Backstage

12 Capítulo XII


Notas iniciais
Oi, Amores! A capa do capítulo de hoje é obra @mevoyx, ela simplesmente arrasa nas montagens! Tenham uma ótima leitura! Conversamos mais um pouco nas notas finais. Kisses❣

Bruce estranhou o silêncio de Diana durante o trajeto até a Mansão Wayne. A ausência de questionamentos, a falta de olhares desconfiados e até mesmo o rumo trivial que os poucos assuntos comentados ganharam lhe deixou assustado. Não era como se ela estivesse a vontade ou de acordo com sua companhia, nem completamente indiferente ou irritada. E ele não sabia classificar se esse meio termo em sua postura era um avanço ou um retrocesso quanto a sua pessoa.

Ela dirigia sem pressa, vez ou outra apreciava um pouco da paisagem fora dos limites de Gotham, rumo a propriedade Wayne. Ela parecia gostar do que via, ele pensou. De fato, os arredores de Gotham eram cercados por campinas e relevo arborizado com algumas depressões, uma imagem bonita para se apreciar, especialmente em uma tarde morna de inverno. Alguns cristais de gelos ainda brilhavam sobre a vegetação e os tímidos raios solares que os atingiam, faziam-nos parecer pequenos diamantes. O som do carro tocava um hit novo de Madonna e Bruce disfarçava seu divertimento ao ouvir Diana cantarolar, ligeiramente desafinada, mas totalmente entregue ao ritmo da canção.

Quando cruzaram os grandes portões de ferro, que ostentavam um ‘W’ como brasão, Diana arregalou os olhos escondidos sob os óculos escuros, à medida que se aproximavam da majestosa Mansão Wayne. Na rodovia principal, que dava acesso à Gotham, era possível avistar a propriedade da família Wayne a certa distância, era impressionante, mas nada comparado ao impacto que ela sentiu ao estar diante da construção.

Apaixonada por arquitetura, influência de suas raízes gregas, Diana disse para si mesma que aquela casa deveria ser considerada um patrimônio histórico, a beleza rústica da construção em pedra, preservada na estrutura da casa de três pavimentos, lhe fez tentar estipular quantas gerações já deveria ter habitado ali. Além disso, foi impossível não pensar também que o imóvel poderia abrigar confortavelmente dez famílias ao mesmo tempo, isso valendo-se apenas de uma avaliação externa.

Ao descer do carro, ela se encantou pelo jardim bem cuidado e reconheceu canteiros de diversas espécies de flores, agora adormecidas devido a estação do ano. Ela adoraria voltar ali na primavera, admitiu para si mesma, e apreciar o aroma e o colorido dos crisântemos, begônias, gerânios, lisiantos e as suas preferidas, as rosas. Donna e ela estavam cuidando para formar um jardim paisagista em casa, todavia demoraria mais um ano até que começassem a obter os resultados que via no jardim Wayne.

Ela só se deu conta que se entretera tempo demais observando o jardim, quando a mão de Bruce pousou delicadamente em suas costas, conduzindo-a em frente, até uma enorme porta de madeira, revestida por um arco de pedra. Antes que Bruce batesse ou acionasse a campainha, a porta se abriu e a figura de um senhor trajando fraque, de postura régia e olhar gentil, se revelou.

― Bem vindo de volta, patrão Bruce. – O distinto senhor saudou Bruce e Diana deduziu que se tratava do mordomo, uma figura exclusiva em residências de pessoas altamente abastadas e famílias muito tradicionais como era o caso dos Wayne.

― Olá, Alfred. – Bruce cruzou o hall de entrada, gesticulando para que Diana fizesse o mesmo. O mordomo seguiu-os de perto e quando chegaram à sala de estar, Bruce fez as apresentações. ― Quero que conheça Diana Prince, Alfred. – O mordomo tomou a mão de Diana, beijando-a cavalheirescamente. ― Diana, esse é Alfred Pennyworth, um velho amigo da família.

― É um prazer conhecê-la pessoalmente, senhorita Prince. Tenho um apreço grande por seu profissionalismo à frente de um programa tão versátil. – Diana sorriu, grata pelo elogio e encantada com a gentileza do mordomo.

― Obrigada, senhor Pennyworth. Eu ainda sou uma aprendiz, mas tenho muito amor pelo meu trabalho.

