Backstage
26 Capítulo XXVI
Notas iniciais

Três dias depois...
Diana, apesar de ter recebido alta, passou a maior parte do seu tempo praticamente morando no hospital. Embora só pudesse ver Bruce uma vez ao dia, durante cinco minutos, ela ia ao hospital pela manhã, pela tarde e no fim da noite, sempre em busca de notícias e na expectativa de melhoras.
O hospital sempre estava cheio, colegas da polícia, sócios das empresas Wayne, jornalistas na porta e, claro, Martha e Alfred não arredavam o pé da recepção, revezando apenas para irem até em casa se trocarem. Se não fosse pela censura de Donna, preocupada com a recuperação física e emocional da irmã, Diana comungaria da mesma rotina deles.
Para evitar o assédio de jornalistas, Diana sempre entrava discretamente no hospital, ainda não se sentia preparada para relatar todo o horror que vivenciara, especialmente porque Bruce ainda não estava fora de perigo. Até então, sequer tivera tempo de usufruir de uma noite inteira de sono, sem pesadelos e sem inquietações. Mesmo Alfred sendo gentil e providenciando seus milagrosos chás britânicos para acalmar os nervos e relaxar, o coração de Diana ainda não estava tranquilo o suficiente para permitir que seu cérebro entrasse em repousos prolongados.
Nesta manhã, quando entrou no hospital, ela pousou os olhos na figura desolada de Martha Wayne, acompanhada por Clark e pela detetive Lance. A elegância da matriarca estava comprometida pelo olhar aflito, os cabelos ligeiramente desgrenhados e a roupa amassada. Diana pensou o quanto era cruel uma mãe sofrer assim por um filho.
Ela aproximou-se deles, cumprimentando Clark e Dinah e trocando um demorado abraço com Martha. Pensou o quanto era injusto ela estar apenas com alguns curativos sobre a pele e Bruce ainda estar lutando pela vida, porque se dispôs a salva-la.
― Alguma novidade? – Diana questionou, enquanto os enfermeiros circulavam em grande escala pelo saguão, devido a troca de turnos.
― Foi uma noite tranquila, sem sustos, graças a Deus! – Martha suspirou, grata pelo filho ter vencido mais uma noite.
“Um susto, foi só um susto!” Diana ainda podia ouvir a voz da irmã, sussurrando em seu ouvido, há três dias atrás, quando a recolheu, sentada no chão do corredor da unidade de terapia intensiva, abraçando os joelhos, enquanto os plantonistas atendiam Bruce, que tivera uma parada cardíaca. Felizmente, o atendimento fora rápido e preciso, os enfermeiros conseguiram reanima-lo antes que houvesse danos graves ou óbito.
A imagem da doutora Leslie se aproximando lhe tirou daquela lembrança terrível e aguçou sua esperança. A velha médica sustentava o cenho franzido e o olhar preocupado, mas forçou um sorriso ao pousar os olhos sobre Martha Wayne.
― Ele está estável! – Leslie adiantou-se às explicações, antes que fosse inquerida. ― Ainda estamos o mantendo sedado, até termos certeza de que não há mais riscos de um novo ataque como o que aconteceu aquele dia. Mas posso dizer que o quadro regrediu de crítico para grave.
― Já faz três dias. Quais são as chances, Leslie? – Martha proferiu a pergunta que agoniava seu coração e Diana conteve um leve tremor quando a médica comprimiu os lábios. ― Por favor, seja honesta conosco.
― Eu não posso dar uma estimativa. Fizemos tudo o que estava ao alcance da medicina. Agora, depende apenas de Bruce. – Leslie acariciou a mão da amiga. ― Eu sei o quanto Bruce quer viver, ele não vai se entregar. Ele já está respirando sem aparelhos, creio que não teremos mais sustos ou complicações.
Diana respirou aliviada. Embora o caso ainda fosse grave, assim como Leslie, ela acreditava na teimosia de Bruce. Ele tinha de ser mais teimoso do que a morte, tinha de ser, ela repetia a si mesma.
