Backstage
5 Capítulo V
Notas iniciais

No dia seguinte...
Bruce odiava ver sua mesa repleta de papéis empilhados e espalhados por toda a superfície, isso era um sinal claro de casos se acumulando e um poderoso acarretador da sensação de ineficiência nele, embora ele já houvesse feito tudo o que estava a seu alcance em relação a eles no momento.
Paciência, Wayne! Paciência! Era o que ele sempre repetia para si mesmo, mesmo que não surtisse o efeito esperado. Ele mantinha a frieza para ser preciso na resolução dos casos, mas se cobrava em excesso, exigindo o máximo de seu físico e intelecto durante jornadas excessivas de trabalho para obter resultados mais rápidos.
Entretanto, ainda que nos últimos dias sua cota de casos para solucionar estivesse acima do limite que ele considerava aceitável, sua atenção estava completamente voltada para um caso em especial: Diana Prince.
Tanto o caso como a apresentadora não lhe saíam da cabeça. Diana exalava mistério e, para um detetive, nada era mais atraente em uma mulher, sem contar o fato da beleza irretocável e da personalidade marcante. Bruce estava decidido a largar a profissão se não pegasse o psicopata por trás daquelas ameaças e nesse espaço de tempo não desvendasse também os segredos do coração dessa mulher.
No momento, ele reunia o pouco de evidências que tinha da situação. As ameaças, os presentes, as análises das gravações das ligações – que mesmo sendo claro o uso de modificador de voz tinham a garantia dos peritos que se tratava de um homem – e uma lista irrisória de suspeitos para começar a investigar. Ele precisava pensar e muito, casos como de alguém tão idolatrada como Diana sempre tinham brechas inimagináveis. Porém seu ambiente de trabalho não colaborava para seu intelecto exibir todo o potencial investigativo no momento.
A delegacia sempre era barulhenta aquela hora da noite. Por isso ele preferia enveredar pela madrugada, para ter uma produtividade satisfatória, porém devido a demanda de crimes em Gotham nas últimas semanas ter tido um aumento assombroso, dobrar seu turno fora inevitável. E se não bastasse a exaustão das poucas horas sem dormir, ainda tinha que lidar com os sons estridentes de telefones tocando, um bando de agentes rechonchudos transitando pelo departamento, cheiro de café morno e o aroma desagradável do cigarro de seu colega sentado à mesa logo a frente.
Sem contar na entrada de meliantes que sempre chegavam apreendidos alegando inocência. O som dos teclados de uma dezena de computadores sendo utilizados ao mesmo tempo, a luz do teto que estava falhando e as conversas paralelas entre os agentes, gerando uma poluição sonora inquietante para o detetive.
Somente nessas horas é que Bruce sentia falta de um escritório particular ou mesmo de trabalhar em casa. O silêncio e a solidão sempre foram seus aliados. Mas era ali, num departamento público, que ele podia servir a todos sem distinção. Com o tempo aprendera a ignorar murmúrios ao seu redor e ater-se apenas ao que lhe interessava. A postura séria e indiferente rendeu-lhe a qualidade de antissocial entre os colegas, entretanto ele não se importava. Até gostava.
No fim das contas, ele sabia que sua dificuldade de concentração hoje era muito mais as lembranças do som da voz de Diana e do aroma de seu perfume floral inebriante, abalando sua estrutura, do que a rotina infernal do início da noite na delegacia.
Havia poucos dias que ele estava convivendo de perto com ela e isso fora o suficiente para atordoa-lo. É claro que, como qualquer homem em sã consciência, ele já admirava a celebridade, a profissional, a mulher sexy simbol e a ativista social que Diana era, mas conhecer de perto a força e fragilidade que aqueles olhos azuis refletiam foi um poderoso estopim para a admiração natural se tornar uma atração com sintomas de paixão avassaladora. Diana Prince estava mexendo profundamente com o solteiro mais cobiçado da América e tão decidido a não se meter em romances por hora.
Metade das conquistas românticas atribuídas a Bruce Wayne pela imprensa eram mentiras estimuladas ou ignoradas por ele e seu jeito playboy de ser. Mas Bruce também não podia ser acusado de santo. Ele era um homem voltado a conquistas, flertes e paixões tórridas, embora nada tenha durado muito tempo e os relacionamentos que ele decidira investir tenham lhe rendido boas doses de decepções. Por isso, ele já havia se decidido que romances não fariam mais parte de sua cartilha.
