Backstage

4 Capítulo IV


Notas iniciais
Ei, gente! ♥ Espero que gostem do novo capítulo. Ainda estamos na fase de construção do mistério, mas logo começam as evidências e pistas mais claras para os detetives de plantão já irem pensando em quem possa ser suspeito. Tenham uma ótima leitura! Kisses❣

No dia seguinte, Bruce acompanhou de perto a apresentação do The Prince Show, assistindo de um ponto privilegiado dos bastidores ao brilhantismo com que Diana conduziu uma entrevista delicada com o presidente da América, empregando a seriedade que era devida e, ao mesmo tempo, uma ousadia descontraída que poucos seriam capazes de administrar em uma conversa delicada como aquela, sobretudo vivendo dias de pressão psicológica por um louco que vinha perseguindo-a.

Ele tinha que reconhecer, ela era espetacular. Uma profissional arrojada e uma mulher notável. E tudo o que conquistara era completamente mérito de seu esforço e dedicação, numa trajetória incólume para ter seu espaço no show business. O detetive estava admirado com as informações levantadas sobre a vida da apresentadora até agora.

Já Diana não ficara nenhum um pouco feliz em saber que o detetive iria acompanha-la no trabalho durante alguns dias, para observa-la melhor e às pessoas que a rodeavam, entretanto a insatisfação dela só o estimulou ainda mais. Como policial ele já estava acostumado a não ser bem quisto em muitos lugares, então, a reação dela não fora nenhuma surpresa. Mas ele descobrira como ela ficava especialmente bonita quando estava irritada e pouco a vontade com a sua presença.

Bruce Wayne amava sua profissão. Poucos sabiam, mas ser policial o salvara de se tornar um homem amargurado ou fútil como a imprensa vendia nas capas de revista. A adrenalina, a imprevisibilidade e o desafio da profissão o mantinha são. Fora o motivo principal, a possibilidade de salvar vidas e fazer justiça.

Ele havia herdado o altruísmo do pai, que era médico, e também fora muito criticado por não gerir as empresas Wayne pessoalmente. Por atender em hospitais públicos, quando poderia montar uma clínica de luxo e atender pacientes de alto escalão. Thomas Wayne era um ser humano incrível e tudo que Bruce queria, era um dia ser ao menos um esboço do que o pai fora.

Quando criança, ele dizia ao pai que seria como ele, médico. Mas o dom para medicina não fizera parte da transmissão genética. Bruce era um garoto muito inteligente, mas seu talento era muito mais voltado para o mundo dos negócios, para planejamento, organização, direção e controle, para solucionar conflitos, desvendar mistérios, para negociar. Tanto que mesmo administrando as empresas da família à distância, ele era um ás dos negócios, sua visão e empreendedorismo eram impressionantes. Porém, ele não conseguiria passar o resto de seus dias trancando em um escritório de luxo de sua corporação, enquanto podia fazer algo muito mais útil na vida das pessoas. Especialmente depois da tragédia familiar que vivenciara na infância.

Ainda que pudesse fazer muitas coisas boas com dinheiro, tudo isso lhe parecia pouco. Ele sentia necessidade de se doar por completo a uma causa, em uma profissão que lhe parecesse mais eficaz em evitar que outros experimentassem a dor que ainda o corroía, desde aquela noite fatídica em que seu pai fora assassinado diante de seus olhos, ao reagir a um assalto, para evitar que Bruce e sua mãe fossem levados como reféns. O criminoso responsável pela tragédia, era um homem procurado há anos pela polícia, que só fora preso depois da repercussão da morte de Thomas Wayne.

Ser detetive dava a Bruce a sensação de que poderia evitar que outras crianças chorassem a perda de seu pai. Que pais chorassem a perda de um filho. E que pessoas de bem perdessem a vida por causa da ineficiência das autoridades em encontrar e trancafiar criminosos que passavam anos impunes por falta de uma investigação eficiente.

Sua mãe quase enlouquecera quando ele a comunicou que havia sido aprovado como agente de policia, mas ela nunca o recriminou. Martha Wayne via nos olhos do filho a mesma esperança que seu esposo carregava de poder fazer a diferença no mundo. Além disso, ser detetive fora libertador para Bruce, ele se realizara no trabalho, e mesmo podendo estar no topo hierárquico de instituições como o FBI e a Interpol, ele optara por cuidar da sua cidade e arredores, melhorando e muito a reputação do departamento de polícia de Gotham, graças a sua mente brilhante e os incontáveis casos solucionados por ele.

