com sua canela na mesinha de centro, produzindo um gritinho fino em troca.

— Cuidado! — Edward alertou baixinho, ao pé do ouvido dela.

— Foi mal. — Ela sussurrou.

Ouviram passos velozes no andar de cima e se apavoraram instantaneamente. Samuel iria pegá-los e cortaria suas cabeças como castigo, depois comeria seus órgãos no jantar e beberia o suco gástrico do intestino de Megan, Edward pensara.

Megan balançou a cabeça. O ruído de passos na escada já era audível, provocando pontadas de medo em seu peito. Edward olhou a sua volta desesperadamente. Seu olhar parou na tela de jacarandá.

— Vá para trás daquilo. — Ele disse, apontando. — Agora.

Megan derrubou um porta-retratos em cima da mesa e se escondeu atrás da tela, puxando Edward consigo. Ele mal havia se escondido atrás da tela também quando Megan ouviu o barulho de Samuel andando na sala. Ela olhou tensa para Edward, que estava muito pálido. Ela o viu inspirar fundo — um ruído baixinho, praticamente inaudível. Mordendo o lábio, Megan inclinou-se para o lado e espiou pelo rabo do olho, consciente da respiração de Edward em sua nuca. Ela enxergava a sala com dificuldade: o sofá antigo, a poltrona velha ao lado, a mesinha de centro em frente aos dois primeiros — e Samuel maltrapilho e ligeiramente curvado, com os óculos no alto da cabeça, parado ao pé da escada. Era assustador, o modo como seus olhos negros com nuances azuis estudavam a sala a procura da origem dos barulhos.

Samuel virou, olhando através da entrada.

— Tenho mais o que fazer. — Ele disse, com o tom razoavelmente carregado por cólera.

E sumiu pela cozinha, e seus passos já não eram mais audíveis. Megan saiu de trás da tela lentamente, espreitando o caminho que Samuel fizera há segundos. Estava prestes a refazê-lo quando uma mão fria e escorregadia agarrou seu braço.

— O que vai fazer? — Edward estava suado e seu rosto retomava a cor aos poucos.

— Segui-lo, ver o que está fazendo.

Ele soltou o braço dela, estarrecido.

— No mínimo está assistindo uma maratona de filmes pornô, Megan. — Sua voz era severa e baixa. — Vamos embora daqui.

— Achei que ele era só um tremendo babacão. — Megan sorriu desafiadora. — Porque tanto medo?

— Por quê? — Ele trouxe o pescoço para frente. — Esse cara é maluco, ele tem cara de...

Ele não terminou. Um estrondo debaixo do chão fez com que Edward fechasse a boca e Megan se sentisse ainda mais obrigada a investigar.

— Megan, não faça isso comigo. — Ele pediu teimosamente.

— Não faça isso você.

Ela caminhou até a cozinha, novamente Edward a seguiu, e juntos viram uma porta aberta com uma escada que possivelmente dava para um porão sombrio. Edward balançou a cabeça tentando dissipar seus pensamentos trágicos e medrosos, ele viu Megan andar até a porta e se perguntou desde quando ela tinha se tornado tão corajosa. Desde que se conheciam, ela sempre teve medo de coisas do tipo, e sempre se escondeu na asa de Jade, que adorava remexer em lances que não eram da sua conta. Talvez tenha pegado esse hábito da amiga. Sinuosamente, começaram a descer as escadas. Por um instante, Megan achou que o porão estivesse vazio. As únicas janelas eram no alto e tinham grades; um barulho fraco da rua entrava através delas, o som de carros buzinando e freando. O porão tinha cheiro de tinta velha, e uma pesada camada de poeira cobria o chão, marcado por sinais de pegadas.

Não há ninguém aqui, ela percebeu, observando pelas brechas das madeiras que sustentavam a escada. Parou no meio da mesma, Edward também empacou atrás dela. A sala estava fria, apesar de estarem abaixo do solo em um lugar que não era ventilado. Sua coluna estava gelada de suor. Ela se sentou na escada e ouviu vozes. A risada de Samuel, uma voz respondendo, mordaz. Ao se ajeitar no degrau, viu.