― Ah, por favor, apenas Alfred, senhorita Prince. – Alfred a dispensou da formalidade, simpatizando com a morena, além da boa impressão que já tinha da estrela Diana Prince.

― Sendo assim, apenas Diana. – Ela sugeriu a quebra de formalidade para ambos.

― Creio que não seja adequado, senhorita. – Alfred se justificou, evidenciando seus traços de formalidade britânica.

― Não tente dissuadi-lo, Diana. Alfred segue regiamente os protocolos. – Bruce interveio, quando percebeu que Diana insistiria com o mordomo. ― Acredite, ele não se sentiria à vontade lhe chamando pelo primeiro nome.

― Sendo assim. – Ela sorriu. ― Que seja como preferir, Alfred! – O mordomo fez uma reverência, agradecendo a compreensão.

― Alfred, preciso de um terno. Tenho um evento para acompanhar a senhorita Prince. – Bruce deu-lhe uma piscadela e Diana sentiu vontade de rebatê-lo, contando como ele se convidou para acompanha-la.

― Providenciarei imediatamente, senhor. Posso oferecer-lhe algo enquanto aguarda, senhorita? – Alfred voltou-se para Diana que agradeceu, garantindo que estava bem.

Recomendando-a que ficasse à vontade, Bruce deixou a sala, sendo seguido por Alfred, e Diana pôs-se a apreciar a casa, logo que o viu desaparecer escada acima.

Era tudo muito clássico e suntuoso. O piso de cerejeira reluzia, do teto pendiam lustres de cristais sobre a sala e grande parte da mobília era em madeira nobre e de valor histórico. As paredes exibiam quadros de pintores famosos e as esculturas espalhadas pelo ambiente deixavam claro que os Wayne tinham apreço e extremo bom gosto para obras de arte.

Impressionada e atraída pela decoração, ao invés de assentar-se, ela caminhou um pouco, sorrindo ao sentir os saltos afundarem no tapete extremamente macio da sala. Ela observou de perto alguns dos quadros nos corredores e um vaso da dinastia Ming, próximo à lareira, no segundo ambiente da sala de estar. Sobre a lareira, um grande retrato emoldurado lhe chamou a atenção. O casal Wayne, sorridente, com um garoto bonito e de semblante feliz entre eles. Uma bela família, ela sorriu e logo ficou pensativa, ao observar a imagem de Thomas Wayne. Bruce se parecia muito com o pai, embora tivesse os olhos da mãe. Ela pensou em como deve ter sido difícil para mãe e filho seguirem em frente, depois de presenciarem a morte brutal do patriarca da família.

Ela sentiu um inexplicável orgulho de Bruce, pelo homem que se tornara, mesmo o conhecendo tão pouco. Ele era misterioso, controverso e polêmico, mas era um homem bom e justo. Poderia ter se tornado um homem revoltado e deprimido, mas optou por acreditar na justiça, embora houvesse grandes desafios em sua profissão e ele pudesse ter seguido qualquer caminho diferente, sendo herdeiro de uma família de tamanho poder aquisitivo.

Circulando mais um pouco pelos ambientes sociais da casa, ela se deparou com um belíssimo piano de calda. Sua vontade de dedilha-lo foi enorme, mas se conteve ao se dar conta que apenas mancharia o instrumento reluzente com suas digitais e mal conseguiria obter uma nota corretamente. Por alguns instantes, pensou quem seria o instrumentista da casa: Bruce, sua mãe ou talvez Alfred. Na certa seriam os três, ela concluiu e repreendeu-se ao imaginar Bruce tocando algo dedicado a ela.

Abraçando o próprio corpo, ela finalmente resolveu se sentar. Estava começando a ter devaneios, imaginando se soaria bem ser a senhora Wayne e se Bruce faria questão que morassem ali ou se viveriam em sua casa. Ela sacudiu a cabeça e riu, se repreendendo. Não era algo que tivesse ambicionado na vida. Casar-se com um herdeiro bilionário, policial e cobiçado. Era algo surreal vislumbrar que Bruce e ela pudessem dar certo, por muitos motivos que ela julgava serem empecilhos. Mas, no fundo, ela tinha de admitir que gostaria que fosse possível.