― Eu posso vê-lo? – Martha pediu, ansiosa. ― Clark também gostaria de visitar o amigo.
― Me acompanhem! – Leslie os direcionou até a unidade de terapia intensiva e Diana sentou-se ao lado de Dinah, esperando que eles voltassem.
Assim como Diana, a detetive passava boa parte do tempo livre no hospital, para dar apoio à família de Bruce e também na esperança de ouvir que ele estava completamente fora de perigo.
― Como está se sentindo, Diana? – Dinah rompeu o silêncio cortante que sustentavam, para dissipar o clima apreensivo que as consumia.
― Eu vou ficar bem. – Diana repetiu o mantra diário que dizia a si mesma. ― Especialmente quando Bruce sair dessa. – Dinah anuiu com a cabeça e remoeu uma pergunta que lhe corroía nos últimos dias.
― E como vocês dois vão ficar depois que ele sair dessa? – Dinah a questionou, ignorando o lugar impróprio para o assunto. ― Eu sei que esse assunto não me diz respeito, mas... Bruce é meu amigo e ele te ama, Diana. Sei que você não é indiferente a isso. – A loira a encarou, a fim de ler suas feições. ― A questão é se você vai assumir todas as implicações desse relacionamento, já que ele é, e vai continuar sendo, um policial.
Diana uniu as mãos e entrelaçou os dedos. Ela realmente gostaria de ter uma resposta segura para o olhar preocupado da detetive.
― Eu tenho pensado todas as noites sobre isso, ainda não consigo apagar da minha cabeça a imagem dele sendo baleado, sendo reanimado naquela sala de U. T. I. – Diana fechou os olhos por um instante. ― Tudo isso, o medo de perdê-lo, foi pior que as ameaças que sofri, do terror psicológico que me foi imposto. Eu realmente não sei o que fazer, até porque, talvez Bruce perceba que eu não sou a mulher certa quando acordar.
A loira arqueou uma sobrancelha e sorriu ligeiramente. Entendia os receios da morena, mas ela não podia estar mais enganada ao pensar que Bruce acordaria e desistiria dela.
― Você não conhece Bruce Wayne. – Dinah ponderou. ― É provável que ele queira se casar no hospital se você disser sim quando ele acordar. – As duas sorriram.
― Isso corroboraria com o fato dessa ideia ser uma loucura. – Diana desconversou, ainda que no mais íntimo de seu coração imaginasse a cena em sua cabeça.
― Por falar em loucura. – Dinah mudou o semblante bem humorado para um olhar sério. ― Concluímos o inquérito do seu caso. A psiquiatra forense definiu o caso de J’onn como transtorno de estresse pós traumático atrasado, por ter presenciado a execução dos pais biológicos diante de seus olhos.
― Pobre, J’onn! – Diana lamentou-se. ― Apesar de tudo, eu não o julgo. Ele era doente.
― Ele não teve uma vida fácil. – Dinah levantou-se e serviu um café para si e outro para Diana. ― Além de passar por vários orfanatos na infância, quando finalmente foi adotado, teve sua fragilidade emocional usada contra si próprio. Há vários relatos de atitudes agressivas por parte dele, estimuladas pelo irmão. – Diana franziu o cenho. ― Hades propiciou que J’onn desenvolvesse psicose paranoica e amor obsessivo ao fingir que se importava com ele.
― Meu pai era o verdadeiro psicopata. Eu não tenho dúvida. – Diana lamentou, silenciosamente, por sua mãe ter se apaixonado por alguém tão frio e perigoso.
― Eu sinto muito.
― Tudo bem. – Diana apreciou o café forte e quente. ― Eu só lamento não ter sido mais atenta a J’onn, talvez eu pudesse tê-lo ajudado.
― Você não tinha como evitar. Não é o tipo de patologia que um leigo identifique em tão pouco tempo. – A loira tomou a liberdade de segurar a mão de Diana. ― O que você passou, não é algo que se esqueça, mas, com o tempo, você vai superar.
