Bad Heroes

2 Segredos e Mentiras


Os cabelos louros-escuros voavam como águias livres pelo vento, a garota corria em sua direção com um rosto sorridente, como um girassol que havia acabado de florescer, e...

— E Edward Calloway é um idiota. — Edward murmurou para si mesmo, exasperado. Seu texto não estava dando certo. Com um suspiro, ele pegou a borracha no estojo, arrastou pela folha e colocou de volta no lugar. A página já estava frágil pelas vezes em que a borracha passou por ela, nada suave. A concentração parecia ser algo distante, sua mente fugia e o levava a outros pensamentos, os quais tentava evitar ao máximo. Ele desejou pela milésima vez ser um pouquinho mais como o amigo. Tudo que Logan Echolls escrevia era lindo, e parecia ter sido feito sem muitos esforços.

Edward olhou para o relógio em seu pulso — interrompendo sua escrita sobre o resumo de um livro — e esfregou as têmporas doloridas, percebendo com afobação que só faltava um minuto para o fim da aula. Foi só então que ele percebeu que o som alto e agudo do sinal estava ecoando na escola inteira. Jogando o caderno na mochila, se levantou de um pulo e correu para o refeitório. Os dias de terça-feira geralmente eram bem mais chatos que o normal, pois Edward tinha mais de seis aulas de matérias diferentes as terças, o que era uma catástrofe para ele. Contou os próprios passos até lá e depois de trinta e oito, viu seus três melhores amigos sentados em uma mesa redonda na área externa de Jokeston High. Megan gargalhava e sorria para algo que Logan lhe mostrava em seu celular. Como sempre, o sorriso dela estava em seu rosto, iluminando o dia de qualquer um que passasse por ela. Provavelmente estavam vendo vídeos de pessoas levando tombos engraçados e passando por situações desagradáveis, Edward sabia que Logan não se sentia confortável rindo dos outros, mas também sabia que Megan gargalhava com qualquer coisa que alguém dizia para ela. Ao lado dos dois, mas muito mais comprometida com sua refeição, estava Jade, que mastigava uma folha de alface com uma cara nada palpável e apreciava com um olhar ácido todos os alunos cruzavam sua visão.

— Bom dia, flor do dia! — Disse Edward, se atirando ao lado de Jade.

Percebeu que estava frio, ou havia ficado de uma hora para outra, então esfregou os braços magros e branquelos. Jade nem se deu ao trabalho de olhá-lo, ela resmungou algumas palavras, mas nada que Edward pudesse entender.

— Ei, Ed. — Megan sorriu para ele. Ela também havia atraído a atenção de Logan ao desviar os olhos do celular dele.

— Então, vejo que estão todos muito felizes, não é mesmo, Jade? — Edward sabia que estava prestes a testar a paciência muito controlada dela, mas adorava isso, era como uma distração. — O que houve? Porque tenho a impressão de que está mais irritada do que de costume?

— Não é impressão. — Disse Logan. Ele tinha guardado o celular e agora olhava para Edward. — Ela realmente está mais irritada do que de costume.

— Esqueci meus cadernos de Química e isso resultou em uma advertência. — Jade informou, com tédio em sua expressão. — O Sr. Morgan quer que eu entregue um questionário que ele passou na aula até o sinal soar, mas não posso fazer isso sem meus cadernos.

Apesar de muitas vezes não dar a mínima para as regras da escola e sempre confrontar as autoridades, sejam elas professores ou outros funcionários, Jade não aceitava ser taxada de aluna mediana ou valentona burra. Ela tinha um grau de inteligência muito elevado e sabia usar isso muito bem a seu favor, não precisava se esforçar em nada, pois entendia tudo muito rápido e o ensinamento caprichado que seus pais haviam lhe dado ajudava muito. Ela sabia falar nove línguas diferentes, tocava piano e já havia lido livros com mais de dez centímetros de espessura, enquanto Edward só havia lido panfletos informativos com a maior preguiça do mundo. E por conta disso, Jade sempre fora uma aluna assídua e comprometida com seus afazeres escolares, o que levava Edward a se questionar pelo motivo de ela ter esquecido algo.

— E como você pretende fazer isso? — Megan indagou.

Jade não respondeu de imediato. Um bipe alarmou em seu celular e ela logo deu atenção a ele, Edward viu uma ponta de animação no modo como ela ergueu as sobrancelhas ao ler a mensagem de texto que havia recebido.