Ninguém mexera com ela como Bruce foi capaz em tão pouco tempo. Ele havia despertado sentimentos em si que sequer se lembrava e outros que talvez sequer tenha sentido, nem mesmo por Arthur. Seria tudo tão mais simples se não fosse a carga dramática com que vinha lidando, ela suspirou. E talvez o interesse de Bruce se dissipasse tão logo o seu caso fosse solucionado, o louco que a perseguia seria preso e ela não seria mais a mocinha em perigo. Acabaria o encanto, ela presumiu, tentando evitar fantasias.

Quando Bruce finalmente desceu, Diana estava impaciente, mas distraída olhando o jardim pela janela da sala. Ela segurava delicadamente a cortina de seda, afastando-a do seu campo de visão e parecia o complemento perfeito para o ambiente, como se o lugar dela sempre fosse ali, na mansão e em sua vida, Bruce concluiu enquanto a admirava.

Ele se aproximou lentamente, para não assusta-la e nem interromper sua contemplação. Perdeu-se em pensamentos, embevecido por aquela imagem. Movido pelo perfume que ela exalava, ele tocou de leve o ombro de Diana, que virou-se, sobressaltada, prestes a admoesta-lo pela demora.

Bruce não lhe deu tempo de falar, inebriado pelo belo rosto iluminado pelos raios de sol que rompiam a barreira da vidraça da janela, ele lhe segurou o rosto com as duas mãos, o polegar traçou um caminho irregular da bochecha ao queixo, e quando ele se concentrou nos lábios vermelhos como fogo, a devorou com um beijo.

Foi tão inesperado e avassalador, que Diana apenas conseguiu se apoiar contra a parede, para não desmoronar com a intensidade dos sentimentos provocados pelo beijo. Uma parte de si orientou-a a afasta-lo, mas outra parte, mais forte, fez com que ela o puxasse contra seu corpo, agarrando seus ombros e envolvendo seu pescoço, sentindo como se fosse arrebatada por um tsunami.

Estar contra o peitoral forte e largo de Bruce, envolvida pelos seus braços, reivindicada pelos seus lábios era uma loucura perigosamente atraente. Ela percebeu o quanto estava mergulhada em desejo, o tanto que o queria e o quanto se sentia forte ao vê-lo demonstrar o mesmo. Parecia que sua vida começava a fazer sentido naquele exato momento, que sempre pertencera a ele e tudo que vivenciara antes, havia sido um teste para saber apreciar o misto de confusões e lucidez que Bruce lhe proporcionava.

Bruce aprofundava o beijo com mais paixão, a cada instante que notava a receptividade de Diana, sentia sua urgência, os leves tremores de seu corpo e sua entrega gradativa, à medida que suas mãos percorriam as curvas sinuosas de seu corpo. Ele liberou seus lábios, apenas para força-la a inclinar a cabeça para trás e poder explorar a pele de seu pescoço.

Diana gemeu, suavemente, ao sentir os lábios e a língua de Bruce demarcarem território na curva de seu pescoço. O calor que os beijos lhe provocavam, faziam seu coração bater mais rápido e o aroma de seu perfume se intensificar, roubando qualquer vestígio de juízo que pudesse existir em Bruce naquele momento. Os lábios baixaram para a parte superior do colo e uma das mãos desabotoou habilmente um botão do blazer, descobrindo-a completamente nua por debaixo da peça.

A mão envolveu um dos seios fartos e empinados, que logo se tornou pesado e rijo. Bruce não acreditou que aquilo tudo fosse obra da natureza, foi uma feliz surpresa descobrir que não haviam truques ou procedimentos estéticos ali, como era comum na maioria das mulheres. Com carícias lentas e torturantes, ele passou de um seio ao outro, deixando Diana sem chão, sem forças.

Sem qualquer vestígio de equilíbrio racional, ela se rendeu totalmente às carícias, trazendo Bruce para um beijo aprofundado e repleto de intenções. Ela desabotoou o terno alinhado que ele trajava, desejando também toca-lo com mais intimidade. Ambos sabiam que não podiam continuar com aquilo ali, mas nenhum deles se prontificava a parar.

Eles não teriam parado, se não fosse o fato de Diana ter aberto os olhos por um breve instante e focado na figura de uma silhueta feminina, parada no alto da escada curva que levava à sala, os fitando com uma expressão completamente ilegível.

― Bru-ce! – Diana ofegou, afastando-o ao puxar os cabelos de sua nuca.

