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14 Capítulo XIV


Notas iniciais
Cheguei! ❤ Tentei fazer um capítulo mais leve desta vez, acho que precisamos de um respiro. Obrigada pela companhia sempre maravilhosa, pela paciência imensurável e pela energia positiva que trocamos. Tenham uma ótima leitura! Kisses❣

Diana viu cada giro que o ponteiro do relógio deu, desde que se propusera a tentar ir dormir, por volta das cinco da manhã, até o dia amanhecer completamente. Fora uma longa madrugada, mas ela estava aliviada que pelo menos Donna tivesse conseguido pegar no sono.

Já passavam das oito da manhã e ela ainda estava na cama, na mesma posição em que se deitara, olhando em direção à varanda do quarto e sendo iluminada pela pouca claridade do dia. A manhã estava fria, ela estava perfeitamente agasalhada em seu pijama de moletom e envolta por um grosso cobertor, mas, ainda assim, tremia por dentro, sentia um frio cortante que aquecedor nenhum poderia dissipar.

Ela olhou para o lado, para a irmã que dormia em sua cama, e acariciou os cabelos de Donna, temendo que algum mal lhe acontecesse por sua culpa. Quando criança, sempre que Donna tinha medo, Diana a levava para dormir em sua cama, juntas, a mais jovem sentia-se segura e conseguia adormecer. Diante dos eventos da noite, após muito choro, abraços e lamentações, após muita angústia e insegurança, Diana repetiu o gesto, mesmo ambas sendo mulheres feitas.

Elas se lembraram de quão forte sempre foram juntas e prometeram uma à outra, que nada mudaria isso agora. Todavia, Diana não conseguiu descansar um segundo sequer. Ela ficou surpresa com o quanto Donna podia ser mais forte que ela naquela madrugada, embora também estivesse assustada. A mais jovem estava muito mais confiante e controlada, fato que Diana atribuiu à sua juventude ou ao esforço dela em não deixa-la ainda mais abalada.

A exaustão levou Donna ao sono e Diana à aflição. Mesmo que tentasse fechar os olhos, se forçar a um mísero cochilo, ela tinha sobressaltos, lembrando-se da voz de seu algoz, das suas ameaças e da sensação de perigo iminente. Ela podia imagina-lo perto, tão perto que seu coração disparava em agonia. Ela só não enlouqueceu, porque vira o carro de Bruce parado do lado de fora da casa, quando subiu para o quarto. Ele havia ficado de prontidão, mesmo ela tendo sido tão hostil e ingrata. Ela não o merecia, nem mesmo como detetive, disse a si mesma, mas pensar nele lhe fazia não entrar em pânico, a acreditar que seu caso não estava perdido.

Tomando cuidado para não acordar a irmã, ela levantou-se, pedindo aos céus forças para que se aguentasse de pé. Uma rápida olhada no espelho fez com que se assustasse com a própria aparência, nem tanto pelas olheiras profundas ou a palidez em seu rosto, mas pela expressão de temor que ainda pairava em sua face. Ela sentiu vergonha da própria fragilidade, sentiu a vulnerabilidade que a incerteza sobre seus dias causavam e se abraçou, em busca de refúgio.

Lembrou-se de sua infância na Califórnia, dos dias quentes e os passeios semanais com a mãe pelas praias de San Diego. Lembrou-se dos dias difíceis e também dos dias de alegria, o nascimento de Donna, as idas com o padrasto aos campeonatos de basebol e aos jogos da NBA. Lembrou-se de quando começou a fazer planos para o seu futuro.

Um filme se passava em sua cabeça, desde que começara a sonhar com a faculdade de comunicação, o sonho de trabalhar na TV, de levar informação e entretenimento às pessoas e a escalada até o sucesso. Teria sido esse seu erro? Lutar para conquistar seu lugar ao sol? Ela sacudiu a cabeça, se recriminando por se culpar por tudo que conquistou arduamente e honestamente.

Se arrastando pelo quarto, ela dizia para si mesma que era Diana Prince, uma mulher aguerrida, sonhadora e que nunca desistiu. Tentava se motivar a continuar sendo forte, a não deixar uma voz, uma maldita voz que lhe acusava de algo que não tinha feito, destruir sua vida e aterroriza-la tão intensamente. Ela se proibiu, mentalmente, de chorar, de se esconder.