— Parece que a minha ajuda chegou. — Disse antes de se levantar e desfilar até a calçada.

Edward a olhou. Era uma manhã fria, e o vento soprava folhas pela Second Avenue como punhados de confete. Uma mulher vinha montada numa moto, uma mulher usando jaqueta de couro justa, seus cabelos castanhos e longos ao vento. Os alunos se viraram para vê-la passar. Edward já tinha olhado para mulheres assim antes, imaginando de um jeito preguiçoso para onde estavam indo e quem iriam encontrar. Não eram mulheres que ele conhecia, disso tinha certeza.

Exceto que, neste caso, era. O ronco do motor parou quando a moto foi desligada, e Brianna Western saltou dela. Deu um esboço de sorriso ao ver Jade, e foi na direção dela, tirando a mochila com um movimento de ombros e colocando-a sob a moto. Por dentro da jaqueta vestia o que Megan chamava de suas “típicas roupas de bad girl”: uma camiseta justa de veludo, jeans e botas. Trazia uma expressão mal humorada no rosto, mesmo assim, todos nas mesas de piqueniques da área de fora da escola observaram enquanto ela entregava os cadernos de Jade, jogando os cabelos para trás. Independentemente do que vestisse, Brianna atraía atenção como uma queima de fogos de artifício.

Assim que Brianna deu as costas para Jade, a mesma caminhou de volta até a mesa parecendo um pouco mais feliz. Jogou os cadernos em cima da mesa e voltou para seu lugar ao lado de Edward. Ele teria continuado a olhar para ela e dito o quanto Brianna havia ficado mais bonita desde a última vez que a vira apenas para tentar provocar “alguém” ali presente — mesmo que Brianna estivesse mesmo mais bonita e ainda mais parecida com a irmã Jade —, mas quando viu Samuel andando rapidamente por entre as mesas naquela extensão da escola sentiu um frio correr por sua espinha. O ar lhe faltou momentaneamente e ele se viu obrigado a acompanhar seu professor com os olhos, mas essa ação cessou no momento em que Samuel o fitou de volta. Edward engasgou e parou de olhar, mesmo sabendo que Samuel continuava mirando a mesa deles.

— O que foi, Edward? — Logan perguntou. Ao olhá-lo, percebeu que Jade não estava mais ao lado dele, e sim pegando seu lanche na cantina. E Megan estava entretida com sua gelatina vermelha ainda intacta no prato.

— Nada. Eu só... — Viu Samuel se afastar e continuou. — Eu só lembrei que tenho dever de Biologia para fazer.

Logan deu de ombros, e Edward agradeceu aos deuses por ele não ser do tipo intrometido e não se incomodar com a vida alheia. E também por não ter aula de Literatura naquela terça-feira, mas sabia que não podia fugir para sempre.

As mãos de Jade eram ágeis, não só — embora em especial — para dar socos em pessoas, mas também para escrever. Seus dedos finos e longos agarravam a caneta com afinco, escrevendo forte no papel. Embora odiasse sua vida de estudante, tinha que manter seu alto nível de conhecimento sempre muito bem treinado e aguçado, e para isso ela faria qualquer coisa, até mesmo ficar na escola depois da aula apenas para entregar um questionário de Química. Estava claro na sala onde ela respondia as vinte questões, o sol entrava forte e implacável pelas janelas abertas, enviando feches de luz pelo chão e pelas cadeiras. Ela se perguntava qual era o problema de Scott Morgan, seu professor de Química. Porque passar um questionário daquele tamanho se eles tinham acabado de iniciar as aulas e faltavam mais de dois meses para o inicio das provas? Talvez porque ele quisesse mostrar aos alunos novatos que com ele as coisas eram assim, sem brincadeira, sem moleza, sem papo furado. Jade entendia isso, ela odiava quando os alunos novatos ficavam de moleza por serem inexperientes com os professores ou com os métodos de ensino. Ela mesma tinha aprendido a se acostumar, porque eles não conseguiam? Ela refletia sozinha enquanto respondia e vigésima questão quando percebeu que não estava mais sozinha.