― Eu espero! Eu espero! – Diana sussurrou e apertou a mão da loira. ― Eu ainda não lhe agradeci pelo que fez por mim. Se você não tivesse chegado a tempo... – Diana evitou concluir. ― Obrigada por tudo. – Os olhos da morena marejaram.
― É o meu trabalho, Diana. Só cumpri com o meu dever. – A loira levantou-se para pegar mais café e evitar se deixar levar pela emoção crescente no olhar de Diana. Ela já havia chorado mais que a vida toda nas últimas noites por causa da gravidade do estado do parceiro.
O assunto encerrou-se quando elas perceberam o retorno de Martha e Clark. Eles pareciam bastante esperançosos ao retornarem. Clark afagava Martha com o braço enlaçado ao seu e tinham o semblante menos tenso do que antes de irem à Unidade de Terapia Intensiva.
― Ele já não está tão pálido. – Martha comentou, satisfeita. ― E respira tranquilamente sem aparelhos.
― Ele vai sair dessa logo e reclamar porque todos nós ficamos aqui esse tempo todo esperando. – Clark comentou e Dinah concordou. Ambos conheciam bem a rabugice do amigo.
― Clark comentou que volta ao programa hoje, Diana. – Martha a observou. ― Acha que já está pronta?
Diana encarou o chefe por um instante. Ela sabia que ele havia lhe convencido a voltar ao trabalho porque a profissão sempre lhe surtira efeitos terapêuticos. Sabia também, que a insistência de Clark tinha o apelo de Donna por trás, que estava preocupada com o tempo que passava no hospital e a angustia constante que alimentava no tempo em que ficava ociosa em casa.
― Eu preciso retomar a rotina. – Ela respirou fundo. A irmã e Clark tinham razão ao estimula-la a reagir. ― Além disso, meus fãs merecem ver que eu estou bem, pelo menos externamente.
― E logo ficará bem internamente também. Tenho certeza que o carinho dos fãs lhe fará bem. – Martha acariciou-lhe a mão.
― Acho que devíamos providenciar uma televisão para a UTI. – Dinah brincou. ― Tenho certeza que Bruce vai despertar assim que ver que o Prince Show está no ar e se der conta que ele não está nos bastidores. – Os três riram, discretamente.
― Bem, com televisão ou sem televisão, eu vou fazer esse programa dedicado a ele. – Diana prometeu, decidida a ser forte como sabia que Bruce estava sendo ao lutar pela vida.
(...)
Foi difícil para Diana, ao deixar o carro no estacionamento, caminhar até a entrada da emissora sem ter a mente permeada pelas lembranças das últimas semanas. Era a primeira vez, após quase dois meses, que fazia o trajeto até o trabalho sem a companhia de um dos detetives. E quase sempre, era Bruce quem estava com ela.
Apesar de ter sido recebida calorosamente pelos colegas de trabalho e de equipe, era impossível, ao correr os olhos pelos bastidores, não lembrar-se da figura de Bruce na sua cola, sempre com olhares atentos e um sorriso irritante para provoca-la. Lágrimas teimavam em brotar em seus olhos, mas ela as reprimia de volta.
Ao abrir a porta do camarim, apesar das belas orquídeas deixadas para recepciona-la, seu olhar recaiu imediatamente sobre a poltrona onde Bruce sempre se sentava. Para sua surpresa, um dos livros que ele sempre carregava consigo estava esquecido sobre a mesa de centro. Ela o apanhou, surpresa por não ser um exemplar de suspense policial desta vez, mas um exemplar de Shakespeare, A megera domada.
Diana sorriu instintivamente, imaginando se Bruce lhe viu como Catarina em algum momento, já que ela certamente o classificaria inconveniente como Petruchio quando começaram a conviver.
Interrompida em seus pensamentos por uma batida na porta, ela surpreendeu-se quando atendeu e viu alguém inesperado de volta à emissora.
― Wally! – Ela abriu mais a porta para que o ruivo entrasse. ― Que surpresa! Não esperava vê-lo por aqui depois que se demitiu. – Ele coçou a cabeça, sem jeito.