Apesar da realização, ser detetive também era uma profissão de paciência. Bruce sabia que o crime muitas vezes compensava, e compensava muito, e por isso muitas vezes se frustrava com a proporção de novos casos que surgiam em comparação com os casos resolvidos. Entretanto, ele sabia que, mais cedo ou mais tarde, tivesse que esperar dias ou anos para pegar um criminoso, o resultado era sempre o mesmo, no fim, os bons sempre acabavam vencendo os maus.

Ele fechou o livro que lia displicentemente, sentado numa poltrona da sala de reuniões da produção do The Prince Show, assim que notou que a reunião de preparação do programa do dia seguinte havia acabado. Levantou-se no mesmo instante em que Diana, observando-a se despedir dos produtores, redatores e do diretor. Bruce avaliou cada um deles durante o tempo que passou ali e tinha pelo menos dois nomes para investigar um pouco mais no dia seguinte, ao observar como se comportavam em relação a Diana.

Diana, ao sair da sala, não o convidou a acompanha-la, porém sabia que ele iria segui-la como uma sombra, independentemente de sua vontade. O melhor que ela conseguiu fazer foi ignora-lo, não seria o fato dele ser um homem irritantemente atraente que iria fazê-la simpatizar com ele. O ar presunçoso e indiferente que ele alternava em suas expressões fizeram-na sustentar uma implicância à primeira vista em relação ao detetive.

E o pior disso tudo, era que a presença do detetive Wayne não lhe permitia esquecer as ameaças sofridas, a sustentar a esperança de que era vítima de trotes e que tudo logo seria esquecido, por ela e por aquele que supostamente estaria se divertindo as suas custas. Olhar para Bruce, analisando-a e a seus colegas de trabalho, lhe deixava desconfortável, interiormente aflita e receosa de que alguém invadiria sua casa ou a emboscaria após o trabalho para executar a prometida vingança.

— Se quiser beber alguma coisa, fique a vontade para abrir o frigobar. Tem água, sucos, isotônicos e energético. Só não toque no meu iogurte natural. – Ela rompeu o silêncio quando chegaram ao camarim e ele se jogou no sofá da antessala, sem qualquer cerimônia.

Ele não respondeu e nem se moveu, e isso a fez acrescentar a qualidade de grosseiro às suas impressões sobre ele. Sua vontade foi demorar bastante na sala principal do camarim, onde costumava trocar o figurino da noite, só para enfatizar sua hostilidade em relação a ele – hostilidade essa que não fizera questão de esconder – mas estava cansada. Sua noite fora produtiva, estava orgulhosa de si mesma pela apresentação do programa desta madrugada, mas tudo o que queria era voltar para casa e tentar relaxar.

Rapidamente ela se trocou, tirou a maquiagem e sentou-se à mesa de centro da antessala, para terminar sua rotina do dia, atendendo a alguns fãs. Sua garganta estava seca quando ela avisou a Shayera que estava pronta e que começasse a transferir as ligações.

Bruce notou o quanto ela ficava bonita naturalmente, sem qualquer resquício de maquiagem e os cabelos presos num rabo de cavalo, enquanto batia uma caneta contra um bloco de anotações, esperando o telefone tocar. Ela estava tensa, ele podia notar os ombros rígidos e os lábios apertados em demasia, inclusive fez uma nota mental para não passar tempo demais observando aquela boca. Mas ele podia ter certeza que ela também estaria preparada caso atendesse ao autor das ameaças mais uma vez.

― Se ele ligar, tente segura-lo o máximo de tempo possível no telefone. – Bruce a orientou, atraindo a atenção dela para si. ― Tentaremos rastrear a ligação. – Ele explicou e ela fez um sinal de positivo com a cabeça.

Ela o observou se concentrar novamente no livro que tinha em mãos, atentando para o título do mesmo ‘O signo dos quatro’ um clássico de Sir Arthur Conan Doyle, protagonizado pelo famoso detetive Sherlock Holmes. E revirou os olhos, o achando previsível demais a julgar pelo gosto literário.