Um barulho estrondoso puxou sua atenção quase que imediatamente, ela ergueu os olhos da folha de papel e viu Stacy Baker na porta. A professora a olhava assustada, como se não esperasse vê-la ali. Jade olhou para o chão e viu os materiais de sua educadora no chão, seus cadernos, apitos e pastas. Então imaginou a cena em sua mente, Stacy deveria ter se assustado ao vê-la ali e acabou derrubando seus materiais por conta disso. Um fiapo de cabelo louro que caía sobre os olhos dela se afastava quando ela respirava, ainda mais daquele jeito profundo que ela jogava o ar para fora dos pulmões e depois o puxava de volta, inflando o peito como se tivesse acabado de correr uma maratona.

— Eu sempre soube que sou maravilhosa, mas não tanto a ponto de assustar as pessoas. — Jade escorou as costas sob o apoio da cadeira e mordeu a ponta do lápis com um sorriso convencido.

Stacy deu um risinho nervoso e se abaixou para pegar suas coisas. Jade pensou que Logan teria se levantado da cadeira e teria ido ajudar a Srta. Baker a pegar suas coisas se ele estivesse ali, mas Jade preferiu assistir a cena sentada e com a ponta do lápis entre os dentes.

Stacy pigarreou, como se quisesse manter a voz firme.

— O que está fazendo na escola até agora? — Ela começou a pegar as pastas.

— Estou resolvendo alguns problemas. — Jade disse.

— Hm... — Stacy se ergueu e colocou suas coisas em cima da mesa vazia que era ocupada pelo professor. — Se importa se eu ficar? Tenho que planejar meu cronograma e tem um professor na sala dos professores que não parece gostar muito de mim. E como ele tem um olhar de psicopata, resolvi procurar outro lugar.

— A vontade. — Jade sorriu. Dessa vez seu sorriso pareceu mais natural do que forçado.

Stacy sentou na cadeira e Jade começou a responder a última pergunta.

— Ai que inferno! — A professora praguejou baixinho. Jade a olhou de novo.

— Algum problema? — Jade disse. Sua voz estava calma.

— Esqueci meu estojo na sala dos professores. — Ela disse já se levantando. Jade pensou em Logan de novo, ele se ofereceria para ir lá buscar, já Jade...

— Isso é uma pena. — Ela apenas lamentou, voltando a dar atenção ao seu questionário, mas já tinha acabado de responder.

— O que é isso? — De repente, Jade sentiu um aroma de abacaxi perto de si, sentiu também a mão de Stacy lhe tocar o ombro. Ela olhou a professora, que já estava ao lado dela, e percebeu que seus olhos azuis brilhavam como o céu. — É algum trabalho?

— Um questionário, só isso. — Disse Jade. — É para o Sr. Morgan.

— Por acaso ele tem um cabelo castanho, olhos azuis e um olhar assustador? — Stacy perguntou. Havia certa diversão em seu tom de voz.

— Ele mesmo. Porquê?

— Ele é o professor de quem eu estava falando, o que não parece gostar de mim.

Na verdade, ele não parece gostar de ninguém, Jade pensou.

— Ele é assim mesmo. — Jade deu de ombros. — Mas aproveitando que você vai na sala dos professores — Ela guardou suas coisas dentro da mochila e se levantou, notando que Stacy ficava na altura dos seios dela. —, será que dá para entregar isso ao Sr. Morgan?

Jade estendeu a folha de papel na direção dela e Stacy hesitou durante três segundos antes pegá-la.

— Claro. — Ela concordou rapidamente, andando ao lado de Jade até a porta. Jade abriu a porta e se escorou no batente.

— Valeu! Você é dez. — Ela piscou um dos olhos dourados e Stacy sorriu bobamente enquanto observava Jade sumir pelo corredor vazio.

Megan tirou os fones de ouvido — interrompendo no meio da música “Habits” — e bufou irritada. Percebeu que o som alto e agudo do toque do telefone estava ressoando na sala. Arremessando seu celular no sofá, se levantou e correu até onde o telefone vermelho antiquado ficava sobre uma mesa próxima à porta da frente.

— Quem fala é Megan Heist? — A voz do outro lado da linha soava familiar, embora não fosse imediatamente identificável.

Megan enrolou o fio do telefone no dedo, de forma nervosa.

— Sim?

— Olá, eu sou um dos seus professores que tem uma nave que foi sabotada por uma coisa nojenta ontem à noite. Acho que não causei uma boa primeira impressão e gostaria que você me desse uma chance de compensar por...

— Edward! — Megan afastou o telefone da orelha enquanto ele começava a rir. — Não tem a menor graça.

