Bad Girls
66 Fast lane
Notas iniciais
In the fast lane, living life without knowing.
Eu não sei que horas acordei. Pelo tanto que as minhas pernas doíam, eu poderia ter ficado dormindo dias, semanas. Era relaxante saber que não tinha que me preocupar com as aulas por enquanto, ou com jogos e coreografias. Tudo o que eu tinha que manter na minha mente era o Percy, e planos para as férias de verão.
Quando abri os olhos, a luz pareceu me cegar. Ah, é, eu estava no apartamento de Percy, que ainda estava em cima de mim. Havíamos adormecido desse jeito em algum momento da noite, depois da nossa conversa silenciosa após o sexo, já que ninguém realmente conseguia falar. Sei que ele havia se levantado, pegado a camiseta e a cueca, e depois de se vestir e entregar a camiseta pra mim, deitou de novo. Por cima de mim, é claro, senão não tem graça.
– Percy, acorda – murmurei, percebendo que sim, a minha garganta ainda estava doendo. Eu vou ter que tomar remédio. – Você está me machucando, meu Deus, você é pesado pra caralho.
Percy não se mexeu. Depois de rolar de um lado para o outro, finalmente consegui fazer com que ele deslizasse para o meu lado do colchão, ainda roncando e dormindo feito um anjo moreno e perfeito. Os lençóis estavam todos amarrotados, e com um cheiro esquisito, mas decidi relevar isso. A minha camiseta estava babada no lugar onde Percy havia deitado. Por que será?
Me levantei, e não consegui deixar de gemer de dor quando apoiei o peso do meu corpo nas pernas. Não quis olhar para elas, simplesmente andei até a cozinha e lavei o rosto. Quando me apoiei no balcão, também não consegui evitar de sorrir.
Até olhar para o meu braço.
Eu parecia ter sido espancada. Haviam marcas roxas nos meus dedos, no meu pulso e em quase todo o meu antebraço, em ambos os braços. Tomei coragem e olhei para as minhas pernas, que estavam em um estado ainda pior. As partes que não estavam vermelhas, estavam roxas. Minhas coxas tinham as marcas perfeitas dos dedos de Percy, onde ele havia cravado as unhas no dia anterior, e as marcas se espalhavam até a parte interna e traseira.
Corri até o banheiro, e tirei a camiseta. Agora, eu estava com raiva. Haviam marcas roxas, de chupões, mordidas e apertos, por todo o meu corpo. Literalmente, todo o meu corpo. Eu conseguia viver com um roxo ou dois, aparecendo no meu pescoço simultaneamente, mas isso? Isso é quase selvageria, eu parecia aquelas mulheres que apanhavam dos maridos com cabo de vassoura. Meu pescoço parecia mais ser roxo naturalmente, e os meus seios, ah, Deus...
– Annabeth?
Era Percy. Então ele havia acordado. Será que eu gritei de raiva ou coisa assim? Porque era bem capaz à essa altura. E eu sabia que não tinha motivos para ficar com raiva especificamente dele, porque eu havia permitido que ele fizesse isso. A não ser que...
E então, me bateu. Com todo aquele papo de eu ser dele, e ele mostrar para todo o prédio que eu sou dele... Você só pode estar de brincadeira.
Saí do banheiro batendo a porta. Eu tinha que ir ao Brooklyn, e eu não queria pegar carona com o Percy.
Ele ainda estava deitado na cama, embolado com os lençóis, e fez uma cara de dúvida quando eu me aproximei rapidamente, procurando minhas roupas. Vesti a calcinha e a calça em um movimento só, e saí a procura do meu sutiã. Eu poderia pegar um táxi, se eu tivesse dinheiro.
Me lembrei de quando Percy havia me ensinado a andar de metrô. Bem, vai ter que bastar.
– O que aconteceu? – ele perguntou, meio sorrindo. – Onde você vai?
– Embora – respondi. – Pra casa.
– Por quê? Eu achei que ontem tivesse sido bom, não um desastre.