Quando o telefone tocou pela primeira vez na naquela madrugada, ela se assustou, mas manteve a compostura ao perceber que Bruce olhara imediatamente para ela. Se lembrando de como sempre se alegrava nesses momentos, ela respirou fundo e abriu um sorriso, atendendo ao primeiro fã da noite.

Para sua felicidade, quem estava do outro lado da linha era Tifany, a presidente de um dos maiores fãs clubes de Diana. A jovem sempre ligava para conversar com Prince e trazer sugestões de uma considerável parcela de fãs que acompanhavam cada passo da estrela.

― É mentira, Tif, não há nada entre Di Caprio e eu. – Diana se divertiu com o questionamento da fã, que ficou frustrada com sua negativa. ― Também não estou interessada em ninguém, apenas em dar a vocês um excelente programa de informação e entretenimento. – Diana sorria enquanto conversava e Bruce não desgrudava os olhos dela, especialmente porque a vida amorosa de sua cliente lhe despertava certo interesse.

Será que ela sabe o quanto fica bonita quando joga a cabeça para trás e sorri amplamente? Bruce se questionou, estudando-a, logo se recriminando. É claro que ela sabia, ele pensou. Quanto a ele, fez uma nota mental para não ser tão detalhista quanto aos encantos de sua cliente. Era o mais prudente.

― Está anotado, tentarei uma entrevista com a banda No Doubt e a cantora latina Shakira também já está na lista de próximos entrevistados. – Diana despediu-se calorosamente de sua fã de carteirinha e encerrou a ligação. A noite começara bem, ela pensou e relaxou um pouco.

― Também posso dar uma sugestão de entrevista? – Bruce chamou a atenção dela, que o encarou, surpresa.

A forma metódica que ele a fitava, lhe fez ter dúvidas se ele realmente falava sério ou estava apenas querendo se divertir as suas custas. Ela arqueou uma sobrancelha, pensando se deveria deixa-lo seguir em frente, mas antes que se decidisse o telefone tocou novamente.

Desta vez era uma adorável senhora do outro lado da linha, relatando com emoção como se sentia representada por Diana. Que vivera uma época opressora para as mulheres e que ver Prince em um lugar de destaque lhe fazia acreditar que seus esforços da juventude, contra o sexismo, não tinham sido em vão.

Bruce surpreendeu Diana quando lhe ofereceu um lenço, ao notar que a apresentadora derramava algumas lágrimas de emoção, enquanto ouvia a mulher lhe encorajar a seguir firme em sua trajetória profissional. A princesa da comunicação quase sorriu para o detetive ante tal gesto, pensando que talvez ela não devesse ser tão implicante à presença dele.

Quando encerrou a segunda ligação, ela achou que ele merecia uma brecha de sua parte.

― Então, qual é a sua sugestão? – Diana não escondeu a curiosidade no olhar.

― Andrea Bocceli. – Bruce murmurou, virando a página do livro que lia, mas tendo tempo o suficiente para ver o olhar de total surpresa de Diana ante sua sugestão.

― Uau! – Ela exclamou, realmente impressionada por ele sugerir uma entrevista com o tenor italiano. ― Um detetive que gosta de Sherlock Holmes e com gosto musical apurado para Ópera?!

― Na verdade, nem é o meu estilo musical favorito. Mas Andrea é um cantor diferenciado em todos os sentidos. – Bruce se dignou a olha-la nos olhos, sustentando uma expressão que Diana não sabia se estava conversando com o herdeiro bem educado ou o detetive sabichão. ― Além disso, ele está fazendo sua estreia no país, é uma oportunidade única.

― Eu adoraria entrevista-lo. – Ela admitiu, logo exibindo uma profunda frustração. ― Mas a emissora concorrente já conseguiu fechar uma entrevista exclusiva com ele. Lamento, mas não posso atender seu pedido, detetive.

― Você adoraria mesmo? – Ele a questionou e viu apenas a resposta que os olhos dela lhe deram: Um sim, gritante. Enquanto ela voltava a atenção para o telefone que tocara mais uma vez.

— Há quanto tempo está nisso? – Diana o questionou, logo que encerrou a ligação, referindo-se a profissão de policial que Bruce escolhera.

— Faz uns 8 anos. – Ele respondeu, esticando as pernas e cruzando os pés. O semblante sereno fez Diana querer estudá-lo por um instante.