— Claro que tem! Você só não está captando o humor.

— Idiota. — Megan suspirou, apoiando-se contra a parede. — Você não estaria achando tão engraçado se estivesse aqui quando eu cheguei ontem à noite.

— Por que não?

— Meu pai. Ele não gostou nem um pouco do nosso atraso. Deu um ataque. Foi péssimo.

— O quê? Não me culpe. Você que quis seguir o professor e entrar na casa dele! — Protestou Edward.

— Bem, não vamos encarar dessa forma. — Tentou se defender. — A realidade é que eu decepcionei meu pai, pisei na bola, fiz com que ele se preocupasse, blá-blá-blá. Eu sou a perdição da existência dele. — Disse Megan, imitando as palavras exatas do pai com uma pontinha de culpa.

— Então, você está de castigo? — Perguntou Edward, um pouco alto demais. Megan podia ouvir um emaranhado de vozes atrás dele; pessoas falando de forma atropelada.

— Ainda não sei. — Disse ela. — Meu pai saiu com Deb hoje antes de eu ir para a escola, eles ainda não voltaram. Mas onde você está? Na casa do Logan?

— Sim. Eu, ele e Jade acabamos de zerar Grand Theft Auto IV! — Alguma coisa caiu atrás de Edward. Megan franziu o rosto. — Jade quer comemorar no Inter Flash. — Continuou Edward, falando de um restaurante na esquina da casa de Megan, onde às vezes havia música ao vivo. — Quer ir?

— Claro. Eu vou sim. — Megan pausou, puxando o fio do telefone ansiosamente. — Espere. Não.

— Silêncio, Jade, por favor? — Gritou Edward, a fraqueza em sua voz fez com que Megan suspeitasse de que ele estava segurando o telefone afastado da boca. Ele voltou um segundo depois, soando perturbado. — Isso foi um sim ou um não?

— Não sei. — Megan mordeu o lábio. — Meu pai ainda está chateado comigo por causa de ontem. Não sei se quero irritá-lo pedindo favores. Se eu for arrumar problemas, não quero que seja por causa desse jogo idiota.

— Ah, vamos, por favor. — Disse Edward. Jade e Logan eram os parceiros de videogame dele, e eles faziam isso há muito tempo. Os jogos os mantinham ainda mais próximos, e por isso compravam jogos e se comprometiam a chegar até o fim deles. Eles jogavam na casa de Logan, toda semana, religiosamente. — Além disso, não é um favor — acrescentou Edward —, é uma tarde comemorativa na esquina da sua casa. Até parece que eu estou te convidando para uma orgia no Brooklyn. Seu pai pode ir junto se quiser.

— Orgia no Brooklyn! — Megan ouviu alguém, provavelmente Jade, gritando. Outra coisa caiu. Ela imaginou seu pai numa mesa com ela e seus amigos. — E não, seu pai não pode ir junto! — Jade voltou a gritar e Megan achou que ela estava certa. De fato, aquilo seria constrangedor.

— Não sei. Se vocês três aparecerem aqui, ele vai ter um ataque.

— Então eu vou sozinho. Posso te buscar, e nós vamos juntos até lá e encontraremos Jade e Logan. Seu pai não vai se importar. Ele me ama.

Megan teve que rir.

— Sinal de que ele tem um gosto questionável, se quer saber minha opinião.

— Ninguém quer saber. — Edward desligou, entre os gritos de Jade.

Megan desligou o telefone e olhou em volta da sala. Havia evidências da falta de organização de seu pai por todos os lados, desde as pilhas de almofadas de veludo feitas à mão jogadas de qualquer jeito no sofá vermelho-escuro, até as paredes preenchidas pelas garatujas desenhadas pelos irmãos. Na lareira havia uma foto emoldurada da mãe de Megan. Uma mulher loura com olhar pensativo vestida em trajes clínicos, no canto dos olhos rugas características de risadas. Ela tinha sido uma médica que atuava em países pobres e sem condições boas de vida. Tom, o pai de Megan, tinha alguns dos prêmios que a mãe dela havia ganhado por ajudar os mais necessitados. Não que os prêmios tivessem servido para alguma coisa quando Maren Heist bateu o carro em uma árvore perto de Albany e morreu antes que Megan completasse treze anos.

A porta se abriu. Megan gritou.