Olhei para ele.
– Percy, eu adorei a noite de ontem – eu disse, e mostrei o meu pescoço. – Mas eu não adorei isso aqui.
Percy se levantou na mesma hora. Ele se aproximou de mim, e tocou o meu pescoço com calma e delicadeza, sem desviar os olhos dos meus.
– Me desculpa. Annie, me desculpa mesmo, mas... Isso vai sair.
– Essa não é a questão. Por que você fez isso? Você sabe que pode regular a sua força, e nunca fez isso antes. Então por que, Percy? Você quer mostrar pra todo mundo que eu sou sua me marcando? É isso? Você – eu hesitei. – tem alguma dúvida do que eu sinto por você? Tem alguma dúvida do que você significa pra mim? Tem alguma dúvida sobre nós?
– Não – ele respondeu, prontamente. – Eu só... Eu não sei, eu... Não sei.
– Você sabe – retruquei. – Você só não quer dizer.
– Vamos tomar café – ele desconversou. – Você deve estar com fome, e depois eu posso te levar para casa e...
– Eu não quero tomar café, Perseu. Eu quero que você me responda, agora. Você quer que eu exiba esses roxos pra todo mundo, e assim todo mundo vai saber que eu sou sua, só sua, só porque eu estou marcada? É isso?
– Pare de falar besteira – ele rosnou. – Eu não preciso te marcar pra saber que você é minha.
– Então, por quê, Perseu? – me descontrolei. – Por que você fez isso?
Percy não respondeu, ele só abaixou a cabeça.
– Foi por causa do Octavian? – indaguei, já sentindo meus pulmões arderem, e Percy continuou em silêncio. – Foi por causa dele, não foi?
– Annabeth, eu te amo – ele disse, finalmente, depois de alguns segundos. Eu tive que erguer a cabeça para não chorar. – Mas você tem que entender, você beijou ele em público.
– E me marcar foi um jeito de me punir? Ou você achou que eu fosse me encontrar com o Octavian de novo, e queria que ele soubesse que foi você quem fez isso comigo? Que merda, me responde, Percy!
Percy não respondeu. Suspirei, dei meia-volta e saí do apartamento, apertando o botão do elevador o mais rápido possível. Fiquei aliviada quando ele finalmente fechou, e tive certeza de que Percy não viria atrás de mim tão cedo. Mas senti um vazio ao mesmo tempo, e esperei que ele tivesse vindo atrás de mim, afinal.
Peguei meu celular e liguei para Silena. Pensei em ligar para Thalia, mas ela devia estar resolvendo alguma coisa com Luke, então, Silena foi minha segunda opção. Ela também morava no Olimpo, mesmo dirigindo como uma tartaruga na estrada.
– Silena? – perguntei, assim que alguém atendeu do outro lado. Não sabia que horas eram, mas pelo tom sonolento, ela também devia ter acabado de acordar.
– Annie? Por que está me acordando tão cedo?
– Preciso que você venha me buscar – gaguejei. – Eu tive uma briga com o Percy, e quero ir pra casa.
– Tá, onde você está?
Bufei. Eu não fazia a mínima ideia do endereço do apartamento de Percy, e não havia nenhuma placa ali por perto que sinalizasse alguma coisa. Mas, eu vi uma estação de metrô. E se eu pegasse um metrô até a Goode?
– Eu não sei, mas vou pegar um metrô até a Goode. Por ir me buscar lá?
– Posso.
Silena desligou, o que me fez ficar meio bolada, já que eu não sabia pegar o metrô e Silena sempre era muito amigável. Quando desci na estação, perguntei para a primeira pessoa que vi na minha frente qual metrô eu pegava para chegar na Goode, que depois de me olhar como se eu fosse maluca, me respondeu.
Quando cheguei na escola, que estava fechada, o carro rosa de Silena nem um pouco chamativo já estava parado na entrada, e ela estava usando um vestido rosa longo que parecia uma camisola, além de um lenço florido em torno da cabeça e óculos de sol prateados, o que me deixou meio confusa. Entrei no carro e fechei a porta, suspirando de alívio assim que afundei o corpo no couro do bando. Ela tirou os óculos.