― Diana! – Ele a olhou, pensando que o gesto fosse uma demonstração de desejo, mas recuou de voltar a beija-la quando viu os belos olhos azuis assustados.

Antes que ele a questionasse, o som de saltos finos ecoando pela escada o lembrou que não estavam sós. Sem jeito, Diana se afastou de Bruce, recompondo-se rapidamente, segundos antes da figura de Martha Wayne chegar até onde estavam e lhes chamar a atenção com um discreto pigarreio.

Bruce tentou limpar os lábios manchados de batom e Diana verificou rapidamente se não havia trocado o caseado dos botões do blazer. Martha estava séria diante deles, mas por dentro sorria, divertindo-se com a situação e surpresa por descobrir quem estava com seu filho.

― Mãe! – Bruce virou-se para Martha, encarando-a com total naturalidade.

Martha apenas deu um sorriso sutil para o filho e fez um gesto discreto com o polegar, próximo aos lábios, sinalizando para o filho que ainda havia vestígios de batom em sua boca. Sem se importar, Bruce retirou um lenço do bolso do terno e se limpou com calma, enquanto Diana exibia as bochechas coradas tendo o olhar de Martha concentrado sobre si.

Martha achou a reação de timidez da mulher a sua frente adorável. Tanto por ser uma mulher adulta, como por ser uma figura pública já acostumada a flagrantes. Obviamente, como toda a América, ela sabia razoavelmente sobre a apresentadora Diana Prince. E, vez ou outra, assistia ao talk show apresentado pela morena, inclusive, ficara impressionada com a entrevista com o presidente Bill Clinton, conduzida por Diana com a maestria de qualquer jornalista altamente graduado.

― Então, você é a estimada amiga de Bruce? – Martha foi a primeira a falar e Bruce a encarou, tentando entender onde ela queria chegar qualificando Diana como amiga estimada. Se havia algo em comum entre os Wayne, era a facilidade de manter expressões misteriosas e a que Martha exibia agora deixou Bruce curioso e Diana apreensiva.

Diana o olhou antes de pensar sobre o que responder, também tentando saber se era assim que ele a apresentaria.

― Diana, essa é minha mãe, Martha Wayne. – Bruce interveio, notando seu desconcerto. ― Acho que já ouviu falar de Diana Prince, não é, mãe? – Martha assentiu com a cabeça, abrindo um sorriso que fez Diana voltar a respirar, enquanto se cumprimentavam cordialmente. ― Só preciso esclarecer que, além de apresentadora, Diana é mais que uma amiga estimada. – Martha arqueou uma sobrancelha e antes que Bruce prosseguisse, Diana se pronunciou.

― É um prazer conhecê-la, senhora Wayne. Bruce, além de um bom amigo, é detetive do caso em que estou envolvida. – Diana explicou e viu Bruce manter um semblante pouco feliz quanto a limitação que ela impusera.

Martha sabia que o filho estava envolvido com o caso Diana Prince, lera recentemente nos jornais sobre a ameaça que a princesa da comunicação vinha sofrendo e Bruce havia comentado um pouco sobre o caso com ela. O que Martha não esperava, mesmo conhecendo o filho, é que houvesse um caso tão íntimo entre eles como notara minutos atrás. A última coisa que queria era ver o filho novamente envolvido com uma ‘cliente’, mas Diana Prince não era qualquer cliente e algo em seu coração se aqueceu, logo que vira a jovem apresentadora diante de si.

― É um prazer conhecê-la também, Diana. Admiro muito seu trabalho. Você tem uma carreira brilhante pela frente. – Diana agradeceu. ― E como é linda! – Ela olhou rapidamente para o filho, compreendendo o que vira em seu olhar mais cedo. ― Sinto muito pelo que está passando. Mas seu caso está em boas mãos.

― Eu acredito que sim, senhora Wayne. – Diana olhou rapidamente para Bruce e passou a mão pelos cabelos, ligeiramente despenteados.

― Por favor, me chame apenas de Martha. – A viúva de Thomas Wayne pediu e Diana assentiu. ― Bruce devia ter avisado que receberíamos uma visita tão ilustre. Alfred prepararia algo maravilhoso para nós.

Martha estava sendo simpática e isso deixou Diana consideravelmente aliviada, mas ela ainda podia sentir o sangue fervendo em suas bochechas, por ter sido flagrada atracada ao filho dela. Além disso, Martha parecia avalia-la, discretamente, assim como a Bruce, sem deixar claro se tinha um parecer positivo ou negativo da perspectiva de ver os dois juntos.