— Meu Deus! — Exclamou Megan.

— Na verdade sou eu. — Disse Jade. — Mas já me disseram que somos muito parecidos. — Ela acenou para Megan da entrada da casa. — Edward não pôde vir, mas você está pronta?

Megan permaneceu em silêncio, tentava tirar os olhos da foto da mãe.

— Posso voltar mais tarde. — Disse Jade. — De verdade. Não seria problema algum.

— Esqueça, Jade. Vamos. — Disse Megan, pegando a bolsa que estava pendurada em um cabide perto da porta. Colocou-a no ombro, encarando a foto da mãe. — Até mais tarde, mãe. Não me espere acordada. — ela acrescentou e, agarrando o braço de Jade, a arrastou para fora da porta.

— Ai, meu Deus, garota, não arranque o meu braço. — Protestou Jade enquanto Megan a arrastava pelas escadas atrás dela, seus sapatos vermelhos fazendo barulho ao bater no chão de madeira a cada passo apressado que dava.

— Desculpe. — Sussurrou Megan, soltando o pulso de Jade. Ela parou ao pé da pequena escada, com a bolsa batendo no quadril.

— É bom você ter um motivo para estar me arrastando desse jeito. — Disse Jade, quando elas já andavam pela calçada.

— Você tem que ser agressiva o tempo todo? — Disparou Megan.

Jade piscou os olhos, claramente espantada.

— Eu pensei que você gostasse quando eu sou agressiva. — Jade rebateu ironicamente.

Megan estava prestes a responder quando um carro passou pela rua, o vidro se abriu e um rosto conhecido estava lá. Ele era branco e tinha olhos pretos e cabelos castanhos desarrumados. Samuel sorriu para Megan, exibindo dentes brancos e perfeitos.

Uma onda de tontura abateu-se sobre ela, uma forte sensação de que iria desmaiar.

Jade olhou desconfortavelmente para ela.

— Você está bem? Está com cara de que vai desmaiar.

Megan piscou.

— O quê? Não, eu estou bem.

Jade não pareceu disposta a encerrar o assunto.

— Você está com cara de quem viu um fantasma.

Megan balançou a cabeça. A lembrança era de ter visto Samuel zombando dela, mas, ao tentar se concentrar, esvaiu-se.

— Não é nada. Eu pensei que tivesse visto nosso professor, mas acho que foi engano. — Jade encarou-a. — Eu não como nada desde ontem. — Acrescentou defensivamente. — Acho que estou um pouco zonza.

Jade colocou um braço reconfortante nos ombros da amiga.

— Vamos. Vou comprar alguma coisa para você comer.

Quando chegaram ao Inter Flash, Logan e Edward estavam sentados em uma mesa no canto do estabelecimento. Logan acenou para elas, com seu cabelo grande sob os olhos verdes. Ao lado dele, Edward estava com seu topete bem penteado a base de gel. Eles eram praticamente o oposto um do outro, Megan concluiu.

— Eu não acredito nisso. — Disse Megan pela quarta vez, raspando um resto de guacamole do prato com a ponta de um nacho. — Como Jade conseguiu fazer aquela missão?

— Eu sou Jade Western. Posso tudo. — Jade sorriu para ela diante do burrito vegetariano.

— Ei, Jade, conseguiu terminar o questionário do Sr. Morgan? — Logan perguntou.

Ela o encarou, e parecia estar a ponto de dizer alguma coisa quando o celular dela, enfiado no bolso do jeans, começou a tocar insistentemente. Jade pegou-o, olhou para os números que estavam piscando na tela e franziu o rosto.

— É a minha mãe.

— Deu para perceber pela expressão no seu rosto. — Logan notou. — Você vai falar com ela?

— Tenho que falar com ela. — Disse Jade. — Se não ela vai encher o ouvido de Phillip. — Ela atendeu o telefone e saiu andando pelo pequeno restaurante.

— Eu tenho que ir ao banheiro. — Anunciou Logan. — Tanto refrigerante tem suas consequências. — Logan se retirou em direção ao banheiro, ajeitando sua calça jeans frouxa e rasgada.

— Então, Ed, como vão as garotas? Muitas atrás de você?

Edward ficou pálido.

— Não. — Ele disse rápido. — Eu acho, quer dizer. Sabe de alguma que esteja atrás de mim?

