Backstage

11 Capítulo XI


Notas iniciais
Ei, gente! Capítulo novo, introduzindo alguns personagens muito importantes. Espero que gostem. Quero agradecer à leitora Jessica pela recomendação MARAVILINDA que fez pra fanfic. Me deixou emocionadíssima. Muito, muito obrigada pelas palavras. ♥ Tenham uma ótima leitura! Kisses❣

A imagem do detetive Wayne conduzindo um homem baixo e gorducho, que caminhava com certa dificuldade até a viatura policial, sob os holofotes de diversas emissoras, era exibida pelos principais programas jornalísticos americanos. Ao seu lado, sua exuberante parceira caminhava exalando graça e mistério, ignorando as perguntas dos repórteres sobre a investigação que culminara na prisão de um dos maiores chefes do crime de Gotham City: Oswald Chesterfield Cobblepot. A notícia havia se tornado a pauta de maior repercussão desde a noite anterior, quando a prisão foi efetuada.

Bruce Wayne e Dinah Lance pareciam uma dupla sexy, protagonizando um filme policial de Hollywood. A indumentária do herdeiro Wayne faria qualquer um pensar que ele estivesse saindo de uma reunião informal com acionistas, enquanto sua parceira parecia que havia nascido para matar (do coração) qualquer um que caísse na tentação de apreciar as curvas perfeitas, impossíveis de serem ocultadas pelo terninho preto e ajustado.

Trajando smoking, cartola e monóculo o empresário conhecido como Pinguim, devido a sua estatura baixa, nariz grande e caminhar desengonçado, foi preso em uma de suas famosas casas noturnas – o Iceberg Lounge – numa operação brilhante comandada pelos detetives Wayne e Lance. Foram meses de investigações, até conseguirem provas irrefutáveis de que Oswald usava seus empreendimentos como distração para financiar o tráfico de armas e tóxicos no estado.

O Comissário James Gordon e o capitão do departamento de polícia de Gotham City, Harvey Bullock, foram os únicos a darem um breve depoimento aos jornalistas, deixando claro que o julgamento de Oswald aconteceria em segredo de justiça e enaltecendo o brilhantismo do herdeiro Wayne na solução do caso, bem como de sua parceira.

“Para aqueles que ainda acreditam que o Príncipe de Gotham leva a vida de detetive apenas como distração, talvez seja hora de reconsiderar.” A âncora do telejornal comentou com seu parceiro de bancada, após o término da exibição da reportagem.

“Realmente, Bruce Wayne tem se sagrado um dos mais importantes detetives da história da América, talvez venha a ser o sucessor de Gordon futuramente.” O outro âncora concordou com a parceira, que em seguida começou a comentar a respeito das acusações pelas quais Oswald teria que responder.

― Dos cinco noticiários que já assisti esta manhã, esse é o primeiro comentário que não deprecia o trabalho do meu filho, Alfred! – Martha suspirou e desligou o televisor, voltando-se para o mordomo, de pé ao seu lado. ― Será que algum dia vão realmente valorizar o que meu filho tem feito por essa cidade? – Havia uma expressão de pesar na face da viúva de Thomas Wayne.

Diante da indagação de sua patroa, o mordomo lhe serviu uma generosa xícara de chá e franziu o cenho, ponderando sobre o que responder.

Alfred Pennyworth servia a família Wayne com devoção desde que Bruce era uma criança de colo. Muito mais que um serviçal, o britânico era parte da família, um amigo e conselheiro estimado por Thomas Wayne quando vivo. A família de Alfred também havia servido a outras gerações da família Wayne e o zelo e fidelidade de seus antepassados eram incontestáveis nas ações de Alfred.

Após a morte do amigo e patrão Thomas Wayne, tornou-se o braço direito de Martha, a quem ajudou, e muito, a amenizar os impactos da tragédia envolvendo o patriarca da família no emocional do pequeno Bruce. Alfred se tornou uma referência para o garoto e ajudou Martha a manter vivas em Bruce as lembranças boas do pai, ao invés de ruminar o ódio e a revolta pela crueldade com qual presenciara sua execução.