– Por que está vestida como uma amish? – perguntei. Silena riu.
– Porque eu posso estar um pouco marcada – ela puxou o lenço, e eu vi marcas roxas descendo pelo seu pescoço. – E eu odeio estar marcada. Parece que eu tenho lepra. E se as pessoas acharem que eu sou doente ou coisa do tipo? E se isso não sair? Annabeth, eu estou concorrendo a rainha do baile! O que vai ser de mim?
Eu ri.
– Isso vai sair em um ou dois dias, Silena – reclamei. – O baile é só semana que vem, já pode parar de se preocupar.
Silena franziu o cenho, e pude perceber que ela olhava atentamente para o meu pescoço.
– Oh, meu Deus! Será que os garotos estão fazendo uma Irmandade dos Chupões ou coisa do tipo? O que é que deu neles?
– Não sei – suspirei. – Só espero que isso saia logo. Eu vou ter que trabalhar nas férias, e se o Ethan me ligar pedindo que eu vá... Deus, eu estou fodida.
Silena ligou o carro, voltando a colocar os óculos escuros. O lenço na sua cabeça insistia em voar para trás toda vez que eu insistia para que ela acelerasse, mas em alguns longos minutos, finalmente chegamos ao Brooklyn.
– Quer entrar? – perguntei. – Não acho que Ares esteja em casa.
– Ele provavelmente está com a minha mãe. Quer dizer, eles não podem nem tentar ser discretos? Isso já tá virando quase que um reality show de putaria, não é possível. Zeus está ficando puto quando ouve os dois reclamando um do outro.
– Zeus sempre está puto, isso não prova nada – concluí. – Si, você pode, por favor, não contar nada disso pro Percy? Da carona, ou coisa assim.
Silena deu de ombros, mas não quis entrar. Ela me mandou um beijo e deu a partida, o que me fez pensar que ela devia mesmo estar com muito sono. Subi os lances de escada até o apartamento de Ares. Como de costume, quando cheguei lá, Ares não estava, e a bagunça dominava toda parte daquele lugar. Vi um bilhete jogado no balcão, dizendo que ele teve que ir até a loja de armas, mas volta com o jantar, porque tem uma coisa importante pra me falar.
Ah, legal. Ares tendo algo importante para falar provavelmente significa algum surto, e alguém saindo machucado, e alguém tendo que viajar para não ser processado.
Larguei as coisas em um canto da sala. Já estava tudo uma bagunça, de qualquer jeito, e eu tenho certeza de que mais roupas sujas não iriam incomodar em meio a toda aquela imundície. Eu precisava me acalmar, respirar um pouco. Não havia um segundo em que eu não pensasse na minha pequena discussão com o Percy hoje de manhã.
Tirei toda a roupa e me enfiei debaixo do chuveiro, tentando não olhar para os roxos espalhados pelo meu corpo, mas isso não ajudou muito, já que tudo o que eu pensava era em como eu queria que ele estivesse ali comigo debaixo do chuveiro, fazendo as coisas que me fizeram brigar com ele.
Sei que tirei um cochilo embaixo do chuveiro em algum momento do banho, que eu não tenho certeza de como foi longo, mas só acordei porque meu celular berrava e tremia como se estivesse sofrendo de um ataque epilético em cima da pia. Me levantei, gemendo de dor, e vi que o número na tela não era de Percy, como eu esperava. Ou de Silena, Thalia, Luke, Ares. Era Ethan.
– Alô? – atendi, tentando não mostrar minha voz de sono porque, afinal, Ethan ainda era meu chefe e eu não queria que ele pensasse que eu era uma vagabunda sem nada para fazer, porque ele poderia decidir aumentar meu turno e eu estou com preguiça de trabalhar.