Não era difícil para o Príncipe de Gotham ter a mulher que lhe interessasse, fosse por seu charme ou por seu status. Entretanto, Diana parecia não ser alguém que entraria na sua lista de amores por nenhum desses dois fatores, com sorte ele conseguiria algo com muito empenho, mas ele estava convicto de que nunca havia conhecido uma mulher como ela e no jogo da conquista, ele estava muito mais propenso a rendição do que ela.
Bruce era maduro o suficiente para saber que, mesmo com toda sua presunção, era possível que não agradasse a todas. Mas os pequenos sinais que captara, mostrando-lhe que, embora arredia, Diana não lhe era completamente indiferente, acendiam nele o ímpeto para o desafio, ao invés de neutralizá-lo e fazê-lo conformar-se que não seria correspondido. Seu bom senso estava claramente disposto a tirar férias depois que ele ficara perto da Princesa da Comunicação.
Contudo, por hora, seu desafio mesmo era encontrar evidências concretas das ameaças sucessivas que a princesa da comunicação vinha sofrendo. Tanto ele como Dinah estavam tentando um levantamento preciso da vida de Diana e já tinham alguns nomes para interrogarem, mas tudo dentro do modus operandi, ainda não havia uma informação concreta.
O fato de Diana ter sido quase uma nômade nos últimos anos, também não contribuía para agilizar as investigações. Os contratos dela com diversas emissoras fez com que ela morasse em cinco cidades diferentes nos últimos dez anos e Bruce sabia que precisava se aprofundar em pormenores da passagem dela por cada lugar. Nenhum fator dava indícios que o psicopata era alguém de Gotham, que encarnou nela apenas depois que ela chegou à cidade. Talvez ele já a seguisse há anos e só agora, sabe-se lá porque carga de loucura, resolveu atormentá-la.
Por isso escavar o passado da princesa em perigo era uma tarefa tão necessária. Além disso, Bruce sentia um interesse especial em saber mais sobre ela, tudo que fosse possível e interessante como detetive e como homem.
O currículo profissional de Diana deixava Bruce admirado. Uma garota de classe média, que começara a trabalhar com 17 anos como anunciante em um supermercado e trilhara a árdua escalada para o sucesso, apenas com o diploma de ensino médio em mãos e muita coragem e determinação para não se corromper ou trair seus valores. Ela lutou dignamente para ganhar espaço e reconhecimento em um meio onde os homens eram super valorizados e as mulheres depreciadas com programas de pouco conteúdo ou com salários vexatórios se comparados aos dos grandes apresentadores.
― Leitura interessante, detetive? – Dinah apoiou os quadris sobre a mesa de Bruce e cruzou os braços, enquanto verificava o que o parceiro lia tão concentradamente, que sequer notara sua aproximação. Pelo menos uma dúzia de pares de olhos seguiam a loira quando ela chegava ao DP, mas ninguém ousava secá-la se percebessem que ela havia notado o escrutínio. Dinah Lance sabia como colocar um engraçadinho em seu lugar.
― Diana Prince. – Ele entregou o relatório para ela e mexeu aleatoriamente no computador. ― Já tem um parecer mais preciso que o meu sobre o caso?
― É uma mulher corajosa. – Ela sorriu, sabendo que o parceiro tinha uma queda pela apresentadora e, vez ou outra, se distraía diante da TV que havia no departamento de polícia ,quando esta estava ligada e era o horário do The Prince Show. ― Tem personalidade e é uma profissional inteligente e apaixonada pelo que faz.
Bruce abriu uma gaveta onde escondia algumas barras de chocolate importado e abriu um, abocanhando a metade do mesmo.
― Me diga algo que eu ainda não saiba, parceira.
― Certo. – Dinah roubou a barra de chocolate suíço da mão dele e começou a mordiscá-la, satisfeita pelo olhar irritado que ele lhe dedicou. ― Diana também está apavorada, embora não transpareça. E embora seja uma mulher realizada profissionalmente, financeiramente e pessoalmente, é completamente frustrada no amor.
Bruce recostou-se na cadeira e fitou a loira, para ter certeza se entendera bem a última parte. Os olhos azuis da detetive sustentaram a conclusão o fazendo duvidar.