― Diana só está de passagem, mãe. Vou acompanha-la a um evento. Aliás, estamos em cima da hora. – Bruce foi objetivo e Diana não se sentiu incomodada, pela primeira vez, por ele agir como se ela estivesse de comum acordo quanto a companhia dele.

― Não tem tempo sequer para um chá? – Martha lançou a pergunta à Diana, sabendo que, mesmo se houvesse, Bruce diria um sonoro não.

― Infelizmente não. – Diana foi honesta. Ela tinha um contrato publicitário a cumprir, estando presente no evento, portanto, deveria seguir o horário e tempo estipulado nas cláusulas contratuais. ― Mas eu adoraria, em outra oportunidade. Acompanho suas ações filantrópicas e tenho interesse em ajudar. – Diana pensou por um instante que fora estúpida se convidando, ao ver o semblante surpreso de Martha.

― Ligarei para combinarmos algo durante a semana. – Martha abriu um amplo sorriso, deixando Diana aliviada e Bruce tenso, ele sabia que esse reencontro não se limitaria a assuntos altruístas.

― Fico feliz que tenha conhecido minha mãe, Diana, mas precisamos ir. – Bruce apressou-se, notando o olhar de Martha cada vez mais interessado sobre Diana e ele.

Despedindo-se, Diana e Martha trocaram mais algumas palavras cordiais, e Martha os acompanhou até a porta, juntamente com Alfred. Eles observaram Bruce e a Princesa da Comunicação entrarem no carro, trocando um olhar cúmplice e repleto de concordância. O primeiro contato com a bela morena havia sido breve, mas o suficiente para que, tanto Alfred como Martha, captassem algo diferente em torno dela.

― Será que ele finalmente acertou, Alfred? – Martha murmurou para o fiel amigo, ao verem o carro desaparecer através dos portões da propriedade.

― Acredito que sim, patroa. Resta saber, se ela, a senhorita Prince, percebe isso.

As palavras de Alfred deram uma importante questão para Martha refletir. Ela estava certa de que o mordomo não dissera a ressalva aleatoriamente, mas certamente havia notado algo que ela não percebera ou extraíra algo de Bruce que ela não havia conseguido. Contudo, não era algo com que se preocuparia no momento. Ela teria uma nova oportunidade de reencontrar Diana Prince e conhecê-la melhor. Não era de seu feitio intrometer-se na vida pessoal do filho, todavia, se houvesse brechas para esclarecer o que estava acontecendo entre Diana e Bruce, saberia intervir de maneira sutil, em benefício da felicidade de seu menino.

(...)

Bruce tomara a direção do carro de Diana quando deixaram a mansão, sob a alegação de que uma estrela não deveria chegar dirigindo o próprio carro. O tipo de convenção estúpida que Diana sempre ignorava. As vezes que utilizava os serviços do chofer da emissora era por pura insistência de J’onn, jamais por capricho ou estrelismo. Bruce sabia disso, mas usara a desculpa de dirigir para conseguir interroga-la durante o trajeto até o evento.

Os primeiros cinco minutos de conversa não passaram de uma repetição exaustiva de Diana, envergonhada por terem sido flagrados por Martha em um beijo nada tímido. Ainda que Bruce tentasse conforta-la, dizendo que não são dois adolescentes para serem julgados ou que a cena jamais faria Martha ter uma impressão depreciativa dela, Diana escondia o rosto entre as mãos ao recordar a cena, lamentando a impressão que causara em uma mulher tão distinta quanto Martha Wayne.

Focar no constrangimento, verídico, que sentiu, foi também uma forma que Diana encontrou para que Bruce não chegasse aonde queria, a receptividade dela à sua investida inesperada para aquele momento. Ela ainda não havia conseguido assimilar a forma com que se rendeu a ele e estava disposta a não deixa-lo perceber que se houvesse outra oportunidade agora, ela a agarraria com o mesmo desejo que a consumira minutos mais cedo.

Pensar em Bruce deixava seu corpo febril, ela agradecia que o fato dele estar dirigindo dificultasse que ele notasse o número de vezes que ela o apreciou, perfeitamente alinhado em um terno Armani preto, que o deixava perigosamente sedutor. Ainda mais sedutor, ela suspirava e tentava refrear os pensamentos.