– Annabeth, sou eu, Ethan – ele respondeu, do outro lado da linha. – Escuta, queria saber se você está livre hoje à tarde. Uma das garçonetes faltou, e você podia cobrir o horário dela até as 8:00 p.m. Te libero o resto da semana se me quebrar esse favor.
Gemi de desaprovação, mas não a um volume que Ethan conseguisse me ouvir. Olhei para o relógio, e percebi que ainda eram duas da tarde. Ah, Deus, ninguém merece.
– Tá, pode ser – respondi. – Chego aí em uns quarenta minutos.
Ethan desligou, sem dizer mais nada. Eu poderia chegar lá em apenas quinze minutos, se começasse a me arrumar agora, mas estava um puta de um calor dos infernos lá fora, e eu nem fodendo vou usar manga comprida para trabalhar, e não quero que os clientes achem que eu tenho lepra, porque são eles que me dão as gorjetas.
Me enrolei na toalha e fui até o meu quarto. Coloquei o maldito uniforme, pulseiras no braço direito e um relógio no esquerdo, o suficiente para cobrir os roxos no pulso. Agora as pernas. Ok, eu posso usar meia-calça preta, desde que ela seja fina, e eu tenho certeza de que devo ter uma meia-calça fina em algum lugar desse universo de meias-calças a que se resume uma parte do armário. Quando finalmente a encontrei, só precisava de alguma coisa para o pescoço.
Quando eu estava decidindo se devia usar uma gargantilha, um lenço ou simplesmente deixar o cabelo solto, meu telefone tocou novamente. Meu Deus, o que o Ethan quer comigo? Eu disse que chegava em quarenta minutos, e só se passaram quinze.
Exceto que não era o Ethan. Era o Percy.
– Percy, não posso falar agora – eu disse, atendendo o telefone, saindo mais grossa do que eu deveria. – Ethan me colocou pra trabalhar hoje e eu estou atrasada.
Porque estou cobrindo os roxos que você me causou, completei mentalmente, mas resolvi ficar quieta.
– Annabeth, precisamos conversar – ele suspirou. – Eu sei que eu te deixei marcada, e eu sinto muito, mas você não precisava ter saído do meu apartamento correndo como se estivesse na caminhada da vergonha, e nem precisava ter pegado o metrô e pedido carona até o Brooklyn com a Silena, quando você sabia que eu podia te levar. Você força muito as coisas.
Revirei os olhos. Silena maldita, não sabe guardar segredo. Naja.
– Tanto faz – respondi. – Podemos conversar depois? Preciso ir trabalhar.
– Você tá brava?
– Percy, eu preciso ir.
Ouvi ele bufando. Isso estava demorando mais do que eu esperava.
– Deixa a janela do seu quarto aberta quando chegar.
Percy desligou, e eu evitei jogar o celular pra longe. Deixei o cabelo solto, de qualquer jeito, porque eu já estava suficientemente coberta com coisas pra disfarçar meus roxos, e porque levar um ou dois chupões não faz mal a ninguém de vez em quando.
Quando cheguei no Starbucks, era meio óbvio porque Ethan havia requisitado minha presença com tanta urgência. Eu nunca vi aquele lugar tão lotado, desde que comecei a trabalhar ali. Haviam adultos, pessoas com notebooks tentando fazer conferências e até uns homens de terno fazendo uma mini reunião regada a muffins e cafés, mas o pior era a aglomeração de adolescentes. E, é claro, adolescentes da Goode.
Eu bufei. Deixei minha bolsa na sala dos funcionários e Ethan me mandou cobrir a sessão da garçonete que havia faltado, que servia das mesas 1 à 5.
A minha sessão sempre era cobrir das mesas 15 até 25, então, cobrir só cinco mesas foi ridiculamente fácil. Tive que atender os caras de terno, um casal de velhinhos que estavam em dúvida entre água com e sem gás, e as outras três mesas que eram ocupadas pelos homens de terno realizando a reunião.