Afastou um pouco a cortina da porta de acesso à varanda e viu que o carro de Bruce ainda estava parado no mesmo lugar. Abrindo a porta e caminhando até a sacada, embora o vento da manhã fosse gélido, ela sentiu uma onda de calor em seu peito, pelo simples fato de saber que ele não havia desistido dela, pelo menos não completamente.

Ela devia descer, pensou, convida-lo para entrar e oferecer, no mínimo, um café, mas antes que esboçasse uma reação, viu uma viatura chegar e se posicionar atrás do carro do detetive, que após sair e dar algumas instruções ao policial recém-chegado, entrou no carro e partiu. Eles tiveram tempo de trocar um olhar, um rápido e enigmático olhar, que fez Diana suspirar e se lembrar da falta que havia sentido de Bruce nos últimos dias. Não queria vê-lo partir, não queria mais tê-lo longe de si e estava convencida de que isso ia muito além dos serviços que ele prestava como detetive.

― Você deveria agradecê-lo. – Donna a surpreendeu, aproximando-se e abraçando a irmã por trás.

― Eu farei isso, quando tiver oportunidade. – Diana alisou as mãos da irmã, que estavam em volta de sua cintura. ― Você deveria voltar a dormir.

Donna se afastou um pouco, ficando de frente para a irmã e meneou a cabeça, negando a sugestão de voltar a dormir.

― Você é quem devia ter dormido. Você está horrível, Di. Não deixou Bruce vê-la assim, não é? – A mais jovem passou os dedos pelos cabelos bagunçados de Diana.

― Eu não estou preocupada com a minha aparência, Donna. Estou preocupada com você...

Donna interrompeu a irmã, levando delicadamente o dedo indicador nos lábios de Diana, silenciando-a.

― Não vamos falar disso. A polícia vai cuidar de tudo. Eu estou bem, você vai ficar bem. Mas vai perder o interesse de Bruce se parecer um fantasma pela manhã. – Donna mudou de assunto, tentando fazer a irmã sorrir. Ainda que fosse muito jovem, Donna era sábia o suficiente para compreender que ficarem as duas se lamentando e falando sobre o perseguidor o tempo todo deixaria Diana ainda mais sensível.

― Talvez fosse melhor para ele se desinteressar. – Diana comentou, aleatoriamente, e Donna franziu o cenho.

― Não comece, Diana. Você confessou esta madrugada o que vem sentido, depois que lhe contei o que Bruce fez por mim. Então, não seja covarde agora. – A caçula tomou a irmã pela mão e a arrastou de volta para o quarto. ― Tome um banho e vista-se, vou dar um jeito nesse cabelo e nesse rosto. Você tem um compromisso esta manhã, lembra-se?

― Eu não vou, Donna. Não tenho condições. – Diana sentou-se na borda da cama, deixando os ombros caírem.

― Condições você não tem é de ficar prostrada dentro desta casa, como se fosse uma garotinha indefesa que nunca foi. – Donna abaixou-se para olha-la nos olhos. ― Você é minha inspiração, Diana. Você é uma vencedora. Como quer ganhar esse jogo apenas sobrevivendo e sem continuar a viver de verdade?

Diana olhou nos olhos cor de mel de Donna e respirou fundo, a mais jovem tinha razão, mesmo estando próxima do limite, Diana sabia que se entregar era sua pior alternativa. As irmãs se abraçaram e permaneceram assim por alguns segundos.

― Você tem razão, Donna. – Diana beijou a irmã, falhando na sua promessa de que não choraria. ― Mas, o compromisso... – A apreensão se tornou evidente nas feições de Diana.

― Ok, eu sei que essa experiência de ter uma sogra é diferente para você, mas... – Donna abriu um sorriso. ― quem não se apaixona por Diana Prince? – Ela deu uma piscadela e se jogou sobre a irmã, cobrindo-a de beijos.

Diana poderia dizer que não se importava em impressionar Martha Wayne ou, no mínimo, não desagrada-la, mas não tinha talento para mentir e muito menos equilíbrio para disfarçar sua ansiedade no momento.