Bruce Wayne era um homem multifacetado e instigante. Rico, bonito, empresário, detetive, filantropo, conquistador, imprudente, eloquente e imprevisível. Entretanto, algo naquele olhar lhe fazia pensar que nenhuma dessas era a verdadeira face do Príncipe de Gotham, não que as características não fossem pertinentes ao seu eu, mas era difícil definir quem era o homem debaixo do policial e do bilionário, talvez ele não o expusesse a ninguém. Mas o olhar dizia que havia alguém mais interessante ali, mais do que as pessoas poderiam enxergar ou mesmo compreender.

Surpresa consigo mesma por se deixar levar pelo interesse em desvendar este mistério, que envolvia o homem ao seu lado, ela desviou o olhar dos olhos acinzentados, se concentrando nas anotações rabiscadas no bloco de papel a sua frente. Se por ventura se descuidasse, logo o estaria qualificando como herói e ela a mocinha a ser salva. E se havia um papel que não lhe cabia era de mulher frágil que precisava de um homem para defendê-la.

— Alguém como você já deveria ter se cansado desta profissão. Se pensar bem, imagino que seja uma carreira inglória.

Bruce a avaliou, esperando que ela o encarasse, mas ela permaneceu com o olhar fixo no bloco de anotações. O decepcionou notar que ela o julgava como a maioria das pessoas, um garoto rico passando tempo como detetive.

— O mais inglório é o pensamento das pessoas que julgam sua posição social como um fator que impossibilite que você ame uma profissão tão árdua. – Ela notou a mágoa na voz dele e sentiu-se mal. – Mas você está certa, é difícil aceitar que mesmo fazendo um bom trabalho o índice de criminalidade ainda mantém números preocupantes. Ainda assim, prefiro pensar que seria pior se eu não estivesse fazendo nada.

Diana sentiu necessidade de se retratar, de se solidarizar com a causa de Bruce, mas foi impedida pelo telefone que voltou a tocar. Mais uma, duas vezes, não deixando abertura para que retomasse o assunto. Ela não queria ter parecido insensível com a profissão que ele escolheu, especialmente porque sua implicância com policiais era algo pessoal, ele não tinha culpa disso.

Quando encerrou a última ligação, ela se levantou, esticando os braços para o alto preguiçosamente e relaxando. Havia atendido as cinco ligações da noite e nenhuma fora de seu aspirante a terrorista. Se ele ligasse, falaria com algum atendente e não com ela, mas ela estava inclinada a acreditar que Clark se precipitara ao colocar um detetive no caso, que seu atormentador se cansara da brincadeira.

Ledo engano! Quando ela estava prestes a apanhar bolsa e o casaco para se retirar, o telefone tocou. Ela pensou que fosse Shayera, que sempre ligava para saber se ela atenderia mais alguém, já que às vezes costumava exceder a quantidade de fãs atendidos.

Não era.

— Prince! – A voz do outro lado sibilou, antes mesmo que Diana dissesse alô, ao levar o telefone ao ouvido.

O olhar vidrado dela fez Bruce perceber de quem se tratava. Rapidamente ele ativou as escutas que instalara no telefone, colocando os fones no ouvido para acompanhar o que a voz diria. Ele deu um olhar encorajador para Diana que começou a falar.

— Diana Prince, aqui. – Embora o sangue tivesse congelado em sua face, ela se forçou a sorrir, tentando não dar ao interlocutor o prazer de percebê-la vacilante. — O que você quer desta vez?

— Justiça, vadia. Apenas justiça. – Diana podia sentir ódio puro na voz. Permanecer encarando Bruce lhe ajudou a não se descontrolar.

— Talvez se me dissesse o que fiz para merecer ser julgada, talvez eu mesma possa reparar o mal feito.

— Pense bem. Você deveria saber... Mas, não, você é uma criatura vil e sem coração. Não se importa com ninguém além de si mesma. – A voz soltou um suspiro exasperado, que fez Diana se arrepiar. — Quero que se torture pensando no que fez, quero que perca o sono até que possamos finalmente acertar as contas.

— Por quê? – Sua mão apertou mais forte o telefone. — Quem é você?

A gargalhada do outro lado da linha foi horripilante.

— Eu sou sua consciência. Seu algoz. Seu maior pesadelo. Você tem de morrer, vadia. Mas isso só vai acontecer quando você entender que é o seu destino, quando me implorar. Aí sim, eu executarei a sentença, lentamente e muito, muito dolorosamente.

