Bad Girls
63 Panic
Notas iniciais
You, are driving me into panic.
– O FILHO DA PUTA FEZ O QUÊ? – Ares berrou, praticamente se jogando sobre a mesa da sala de jantar de Zeus. Ele estava vermelho como um pimentão, e eu estaria rindo se aquela cena não fosse tão sinistra. Olhei para Percy o culpando mentalmente.
Eu não contaria para Ares, ou para ninguém da minha família, sobre Dylan e Octavian. Eles não precisavam de mais um problema sobre ex-namorado psicótico perseguindo uma garota. E mais, eu podia lidar com Dylan. Minha família não precisava saber do tiro do pé, ou das ameaças, ou de nada.
Bem, Percy discorda.
– Ares, acalme-se – Zeus pediu, mas o tom de voz sério dele era ainda mais sinistro e amedrontador do que um Ares vermelho que se esgoelava. – Annabeth, por que não nos contou isso antes?
– Porque é irrelevante – eu disse. – Eu tenho tudo sob controle.
– VOCÊ LEVOU UMA PORRA DE UM TIRO NO PÉ! – Ares perdeu o controle, batendo com os punhos na mesa e quebrando os óculos escuros que usava nem mesmo tocando as mãos neles. Tenso. – O SEU PÉ É IRRELEVANTE? BEM, VAMOS CORTÁ-LO FORA COM UMA SERRA ELÉTRICA!
– Isso é doentio – disse Malcolm.
– Eu avisei para você, Annabeth – disse Ártemis. – Que todos saibam que eu avisei para todas as garotas de Nova York o quanto os homens são imprestáveis! Você ainda pode se unir ao convento, querida. Exclua os homens da sua vida. Seja toda mulher.
Resisti ao ímpeto de perguntar se Ártemis era lésbica e queria virar pedófila.
– Por que não chamou a polícia? – perguntou Malcolm. – Parece a coisa sensata a fazer quando um maluco começa a ameaçar ligar para um assassino psicótico que quer te matar porque você chutou ele. Ah, não, espera. Estamos falando da Annabeth, ela definitivamente não é sensata.
– Malcolm, cale a boca, você não está ajudando – eu disse. – E eu não chamei a polícia porque eles são incompetentes. Já perderam o Dylan de vista mais de uma vez. Até eu, sozinha e desarmada, faço mais estrago com Dylan do que um pelotão armado. Sem ofensas, Ares.
– Você não me ofende, queridinha. Nem você consegue me deixar bravo.
– Se você está dizendo que não fica bravo constantemente, está mentindo – disse Poseidon. – Quase jogou a mesa pela janela enquanto Annabeth nos contava a história.
– Isso é falta de cereal – intrometeu-se Deméter. – Se ele tivesse tomado sucrilhos no café da manhã, estaria bem mais calmo.
– Eu não acho que sucrilhos possam ajudar o descontrole emocional do Ares – disse Percy, definitivamente não melhorando a situação.
– Aqui está a minha sugestão – disse Zeus. – Você e Percy se mudam para o Olimpo, temporariamente, durante as férias. Ficarão seguros aqui. Temos seguranças e quartos do pânico.
Quarto do pânico? Não sei se me trancar em um cubículo claustrofóbico com nome de um assassino de TV mascarado é muito efetivo se Dylan resolver fazer alguma coisa, mas Zeus parecia achar que um quarto do pânico era essencial nas residências atuais.
E que história era essa de me mudar para o Olimpo? Os dias da reunião de família já são um pesadelo, com todo mundo falando ao mesmo tempo, Deméter falando sobre grãos, Ares querendo matar as coisas, Zeus surtando quando a comida não o agrada e Hera impassível, pensando em maneiras de torturar a Thalia e matar cachorrinhos enquanto dormem. Aguentar isso todo santo dia era como uma punição para os pecados, e eu tenho certeza de que não pequei tanto assim para ter que aguentar Ártemis falando de conventos e me crucificando a cada gemido que eu der.
– Mudar para o Olimpo? Vocês só podem estar de brincadeira com a minha cara – eu ri. – Eu não vou me mudar para cá. É só o Dylan, e eu tenho planos para as férias, planos que não contêm me trancar em um quarto do pânico na casa do meu avô.
– Só o Dylan – debochou Ares. – O cara te deu um tiro no pé e você não está preocupada com ele? Quando vai se preocupar, então? Quando ele te mandar um e-mail com fotos de pessoas decapitadas e dizer “esse é seu destino”?
Resolvi ignorar Ares, porque ele estava fora de si e já havia esvaziado uma ou duas taças de vinho antes de tocarmos no assunto Dylan.