― Eu amo você, Donna. – Diana se deu por vencida e retribuiu o carinho da irmã, antes de se vestir de coragem e ir para o banho.

(...)

Diana fez uma nota mental que deveria agradecer imensamente à Donna por não tê-la deixado desmarcar o compromisso com Martha Wayne, tão logo chegou a um dos centros de convivência mantido pela Fundação Wayne e pode contemplar o maravilhoso trabalho desenvolvido com as crianças carentes e órfãs de Gotham.

Quando Martha ligou, reiterando seu desejo de reencontra-la e convidando-a para um almoço, ela ficou tentada a rejeitar, muito embora ela mesma tivesse manifestado o desejo do reencontro. Todavia, quando Martha lhe dissera que antes, gostaria de leva-la para conhecer um dos centros de assistência à crianças mantido pela Fundação Wayne, Diana sentiu-se motivada a aceitar. Adorava crianças e desde que tivera condições financeiras de apoias ações filantrópicas, sempre esteve disposta a ajudar diversas instituições.

Diana já havia conhecido muito abrigos, orfanatos, associações, ONGs, mas nada se comparava ao centro de convivência que Martha lhe levara. Era tudo muito bem estruturado e equipado, conforto, tecnologia e acessibilidade não faltavam para atender qualquer tipo de criança. Sem contar o grande número de funcionários qualificados, que lidavam diariamente com as crianças, desenvolvendo um trabalho não puramente profissional, mas, sobretudo, afetivo. Martha disse à Diana que supervisionava pessoalmente a seleção de pessoal, no intuito de garantir que as crianças, em sua maioria com um histórico de vida doloroso, encontrassem acolhimento, além de um abrigo físico nas unidades mantidas pela fundação.

Diana experimentou múltiplas emoções ao chegar naquele lugar. Primeiro pela forma calorosa que fora recebida pelos pequeninos. Martha havia lhe dito que as crianças adorariam conhecê-la, mas ela não julgou ter tanto afeto de crianças, já que seu programa era muito mais voltado para o público jovem e adulto. Ela estava enganada. As crianças a ovacionaram ao vê-la e ela tinha certeza que nunca recebera um carinho tão genuíno desde que se tornara uma pessoa afamada.

Mas não foi apenas a recepção das crianças que mexera com as emoções da morena, a interação com os internos, o conhecimento das histórias difíceis e de abandono que muitos carregavam, lhe tocou profundamente, especialmente por ver naqueles olhares inocentes o brilho da esperança e em seus lábios o sorriso da fé. Aquilo era tudo que precisava para voltar ao eixo.

Martha ficou encantada com a desenvoltura e simplicidade de Diana em meio as crianças, ela parecia ser uma delas. Sem se importar com status, roupas caras e regras, ela sentou-se ao chão com um grupo de meninas, riu, brincou, contou histórias, pegou-as no colo, ensinou-as a fazer penteados e tirou itens de maquiagem da própria bolsa, embelezando as crianças e contando como era sua vida de apresentadora.

E se Martha pensou em algum momento que Diana não teria o mesmo tato e popularidade com os meninos, reconheceu seu engano tão logo viu a morena descer, literalmente, do salto, retirando dos pés o scarpin assinado por Christian Louboutin, prender os cabelos em um rabo de cavalo e se misturar aos garotos num jogo de basebol, surpreendendo a todos com sua habilidade em arremessos.

O que era uma simples visita, com o intuito de mostrar à Diana o funcionamento e o trabalho desenvolvido pela fundação, tornou-se uma manhã agradável e feliz, tanto para as crianças, como para Diana e até mesmo Martha, que sempre se alegrava ao ver aquelas crianças se divertirem. A produtividade da visita fora tanta, que elas sequer se deram conta que o tempo passara rapidamente.

― Diana, precisamos ir. – Martha a alertou, quando se deu conta do horário. ― Há uma rotina a ser seguida durante a semana no centro de convivência. Muitas das crianças precisam se arrumar para irem à escola à tarde. – Martha explicou, não deixando de notar o olhar triste de Diana por terem que ir.