― Por favor, Dinah. Uma mulher como Diana pode colecionar amores. Acha mesmo que ela seria frustrada emocionalmente? – Ele desdenhou e Dinah aproveitou para roubar uma barra de chocolate belga da gaveta do parceiro.
― Ela disfarça isso justamente com o pensamento que as pessoas fazem dela, de que ela pode ter o homem que quiser e amar se quiser. – Ela piscou para o parceiro. ― Isso não sai nas revistas, detetive. É intuição feminina. Sorte sua me ter como parceira.
Bruce trancou a gaveta de chocolates quando notou a mão sorrateira de Dinah prestes a assalta-lo novamente, refletindo sobre o que a loira acabara de dizer. Não fazia sentido. Não para ele.
― Se Diana Prince é infeliz no amor, o que dizer de mim então?
― Quer mesmo que eu responda? – Dinah arqueou uma sobrancelha e sorriu, fazendo Bruce se arrepender da pergunta.
― Vamos nos ater ao caso. – Bruce desconversou. ― Precisamos que Diana fale mais sobre seu passado, não há muito publicado sobre ela nos primeiros anos de carreira e nas entrevistas da época de sucesso ela fala muito pouco da vida pessoal.
― Não acho que conseguiremos facilmente num interrogatório, o que a equipe da Vogue ou da Vanity Fair não conseguiram numa matéria bem feita, ou mesmo a People numa investigação indiscriminada.
― Descobrir esses detalhes é que deixa nossa profissão interessante, parceira. – Bruce sorriu e Dinah fez uma nota mental de como Diana arrancaria aquele sorriso presunçoso do rosto dele nas primeiras tentativas de conversar sobre o passado dela.
― Quer que eu comece? Posso acompanha-la no programa hoje. – A loira sugeriu.
― Não me tire esse prazer. – Ele suspirou e Dinah revirou os olhos. ― Enquanto isso, investigue sobre a passagem dela na emissora em Chicago. Esse rosto encantador e essa voz gentil vão fazer os figurões de lá contarem muitos detalhes interessantes, não que você dependa dos atributos femininos para fazer bem seu trabalho.
― É, não preciso, mas eu gosto de fazer uns caras de idiota de vez em quando. – Ela sorriu e piscou para o parceiro.
Dinah Lance era uma mulher naturalmente sedutora. A beleza e inteligência em conjunto faziam com que a detetive sempre descobrisse o que quisesse e ainda se divertisse em muitas situações com suas artimanhas para obter respostas. Sem contar nas habilidades combativas da loira, de colocar de joelhos qualquer valentão ou idiota com excesso de músculos e deficiência de massa encefálica quando cruzava com algum durante uma investigação.
― Então, mãos a obra, detetive Wayne. Fiquei sabendo que vazou uma informação das ameaças a Prince no jornal. O capitão vai querer que tenhamos resolvido este caso antes que os abutres da imprensa comecem a montar guarda na porta da delegacia.
Bruce assentiu com a cabeça e Dinah começou a separar alguns relatórios para saber quem seria seu ponto de partida para obter algo produtivo em Chicago.
Entretanto, quando a dupla começou a se concentrar nos passos a darem a seguir o celular de Bruce tocou, interrompendo sua linha de raciocínio. Ele estava disposto a ignorar, mas reconheceu o número no identificador de chamadas, atendendo imediatamente.
― Bruce Wayne falando.
― Detetive. – A voz do outro lado sibilou, claramente tensa.
― O que houve, Diana? – Ele foi direto, sabendo que ela não ligaria se não fosse extremamente sério.
― Aconteceu de novo. – Ela respirou fundo. ― Aqui em casa. Outro telefonema, outro presente... eu estou apavorada. – Ela confessou.
― Tranque tudo e não atenda ninguém até que eu chegue aí, certo? – Ele não esperou que ela respondesse. ― Fique calma, princesa. Já estou a caminho.
― Se puder dirigir como na outra noite, quebrando as regras de limite de velocidade... – Ela soltou um riso fraco e notoriamente nervoso.
― Não demorarei dez minutos. – Ele garantiu, desligando o telefone. ― Dinah. – Ele chamou a parceira, que já estava de prontidão.
― Eu dirijo. – A loira girou a chave do carro nos dedos, saindo na frente do parceiro que a seguiu afoito.
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