O casal de velhinhos foi embora uns quarenta minutos depois de eu ter chegado, e me deixaram uma gorjeta maravilhosa de cinco reais, o que me deixou feliz pelo resto do dia. Ou, pelo menos, até eu ver quem seriam os próximos a se sentar na mesa dos velhinhos.
– O que é que vocês estão fazendo aqui?
Eles estavam todos espremidos nas poltronas, tentando não querer uma mesa nova, provavelmente para não saírem da minha sessão. Thalia e Luke estavam abraçados na ponta da mesa, enquanto Clarisse e Silena estavam do lado deles, olhando com uma cara de nojinho pra o romance entre os dois. Nico, Charlie, Chris e Percy estavam do outro lado. E o Leo, é claro, estava rodando pela cafeteria procurando alguém pra azarar, mas parou seu flerte momentâneo pra me dar um beijo na bochecha.
– Percy disse que você tinha que trabalhar hoje – Silena começou, parecendo muito mais animada do que quando eu a havia visto de manhã. – E além disso, você não atende o telefone, filha da puta! Tentei te ligar, mil e cinco vezes, mas não dava nada. Me senti rejeitada.
– É claro que disse – sorri, sarcasticamente. – O que vão querer.
– Uma pausa pra conversa – Clarisse disse. – O baile é semana que vem, e então estamos oficialmente nas férias de verão.
– Sim, porque até agora não estávamos de férias – ironizei. – O que é que tem?
– Combinamos de ir pra casa do Percy em Montauk, tipo, há décadas atrás! – Silena continuou, revendo o cardápio umas cinco vezes, apesar de eu saber que ela inevitavelmente iria tomar o frappuccino de morango. – E estamos querendo ir depois do baile. Tipo assim, sair do baile e pegar a estrada, sabe? Aí podemos evitar o seu conflito com a sua mãe.
– A não ser que ela te persiga até Montauk – Luke disse. – Então a culpa não vai ser nossa.
Fiz uma careta para o Luke. Na mesa dos caras em reunião, um deles ergueu a mão e me chamou.
– Olha, preciso anotar os pedidos – respondi. – Aquele cara tá me chamando. Então, comecem a dizer.
Como eu previ, Silena havia pedido o frappuccino de morango. Clarisse pediu um moccha, e o resto estava tão interessado que pareceram ter pedido a primeira coisa que avistaram. Fui atender a mesa do cara desesperado da reunião, que no final das contas só queria pedir a conta, pagar e ir embora.
Ou pedir a conta e pagar, já que eles continuaram ali.
– Garçonete! – ouvi Leo me chamar, e sua mão estava erguida. Quis dar um tapa nele. – Eu não fiz meu pedido ainda.
Tentei sorrir, e andei até a mesa de novo.
– O que foi, Leo?
– Então, você vai ter que ir pro baile com as malas prontas – Silena prosseguiu, tagarelando sem pausa. – E eu não quero saber se você e o Percy brigaram, porque eu quero ir pra Montauk. Então, tratem de fazer as pazes.
Sei que Percy estava olhando pra mim, mas eu ignorei.
– Leo, o que você quer?
– Eu quero... – ele pareceu pensar, o que é irônico, já que ele não pensa. – O telefone das gatinhas da mesa 9 e o telefone das da mesa 13. Das quatro. Mas da loira, principalmente. Gosto de loiras.
Nico riu, e eu ouvi Percy socar a mesa involuntariamente.
– Dá pra parar de paquerar a minha namorada enquanto eu estou presente? – ele indagou, com descaso, e eu meio que prendi a minha risada.
– Sua namorada não é a única loira do mundo, mesmo sendo minha loira favorita – Leo piscou pra mim, e eu achei que Percy fosse avançar pra cima dele ali mesmo.
– Temos mesmo que levar esse cara?
– Só porque você não gosta dele, não significa que todo o resto do mundo não goste – respondi. – Valdez, o que vai querer, além dos telefones que eu certamente não vou pedir?
– Vou querer você, pode ser?