De poucas palavras e postura contida, Alfred era um homem com pouco mais de sessenta anos, muito cordial e um excelente chef de cozinha, sem contar a inteligência impressionante e a perspicácia natural. Ex agente da Scotland Yard, acabou influenciando e orientando o jovem Bruce em sua empreitada como detetive.

― Os verdadeiros heróis quase nunca são reconhecidos, senhora. – Alfred entregou a xícara para a patroa e completou. ― Felizmente o patrão Bruce não se preocupa com esses detalhes. Ele apenas está focado em se dedicar a uma causa em que acredita.

Martha assentiu com a cabeça e esboçou um sorriso desgostoso. Ela não queria que colocassem o filho num pedestal, mas, como mãe, lhe doía ouvir certos comentários a respeito do filho, comentários esses que insistiam em reforçar que a profissão de policial, para Bruce, não passava de um mero capricho de garoto rico.

― O chá está divino, Alfred. – Martha elogiou a bebida de morango e hortelã, e o mordomo fez apenas uma discreta reverência em agradecimento. ― Por falar em Bruce, onde meu menino está?

― Só há um lugar onde o patrão Bruce está, quando longe da delegacia ou da empresa, senhora. – Alfred deu a dica, fazendo Martha soltar um suspiro exasperado e menear a cabeça em reprovação.

Largando a xícara de chá sobre a mesa de centro e levantando-se com determinação, Martha encarou o fiel amigo e mordomo.

― Não se preocupe com o almoço, Alfred. Eu vou tirar Bruce da clausura e ele vai ter que me levar para almoçar fora. – Martha sorriu e Alfred sabia que, por mais que Bruce fosse teimoso, era incapaz de encontrar desculpas para negar um pedido da mãe ou mesmo rebater os argumentos dela para fazê-lo sair.

(...)

Martha cruzou a porta de acesso à biblioteca da mansão e foi em direção ao antigo relógio de coluna, que servia para ocultar a passagem para o subsolo da casa. O relógio estava fora do lugar e a passagem aberta, comprovando que Bruce passara por ali. Encarando as escadas pouco iluminadas com certa restrição, Martha desceu vagarosamente, pensando em que argumentos usar para convencer o filho a sair.

No auge de seus sessenta anos, Martha Wayne era uma mulher muito bela, generosa, culta e elegante, os cabelos em tom loiro, já tingidos, tinham um corte curto e sofisticado. As poucas linhas de expressão mostravam que o tempo fora generoso com ela, não roubando a delicadeza dos traços de seu rosto. Ao contrário de suas amigas socialites, a viúva de Thomas Wayne era avessa às plásticas e procedimentos estéticos exagerados, capazes de roubar a naturalidade de seu rosto.

Ela não tinha problemas em envelhecer, seu único lamento era não ter o esposo ao seu lado, envelhecendo junto dela. Os olhos azuis calmos refletiam sua força e também um misto de tristeza. Thomas fora o grande e único amor de sua vida. Perdê-lo foi como perder parte de si. Se não fosse por Bruce, ela sequer conseguia imaginar como poderia ter seguido em frente com sua vida. Não lhe faltaram pretendentes após a viuvez, mas, mesmo sendo muito jovem, não houve espaço em seu coração para construir uma nova história. Preencheu sua vida com o amor pelo filho e suas ações filantrópicas.

Já na metade das escadas, que levavam ao subsolo da mansão Wayne, ela correu os olhos pelo ambiente e avistou Bruce, concentrado na leitura de alguns papéis sobre uma escrivaninha do escritório montado por ele mesmo ali embaixo. Ela meneou a cabeça ao notar o lugar quase na penumbra. Mesmo sendo por volta de meio dia, apenas algumas luminárias sobre a mesa e a tela do computador clareavam o ambiente.

O fato de Bruce ter feito do porão no subsolo da mansão a extensão de sua repartição do DPGC, fora motivo de constantes questionamentos de sua parte, que achava o local solitário e deprimente, enquanto Bruce se defendia dizendo que era silencioso e inspirador para fazer seu trabalho.

