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Cap IV: Reflexo



Permiti-me dar um longo suspiro quando parei na frente de casa, nunca fiquei tão aliviada por ver aquela porta velha de madeira. Sentia um aperto no coração, desde que dei as costas a escola não tive coragem de olhar para trás, acho que nunca dei passadas tão largas.

Talvez fosse bobagem da minha parte achar que Lucy viria atrás de mim, eles nunca chegaram próximos demais da minha casa. Tudo que sempre tive que aguentar acontecia na escola ou perto dela, era deveras irônico... O lugar onde eu deveria me sentir segura, era onde eu mais me sentia acuada e com medo.

Minha respiração já havia voltado ao normal, mas mesmo assim eu sentia um desconforto. Coloquei a mochila no chão e procurei a chave de casa no bolso da minha calça. Fora difícil achar, talvez por estar tremendo. Peguei a chave, mas a deixei cair na grama seca do jardim logo em seguida. Quando me abaixei para pegar, senti a risada potente de Lucy atingiu os meus ouvidos como facas, eu sabia que ela não estava sozinha – ela nunca andava sozinha – eu podia senti o cheiro de álcool e loção pós-barba de Matt. Era de embrulhar o estomago.

- Olha só, é nesse bangalô que você morra, sua vadia? – a voz irritante de Lucy estava mais próxima. Era muita ironia da parte dela me chamar de vadia, não?

Tentei não olhar, não queria saber se eles estavam há 10 passos de distancia de mim ou à 20 metros. Mas o medo é tão estranho, não? Nos faz agir como idiotas e eu tive que olhar, sentir nojo da maquiagem dela e falta de ar ao vê-lo sorrir. Abaixe-me e procurei minha chave, o mais rápido que podia, tentando ignorar a voz de Lucy, mas era impossível.

- Eu nunca pensei em te dar uma surra na frente da sua casa, – eu me perguntava se um dia ela já havia pensando – esfregar essa sua cara no asfalto vai ser divertido. Sabe... Foi divertido te bater hoje e te deixar jogada no chão... Coisas insignificantes como você deveriam apenas ficar esticadas no chão, para que pessoas melhores e superiores pudessem pisar e limpar a sola de seus sapatos.

Um nó se formou em minha garganta, nunca senti tanta vontade de bater em Lucy quanto estava sentindo. Palavras machucam mais do que socos e pontapés, é a mais pura verdade. Eu queria grita e ofendê-la da maneira que sempre quis, queria ver o semblante de medo dela uma vez... Mas a única coisa que consegui ver com a visão embasada pelas lagrimas, foi Matt a envolvendo com seu braço e a puxando para beijá-la. A náusea me atingiu, tentei abrir a porta o mais rápido que pude, não queria mais ouvi-los, vê-los e muito menos sentir o cheiro repugnante. Fechei a porta atrás de mim, e como nos filmes em que uma mulher com uma vida perfeita, em uma cidade perfeita, que de repente sofre uma desilusão amorosa com o seu marido perfeito, encosta-se na porta e desliza por ela ate chegar ao chão e chorar. Eu não tinha nada do que as mulheres nos filmes tinham, mas mesmo assim encostei minhas costas na porta e deslizei ate o chão, e chorei.

Nunca fui uma criança mimada, quando caia e me machucava dificilmente chorava. Mas o que eu não havia chorado na infância por tombos e arranhões, estava chorando agora. Eu nunca chorei na frente de ninguém, ninguém sabia da minha dor. Nunca chorei pelas surras me de davam na escola, deixava para chorar em casa, sozinha. Mas as palavras de Lucy há alguns minutos atrás... Machucaram-me mais do que eu poderia imaginar. Sentia-me vazia por dentro, e expulsando todas aquelas lagrimas... Sentia-me ainda mais oca.

Chorei ate não poder mais chorar, pensando em tudo que eu tinha que suportar, e com as mesmas palavras vagando pela minha cabeça, me dilacerando ainda mais... Insignificante... Inútil... Um baque do lado de fora da casa me fez levantar a cabeça, quantas horas eu estava ali? Não fazia idéia, mas era melhor eu sair dali antes que meu pai chegasse, ele não me veria com o rosto inchado de tanto chorar, isso nunca.

Arrastei-me ate o banheiro, largando minhas coisas na frente da porta do mesmo. Parei frente a pia e olhei-me no espelho. Tão desbocada, os olhos vermelhos de tanto chorar, o rosto inchado e o semblante desolado eram tudo que eu conseguia ver refletida no espelho. Senti um aperto no peito e o choro voltou a se fazer, não achei que houvessem mais lagrimas a serem derramadas, mas eu estava enganada.

Abaixei a cabeça e o cabelo me caiu sobre o rosto, apoiei minhas mãos na pia, não tinha forças nem para ficar em pé. Chorei com tanta força que nem eu mesma um dia poderia imaginar que choraria. Tirei o cabelo do rosto e continuei cabisbaixa, as lagrimas realmente haviam se esgotado, mas à vontade de chorar não. Por um instante deixei minha visão se desviar do ralo da pia para sua lateral, onde se encontrava uma navalha. A maioria dos homens não usavam mais navalhas para se barbear, mas o meu pai usava, dizia que eram mais baratas. Não me importei com o fato de meu pai usá-la, peguei a navalha entre os dedos e a fitei por um longo momento.

Pessoas cometem suicídios todos os dias, é o maior ato de desespero e desrespeito à própria vida. Eu não me importaria de ir para o inferno, eu já vivia em um todos os dias. A única coisa que conseguia pensar naquele momento era em morrer. Cortar os pulsos e morrer ali mesmo no chão do banheiro era perfeito. Ninguém sentiria minha falta, ninguém sente falta de coisas inúteis e insignificantes, seria um beneficio ao mundo perder um indigente. Sim, eu pensava muito nisso; minha ausência não faria diferença para ninguém. Mas eu nunca havia tido coragem de me matar antes, porem, eu estava tão angustiada que ao menos uma vez me senti corajosa. Aproximei a lamina não tão afiada da navalha do meu pulso esquerdo, eu tremia muito. Seria uma morte lenta, eu sangraria demais... Eu odiava ver sangue... Mas era a única coisa que eu tinha. Encostei a lamina fria em minha pele, um corte profundo era tudo que eu precisava. Fechei os olhos, seria em um movimento apenas e de uma vez. Respirei fundo. Mais uma vez. Outra vez mais, ate que ouvi o barulho potente da porta se fechando, e larguei a navalha. Fique tão assustada que quando ouvi meu pai chamar o meu nome, demorei alguns minutos para conseguir balbuciar um ‘sim’. Eu havia perdido a minha chance... A chance de fazer a dor parar, de sangrar tudo de uma vez. Eu havia perdido a chance... A chance de morrer.

Notas finais
Gomen pela demora, e pelo cap pequeno. O proximo será maior.
Espero que tenham gostado mesmo assim, vou tentar postar o proximo o quanto antes
Ate.