— Ah. — Megan deu de ombros. — Bem, eu não sei. Você poderia convidar a Jennifer Abel para sair. — Sugeriu ela, indicando uma das poucas garotas de Jokeston High de quem ela de fato gostava. — Ela é legal e gosta de você.

— Não quero convidá-la para sair.

— Por que não? — Megan se viu repentinamente incomodada com alguma coisa que não sabia identificar. — Você não gosta de garotas inteligentes?

— Não é isso. — Disse Edward, parecendo agitado. — Eu não quero convidá-la para sair porque não seria justo com ela...

Ele parou no meio da frase. Megan se inclinou para frente.

— Por que não?

— Porque eu gosto de outra pessoa. — Disse Edward.

— Muito bem. — Disse Megan. Edward estava meio verde, como se fosse desmaiar, do jeito que tinha acontecido uma vez, quando ele quebrou o tornozelo jogando futebol no parque e teve de voltar mancando para casa. Ela imaginou como gostar de alguém poderia fazer com que ele ficasse naquele estado de ansiedade. — Você não é gay, é?

O tom verde de Edward se intensificou.

— Se eu fosse, me vestiria melhor.

— Então, quem é? Jade? — Perguntou Megan. Ela estava prestes a dizer que aquilo não era nada bom. Mas seus olhos fugiram para a porta de vidro do Inter Flash. E lá estava Samuel. Ele vestia as mesmas roupas escuras da noite anterior, os pulsos traziam algemas de metal; ela podia ver o cabo de osso de uma faca saliente no lado esquerdo. Ele estava olhando diretamente para ela, um sorriso torto se formando no rosto. Pior do que a sensação de que estava rindo dela, era a absoluta convicção de Megan de que ele não estava ali há cinco minutos.

— O que foi? — Edward seguiu a direção do olhar de Megan, mas a expressão vazia em seu rosto indicava que ele não estava vendo Samuel.

Mas eu estou. Ela encarou Samuel enquanto pensava, e ele levantou a mão esquerda para acenar para ela. Um anel brilhou em seu dedo. Ele começou a andar, sem a menor pressa. Os lábios de Megan se partiram em surpresa. Ele estava indo embora?

Ela sentiu a mão de Edward em seu braço. Ele dizia seu nome, e perguntava se alguma coisa estava errada. Mas ela mal conseguia ouvi-lo.

— Já volto. — Ela se pegou dizendo, enquanto se levantava da cadeira, quase se esquecendo de colocar o copo de refrigerante na mesa. Correu em direção à porta, e deixou Edward olhando para ela.

Megan atravessou as portas, apavorada com a possibilidade de que Samuel tivesse evaporado nas sombras do beco como um fantasma. Foi o que pareceu, pois não havia rastro nenhum dele por ali.

— Peguei você. — Megan congelou quando sentiu mãos regeladas agarrarem seus braços. Sentiu o ímpeto de gritar, mas não conseguiu. Os olhos pretos de Samuel pareciam chamejar através das lentes do óculos.

— Me solta! — Ela se debateu nas mãos dele. Entretanto, ele não resistiu e soltou-a com leveza.

No crepúsculo que caía rapidamente, o cabelo dele parecia dourado.

— O cabelo do seu amigo é esquisito. — Disse ele.

Megan piscou os olhos, momentaneamente sedo pega desprevenida.

— O quê?

— Eu disse que o cabelo dele é esquisito. Parece que roubou uma peruca e colocou de qualquer jeito na cabeça.

— Não me importo com o cabelo de Logan. Para mim é muito mais bonito que o seu. — Megan estava furiosa. — Eu quero saber porque você está me seguindo.

— Quem disse que eu estava seguindo você?

— Boa tentativa. E você estava me vigiando também. Você quer me dizer a razão, ou eu devo chamar a polícia?

— E dizer o que a eles? — Disse Samuel de forma arrasadora. — Que pessoas invisíveis estão te incomodando? Acredite em mim, garotinha, a polícia não vai prender alguém que não consegue enxergar.

— Meu nome não garotinha. — Disse entredentes. — É Megan.

— Eu sei. — Disse ele. — É um nome bonito. Sabe o que é Meganctus? É um tipo de fumaça voraz, acredita-se que é a irmã de Galactus, O Devorador de Mundos. Você sabia disso?

— Não faço ideia do que você está falando.