– E qual é o plano para as férias de vocês dois, Annabeth? Quer dizer, você certamente vai incluir Percy, já que vivem grudados pelos quatro cantos do universo.
– Tecnicamente, seu jumento, o universo é redondo – Deméter disse. – E não possui cantos. Isso é falta de cereal.
– Ele é homem – concluiu Ártemis, dizendo o óbvio. – Homens são burros e não pensam antes de dizer. Por isso viram pedófilos e estupradores atrás das grades.
– Eu acho que vocês estão surtando por algo que não vale a pena – disse Hades, se pronunciando pela primeira vez desde o primeiro surto de Ares, no qual ele ameaçou se enforcar usando a linguiça – Se a garota diz que ele é inofensivo, temos que acreditar nela. Foi ela que namorou ele, nós nem ao menos conhecemos essa figura imperdível.
– Preciso de uma palavra que rime com Hades – Apolo exclamou, erguendo o bloquinho. – Que tal... covardes? Ou duendes?
– Você está me chamando de duende covarde, seu poetinha de quinta?
– Não estou te chamando de nada, queridinho, apenas comentei o fato de que o seu nome rima com as suas características.
– Voltando ao assunto – interviu Zeus, antes que Hades começasse a enforcar Apolo, o que estava parecendo prestes a acontecer. – Quais são os planos, Annie?
– Pelo amor de Deus, deixe a garota em paz! – Afrodite gritou. – O que você vai fazer? Mandar um segurança particular escoltá-la a cada passo?
Eu ia rir, quando percebi que Zeus parecia pensativo, ou seja, ele realmente estava cogitando em contratar um segurança para me seguir diariamente a cada passo que eu dê. Imaginei um segurança parado na porta do quarto enquanto eu estou dentro do quarto com o Percy.
– Você é doente! – eu acusei, me levantando. – Não vou te contar para onde eu vou, e muito menos vou aceitar uma babá vinte e quatro horas por dia. Me poupe, Zeus! Se eu precisar de alguma coisa, eu grito.
– Annabeth Chase, não se atreva a me dar as costas! Annabeth Chase!
– Eu não estou gritando, não preciso de você e da sua doença mental! – disse, e saí da sala de jantar batendo a porta. O que é que tem de errado com a minha família?
Me joguei no sofá, bufando e tentando ignorar as gritarias vindas da sala de jantar, provavelmente com o Percy, tentando convencê-lo a contá-los sobre os planos ou ameaçando o torturar caso ele não fizesse nada a seu favor. A verdade é que, no fundo, eu estava apavorada. Como Octavian havia conseguido as informações de Dylan? E mais, como havia descoberto a relação entre eu e ele, ou o fato de que ele era um psicopata armado que queria me pegar? E, de qualquer jeito, como ele havia conseguido o telefone de Dylan?
Se Dylan não quisesse, ele não seria encontrado. E tenho certeza que, depois de fugir da condicional, desaparecer debaixo dos olhos dos policiais e estar armando um plano de vingança que não pode ser descoberto de jeito nenhum, ele não quer ser encontrado. Octavian não teria conseguido aquele número a não ser que alguém tivesse dado para ele.
Pensei no Dylan. Ele podia ter dado o próprio telefone para Octavian, mas para que se dar ao trabalho de fazer isso se já sabia aonde eu estaria, e sabia que eu estaria livre para tomar outro tiro daquela arma nojenta dele? Alguém mais estava metido nisso, alguém que conhecia o Dylan, que sabe sobre eu e ele, e que sabe que ele quer me matar com todas as forças que ainda restam do seu ser humano fodido emocionalmente.
Ouvi as portas se abrindo, e enxuguei os olhos. Não percebi se estava ou não chorando, mas quem quer que fosse, eu não aguentaria que me vissem tão fragilizada como agora.
Era só Percy.
– Oi – ele disse, se sentando ao meu lado e segurando uma das minhas mãos. – Desculpe por isso. Se eu soubesse que algum ser humano conseguia ficar tão vermelho desse jeito, eu não teria te obrigado a contar a verdade.
– Tudo bem – eu respondi, suspirando. – Não é culpa deles.
– Annie – Percy me chamou, e eu me virei para ele, relutante. Ele segurou meu rosto com ambas as mãos e deu um beijo em uma das minhas bochechas. – Você andou chorando. E muito. No hospital, depois de ir até o hotel, seus olhos estavam inchados e você estava em estado de choque. Você chora enquanto dorme. Estou preocupado com você.
– Estou bem.
– Não minta para mim. Você mentiu uma vez, sobre o Octavian, e o resultado não foi bom. Você sabe que pode me contar qualquer coisa, Annabeth, e não precisa se fazer de durona agora. Tem um maluco atrás de você e você está com medo.