― Aquilo foi uma infantilidade de minha parte. Por sorte, John me deu uma segunda chance. – Ele estendeu um singelo ramalhete de flores para Diana, que o recebeu, um pouco receosa. ― É para te dar as boas vindas e também para me desculpar. – Ele abaixou a cabeça e colocou as mãos no bolso.
― Você não precisa se desculpar, Wally. – Diana tocou-lhe o ombro. ― Fico feliz que esteja de volta, você tem um grande futuro aqui na emissora.
― Obrigada. Mas eu fui um idiota quando te procurei na sua casa. – As bochechas do ruivo tonalizaram com os fios rubros de seu cabelo. ― E eu tenho que admitir que fantasiei demais com meus sentimentos.
― Tudo bem, Wally. Eu devo confessar que me sinto lisonjeada por chamar a atenção de um rapaz da sua idade, especialmente estando na faculdade, em meio a jovens incrivelmente belas. – Ela fez um gracejo, dando-lhe uma piscadela descontraída. ― Inclusive, soube que você estuda na mesma universidade que Donna. Ela me disse que você a procurou, preocupado com os acontecimentos recentes, e foi muito gentil.
― É, eu fiquei preocupado com vocês depois que soube o que aconteceu. – Wally deu um olhar tímido em direção a Diana. ― Aliás, sua irmã é linda. E muito inteligente. – Ele admitiu, ruborizando-se ainda mais.
― E está disponível. – Diana brincou e o rapaz sentiu-se menos tenso, sorrindo ante a sugestão.
Eles continuaram conversando, até a chegada da maquiadora e do cabeleireiro os interromper. Wally se despediu, satisfeito por superar sua paixão platônica e por perceber que não ficaria um clima estranho entre Diana e ele de agora em diante.
(...)
Diana não ficou nenhum pouco surpresa que a maquiadora e o cabeleireiro tivessem feito um excelente trabalho em sua aparência, deixando-a linda e ocultando os curativos que ainda carregava sobre a pele. Estava pronta para ser profissional, ferida e marcada, mas ciente de seu compromisso com o público.
Enquanto as luzes do estúdio se acendiam, Diana fez uma prece silenciosa e costumeira, antes de entrar no palco. Lembrou-se de Bruce, de que faria um programa maravilhoso porque seu público merecia e que o dedicaria a ele. Antes de ir para a emissora, passou novamente no hospital para visitar o detetive e notou a televisão que Alfred conseguira levar para a UTI, estimulado pela ideia da detetive Lance. Embora Bruce não fosse vê-la, talvez estaria lhe ouvindo, ela pensou.
Respirando fundo, ela entrou no ar.
Diana foi recebida com calorosa emoção da plateia ao pisar no palco do programa. Aplaudida de pé e ovacionada, a apresentadora não foi capaz de conter a emoção diante da intensidade do carinho que recebeu de seus fãs e admiradores do seu trabalho. Não fora algo combinado por um animador de palco ou premeditado, mas uma reação natural das pessoas que estavam ali presentes, que se importavam com ela.
Para completar sua cota de emoção, o entrevistado da noite era Stevie Wonder, um dos cantores preferidos da princesa da comunicação. As músicas cantadas por Stevie ao longo do programa, bem como a entrevista emocionante, serviram, em muitos momentos, como recursos de camuflagem para Diana lidar com sua sensibilidade extrema na condução do programa. Ela estava feliz por estar de volta, fazendo o que amava, mas triste por Bruce não ter a mesma oportunidade ainda.
Ela pode chorar discretamente e externar os sentimentos que a dominavam, entre uma canção e outra. Ainda assim, ela conseguiu ser extremamente profissional e deixar o entrevistado em destaque, alcançando a maior audiência da madrugada não simplesmente pelo seu retorno, mas por um programa de alta qualidade de informação e entretenimento.