Diana assentiu, lamentando-se por não poder passar o dia todo naquele ambiente de tanto amor, pureza e boas energias. Despediu-se de cada criança com abraços e beijos, bem como dos funcionários presentes no momento. Prometeu que voltaria em um fim de semana, para aproveitar um dia inteiro de atividades com as crianças. Ela estava encantada com tudo e com todos, da mesma forma que eles estavam maravilhados com a passagem dela pelo local naquela manhã.

― Eu não tenho palavras para agradecer a oportunidade que meu deu esta manhã, senhora Wayne. – Diana disse, quando deixavam o centro de convivência.

― Martha, apenas Martha. – A viúva de Thomas relembrou Diana, que sorriu, enquanto Martha envolvia seu braço no dela e caminhavam para o estacionamento. ― Você não precisa agradecer, Diana. O que você fez por essas crianças nesta manhã é de um valor incalculável.

― Acredite, não chega nem perto do que elas fizeram por mim. – Diana sorriu e não pode evitar que uma lágrima escorresse por sua face.

Martha tomou a liberdade de abraça-la, sem questiona-la o motivo de tanta comoção. Havia percebido o estado abatido em que Diana chegara ao local mais cedo, mesmo usando óculos escuros para disfarçar o olhar cansado e uma maquiagem perfeitamente aplicada sobre as olheiras. Martha sabia que havia algo grave por detrás daquela estrutura forte e capacidade de se manter sorridente, especialmente estando ciente do caso de perseguição que a apresentadora sofria, mas não ousaria forçar Diana a se abrir com ela a respeito do que estava passando.

Martha havia se encantado por Diana, desde que a vira rapidamente na mansão. Havia algo especial em torno dela, que não sabia definir. Sua intuição de mãe, apenas lhe dissera que essa aura especial era o motivo de Bruce olhar para ela, como Martha jamais o viu olhar para outra mulher. Não era beleza, glamour ou qualquer característica externa, era algo que vinha de dentro.

Havia uma tristeza naquele olhar também, Martha foi capaz de identificar enquanto via Diana interagindo com as crianças. Aquele coração precisava de descanso, Martha intuiu, sem saber toda a extensão de espinhos que pudesse haver dentro de Diana. Seu interesse pela morena deixou de ser puramente de curiosidade pela proximidade a Bruce, mas por afinidade. E, se Diana quisesse, se permitisse, ela ganharia uma nova amiga.

(...)

O convite de Martha à Diana para um almoço especificava que a refeição seria na Mansão Wayne, Alfred também estava ansioso para reencontrar a Princesa da Comunicação e servir um prato grego, que ele tinha certeza que a agradaria. Todavia, conforme o convite havia sido feito há dois dias atrás, quando Diana ainda tentava manter sua errônea determinação de ficar longe de Bruce, ela havia sugerido que o almoço fosse em um local que gostaria que Martha conhecesse. Diana prometera que aceitaria um jantar na mansão para compensar a frustração de Alfred e Martha aceitou de bom grado sua sugestão.

A maioria dos restaurantes de Gotham era de total ou parcial propriedade da família Wayne, justamente por isso, Martha amou quando Diana sugeriu que almoçassem num charmoso bistrô em um bairro tradicional da cidade, local que Martha não tivera oportunidade de conhecer, já que o empreendimento era recente.

O bistrô era simples, mas muito elegante. O cardápio era italiano e os pratos saborosíssimos. Frequentado por um público heterogêneo – jovens, idosos, empresários, estudantes, famílias e grupos de amigos – era um típico ambiente agradável e leve, exalava vivacidade, cultura e diversidade.

Sem ter noção da manhã que passariam juntas, Diana e Martha se convenceram que a escolha daquele lugar havia sido providencial, para complementar a experiência de calor humano e de emoção vivenciadas mais cedo.

Enquanto almoçavam e conversavam, Martha não pode deixar de pensar em como seu amado Thomas amaria aquele lugar. Inclusive, fora num bistrô, francês, o primeiro encontro deles quando o jovem médico começou a corteja-la. Sem se dar conta, ela se perdeu em pensamentos, em meio às lembranças, sorriu sozinha e os olhos marejaram com a saudade palpitando em seu peito.

