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Cap III: Fraca

Peguei a caneta entre os dedos, simplesmente não conseguia prestar atenção na aula de matemática. A professora escrevia algo na lousa, eu conseguia ouvir o ruído do giz riscando a superfície verde, mas não fazia a mínima noção do que se tratava. Minha mente estava emersa em outros pensamentos, em outra dimensão.

- Então... O que temos como resultado? – vi a Sra. Johnson colocar uma das mãos no bolso e virar-se de frente para a classe. Nos quarenta minutos de aula que haviam se passado, foi à primeira vez que consegui prestar atenção em algo que ela falava. – Emily? – ela apontou para mim.

Eu senti o ar me faltar. Olhei o caderno em branco e logo em seguida a lousa repleta de números, expoentes e letras. Abri e fechei a boca uma, duas, três... Inúmeras vezes.

- Er... Um? – falei o primeiro numero que me veio à cabeça.

A professora me lançou um olhar de reprova, falou outro nome e voltou a escrever na lousa. Eu não fazia a mínima questão de saber o que ela tanto escrevia, muito menos o que estava explicando.

O sinal tocou anunciando o fim daquele período. Era aquilo que me preocupava, o próximo período era aula de ginástica. Nada era pior do que ter que entrar em um vestiário e depois ter que suportar os exercícios. Mesmo tendo asma eu não conseguia fugir das aulas, acho que o professor me odiava.

Peguei minha mochila e segui a multidão em direção ao vestiário. O vestiário era comum a qualquer outro em qualquer outra escola, armários pintados de azul com um banco estreito de madeira entre eles. Pelo menos uma vez eu tinha sorte, meu armário era o ultimo da ultima fileira. Por ser mais longe da saída e dos chuveiros havia menos alunas. Troquei-me o mais rápido que pude. A roupa de ginástica era larga, quase me perdia dentro do short preto e a camiseta amarela.

- Espero que hoje não seja tão ruim – murmurei, enquanto fechava o armário.

Segui algumas garotas em direção a saída do vestiário. No meio da quadra, entre as traves e os bancos da arquibancada, se encontrava o professor de ginástica. O treinador Will tinha uma expressão dura, o rosto fortemente marcado pelas linhas de expressão, talvez se não fosse tão ranzinza não teria envelhecido tão mal. A sua voz grave e explosiva era um detalhe a parte, seus gritos eclodiam por todo o ginásio, ele dispensava microfones.

- Vamos, suas molengas – o treinar berrou para nós, segurando entre seus dedos gorduchos o seu inseparável apito – Comecem logo isso – assoprou o objeto de metal e jogou a bola vermelha para uma das garotas.

O orçamento da escola era curto, o mesmo professor de ginástica das garotas, treinava o pequeno e perdedor time de futebol da escola.

Eu continuei parada vendo o professor se distanciar, enquanto o restante das garotas formavam os times para a partida de queimado. Admito, por mais ranzinza e detestável que o treinar fosse, vê-lo naqueles trajes apertados era incrivelmente gozado. Will era baixinho e rechonchudo, o short preto e curto que usava deixava suas pernas tortas a amostra; sua camisa amarela apertada e salientava sua barriga redonda. Deixei escapar um pequeno riso quando o vi sentar, era muito gozado.

- Certo, ficamos com a Emily – uma das garotas disse, não soube exatamente quem, mas o tom de desagrado em sua voz era perceptível.

Havia chegado o momento que eu mais odiava, nada era pior do que jogar queimado. Nada. A hora do almoço não se comparava ao massacre que algumas garotas conseguiam fazer com bolas vermelhas de plástico. Eu sempre era escolhida por ultimo, ou melhor, eu era a que sobrava por ultimo. Todas as garotas eram maiores do que eu, e para o meu azar Lucy sempre era a capitã do outro time.

O treinador gritou algo e nos colocamos cada time em um lado da quadra, o treinador voltou a soar o seu apito e o jogo começou. Eu não conseguia ver as bolas, todas passavam rápido demais, tudo que conseguia ver eram borrões vermelhos. Tentava a todo custo me esquivar e proteger o rosto com os braços, não queria voltar para casa com dentes a menos na boca.