Antes de encerrar o programa, ela fez questão de dar uma breve declaração ao público, explicando, sem muitos detalhes, o que lhe acontecera dias atrás. Não expôs J’onn e sua triste história e não comentou sobre o terror psicológico que sofrera em poder do perseguidor. Mas contou que teve sua vida salva pelos detetives Wayne e Lance, e pediu aos fãs que torcessem pela recuperação do detive Wayne, que, naquele momento, se recuperava em um leito de hospital.
Novamente ovacionada pela platéia e homenageada por Stevie Wonder, que cantou Ribbon in the Sky dedicada à apresentadora, ela encerrou o programa, sem mais poder conter as lágrimas, mas preenchida por muito carinho e esperança para continuar mantendo-se firme.
(...)
Pela primeira vez, em um ano de Planet, Diana participou em completo silencio de uma reunião de pauta. Mesmo sendo estimulada por John e os demais roteiristas a opinar sobre o próximo programa, ela não fez mais do que concordar com as sugestões que eram oferecidas. Nem mesmo o fato de terem conseguido remarcar a entrevista com Jon Bon Jovi lhe deixou empolgada.
A direção do programa sabia que, apesar do pouco entusiasmo na reunião, a principal estrela da Planet TV não iria decepcionar na condução do programa. Contudo, era inevitável não sentir o peso do silêncio de Diana, quando ela sempre fora vibrante nas reuniões, mesmo acometida pelo sono e o cansaço da madrugada.
Não é que Diana não estivesse se esforçando ou não estivesse se sentindo mais disposta depois do carinho recebido durante o programa. A verdade é que a sala de reuniões era mais um cenário forte das lembranças da companhia de Bruce. Era onde ele mais a irritava, olhando-a de soslaio ou dando sorrisos de lado enquanto ela opinava sobre pautas, discutia temas para as entrevistas e fazia um apanhado do programa do dia. Ele fazia questão de deixar que ela percebesse seus olhares, para vê-la desconcertada ou tentar desconcentrá-la.
Ela detestava quando ele obtinha sucesso em seu intento, mas amava sentir o calor do olhar dele sobre si, admirado com a sua desenvoltura, encantado com os seus sorrisos, hipnotizado por seus pequenos charmes, feitos propositalmente para chamar a atenção do detetive, embora não admitisse tudo isso a princípio.
Com tantas lembranças, tantas sensações vivas em seu coração, ela não conseguia se entregar à reunião desta noite. Sabia que nas próximas reuniões teria que reagir, afinal era o seu programa, o seu trabalho, mas, por hoje, só por hoje, ela se permitiria à reclusão interior.
Ela agradeceu, mentalmente, aos seus colaboradores por respeitarem seu espaço. Ao término da reunião, ninguém lhe cobrou explicações ou forçou uma conversa sobre seu estado emocional, limitaram-se apenas a enaltecer o programa do dia. Ela voltou para o camarim, pensativa, precisando apenas de sua própria companhia, da força que sempre tivera para lidar com as adversidades e enfrentar a vida de cabeça erguida.
Com calma, ela se trocou, soltou os cabelos que estavam presos e, enquanto passava o demaquilante pela face e se encarava diante do espelho, pensava em quem era a Diana Prince que via refletida agora. Ela ainda amava seu trabalho, era muito boa no que fazia, mas não era mais a mesma mulher de algumas semanas atrás.
Se pudesse usar uma metáfora para se definir, certamente diria que era uma lagarta recém transformada em borboleta. Saíra de um casulo onde se escondera por anos, deixara-se levar pelo desejo de voar, mas o tempo fechara-se numa intensa tempestade, antes que pudesse testar as asas já abertas. A pergunta que martelava em sua mente, era qual Diana ela queria ser de agora em diante. Quando voasse, teria que escolher onde seria seu pouso, já que o casulo não lhe cabia mais.
Exausta emocionalmente, ela apanhou a bolsa e, antes de deixar o camarim, resolveu levar consigo o livro que Bruce deixara ali. Reparou, com pesar, no telefone que ficava na mesa e do quanto aquele aparelho, que antes lhe proporcionava seu momento favorito após o programa, se tornou seu pior pesadelo nos últimos meses e hoje era apenas um motivo de lamento.