Era como se ele tivesse passado a existir num piscar de olhos, lá estava Samuel com seu moletom marrom e os cabelos castanhos desarranjados na cabeça. Ele estava de pé, com as mãos no bolso, encarando uma coisa nojenta com uma cabeça grande e corpo magro e cinza, que estava amarrada a uma cadeira com o que parecia um fio de piano brilhante, com as mãos esticadas para trás do corpo e as pernas amarradas pelos tornozelos.

Com o coração batendo forte no peito, Megan se abaixou o máximo que pôde, com Edward grudado nela. Seu intestino deve ter se desenrolado inteiro com a cena e, atrás dela Edward parecia querer vomitar o próprio estômago. Ela assistiu enquanto Samuel andava para frente e para trás, com os braços cruzados por cima do tórax.

— Então — Disse ele. — você ainda não me disse por que tentou sabotar minha nave.

— Não sei do que está falando. — O tom da criatura era dolorido, porém firme. Seus olhos grandes e pretos não pareciam focar no homem à sua frente.

— Estou falando de você mexendo nas engrenagens da minha nave. — Informou.

Ele é louco, pensou Megan. Louco de verdade.

Samuel negou com a cabeça, como se esperasse algo mais.

— Eu poderia dar informações. — Disse a coisa. — Eu sei onde pode encontrar os Guardiões dos Quatro Mundos.

— Muito obrigado. — Disse Samuel. Megan achava que aquilo era ironia, mas havia, de fato, gratidão na voz dele. — Mas já os achei.

— Achou?

— Sim. — Samuel sorriu inocentemente. — Sinto muito, mas terei que matá-lo, você não deveria estar aqui e muito menos mexer na minha nave.

Samuel levantou a mão, e Megan viu a luz fraca reluzir na faca que ele estava segurando. Era estranhamente translúcida, a lâmina clara como cristal, afiada como um caco de vidro, o cabo decorado com pedras vermelhas.

A criatura amarrada arfou.

— Você perdeu o cetro! — Afirmou, lutando contra os nós que o atavam atrás do corpo. — Todos os Mundos sabem, eu sei, posso te dizer onde ele está.

Repentinamente, uma raiva chamuscou nos olhos gélidos de Samuel.

— Inferno! Toda vez é a mesma coisa! Acha que não sei que fracassei em minha missão? Pois bem, eu sei e tudo mundo sabe. Mas todo mundo vai ver quando eu recuperá-lo...— Samuel virou a faca no punho, a ponta brilhando como uma linha de fogo. — Menos você.

Megan não aguentaria ver isso. Ela gritou de pavor e se arrependeu no mesmo segundo, mas, para sua sorte, Edward havia praticamente lido seus pensamentos e pôs a mão em sua boca, abafando o som de seu grito equivocado.

Samuel rodopiou, tão assustado que a faca caiu de sua mão e bateu ruidosamente no chão. De repente, Megan viu o corpo dele começar a ficar transparente até desaparecer.

— Quem está aí? — Era a voz de Samuel, ele ainda estava lá.

Megan e Edward prenderam a respiração.

— É uma garota. Sinto o cheiro. — Disse o indivíduo.

— Você está blefando. — Disse Samuel, voltando a surgir, mas havia dúvida em sua expressão. — Aqui não...

Ele não chegou a concluir a frase. Naquele instante, a coisa se desvencilhou dos fios que o prendiam à coluna com um berro alto e avançou em Samuel.

Eles caíram no chão e rolaram juntos, a coisa de cabeça grande atacando Samuel com mãos que brilhavam como se fossem cobertas de metal. Megan se afastou, querendo correr, mas prendeu os pés na brecha entre um degrau e outro e caiu para trás, em cima de Edward, que estava completamente sem fôlego e a segurou pela cintura com força. Ela conseguiu ouvir Samuel gritando. Ao se levantar, Megan viu a criatura sentada no peito dele. O sangue brilhava nas pontas das garras afiadas. Atacou Samuel com as garras esticadas. Ele levantou o braço para se proteger, e as garras o atingiram, derramando sangue. A criatura atacou novamente, mas um soco de Samuel atingiu a coisa e ela caiu para o lado.