Martha não estava equivocada em contestar, a mansão Wayne era gigantesca, pouco movimentada e silenciosa. A biblioteca e o escritório no primeiro pavimento serviriam perfeitamente para que Bruce pudesse fazer seu trabalho em casa. Todavia, ela sabia que havia um motivo especial para Bruce preferir ficar ali.

Os ancestrais da família Wayne – Solomon e Joshua Wayne – usaram as cavernas existentes em suas terras para ajudar escravos a fugirem das injustiças sofridas antes da abolição da escravidão na América. Anos mais tarde, seu esposo descobriu as galerias subterrâneas e projetou um refúgio de alta resistência em caso de catástrofes ecológicas, equipado com todo conforto e saídas de emergência.

A casa, herança de família, era uma construção quatrocentona, mas de estrutura altamente resistente. A construção no subsolo fora apenas uma das poucas extravagâncias que seu marido fizera. Felizmente, nunca teve utilidade, apenas para que pai e filho brincassem ali, e Martha tinha certeza que o apego de Bruce ao local devia-se às memórias de infância.

Mesmo que se preocupasse com o tom melancólico do ambiente, a verdade é que seu coração de mãe sabia que Bruce optara por passar seu tempo livre enfurnado no subsolo, porque o lugar lhe remetia ao aconchego das boas lembranças ao lado do pai.

― Domingo não é o dia que os bons filhos passam um tempo com suas velhas mães? – Martha aproximou-se de Bruce, beijando-lhe o rosto.

― Eu não sou um filho tão bom assim e nem a senhora está tão velha, mãe. – Bruce retribuiu o beijo e Martha sentou-se ao seu lado.

― Você anda um filho muito mal criado e distante para que eu diga o quanto é maravilhoso, mas eu posso mudar de ideia depois que sairmos para almoçar. – Martha acariciou a mão de Bruce, esperando sua desculpa para não sair.

Bruce sorriu, apontando para as pilhas de papéis sobre sua mesa. Inúmeros casos acumulados e um caso em especial lhe tirando o sono: Diana Prince. Bruce olhou para o dossiê sobre a mesa, entregue por Dinah, feito na última emissora que Diana trabalhou. Nada de avanços, poucas pistas consistentes e uma pequena lista plausível de suspeitos. Ele tinha de admitir que desmontar a teia de álibis do Pinguim, que o livrava de ser associado ao crime, havia sido muito mais fácil do que chegar perto do louco que ameaçava a princesa da comunicação.

― Eu adoraria lhe fazer companhia hoje, mãe, mas...

― Sem mas, Bruce. – Martha o interrompeu com autoridade, logo o olhando afetuosamente. ― Meu querido, você é um profissional dedicado, o melhor, mas se cobra muito. Sair um pouco também ajuda na evolução do seu trabalho. – Ela acariciava o rosto de Bruce enquanto falava, sorrindo, orgulhosa do homem de bem que ele se tornara e observando o quanto ele se parecia com o pai, na aparência e na personalidade.

― Que tal um jantar? – Bruce tentou negociar e Martha meneou a cabeça, negando.

― Só tenho o almoço livre. – Bruce a encarou intrigado e ela ignorou a curiosidade nos olhos dele. ― Você precisa sair meu, querido. Trabalhar em excesso não é saudável. Faz meses que você sequer vai a uma festa ou me apresenta uma namorada que reprovo. – Ela disse a última frase a contragosto, não estava em seus planos mais uma candidata a nora que não merecia seu filho.

― Mãe! – Bruce deu um meio sorriso e tentou, inutilmente, repreender Martha de falar sobre sua vida amorosa.

― É verdade. Não que eu queira mais uma candidata reprovável à nora, mas você é jovem e bonito demais para ficar sozinho, sem contar que a família Wayne precisa de uma nova geração.

― Você é muito jovem para ser avó, mãe. – Bruce tentou desconversar, mas sabia que o assunto não pararia por ali.

― Não sou não. – Martha foi enfática e seu olhar brilhava ao se imaginar sendo avó. ― Me conte, tem conhecido alguém especial? – Ela viu Bruce revirar os olhos, ele nunca gostava de lhe contar sobre seus flertes. O motivo: Martha sempre previa que não daria certo. ― Faz tempo que não leio insinuações a seu respeito, nada de romances com socialites, cantoras, modelos e atrizes. – Ela disse com ironia.