— Me diga o que eu fiz? – Ela gritou, implorou. — Por Deus, o que de tão ruim eu fiz?

— Reflita. Apenas reflita, maldita. – A voz destilou uma série de xingamentos obscenos e Diana se sentiu enojada. Instintivamente Bruce segurou a mão livre dela, num gesto de conforto e, agradecida, ela entrelaçou os seus dedos nos dele.

Quando finalmente a ligação foi encerrada, ela estava tonta. Os olhos paralisados de terror, e Bruce se levantou rapidamente para oferecer-lhe um pouco de água.

Enquanto ela voltava a si, o detetive ligou para o departamento de polícia, na esperança de que a ligação tivesse durado tempo suficiente para ser rastreada. Mas, infelizmente, a resposta não foi animadora. Não havia dado tempo para localizarem a ligação.

Bruce praguejou ao desligar o telefone, mas se concentrou em Diana. Atônita com o copo d’água em mãos, completamente perdida em si mesma. Finalmente ela caíra em si que não podia mais ignorar o que vinha acontecendo, ela estava sim correndo perigo e o fato de não saber o motivo e nem de onde vinha a ameaça lhe deixou apavorada. Um pavor interno, que ela não era capaz de confessar, de dividir. Temia se tornar uma daquelas vítimas das séries policiais que assistia na TV.

Quando Bruce colocou o casaco sobre seus ombros e friccionou de leve os seus braços, ela reagiu, mecanicamente, com um tremor. Ele a ajudou a se levantar e caminhar para fora do camarim, sussurrando algo para que ela ficasse bem, que tudo iria se resolver. Ela agradeceu silenciosamente por ele estar segurando em seu braço, pois tinha a sensação que seus joelhos falhariam a qualquer momento, ouvia aquela voz zumbindo em seus ouvidos e o eco da lembrança era atordoante.

Ela se despediu dos funcionários que ainda estavam no estúdio, sem nem se lembrar de quem eram ao passar por eles. Somente quando se viu na área externa, indo em direção ao estacionamento é que começou a voltar a si. O ar frio da noite congelando suas bochechas lhe fez se lembrar que ainda estava viva e que deveria continuar assim. Era uma mulher forte, se lidar com o dono daquela voz era mais um desafio em sua vida, ela iria vencê-lo.

― Eu vou leva-la para casa. – Bruce avisou-a, conduzindo-a para a parte do estacionamento destinada aos visitantes. ― Você não está em condições de dirigir. – Ele explicou quando ela se deteve, questionando-o com o olhar.

― Eu estou ótima. – O orgulho ganhou voz. ― Foi um instante em choque, mas já superei. – Ela se soltou do braço dele e deu-lhe as costas, saindo pisando duro rumo ao estacionamento privativo.

Bruce respirou fundo e a alcançou, tomando-a pelo braço novamente e fazendo-a virar-se para encara-lo. Os olhos azuis faiscaram por seu atrevimento, mas ele não se intimidou.

― Ouça! – Bruce não estava com paciência para afirmações de independência. Ele focou no quanto o rosto de Diana estava pálido e no quanto havia medo debaixo de toda aquela estrutura autossuficiente. Ele sabia, graças aos anos de experiência como detetive, como os efeitos desses tipos de ameaças eram corrosivos. Não permitiria que Diana lidasse com isso sozinha, tampouco que voltasse para casa desprotegida. ― Você não está bem. E admitir isso é o primeiro passo para que melhore. Faz parte das minhas atribuições protegê-la, portanto, o mais seguro é ir comigo.

― Acha que alguém pode me abordar na volta para casa? – Ela tentou ser irônica, mas Bruce não a poupou da verdade.

― Ainda não sabemos como esse psicopata irá agir. Mas, por que não pensar que ele fique à espreita? – Ele se arrependeu quando viu os olhos de Diana se anuviarem com a possibilidade, mas não podia blindá-la de tudo.

― Tudo bem. – Ela respirou fundo. ― Mas eu tenho um motorista da emissora à minha disposição. Eu posso chama-lo. Não precisa se dar ao trabalho. – Ela usou o orgulho para mascarar as emoções vacilantes e viu Bruce enrijecer o rosto e desgrenhar os cabelos, impaciente.

Ela tirou o celular da bolsa, ligando para a recepção da emissora para comunicarem a J’onn que ela usufruiria de seus serviços, mas eles a avisaram que o motorista havia saído para levar o senhor Stewart e não retornara.