Uma a uma as garotas do time foram se sentando... Eu fiquei por ultimo... Lucy fizera de propósito! Eu sempre era uma das primeiras a sair do jogo, desengonçada as bolas que vinham de todas as direções me acertavam facilmente.

Vi uma bola quicar perto de mim, não havia restado mais nenhuma garota do meu time. Do outro lado da quadra, Lucy segurava fortemente uma das bolas, assim como todas as outras que restaram do seu time. Senti minha espinha congelar, ao lado de Lucy estava Mura uma russa enorme e robusta, de aparência andrógina tinha quase dois metros de altura, diziam que seus pais eram militares. Mura tinha duas bolas em mãos e me olhava com ira. Elas não teriam piedade. Quando vi Lucy elevar o braço à cima da cabeça, não tive outra reação, abaixei e tentei me proteger ao maximo. As bolas me acertavam com força, uma seguida da outra, sem pausas. Segundo as regras do jogo eu já estava fora, o time adversário já havia ganhando, o professor já poderia apitar e encerar a partida. Mas segundo as regras de Will o jogo só terminava quando um caia, eu ainda estava de pé, ou melhor, eu ainda estava consciente. Não sei durante quanto tempo elas continuaram a me acertar, mas quando ouvi o apito soar e a ultima bola bater em minha cabeça, senti um alivio imediato.

- Para o chuveiro, suas fracotes – bradou Will, soando novamente seu apito.

Elas entraram no vestiário uma a uma, eu continuei parada. Quando não ouvi mais nenhum riso, levantei-me. Minhas costas doíam, provavelmente estavam muito vermelhas. Caminhei ate o vestiário, nunca tomava banho nele. Abri o meu armário e tirei minha camiseta, eu tinha três minutos ate que elas saíssem do chuveiro. Com cuidado toquei meu ombro, ardia e provavelmente estava mais marcado do que meus braços. Troquei-me o mais rápido que pude, peguei minha mochila e fui para o banheiro.

Após a aula de ginástica tinha apenas mais um período, eu não teria que aguentar tanto para poder ir para casa e ver como estavam as minhas costas. O banheiro estava vazio, coloquei minha mochila sobre a pia e lavei o rosto. Tirei o elástico que prendia o meu cabelo, molhei as palmas das mãos e as deslizei por entre os fios finos. Olhei-me no espelho por um instante, estava acabada.

O banheiro estava deserto e o meu suspiro soou muito mais alto. Abri a mochila e tirei de dentro um pequeno frasco de perfume, não havia tomado banho depois de tantas boladas, eu precisava de algo para disfarçar o meu provável mau cheiro. O perfume era fraco, tinha um cheiro gostoso de lavanda. Passei-o sem presa, guardando-o de volta na mochila e a colocando nas costas assim que terminei. Estava preste a sair do banheiro quando uma mão me impediu de passar, recuei dois passos e vi um sorriso debochado contornado de vermelho.

- Então... É aqui que você se esconde depois das aulas, idiota? – Lucy rangeu os dentes, seu batom barato vazava pelo canto de sua boca, era muito exagero.

Tentei passar pela porta, ignorando-a, mas ela me impediu. Suas unhas pintas de vermelho arranharam meu braço quando me puxou para trás.

- Eu tenho uma coisa para você, algo que não pude te dar na quadra – seu punho se fechou e ela flexionou o braço para trás.

Eu sabia o que receberia. Não movi um músculo, apenas fechei os olhos e esperei. Foram questões de segundos para sentir o meu maxilar doer, seu soco fora tão forte que acabei por cair e bater a testa no canto da pia. Quando cheguei ao chão e senti meu rosto tocar o piso frio abri os olhos, mas não levantei. Vi Lucy se aproximar, eu estava sozinha, mas isso nunca fora desculpa para ela me bater. Fechei os olhos novamente, esperando o próximo soco, mas ele não chegou.

- Deixa a garota em paz – uma voz feminina, mas muito grave ecoou pelo banheiro. Eu não consegui reconhecer a voz e nem me atrevia a olhar, mas ela fizera com que Lucy parasse.