Diana não pode deixar de notar a distração de Martha. Inclusive porque havia lhe feito uma pergunta havia cerca de um minuto e até agora não obtivera resposta.

― Está tudo bem? – Diana tocou a mão de Martha sobre a mesa, finalmente conseguindo atrair sua atenção.

Martha piscou algumas vezes, ao focar no olhar preocupado de Diana e usou o polegar próximo à pálpebra direita, para evitar que uma lágrima escapasse de seus olhos.

― Me perdoe, querida. – Martha suplicou, sorrindo. ― Eu me distraí com o local e acabei imersa em lembranças, em saudade. – Ela soltou um longo suspiro, se recompondo.

― Talvez não tenha sido uma boa ideia sugerir esse local. – Diana ponderou, sem entender o olhar nostálgico de Martha.

― Ao contrário, minha querida. – Martha abriu um sorriso e apertou a mão de Diana, tranquilizando-a. ― Você não poderia ter sugerido lugar melhor. Saudade é um sentimento volátil, não escolhe lugar e nem hora, mas as lembranças mantêm meu coração aquecido. – Ela olhou ao redor do bistrô, se permitindo a mais uma memória afetiva, antes de explicar à Diana o motivo de sua distração. ― Thomas adoraria esse lugar.

Diana deu um meio sorriso, compreensivo, sem saber ao certo o que dizer, depois de tomar conhecimento da razão que levou lágrimas ao olhar de Martha.

― Eu sinto muito. – Martha assentiu com a cabeça. ― A morte é cruel. – Diana comentou, lembrando-se da perda da mãe. ― Deve ser muito difícil superar algo como o que você vivenciou.

― De fato. – Martha foi honesta, mas o brilho de superação em seu olhar fez com que Diana insistisse no assunto, mesmo com receio de que não fosse apropriado.

― Nunca se revoltou, nunca questionou porque com você?

Martha tomou um pouco de água e de fôlego, antes de responder o questionamento de Diana. Não gostava de falar sobre a tragédia envolvendo seu marido, despertar a dor, mas sabia que às vezes era necessário, para se lembrar o porquê ficara viva e relembrar à outras pessoas que não deviam perder a oportunidade de viver.

― Algumas vezes. – Martha dedicou um olhar sincero à Diana. ― Mas sempre houve muito mais amor espalhado pelo meu peito do que rancor, Diana. Seria traição me fechar em mágoas, diante de tudo que Thomas e eu vivemos juntos. O que seria de Bruce? – Martha sorriu. ― Nunca foi fácil, mas sempre deixei mais espaço para flores do que para espinhos em meu caminho. O amor que Thomas e eu construímos foi algo inexplicável, mais forte que a morte, por isso consegui seguir em frente.

Diana refletiu as palavras de Martha. Ela tinha razão, mas não era tão simples de compreender. Quando perdeu a mãe e o padrasto, sua força para seguir em frente foi a irmã. Mas presenciar um assassinato brutal, junto com o filho, era ainda mais doloroso do que sua revolta pela morte covarde que a mãe sofrera.

― Eu também perdi minha mãe, nas mãos de um criminoso covarde. – Diana contou e Martha deu-lhe um olhar afetuoso, seguido de um ‘sinto muito’. ― Minha irmã tornou-se minha âncora. Hoje meu amor é todo voltado para Donna e para minha carreira. Não suportaria mais perdas.

Tão jovem e tão fechada em si mesma. Martha percebeu e pode entender a tristeza que captara no olhar de Diana.

― Sabe, Diana. Eu poderia ter me casado novamente, amado novamente. Mas não o fiz, pelo simples fato de que o amor de Thomas me preenche até hoje. Nunca foi medo de perder. – Diana arqueou uma sobrancelha, diante do rumo que o assunto tomou. ― Já teve um grande amor, minha querida? – Diana negou com a cabeça, embora quisesse dizer que via em Bruce essa possibilidade. Martha confirmou suas suspeitas. ― Você é ainda muito jovem, Diana. Não se prive de experiências. No dia em que viver um grande amor, você entenderá.