Bruce apoiou um dos cotovelos sobre a mesa e escorou o rosto sobre o punho cerrado, observando a curiosidade gritante nos olhos da mãe. Com um sorriso, ele deixou claro que não falaria de romances com ela, mas isso não desmotivou Martha de repreendê-lo. Ela o conhecia bem, por mais que ele soubesse ser quase ilegível, ela conseguia notar algo de diferente em suas feições.

― Tudo bem, sei que não vai me contar. Mas, se te conheço bem, há algo diferente em seu olhar, um brilho que sempre percebo quando você se apaixona. – Ela sorriu, mas logo franziu o cenho, receosa. ― Por Deus, só espero que não seja nenhuma cliente outra vez ou alguém envolvida nos casos que você investiga.

― Mãe, por favor. – Bruce ficou sério, mas Martha não se conteve.

― Você precisa aprender com os erros, meu querido. Lembra daquela ruiva? Andrea Beaumont, não é? Uma de suas primeiras clientes, ela havia te contratado para investigar a morte do pai dela. Vocês ficaram noivos e depois acabamos descobrindo que ela assassinou um dos mandantes do crime contra o pai. – Martha não escondeu o horror. ― Eu nunca simpatizei com ela, assim como não simpatizei com a filha daquele assassino que você prendeu também. Talia Al Ghul. Maldita hora que você a conheceu, eu sou contra julgar uma pessoa por sua família, mas aquela jovem herdou os genes ruins do pai.

Martha suspirou, pesarosa, ela ficara mais triste do que decepcionada com as mulheres que o filho amou. Ela não podia julga-lo, afinal, ninguém manda no coração, todavia, Bruce parecia ter um fascínio misterioso por mulheres erradas e com pendências na justiça.

― E seu último relacionamento então? Selina o quê mesmo? – Ela perguntou ao filho, mas decidiu que não importava. ― Não importa. Uma ladra. Ela quase me enganou com sua beleza e elegância, mas meu coração sempre me disse que ela não era a mulher certa. Por sorte ela foi embora do país, mas não me conformo de você não tê-la entregue às autoridades.

― Ela prometeu mudar de vida, mãe. Eu lhe dei uma chance. – Bruce se defendeu.

― Eu realmente quero acreditar que você é ingênuo e não tolo. – Martha o repreendeu, com carinho. ― Mas, são águas passadas. Eu sei que a mulher certa está a caminho, intuição de mãe.

― Okay, mãe. Você venceu. – Bruce levantou-se e estendeu a mão, levantando Martha e envolvendo o braço dela no seu. ― Nós vamos almoçar. – Bruce se deu por vencido, sabendo que sua vida amorosa seria a pauta do dia se não cedesse ao convite de sua mãe.

Com um sorriso vitorioso nos lábios, Martha se deixou conduzir para fora do local por Bruce, sem deixar de pensar que o assunto mexera mais do que deveria com o filho. Será que sua intuição estava certa? Ela observou, de soslaio, o semblante pensativo do filho. Ela esperava que sim, depois de tantos desencantos, seu maior desejo era ver seu menino feliz.

(...)

Dividindo o sofá da sala, um cobertor e um enorme pote de sorvete de chocolate, Donna e Diana assistiam a um canal de notícias, há mais de uma hora, mostrando toda a repercussão da prisão do famoso empresário de Gotham City, conhecido como Pinguim.

Inicialmente, Donna concordara em assistir um noticiário na manhã de domingo, porque a dimensão do caso era de relevância para fazer associações com a atual matéria que estava estudando na universidade, porém, a esta altura, já estava farta de assistir diversas análises do caso, repetidas pela maioria dos canais jornalísticos.

― Já chega disso, Diana. – Donna falou de boca cheia. ― Eu quero assistir Friends. – Ela tentou tomar o controle remoto da mão da mais velha, que o escondeu atrás das costas e pediu silêncio, enquanto a imagem dava um close nos detetives Lance e Wayne conduzindo Pinguim à viatura e o repórter tentava obter algumas palavras dos policiais.