– Eu não estou com medo – menti, a voz trêmula. – Não estou com medo de Dylan.
Essa parte era verdade. Não era exatamente de Dylan que eu estava com medo, e sim do que ele estava tramando, quem estava por trás de todo esse plano maluco, e quem estava do lado dele. Estava com medo do que ele vai fazer quando colocar as mãos em mim, porque eu sei que isso vai acontecer, mais cedo ou mais tarde. É como se eu me sentisse observada, presa, não podendo fazer mais nada. Merda.
– Eu sei um lugar que você vai estar segura.
– Percy...
– Confie em mim. Vem comigo até o meu apartamento, vamos ficar lá por uma noite e esquecer essa coisa toda. Você não precisa me contar nada, se quiser. E depois, vamos para onde você quiser.
Eu sorri. Era o primeiro dia em Nova York desde que havíamos voltado de Providence, e tudo foi tão corrido com Percy no hospital, minhas crises de choro sobre Octavian, que mal havíamos ficado juntos.
E então, eu comecei a chorar. E meus soluços estavam tão altos que provavelmente Ares havia ouvido e estava achando que Dylan estava infiltrado na parede e agora estava me esfaqueando usando uma espada japonesa ou coisa do tipo. Percy me abraçou com força e beijou o topo da minha cabeça, enquanto eu afundei meu rosto no seu ombro e continuei chorando.
– Estou com medo, Percy. Medo de tudo. Medo de mim mesma, medo de ficar sozinha, de...
– Ei, está tudo bem. Eu não vou te deixar sozinha, ok? Eu estou aqui. Está tudo bem.
Assenti, tentando controlar o meu choro. Eu poderia ficar abraçada com Percy eternamente, ou até alguém abrir a porta e perguntar porque ficou tudo silêncio de repente. Certamente a minha família estava empilhada na porta, tentando ouvir todos os detalhes da minha conversa/desabamento com Percy. Suspirei e enxuguei as lágrimas, me separando de Percy.
– Ok. Vamos para o seu apartamento, então.
Percy sorriu. Nos levantamos e caminhamos até a entrada da casa de Zeus, mas quando íamos abrir a porta, alguém a abriu primeiro.
Era o meu pai. Quer dizer, o Frederick. Ele estava usando uma blusa preta e estava com uma capa de chuva marrom, o que era estranho, já que não estava chovendo lá fora.
– Frederick? – perguntei, mais surpresa do que deveria estar. O que é que ele estava fazendo ali? Não falava com ele desde todo o papo sobre o teste de paternidade, e não tenho certeza se a madrasta do mal realmente havia o deixado fazer o teste. Sei que só algo muito urgente para atraí-lo até aqui, quanto mais sozinho. Merda. – Quem te contou?
– Freddie! – Zeus gritou, abrindo a porta da sala de jantar a estendendo os braços, para abraçar Frederick. Frederick o ignorou, como qualquer outra pessoa em sã consciência faria caso um Zeus estendesse os braços para um abraço. – Ainda bem que você veio!
– Vim o mais rápido que pude – ele disse, evitando me olhar nos olhos. – Atena já chegou?
Eu gelei. Que porra era essa? Haviam chamado a minha mãe doida varrida também? Meu Deus, ela ia vomitar arco-íris de tanta felicidade quando percebesse que alguém estava tentando me matar. Provavelmente ia perguntar quem era e até ajudaria Dylan a me encontrar.
– Vocês chamaram a minha mãe? – indaguei, perplexa. – Estão querendo me matar? Se me quiserem morta, é só falar, acho uma ponte e me jogo dela em um instante.
– Não seja drama queen – Zeus bufou. Drama queen? Que tipo de homem hétero fala isso hoje em dia? Honestamente, Zeus, você está me deixando duvidosa sobre sua opção sexual. Pobre Hera. – Atena está em Budapeste. Seu voo atrasou. Ela deve chegar aqui pela manhã.
– Não acredito que chamaram a minha mãe.
– Ela se preocupa com você, Annabeth.
– Não, Zeus, ela não dá a mínima para mim. Foi ela que me mandou para cá, em primeiro lugar. Ela só vai piorar essa merda.
– Olha a boca, porra! – Ares gritou.
– Não foi exatamente sua vinda para cá que enlouqueceu Dylan – disse Zeus. – Foi você ter chutado ele.
– Mas ele me perseguiu, não foi? Aquele cara é maluco. Vocês são malucos! Vamos embora, Percy, agora.
Percy provavelmente ia me contrariar, mas ele estava tão atônito e eu estava tão brava que provavelmente ia ser perda de tempo.
– Annie, não acha melhor ficar e...
– O seu apartamento. Agora.
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