— Você não sabe quase nada, não é mesmo? — Disse. Ele tinha uma expressão de descaso nos olhos negros. — Você parece uma terráquea como todos os outros, mas consegue me ver. É peculiar.

— Terráquea?

— Alguém que nasceu na terra. Alguém como você.

— Mas você nasceu na terra. — Disse Megan.

— Não. — Disse ele. — Eu nasci em Marte. — Não havia qualquer tom de defesa em sua voz. Ele falava como se não se importasse se ela acreditava nele ou não.

— Você é um assassino.

— Eu posso até ser um assassino. — Disse Samuel. — Mas eu sei o que sou. Você pode dizer o mesmo a seu respeito?

— Sou um ser humano comum, como você disse.

— Eu não me precipitaria tanto em me auto intitular comum se fosse você. — Ele se inclinou para frente. — Estenda seu pulso.

— Meu pulso? — Retrucou Megan. Ele assentiu. — Se eu mostrar o pulso, você me deixa em paz?

— Certamente. — Seu tom de voz era quase debochado.

Ela esticou a mão direita sem a menor vontade. Parecia pálida sob a meia luz que vazava das janelas, as juntas tinham sinais de nascença bem claros. De alguma forma, ela se sentiu tão exposta quanto se tivesse tirado a blusa e mostrado os seios. Ele pegou a mão dela e virou para um lado.

Do bolso da calça jeans larga que usava, ele retirou um saquinho com um pó branco dentro. Megan viu Samuel despejar um pequena quantidade sob o pulso dela cautelosamente. De repente, sentiu o local formigar; uma expressão surpresa e incrédula se fez no rosto dela quando o pó se movimentou sozinho e entrou em sua pele, desenhando a forma de um planeta em sua munheca. Ela se inclinou para frente com os olhos castanhos esbugalhados, olhando de perto parecia Saturno. Ela piscou os olhos e o desenho sumiu.

— Uma tatuagem?

Ele sorriu convencido e soltou a mão dela.

— É o seu Selo. São desenhos queimados dentro de nossas peles.

— E o que isso faz? — Megan achava difícil acreditar nisso, mas talvez mais difícil do que acreditar na existência de zumbis.

— Existem Selos para todos os habitantes da galáxia. Eles desenham seu planeta de origem.

— Quer dizer que eu nasci em Saturno? — Megan perguntou sarcasticamente.

— É exatamente isso. — Ele parecia satisfeito consigo mesmo. — Eu sabia que você era a Filha da Pureza. — Ele olhou para cima, em direção ao céu. — Está quase completamente escuro. É melhor chamar os seus amigos.

— Meus amigos? Eu achei que você fosse me deixar em paz.

— Eu menti. — Disse Samuel sem o menor embaraço. — Bradley quer conhecê-los, tenho que levá-los comigo até Marte.

— Porque ele iria querer nos conhecer?

— Porque vocês foram os escolhidos. — Disse Samuel. — Há pelo menos cem esperamos por vocês.

— Por nós? — Ela ecoou. — Você quer dizer pessoas que nasceram em Marte.

— Pessoas que protegem a galáxia. — Disse Samuel.

— Marcianos?

— Não seja ridícula. Ninguém acredita em Marcianos.

— Não?

— Claro que não. — Disse Samuel. — Olhe, Bradley vai explicar tudo para você quando encontrá-lo.

Megan cruzou os braços.

— E se eu e meus amigos não quisermos vê-lo?

— Isso é problema seu. Você pode vir por vontade própria ou não.

Megan não conseguia acreditar no que estava ouvindo. Antes Samuel tinha se mostrado tão frágil, tímido e atrapalhado que ela tinha criado certa empatia por ele, agora era como se sua máscara de homem desajeitado tivesse caído. Ele era sarcástico, grosseiro e mandão.

— Você está ameaçando me sequestrar?

— Se você quiser encarar dessa maneira — Disse Samuel. —, estou.

— Eu pensaria bem antes de fazer isso, professor. — Uma voz rouca e ameaçadora ecoou pelo beco. Samuel se virou para trás no mesmo instante, assustado com a visão de Jade com os braços cruzados e sua feição diabólica no rosto. Ao lado dela estavam Edward e Logan, que cerravam os olhos tentando soarem tão intimidantes quanto Jade, mas sem muito sucesso. — Quer me contar o que quer com a Megan?

E ao invés de dar o fora dali, como Megan pensou que ele faria, Samuel sorriu.