Diana não escondeu o desgosto, quando um dos comentaristas do jornalístico insinuou que Dinah e Bruce fossem parceiros tanto no trabalho como na vida.

― Por que não admite logo que está afim do detetive playboy mais gato da América? – Donna a inquiriu, conseguindo chamar a atenção da irmã.

― Por que isso não é verdade. – Diana a encarou, fingindo perplexidade com a insinuação. ― Acha ele tão bonito assim? – Ela perguntou, tentando parecer despretensiosa.

― Por Deus, Di, quem não acha? – Donna sorriu e aproveitou para aprofundar o assunto. ― Escute, Diana, você já passou tempo demais fechada para relacionamentos, Bruce parece se importar com você e já percebi que ele mexe com seus sentimentos. Por que não tentar? – As palavras na boca da mais jovem faziam tudo parecer simples, mas Diana discordava.

― Já fui sonhadora e romântica como você, Donna. – Diana deu um sorriso triste e Donna revirou os olhos. ― Mas já tenho experiências suficientes para saber que o melhor é ficar sozinha. Tenho o meu trabalho para me dedicar.

― Você parece a mamãe falando. – Donna arrependeu-se do que disse, logo que viu o semblante de Diana ficar sério e tristonho. ― Desculpe, Di. Não quis dizer que você é obcecada por trabalho como a mamãe era. Mas você é tão pragmática quanto ela era. Ainda assim, ela foi feliz quando conheceu meu pai.

Diana tinha muito orgulho da mãe. Hipólita fora uma mulher guerreira, que enfrentara grandes desafios na vida. Se apaixonara muito jovem pelo pai de Diana, mas sofrera uma grande decepção. Quando comunicou ao homem que lhe fizera juras de amor que estava grávida foi abandonada por ele, enfrentando o preconceito e os desafios de ser mãe solteira em uma sociedade moralista e condenatória.

Sem se deixar abalar, Hipólita criou Diana sozinha, estudando e trabalhando para dar o melhor à filha. Quando Diana tinha oito anos, ela conheceu o pai de Donna, por quem se apaixonou. Embora tivesse o coração magoado e desiludido, Hipólita teve uma segunda chance de ser feliz. Construiu uma família e viu o pai de Donna acolher Diana como sua própria filha. Quando o pai de Donna morreu, Diana sofreu tanto quanto a irmã.

Diana entendia as lutas que a mãe travara para cria-la, mas Hipólita sempre colocou a profissão em um patamar muito alto de prioridades, fazendo com que Diana sentisse sua falta em muitos momentos de sua infância e adolescência. Diana sempre jurou que nunca repetiria a falha da mãe em suas ações. Por isso, quando Donna dizia que ela parecia a mãe, ela se entristecia um pouco. No fundo, Diana sabia que era, de fato, parecida com Hipólita, inclusive julgava ter herdado a desventura amorosa da mãe e torcia que Donna tivesse mais sorte.

― Mamãe teve sorte de encontrar seu pai, Donna. – Diana disse com saudosismo do homem que fora sua referência paterna. ― Mas o destino foi cruel novamente com ela, o tirando das nossas vidas tão cedo. – A voz de Diana embargou e ela e a irmã encostaram as cabeças, sentindo a saudade apertar-lhes o peito.

― A vida será mais generosa com você, Di. Eu sei que vai. Você precisa acreditar. – Donna tentou anima-la.

― A vida já foi generosa comigo, me permitindo conquistar o que sonhei e tendo você comigo. – Diana beijou o topo da cabeça da irmã. ― Não posso me queixar do que tenho.

― Também não pode se conformar. – Donna a encarou e deu-lhe uma piscadela, aproveitando o momento para roubar o controle remoto e mudar de canal. Diana a censurou com o olhar, mas Donna se defendeu. ― Você já viu e ouviu o suficiente que seu detetive é o melhor, foque em não deixa-lo escapar. Ele não vai estar ao seu dispor pra sempre.

Diana bufou ante o comentário da irmã, mas não se manifestou a respeito. Donna tinha razão, Bruce não estaria à sua disposição. O último dia que passaram juntos serviu para que ele deixasse isso bem claro.