Proferindo alguma blasfêmia, ela olhou não tão altiva para seu detetive, que a esperava se decidir sobre sua volta para casa. No momento ela já não tinha toda aquela segurança de entrar no próprio carro e ir sozinha, então implorou mentalmente que ele insistisse em leva-la agora.

Bruce, que entendera o ocorrido, meneou a cabeça e abriu um meio sorriso com o desconcerto dela, que o encarava um tanto sem jeito. Ele gostava de jogar. Adoraria fazê-la dobrar o orgulho e pedi-lo para leva-la, mas já estava tarde demais para manipular esse tipo de situação, além disso, ele via esgotamento no olhar dela.

Sem mais palavras, ele a tomou pela mão e a arrastou até seu carro, abrindo gentilmente a porta do carona do Jaguar para que ela entrasse. Ela resmungou um ou dois impropérios, mas ele apenas se divertiu, adorando como ele a afetava, embora só estivessem começando a conviver um com o outro.

Quando deu partida para saírem, alguém bateu no vidro do carro e os olhos de Diana estalaram. Bruce pousou a mão sobre o joelho dela, num gesto de conforto e ela a cobriu com a sua sem cerimônia.

Ao abaixar o vidro até a metade, a imagem de um homem, aparentando cinquenta anos, alto, caucasiano, olhos cansados e semblante ilegível se revelou. Ele trajava um terno simples e usava luvas, logo denunciando sua função. Diana logo afastou a mão de Bruce e sorriu aliviada ao ver que era J’onn.

― Me desculpem. Me ligaram que a senhorita Prince estava precisando de mim, eu já estava no estacionamento, vim o mais rápido que pude. – O homem se explicou para Bruce e sorriu para Diana, que retribuiu. ― Se ainda quiser meus serviços, senhorita.

Diana rapidamente soltou o cinto de segurança e tentou abrir a porta do carro de Bruce, mas arregalou os olhos quando ele as travou.

― A senhorita Prince agradece seus serviços, senhor...?

― J’onzz, J’onn Jonzz.

― Ela agradece seus serviços senhor J’onzz, mas a situação já foi resolvida. – Bruce pediu licença ao homem, que o olhou sem entender o que estava acontecendo, especialmente porque Diana começou a esbravejar dentro do carro. Mas Bruce apenas se despediu com um aceno de cabeça e fechou os vidros, dando partida no carro e saindo rapidamente do local.

Diana praguejou, ameaçou Bruce por seu atrevimento, e conforme era ignorada, acabou recolocando o cinto, preocupada de que ele fizesse uma freada brusca e ela acabasse se machucando, devido a velocidade em que ele dirigia. Ele apenas a observou de soslaio, parecendo uma criança birrenta de braços cruzados e fazendo bico, bufando incessantemente. Ele preferia vê-la assim do que frágil como estava há minutos atrás.

― Sabe o que eu odeio mais do que policiais? – Ela soltou, quando notou que ele a observava. ― Homens que querem mandar ou dominar mulheres, impor suas vontades só porque são homens. É revoltante e estúpido. Você não podia ter me obrigado a vir com você. – Ela o fulminou com o olhar e ele nada respondeu.

Ao pararem num sinal, ele finalmente virou-se na direção dela, inclinando-se de modo perigosamente intimidador, deixando-a acuada. Ela levou um susto quando ele retirou seu cinto de segurança, mas só então percebeu que ele estava afivelando-o corretamente, uma vez que na pressa e na raiva, ela se enrolara com o mesmo.

― Acha mesmo que eu sou um típico machista? – Ele falou tão perto de seu rosto, que o hálito de menta que ele exalava chegou a refresca-la e ela quase imaginou a barba por fazer roçando em sua pele. ― Eu estou aqui para protegê-la, meu modo de agir é unicamente baseado nisso. Não se esqueça. – O olhar dele a invadiu por inteira, fazendo-a morder levemente os lábios de apreensão. Se não fosse o sinal abrir, Bruce sabia que aquilo teria lhe feito perder o controle.