― Me perdoe, Martha. Mas, se for para ter um grande amor e acabar o perdendo, prefiro viver o resto dos meus dias sozinha. – Diana rebateu, mesmo sendo tocada pelas palavras de Martha.

― Eis a questão, Diana. Amor nunca se perde, sempre se transforma. – Martha encarou profundamente os olhos azuis em conflito e concluiu. ― Nem toda história de amor e de vida precisa ter um fim trágico, cada história carrega um propósito. E, embora algumas passem pelo fim precoce, não existe nada mais triste na vida que passar os dias sem poder dizer que viveu um amor de verdade. Daqueles que só acontecem uma vez na vida.

Diana não teve palavras para contra argumentar. As palavras de Martha não lhe deixaram brechas para que sua mente sufocasse os impulsos de seu coração, em se agarrar à esperança de que poderia realmente viver um amor assim.

― A sobremesa de sempre? – O garçom interrompeu de vez o assunto e Diana sentiu-se grata por poder ter um assunto trivial para engatar, enquanto refletia sobre o que ouviu.

― A de sempre, Petti Gateau com uma porção extra de sorvete. – A morena sorriu e Martha a encarou surpresa. ― Sou viciada em sorvete. – Diana confessou.

― Eu vou querer o mesmo, sem a dose extra de sorvete. – Martha voltou-se para o garçom. ― A genética já não ajuda para cometer extravagâncias.

O garçom anotou o pedido e se retirou, deixando as duas mulheres entrosadas e conversando animadamente.

(...)

Bruce deveria ter deixado a detetive Lance na delegacia e seguido para mansão, após a vigília durante a madrugada em frente a casa de Diana. Porém, não seguir protocolos era um traço determinante da personalidade do detetive. O fato de estar de folga até o meio dia não significava absolutamente nada, diante da inquietação e irritação que sentia pela ação sorrateira do criminoso que vinha atormentando Diana, e a sensação de atraso e ineficiência nas investigações.

Não que Bruce duvidasse da competência de sua parceira, mas esse era o tipo de caso que ele fazia questão de acompanhar cada detalhe, por menor que fosse. O fato de ter visto o semblante profundamente abatido de Diana naquela manhã também fora determinante para que ele ficasse no departamento de polícia, para acompanhar pessoalmente a análise das filmagens obtidas no local onde o psicopata deixara o bilhete no carro de Donna.

Além de acompanhar a análise dos peritos, confirmar a data dos depoimentos de John Stewart, Shayera Hall, Wally West e Arthur Curry, o detetive fez questão de pedir cópias das imagens obtidas, para fazer sua própria análise em casa. Os equipamentos de primeira com que equipara seu escritório em casa, somado ao silêncio absoluto do qual dispunha em seu refúgio particular, lhe fazia acreditar que teria mais sucesso que os peritos em obter uma pista, por menor que fosse.

Sendo praticamente expulso da delegacia pelo capitão Bullock, por ser sua folga, e tendo recebido um telefonema da mãe, para que a buscasse, ele deixou o Departamento de Polícia mais cedo do que gostaria, mas com trabalho suficiente em mãos para ocupar sua tarde em casa.

Indo atender o chamado da mãe, Bruce estranhou o endereço que ela lhe dera para busca-la, não era um local que Martha frequentasse. Estranho também foi ela ter exigido que ele a buscasse, já que sempre era Alfred quem fazia isso. Sua mãe sempre preferia a tranquilidade do mordomo ao volante do que a urgência do filho nos modelos esportivos que dirigia.

Somente quando estacionou em frente ao bistrô e avistou a mãe saindo do local, acompanhada de Diana, foi que Bruce compreendeu que o pedido da mãe havia sido premeditado. Por um lado, ele ficou feliz por ver as duas mulheres de sua vida, juntas, e sorridentes, parecia que estavam se dando muito bem. Por outro lado, não ficou tão animado quanto gostaria, a inconstância e atitudes arredias de Diana já estavam neutralizando sua disposição em tentar conquista-la.

― Obrigada por ter vindo, querido. – Martha beijou o filho, que estava recostado na lataria do carro à sua espera.

― Como vai, Diana? – Bruce cumprimentou a morena, surpresa e sorridente ao vê-lo.