Bruce, por sua vez, estava satisfeito. Pela primeira vez percebera que Diana lhe dera uma abertura, mesmo insegura, mas o suficiente para ele conquistar território em seu coração. Ficara desgostoso por ela o qualificar apenas como seu detetive diante de sua mãe, mas, dadas as circunstâncias, não era algo que lhe deixara desestimulado ou com o ego ferido.

Todavia, ele não iria apressar nada, queria aproveitar a tarde ao lado dela e deixar o instinto de detetive agir muito discretamente. Ele adoraria que pudessem ter um momento só de lazer, mas não podia se esquecer que seu auto convite tinha a ver com a necessidade de protegê-la durante o evento e ficar atento as pessoas ao seu redor.

― Não pense que pode se comportar como meu guarda-costas ou como se tivéssemos algo mais íntimo. – Diana recomendou e Bruce ficou aliviado que a leve hostilidade estivesse de volta. Era seu termômetro, que lhe situava sobre o quão eficaz ele estava sendo em mexer com os sentimentos dela.

― Tem certeza?! – Ele reduziu a velocidade do carro, já adentrando a via de acesso ao local do evento. ― Por mim, já poderíamos assumir para a imprensa. – Ele a olhou rapidamente, ostentando um meio sorriso e se deleitando com o desconcerto e irritação que suas palavras causavam.

― Nós não temos nada para assumir. – Ela foi enfática. ― Mas, se você se comportar bem, precisaremos conversar depois. – Ela completou, não ousando encarar os olhos surpresos de Bruce sobre si.

Ao chegarem ao local do evento, Diana não imaginou que estar ao lado Príncipe de Gotham poderia causar tamanho alvoroço. Ao descer do carro, os fãs posicionados do lado de fora do showroom da montadora de carros – que contratara Diana para Merchandising de exibição dos novos veículos lançados pela marca – exibiram toda sua adoração e euforia pela presença da apresentadora. Mas nada comparado ao ataque que a imprensa teve ao perceber que ela estava na companhia do herdeiro Wayne.

Perguntas sobre o sucesso de Diana e os últimos feitos de Bruce como detetive proliferaram, mas essas ficaram muito abaixo da quantidade de especulações de um possível envolvimento entre eles. Diana agradeceu quando os seguranças criaram uma barreira de contenção e ela pode adentrar o espaço preparado para o evento, ficando livre de perguntas íntimas e comprometedoras.

(...)

Diana tinha de admitir que a petulância de Bruce ao se convidar para estar ao lado dela no evento fora um ato feliz. Expor sua imagem em ações de marketing não era seu trabalho favorito, ela o fazia muito mais por saber que era benéfico ao seu programa, que manteria o patrocinador, e porque os rendimentos obtidos poderiam ser investidos em ações filantrópicas.

Geralmente era tedioso ficar horas sorrindo, fotografando, gravando e interagindo com acionistas, demais personalidades públicas e testando produtos. Seu alívio eram os fãs que sempre a recepcionavam calorosamente às portas desse tipo de evento. Já quanto ao glamour, ela pouco se importava. No entanto, nesta tarde, ela descobriu que ao lado de Bruce, nada era tão maçante assim.

Ele não ficou ao seu lado feito uma sombra, circulava pelo showroom enquanto ela cumpria seus deveres contratuais, mas estava sempre por perto, sendo cavalheiro ou apenas ajudando-a a aproveitar os detalhes benéficos do evento para se distrair e ter uma tarde divertida. O único momento que o achou estranho foi quando John chegou ao local, acompanhado de Shayera.

Bruce parecia não simpatizar com o diretor e sua noiva, embora John tentasse manter um diálogo amistoso com o detetive. Já Shayera optou por ficar afastada e era nítido que não estava nem um pouco à vontade ao descobrir que Bruce estava ali como acompanhante de Diana.

A vontade de questionar o clima tenso foi enorme, por parte de Diana. Mas ela havia decidido que se permitiria a um momento de paz, pelo menos naquela tarde. Sem pensar em perseguidor, sem paranoias e até mesmo sem hostilizar Bruce Wayne.