Revirei os olhos e dei as costas, voltando a atender as mesas, tentando me desligar da discussão que Percy e Leo tinham – e tenho certeza de que todo o resto da cafeteria também tentava se desligar disso.
Quando voltei com os pedidos, a paz parecia já ter reinado. Parecia.
– Então, Montauk, logo depois do baile – memorizei. – Vocês realmente se deram ao trabalho de vir até aqui só pra me dizer isso?
– Não – Thalia interveio. – Também viemos pra te dizer que é a semana do 4 de julho, então, leve roupas comemorativas ou fogos de artifício.
– Onde eu vou conseguir fogos de artifício, Thalia, acha que eu tenho cara de contrabandista?
Luke riu, recebendo um tapa da mesma, e logo depois se calou.
– Bem, você consegue qualquer coisa. Não me deixe falar das histórias que conta enquanto tá bêbada, ou pode sair daqui mais vermelha que essas marcas aí no seu braço.
Não mostrei o dedo médio pra ela porque ela está grávida, e não sei se é correto xingar uma grávida, porque os hormônios estão a mil e todas essas coisas esquisitas que acontecem no corpo da mulher durante a gravidez. Resolvemos ir pra Montauk logo depois do baile, já que o 4 de julho cairia em uma quinta, e o baile era no sábado. Sendo assim, teríamos tempo pra fazer qualquer coisa, como consertar furos no telhado e evitar goteiras, se precisássemos. Aos poucos, o pessoal foi indo embora, até que a única pessoa que restou na mesa foi Percy.
– Já tá na hora de ir pra casa – eu disse. – Ou vai pedir mais uma coisa?
– Pode trazer uma água – ele respondeu. – Vou ficar aqui até você sair.
– Eu vim de carro, Percy. É melhor ir pra casa.
– O que você quer que eu faça, Annabeth? Vai começar a me ignorar e me evitar até que esses roxos saiam?
– Não – hesitei. – Não sei.
– Bom, então é melhor descobrir – ele se levantou. – E me avisar quando souber.
Percy me entregou uma nota de vinte, provavelmente pagando a sua parte do que foi pedido pra aquela mesa.
– Que horas você sai?
– Oito – respondi.
Ele assentiu, e não disse mais nada. Me deu um beijo na bochecha antes de sair.
Bufei. Ainda eram seis da tarde, e as mesas começaram a se encher de novo. Apesar de atender rapidamente ao pessoal da minha sessão, e apesar das gorjetas que eles estavam deixando, foi como se o dia simplesmente se arrastasse. Já era segunda-feira, e o baile seria no sábado. Eu nem ao menos tenho um vestido, ou sei como me comportar a um baile. Nunca fui a um baile. Em San Francisco, sempre fazíamos alguma pegadinha e íamos beber nos fundos da escola, ou coisa do tipo.
Essa coisa devia ser mais complicada que perder a virgindade.
Quase dei graças a Deus quando deram oito horas, e Ethan finalmente me liberou, pagando o salário e me deixando ficar com as gorjetas. Liguei o rádio do carro no máximo e tentei me focar na estrada enquanto dirigia pra casa, os pensamentos a mil, pensando em qualquer outra coisa exceto no fato de que o filho da puta do fusca amarelo freava na minha frente sem nenhum motivo aparente.
Subi as escadas até o apartamento. Ares devia estar possesso, do jeito que ele era, já que não deixei bilhete nenhum avisando que ia trabalhar hoje.
Mas, assim que cheguei no apartamento, vi que ele não estava possesso. Ou bravo. Parecia feliz, despreocupado, gargalhando enquanto falava com uma mulher de cabelos castanhos. Achei que fosse Afrodite quando a vi de costas, sentada no sofá como uma lady. Assim que ela se virou, vi que não era Afrodite. Ou nenhuma pessoa comum. Eu não confundiria aqueles olhos nunca, porque eram exatamente iguais aos meus.
Sentada no sofá com Ares, estava Atena Chase – também conhecida como “minha mãe”.
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