― Bem. – Ela ampliou o sorriso. ― Sua mãe me proporcionou uma manhã maravilhosa. – Martha deu um sorriso modesto, garantindo a Bruce que Diana estava exagerando. Bruce ficou curioso quanto as atividades das duas, mas limitou-se a manter seu tratamento cordial à Diana.

― Fico feliz. – Ele se limitou a dizer. ― Podemos ir? – Ele se voltou para a mãe que assentiu e despediu-se de Diana, lembrando-a que a aguardaria para um jantar na mansão. ― Até mais, Diana. – Bruce estendeu a mão para um cumprimento formal e frio e Diana foi incapaz de não reagir.

― Espere. – Ela segurou a mão de Bruce, antes que ele pudesse soltar a sua e se afastar.

― Vou esperar no carro. – Martha os deixou, discretamente.

Bruce encarou Diana com curiosidade, mas seu olhar estava isento de expectativa.

― Eu preciso agradecê-lo. – Diana tinha as mãos agitadas e o coração acelerado, diante do olhar praticamente impassível de Bruce. ― Pelo que fez por Donna ontem.

― É o meu dever, Diana. – Bruce se manteve sério, colocando as mãos no bolso da calça.

― Não! Era o dever do policial que estivesse de plantão. – Diana sentiu vontade de toca-lo, no intuito de obter uma reação minimamente calorosa, mas cruzou os braços. ― Donna me disse que você estava de folga. Você não precisava ter ido pessoalmente até ela, tê-la trazido para casa e a tranquilizado. Também não precisava ter dormido no carro esta madrugada, para ficar de guarda em frente a minha casa.

― Eu sou o responsável pelo caso, Diana. Diante do acontecido, fiz o que deveria ter feito.

Diana soltou um longo suspiro diante das reações frias de Bruce. Ela merecia, disse a si mesma. Mas depois do que ouvira de Martha, estava disposta a reagir, a dobrar o próprio orgulho e sua insegurança para deixa-lo saber o que realmente pensava a seu respeito.

― Você é o melhor policial que conheço, Bruce. – Ela disse quase num sussurro, mas Bruce ouviu perfeitamente, embora duvidasse dos próprios ouvidos. ― Depois da minha mãe, é claro. – Ela completou. ― E parece ser o melhor homem que já conheci também. – Ela confessou, sentindo o coração quase saltar para fora do peito.

O lábio de Bruce fez uma curvatura milimétrica. Ele quase se predispôs a sorrir, mas o somatório de reações inconstantes e controversas de Diana, fez com que se contivesse.

― Agora sou forçado a dizer um obrigado. – Ele se limitou a dizer, demonstrando apenas convencimento em seu olhar.

Diana ignorou a reação e prosseguiu corajosamente:

― Gostaria de lhe fazer um convite. – Ela mordeu o lábio inferior, apreensiva, e aquilo abalou toda a estrutura de gelo que Bruce estava mantendo. ― Amanhã é a festa de aniversário da emissora. – Bruce arqueou uma sobrancelha e ela quase vacilou. ― Gostaria que me acompanhasse... como Bruce Wayne apenas.

Bruce ficou surpreso com o convite, embora Clark já o tivesse convidado para a festa. Contudo, jamais imaginou que Diana o avisasse do evento, tampouco solicitasse sua companhia daquela forma.

― Minha folga foi ontem, Diana. – Ele mediu a reação dela, ficando satisfeito com a frustração que viu em seu olhar, com a possibilidade que ele recusasse. ― Se faltar amanhã de novo, vou dar motivos para dizerem que suborno o capitão. – Ele abriu um meio sorriso, fazendo-a relaxar.

― Você se importa muito com o que dizem sobre você? – Bruce cruzou os braços e meneou a cabeça. ― Ótimo! – Ela se aproximou impetuosamente, com o coração acelerado como se fosse uma adolescente, e beijou-o no rosto. ― Me pegue às oito.

Ela se despediu com um aceno e uma piscadela, se sentindo imatura e travessa, mas feliz por ser capaz de dar um passo e uma chance real para Bruce e ela.

Notas finais
Continua! Tá faltando uma revisão no capítulo, mas farei isso. Podem avisar os erros, sempre! Beijos!