A parte de hostilizar Bruce, porém, quase foi esquecida, quando ela percebeu o quão estimado pelas mulheres o herdeiro Wayne era. O evento reunia um público de cerca de mil convidados, incluindo personalidades da mídia, imprensa, formadores de opiniões, um seleto público apaixonado por carros e fiéis clientes da Mercedes Benz. E grande parte do público feminino estava muito mais interessado em chamar a atenção do Príncipe de Gotham, do que ficar inteirado das tecnologias investida nos veículos.

Diana poderia ser mesquinha e dizer que Bruce estava aproveitando o momento para provoca-la, mas ela era capaz de notar que o moreno não precisava fazer nada além de respirar para atrair uma gama de patricinhas e socialites à sua volta, mendigando um resquício de sua atenção.

Ciúmes! Ela estava sentindo ciúmes do assédio sobre Bruce. Ela percebeu, sentindo o estômago gelar com a descoberta. O que ele tinha de tão especial? Diana se perguntava, enquanto via meia dúzia de loiras siliconadas suspirarem quando ele esboçava o meio sorriso que tanto a irritava. Ela sabia que a resposta para tal pergunta era particular. Para maioria das mulheres ele era apenas o melhor partido de Gotham e da América, para ela, ele era um homem que estava lhe trazendo de volta à vida, o desejo de voltar a viver intensamente e não simplesmente existir.

(...)

Já era noite quando Diana terminou suas obrigações contratuais e enfim estava livre para voltar para casa. Disposta a ganhar tempo, ela quase duelou com Bruce pela direção do carro, vencendo pela teimosia e pela posse sobre o veículo. Ela queria ganhar tempo, pensar um pouco em si mesma, antes que ele lhe cobrasse a conversa que lhe prometera por bom comportamento. Dirigir seria sua rota de fuga, para evitar encara-lo ou respondê-lo caso surgisse algum assunto que lhe deixasse encurralada sobre seus sentimentos.

Assim como os prédios da cidade passavam rapidamente pela vidraça do carro, pensamentos conflitantes se formavam e se dissipavam em sua mente. Ela conversava sobre assuntos triviais com Bruce, enquanto sua concentração estava em decidir se poderia se dar ao luxo de ama-lo.

De alguma forma, ela intuía que ele deveria saber o que se passava em sua mente. Em momento algum ele a pressionou ou mesmo falou sobre o beijo que trocaram, ou a decisão que lhe cobrara dias atrás sobre continuar em sua vida. Ela, por sua vez, colaborou com essa trégua, deixando de questioná-lo sobre os reais motivos que o levaram a acompanha-la ao evento e a leve animosidade entre John, Shayera e ele.

Por um instante se esqueceu do que vinha vivendo, dos dias de agonia, do medo de estar sendo seguida, das ameaças de morte. Sua maior preocupação agora era ser uma mulher adulta, que precisava enfrentar o que vinha sentindo pelo homem sentado ao seu lado, no banco do carona.

Ela pensou se deviam parar em algum lugar para jantar, se deveria o levar para sua casa, mas sua indecisão os levou até os portões da Mansão Wayne. Pela primeira vez ela queria que ele tivesse sido insolente e atrevido, ditado uma opção, mas percebeu que ele não interferiria em uma decisão que deveria partir exclusivamente dela. Ele já havia lhe dado todos os sinais a respeito do que queria, cabia a si corresponder ou finalmente por fim a tudo isso.

― Bruce. – Ela estacionou em frente aos portões, sem cruza-los. ― Eu... – Ela se sentiu perdida ao encara-lo, fitando-a seriamente. Ela se esforçou, procurou palavras, um ponto de partida. Mas era uma situação tão nova após anos de retração emocional, que ela não sabia como se expressar. ― Por Deus, eu não sei o que dizer. – Ela bufou e se recriminou por parecer uma adolescente imatura.

Bruce fez menção de sorrir, mas a olhou profundamente. Ele viu a insegurança em seu olhar, a luta interior para se permitir a verbalizar o que sentia. Calmamente, soltou o cinto de segurança, seu e dela, e inclinou o corpo sobre ela.

― Vamos tentar começando de onde paramos. – Ele a instruiu, acariciando seu rosto e a puxando para um beijo.

Diana não se lembrava da última vez que namorou dentro de um carro, mas a atitude de Bruce lhe despertou uma adrenalina gostosa de travessura e perigo. O beijo começou doce e calmo, mas a carga de desejo reprimido, a variação de ângulos e a profundidade, o sorver necessitado dos lábios, logo tornou o beijo quente e urgente.