Nas duas últimas noites, sua acompanhante no trabalho fora a detetive Lance e no fim de semana ficara livre de policiais na sua cola. Ela não podia negar que estava sentindo falta dele. Da sensação de proteção, do olhar insolente, do meio sorriso sedutor... Ela queria ter coragem para amar de novo, sem medo e sem receios, mas ainda não estava certa de que decisão tomar.

(...)

A bela ruiva de olhos verdes estava visivelmente inquieta, as mãos agitadas e o olhar preocupado percorrendo todo o restaurante enquanto conversava com seu noivo. A sobremesa pedida estava intocada sobre a mesa e nada que o homem a sua frente dizia lhe fazia ficar mais calma.

― Shay, eu pensei que trazê-la ao seu restaurante favorito lhe faria relaxar. – John segurou suas mãos sobre a mesa.

― Como posso relaxar depois da intimação que recebi, John? E como você pode ficar calmo? – Shayera bufou. ― Aqueles detetives não vão engolir nossa história. Como eu vou me explicar? – A ruiva soltou as mãos que eram seguradas pelo noivo e enterrou o rosto nelas, balançando a cabeça.

― Confie em mim, Shay, vai dar tudo certo. – John disse sem muita convicção. ― O pior de tudo vai ser eu me explicar, as pessoas não vão entender. – Ele disse, envergonhado. ― Você não precisa contar como nos conhecemos.

― John Stewart! – A face da ruiva ganhou a tonalidade de seus cabelos. ― Você tem vergonha de assumir como se apaixonou por mim? – Ela o fuzilou com o olhar.

― Não é isso, Shay. – Ele escolheu as palavras, receoso que ela explodisse. ― As pessoas vão fazer um juízo equivocado a meu respeito, como se o que houve entre nós fosse algo costumeiro em minha vida. – Ele tentou se explicar.

― Nós temos algo muito maior para nos preocuparmos do que a sua reputação ou a minha, John. – Shayera perdeu a paciência. ― Por favor, peça a conta.

John acenou para o garçom, que veio prontamente trazendo a conta.

― É melhor irmos mesmo. Diana tem um evento agora a tarde e eu preciso dar uma passada por lá. – John comentou assim que pagou a conta e levantou-se, seguindo a ruiva que saiu à sua frente.

Sentados numa mesa reservada, no segundo pavimento do restaurante, que tinha visão ampla de todo o primeiro piso, Martha observava, intrigada, a forma como Bruce havia prestado atenção na mesa do casal logo abaixo de onde estavam.

― Bruce Thomas Wayne, não é educado ouvir a conversa dos outros. – Ela semicerrou os olhos quando ele a encarou. ― O que há de errado com aquele casal?

Bruce se fez de desentendido, como se fosse eficiente em ludibriar a mãe.

― Não é nada. Eu os conheço superficialmente, apenas achei coincidência vê-los por aqui.

Martha apenas exprimiu um “sei”, saboreando mais uma colherada da pavlona de frutas.

― Pode ao menos se alimentar direito, agora que eles se foram? – Martha apontou para o prato pedido por Bruce, praticamente intocado.

Bruce remexeu o talharim em seu prato e deu mais uma garfada, mas seu pensamento estava longe dali. Não havia conseguido ouvir nada demais, mas ouvira o suficiente para ficar encucado. Ele iria querer ouvir o depoimento da senhorita Hall o quanto antes, mas, no momento, só o que tinha em mente é que precisava ver Diana.

Quando o maître se aproximou, perguntando se desejavam mais vinho, Bruce dispensou a bebida e avisou que já estavam de saída. O restaurante, de posse da família Wayne, era o preferido dos pais de Bruce e sempre que possível Bruce acompanhava a mãe em almoços e jantares no local, para agradá-la.

― Se importa de voltar sozinha para casa? – Já do lado de fora, Bruce abriu a porta do carro, sugerindo que a mãe dirigisse o Rolls-Royce Silver recém adquirido à sua coleção de automóveis. ― Antes só preciso que me dê uma carona.

― Contando que não vá para a delegacia. – Martha assumiu a direção do veículo e Bruce fechou a porta, dando a volta em seguida e sentando-se ao seu lado.