Ouvi a porta do banheiro se fechar, mas continuei no chão. Ela havia ido embora? Abri os olhos com receio, eu me encontrava sozinha no banheiro. Levantei-me com dificuldade, segurando-me na pia. Quando finalmente fiquei de pé, a imagem que vi refletida no espelho era o que eu temia... O liquido vermelho escoria em direção aos meus olhos, meu lábio inferior tinha uma fissura. Passei com cuidado a língua sobre o lábio e senti o gosto amargo, puxei o cabelo para trás, deixando a amostra minha testa por onde o sangue escoria de um corte razoavelmente grande. Eu odiava ver sangue, sentia-me agoniada, por isso sempre detestei filmes de terror. Limpei o sangue que escorria da minha boca com as costas da minha mão, coloquei a outra mão em cima do corte na minha testa. Eu precisava ir à enfermaria, não aguentaria ver aquele sangue por muito tempo. Mas antes que pudesse sair senti um cheiro forte impregnar todo o banheiro. Olhei em volta e vi um dos boxes fechados por onde escapava uma fumava de cheiro forte. Talvez a garota ali dentro tivesse feito Lucy parar, mas eu não me atreveria a bater na porta.

Corri na direção da enfermaria, precisava limpar aquele sangue, não conseguiria fazer sozinha. Os corredores estavam vazios, isso facilitava a minha corrida desajeitada. Sentia o sangue escorrer pelo meu rosto, o corte estava tão profundo assim?

Bati na porta da enfermaria algumas vezes, Tônia a enfermeira abriu a porta com um semblante sonolento, mas sua expressão mudou quando me viu.

- Menina, o que aconteceu com você? – ela me puxou pelo braço para dentro da pequena enfermaria.

Tônia fazia estagio no colégio, por ser bem nova e atraente muitos garotos fingiam-se de doentes para poder ter uma “consulta” com a enfermeira.

- O que aconteceu com você? – ela sentou-me na maca e retirou minha mão da testa.

- Eu... Cai no banheiro – menti. Não contaria que mais uma vez levei um soco, nunca contaria.

- Caiu no banheiro? – ela repetiu, erguendo uma das sobrancelhas.

Desviei meu olhar do dela, não adiantaria falar.

- Deixe-me ver isso – disse atenciosa, tirando o cabelo que cobria o corte – Hum... Não está muito ruim, mas acho que vou precisar te dar uns pontinhos – passou um pedaço de algodão molhado por cima do corte.

Pontos? Estava tão ruim assim que precisava de pontos? Gemi baixinho enquanto ela limpava o corte da minha esta testa e lábio, quando a vi pegar uma espécie de linha fechei os olhos. A dor não era tão grande assim, mas ouvir ela dizer algo como “não vai doer” não ajudava nem um pouco.

- Pronto! – Tônia sorriu, enquanto colocava um pequeno curativo em minha testa – Foram apenas dois pontos, vai ficar boa logo.

Forcei um sorriso amarelo.

- Como você se chama? É nova aqui, não é? – ela tentou ser simpática, enquanto escrevia algo em um bloquinho.

- Emily, mas estudo aqui há dois anos... Algum tempo vim aqui por causa da minha asma – seus olhos esbugalharam-se, não me espantava o fato de ela não se lembrar de mim.

Tônia tentou se reparar, desculpando-se por não se lembrar de mim. Não demonstrei nenhum tipo de desapontamento, o que a deixou encabulada.

- Posso ir para casa? – perguntei, levantando da maca.

- Pode sim – sorriu sem graça.

Peguei minha mochila e sai o mais rápido que pude, não queria atravessar o portão justo no horário da saída. Havia demorado demais na enfermaria, o sinal para o fim das aulas logo soaria, não queria encontrar ninguém. Dei passadas largas ate chegar perto de casa, a cada minuto passando os dedos pelo curativo na testa e pelo corte no lábio, e torcendo para que ninguém tivesse “fugido” da escola mais cedo.


Notas finais
Gomen pela demora e pelo erros.
Espero que tenham gostado.
Bjos!