Rapidamente, Samuel rolou para o lado. Havia uma arma brilhando em sua mão. Ele atirou no peito da criatura, e um líquido azul explodiu por onde havia sido atingida. A criatura se contorceu, gorgolejando e girando. Com um sorriso, Samuel se levantou. Seu casaco de moletom marrom agora estava ainda mais escuro em alguns pontos, molhado de sangue. Ele olhou para o chão, para a figura que se contorcia a seus pés, um olhar vazio e melancólico. O chão estava pegajoso, encharcado de um líquido preto.

— Parece que terei de adiar minha viagem até Marte. — Concluiu sozinho, parecendo lastimoso.

Megan e Edward se levantaram cambaleando, ainda desacreditados. Eles começaram a recuar. Samuel não estava prestando atenção neles. Ele segurava o próprio braço, arregaçando a manga, provavelmente tentando dar uma olhada no machucado. Eles se viraram para correr, e foi o que fizeram. Não se importaram se Samuel havia escutado seus pés afobados correndo pela sala até alcançarem a porta principal, nem se ele ficaria chateado por Edward ter pisado em suas flores no jardim. Despontaram em uma corrida sem fim o mais rápido que podiam, Megan ia mais à frente, corria junto com o vento e tão rápido quanto ele; Edward estava mais atrás, quase desmaiando de cansaço, tanto mental quanto físico. Só pararam quando chegaram à Avenida do Upper West Side, que estava movimentada como de costume.

— Meg? — Era a voz de Edward. Ela olhou para trás, respirando fundo e tentando recuperar o fôlego. — Você está bem?

— Eu não achei que fosse aquilo. — Disse assustada. — Mas acho que me enganei. Foi mal. — Ela olhou para Edward. Sua expressão denunciava seu estado. Estava pálido, os cabelos grudavam na testa e nas têmporas por conta do suor, respirava entre curtos intervalos.

— Eu não acredito. — Disse Edward com um jeito indignado enquanto Megan, na esquina, tentava recuperar a própria respiração.

— Eu sei. — Ela concordou. — Estamos meio longe de casa. Você acha que conseguiremos pegar um táxi?

— Não estou falando dos táxis. — Disse Edward. — Você... Eu não acredito no que vi. Eu não acredito que o Sr. Olsen matou aquela coisa.

Megan suspirou.

— Talvez nem devêssemos ter entrado lá.

— Não mesmo. — Edward colocou as mãos na cintura e começou a respirar com o auxílio da boca. — Eu pensei que fosse algum amigo dele vestido com aquela roupa, pensei que estavam jogando RPG.

— Foi um engano, então. — Disse fracamente. Ela ficou imaginando porque não ligava para Jade agora e contava o que tinha acontecido para ela. Exceto, é claro, pelo fato de que ela pensaria que Megan estava louca. E havia alguma coisa sobre o que tinha acontecido, alguma coisa sobre aquele sangue preto borbulhante no chão do porão de Samuel, alguma coisa na voz daquela coisa grotesca quando disse, Eu sei onde pode encontrar os Guardiões dos Quatro Mundos, que ela queria guardar para si.

Megan levantou a mão ao ver uma forma amarela se aproximar deles através da neblina. Dessa vez o táxi parou na esquina, o motorista buzinando com vontade, como se precisasse chamar a atenção deles.

— Finalmente tivemos sorte. — Edward abriu a porta do táxi e entrou no banco traseiro coberto por um plástico. Megan o seguiu, inalando o conhecido cheiro de táxi nova-iorquino de fumaça velha de cigarro, couro e spray de cabelo. — Vamos para o Chelsea. — Edward disse ao motorista, depois olhou para Megan. — Você sabe que pode contar comigo para tudo, não sabe?

Megan hesitou por um instante, depois fez que sim com a cabeça.

— Claro, Ed. — Disse ela. — Eu sei que posso.