― Vou visitar uma amiga. – Ele deu um meio sorriso para a mãe, que iluminou o rosto ante a resposta.

― Sendo assim, eu não me importo. – Ela deu partida e seguiu o caminho indicado por Bruce, curiosa para saber quem seria a mulher que receberia a visita de seu filho.

(...)

Bruce fora recebido por Donna, quando tocou a campainha da casa de Diana. A jovem não escondeu sua felicidade em vê-lo e o avisou que Diana estava de saída, mas logo desceria para recebê-lo. Ele aguardou na sala, caminhando de um lado para outro, enquanto apreciava as poucas obras de artes e esculturas que decoravam o ambiente. Tudo de muito bom gosto por sinal.

Quando ouviu o som de saltos ecoando sobre os degraus da escada, ele girou lentamente o corpo, no intuito de ver Diana desfilar sua graça ao vir ao seu encontro e também de apreciar a reação dela ao vê-lo.

Porém, quando seus olhos pousaram sobre ela, ele se esqueceu completamente de tudo, até mesmo de respirar. A visão a sua frente roubou o seu fôlego. Estonteante, nada menos do que isso, foi sua definição ao vê-la trajando um conjunto preto básico, de calça ajustada e blazer decotado, que fez a imaginação de Bruce desejar saber o que ela usava por debaixo da peça.

O scarpin preto deixou-a à sua altura e os cabelos penteados para trás, ajeitados detrás das orelhas, deixou o belo rosto em evidência, especialmente atraente graças ao batom vermelho aplicado sobre os lábios.

― Hoje não é sua folga, detetive? – Ela o abordou, após ter tempo de ocultar seu contentamento ao vê-lo, graças ao estado hipnótico que o abateu.

― Seria, se também você estivesse de folga. – Ele se justificou e ela arqueou uma sobrancelha.

― Está aqui por causa do evento que tenho que participar? – Ela o questionou e ele assentiu com a cabeça. ― Não preciso de um guarda-costas, aliás, a emissora sempre manda alguns neste tipo de evento.

― Não irei como seu segurança ou mesmo seu detetive, apenas como seu acompanhante.

― Não me lembro de tê-lo convidado. – Ela cruzou os braços, ligeiramente irritada, e ele se sentiu especialmente motivado.

― Eu estou me convidando. – Ele se aproximou lentamente dela, ficando a uma distância perigosa e potencialmente excitante.

― Você não está vestido adequadamente. – Diana desviou os olhos dos dele, observando o traje casual de Bruce para não fraquejar com a proximidade entre eles.

― Não. – Ele admitiu. ― Por isso, você vai passar comigo em casa, para que eu possa me trocar. De lá seguimos para o evento.

― Eu disse que concordei com a sua presença? – Ela o encarou novamente, espantada com a presunção dele.

― Também não disse que não concordava. – Ele abriu um meio sorriso e ela percebeu que aquele embate só continuaria se estendendo, caso não fosse objetiva.

― O que houve realmente para vir até aqui, detetive? – Ela exigiu, tocando-lhe o queixo com a ponta do dedo, mas logo se arrependendo após o choque que sua ação dispensou em ambos.

― Saudades, talvez. – Ele a admirou, deixando ainda mais desconcertada. ― Mas também, não acho seguro deixa-la num evento aberto ao público sozinha. – Ele foi honesto. ― Vamos logo, você não pode se atrasar, teremos tempo de falar sobre isso no caminho.

Ela sibilou algo ininteligível, mas cedeu, movida pela curiosidade, preocupação e muito mais pelo fascínio. Passar um tempo com Bruce Wayne, apenas sendo Bruce Wayne, talvez lhe trouxesse respostas mais claras sobre o que vinha sentindo.

Notas finais
Pessoal, escolhi Meryl Streep para representar Martha Wayne porque é uma das minhas atrizes favoritas. Consigo imaginá-la se encaixando perfeitamente no perfil de uma mulher sensível e forte, como suponho que Martha seria caso tivesse sobrevivido. *Scotland Yard: Quartel general da polícia de Londres; *Friends: Premiada série americana lançada nos anos 90. Até o próximo, queridos! Kisses❣