Diana estava ciente de que precisavam conversar antes de se deixarem levar pelos instintos, mas disse a si mesma que não faria mal nenhum aproveitar o clima só um pouquinho. Como a muito tempo não fazia com homem algum, ela se permitiu a provocar Bruce, movendo-se lentamente contra o corpo dele e subindo as mãos por seu peitoral até a altura da nuca, onde as uniu, trazendo-o mais para perto.

As mãos de Bruce puxaram as coxas torneadas sobre seu colo, subindo vagarosamente até a cintura e pressionando-a possessivamente. Um gemido proposital escapou da garganta de Diana e ela sorriu ao ver os olhos de Bruce brilharem de desejo. Aquilo era uma loucura, ela admitiu. Aquilo era uma loucura, ela prosseguiu inclinando a cabeça para o lado e deixando a curva de seu pescoço de livre acesso para a boca de Bruce.

Ela ofegou sob as carícias que ele dispensou ao explorar seu corpo e quis retribuir. Sem pressa, retirou o paletó de Bruce com dificuldade devido ao espaço dentro do veículo. As mãos circundaram o peitoral forte e abriram caminho para os ombros, porém, ao descer as mãos pela lateral do corpo de Bruce, sentiu algo estranho elevar-se sob o colete que ele trajava sobre a camisa. Curiosamente os dedos tatearam o objeto estranho e um arrepio tomou conta de Diana quando ela percebeu que sentia a arma de Bruce.

Diana abriu os olhos, foi como levar um choque de realidade, ser lançada em um lago gelado. Imediatamente ela se afastou, desnorteada, afundando-se no banco do carro.

― O que houve? – Bruce a questionou, confuso com os olhos azuis espantados o encarando.

Ela olhou o couro do coldre que despontava abaixo do colete e sucessivas lembranças estalaram em sua mente. Lembranças desagradáveis, que ela queria esquecer, mas que lhe diziam o real motivo de não querer se envolver com Bruce.

― Nós dois, não está certo. – Ela desviou os olhos para o para-brisa do carro, enrijecendo sua postura e com um toque cortante de dor em sua voz.

― Parecia certo há um segundo atrás. – Bruce ironizou, sem compreender que aquilo não era um simples recuo de insegurança.

― Você não entende. – Diana deu um sorriso triste, o olhar perdido e sem foco.

Bruce pressionou os olhos, realmente ele não estava entendo nada. Não depois de tudo que vivenciaram ao longo do dia.

― Do que você tem medo, Diana?

― De atender ao telefone, de sair de casa, de ser atacada a qualquer momento. – Ela mudou de assunto, sem estar dizendo mentiras. Bruce respirou fundo, paciência não era uma de suas virtudes quando não tinha o controle de alguma situação.

― O que te faz ter medo de se envolver comigo? – Ele foi objetivo e forçou-a a encara-lo.

― Você é um policial. – Ela disse, deixando claro o quanto aquilo era terrível para ela.

― E daí? – Bruce minimizou.

― Minha mãe também era. – Ela revelou com a voz trêmula. ― E eu a perdi, por causa de uma maldita farda. – Ela fez uma longa pausa, desvendando uma nuvem de dor sob seus olhos. ― Desça do carro. – Diana pediu, recolocando o cinto, prestes a dar partida.

― Diana...

― Desça do carro. – Ela ordenou, não controlando o tom de voz. ― E, por favor, fique longe de mim. Do contrário, solicitarei um substituto.

Ele a olhou nos olhos uma última vez. Não iria insistir e tampouco forçaria um diálogo.

― Saberei me manter afastado, por enquanto. – Ele deixou as palavras no ar ao descer do carro e observou Diana partir em alta velocidade.

Notas finais
Continua! Me perdoem por esses capítulos gigantescos. Mas como eu tenho demorado a atualizar, penso que fracionar alguns acontecimentos será prejudicial ao andamento da trama e tedioso pra vocês leitores. O evento em que Diana e Bruce estavam não foi muito detalhado, por razões futuras. Alguns detalhes serão trazidos à tona mais à frente. Finalmente foi revelado o porquê Diana tem resistência à policiais, mas é algo que será aprofundado mais à frente também. Ah, espero que não tenho esquecido do louco que vem perseguindo nossa estrela. Ele vai mandar recado na sequência. Até o próximo!