Acelerando o carro em que estavam, ele cortou a avenida acima da velocidade permitida e Diana quase o ameaçou dizendo que o denunciaria às autoridades, logo caindo em si que ele era da polícia, podia quebrar essas regras, não deliberadamente, mas podia. E, afinal, quantos policiais trabalhavam em um jaguar? Ela se questionou, reparando no carro em que estavam. Só um detetive playboy, ela revirou os olhos, pensando se ele se recusava a usar os carros cedidos pela corporação por exibicionismo ou praticidade.

― Seu jeito de agir me irrita. – Ela admitiu.

― Sua resistência em ser ajudada também. – Ele rebateu.

― É isso o que te diverte na profissão? Bancar o herói que salva mocinhas indefesas?

― Não tenho apenas mocinhas indefesas para salvar.

― Eu pelo menos não sou uma. Na verdade, você só está nisso porque Clark quis, não porque eu quero.

― De qualquer forma, vou fazer o meu trabalho. – Ele foi seco e só então Diana percebeu o quão insuportável estava sendo. Ela estava apenas descontando seu estresse nele. Não era justo.

― Me desculpe. – Ela olhou pela janela, envergonhada, observando as luzes da cidade e alguns poucos flocos de neve que caíam. ― Você tem razão, eu não estou bem. Não tenho direito de descontar em você.

― Eu sei como essas reações funcionam, Diana. Apenas colabore. Quanto menos resistente a mim e ao meu trabalho você estiver, mais rápido isso terminará.

Ela assentiu com a cabeça e apertou o CD player do carro, para preencher o clima tenso com música. Ela esperava que o CD fosse algo na linha música clássica, mas de novo Bruce a surpreendeu quando a música que começou tocar foi Californication de Red Hot Chilli Pepers. Ela meneou a cabeça e sorriu, pensando se este homem ainda a surpreenderia mais, enquanto se distraía com a música. Ao menos ouvir música lhe faria chegar em casa menos tensa. Se Donna estivesse acordada, não notaria sinais de seu abalo recente.

Somente quando Bruce adentrou o condomínio em que morava e estacionou em frente a garagem de sua casa, foi que Diana se deu conta que não havia lhe dado seu endereço. Ele era bom, ela admitiu. Um detetive que parecia fazer bem o dever de casa e isso lhe passou uma segurança vital.

― Obrigada pela carona, detetive. – Ela deu-lhe um sorriso cordial, quando ele gentilmente abriu a porta do carona para que ela saísse, e estendeu a mão para cumprimenta-lo.

― Não vai me convidar para entrar? – Ela arqueou a sobrancelha, quando ele não soltou sua mão. ― Seria gentil oferecer um café. – Ele se explicou, se divertindo com a confusão que sua petulância causara no semblante dela.

― Talvez outro dia, detetive. – Ela puxou a mão e ele a libertou.

Com as mãos nos bolsos da calça, ele a observou entrar em casa, caminhando graciosamente até o portão, enquanto lhe restava se contentar com o aroma floral do perfume dela que ficara no ar.

― Eu vou me lembrar disso. – Ele chamou a atenção dela, antes que ela fechasse o portão atrás de si. ― E não me importaria se trocássemos o café por um jantar, outro dia. – Ele recostou-se na lataria do carro, exibindo um olhar intimidador e sedutor, que fez Diana perder o controle das feições, sorrindo em meio ao desconcerto, embora quisesse recusa-lo com o olhar.

― Não sou o tipo que se envolve com policiais, senhor Wayne. – Ela desconversou, ainda que uma parte de si quisesse sugerir o restaurante e o horário que ele devia busca-la. ― Se contente se eu me lembrar de oferecer o café numa outra ocasião. – Ela deu-lhe uma piscadela, fechando o portão atrás de si e sumindo na escuridão do jardim da casa, enquanto ele a seguia com o olhar.

― Eu não esperava que fosse fácil, princesa! – Ele murmurou para si mesmo, entrando no carro depois de ter certeza que ela estava segura dentro de casa. ― Mas eu sei esperar a hora certa. – Ele abriu um meio sorriso e deixou o local, ainda havia muito trabalho a fazer naquela madrugada.

Notas finais
Continua! *Como vocês devem ter notado, fiz uma alteração no passado de Bruce, para poder dar uma personalidade um pouco mais leve para o personagem aqui. Eu sei o quanto isso é arriscado, mas pretendo explorar outras vertentes do personagem que não tire a empatia que nutrimos por ele e ainda assim faça sentindo no enredo. Espero que me deem esse voto de confiança.