Havia pedido a sua equipe que suspendesse as ligações por um tempo. Era algo que ainda não estava pronta para lidar, tanto pelas lembranças ruins quanto pelos questionamentos inevitáveis que receberia por parte dos espectadores que ligassem.
Entretanto, assim que alcançou a porta para deixar o camarim, o telefone tocou. Com um sobressalto, Diana olhou para o aparelho mais uma vez e sentiu um leve tremor percorrer-lhe a espinha. Não era ele, ela disse a si mesma, não havia mais perseguidor. Bastava ignorar e sair, já havia avisado que não atenderia ninguém. Certamente era alguma ligação transferida por engano ou Shayera querendo se certificar que ela ainda estaria ali.
Ela deu as costas para o telefone e dirigiu-se para a saída mais uma vez, mas recuou. O toque estridente do aparelho não sairia de sua cabeça se não enfrentasse a situação, sabia disso. Não teria condições de atender um fã, se fosse o caso se desculparia, mas não podia ir embora com medo de tirar o telefone do gancho. Com esforço, ela atendeu, sentindo as mãos suarem frio quando levou o aparelho ao ouvido.
― Eu já estou de saída, Shayera! – Presumindo que fosse a ruiva, ela se justificou.
― Está fazendo hora extra? – A voz muito fraca e rouca do outro lado da linha deixou Diana emudecida e questionando-se se estava louca. ― Ainda há tempo de eu dar minha opinião sobre o programa de hoje? – Um suspiro longo e uma respiração pesada ecoaram.
Atordoada, Diana sentou-se, segurando o telefone com as duas mãos, devido o tremor que tomou conta de seu corpo. Ela demorou alguns segundos para encontrar sua voz.
― Bruce!? – Diana sentiu as lágrimas saltarem. ― Como? – Ela sorriu, ainda incrédula. ― Por que está ligando pra emissora? – Foi a pergunta menos importante, ela se deu conta depois, mas chorou quando ele respondeu descontraidamente.
― I just called to say, i love you! (Eu só liguei para dizer que te amo!) – Ele cantarolou o sucesso de Stevie Wonder, para provar que havia assistido ao talk show. ― Você estava linda no programa de hoje.
― Bruce! – Ela soluçou, logo se repreendendo, não era momento para chorar descontroladamente. ― Você... você, está bem? – Ela sussurrou, em meio a soluços.
― Chateado, eu diria. – Ele reprimiu um gemido quando respirou fundo. ― Pensei ter ouvido você dizer que estaria aqui quando eu acordasse. – Ele fez uma pausa, para tomar fôlego. Não podia se esforçar muito. Alfred levara um celular escondido para o quarto, contrariando a proibição da doutora Leslie. ― Você está atrasada. Não sei quanto tempo vou conseguir manter os olhos abertos, mas, se você correr, talvez eu ainda esteja acordado quando chegar aqui.
Ela queria acusa-lo de presunção por sugerir que ela sairia correndo da emissora para ir vê-lo, mas ele estava coberto de razão e ela feliz demais para sustentar uma rusga.
― Você já dormiu demais, detetive. Não ouse fechar os olhos antes que eu esteja aí. – Ela desligou o telefone, apanhou as chaves do carro, e deixou o camarim, correndo apressadamente pelos corredores, ansiosa para voltar ao hospital.
(...)
Diana demorou cerca de dez minutos para chegar ao hospital, felizmente não havia trânsito de madrugada, porém esqueceu-se completamente de usar o estacionamento dos fundos do hospital como via de acesso e foi cercada por uma dezena de jornalistas que aguardavam notícias de Bruce e uma aparição da apresentadora na porta principal.
O assédio da imprensa fez com que a princesa da comunicação atrasasse mais dez minutos, tentando entrar no hospital e se livrar de perguntas inconvenientes sobre um suposto envolvimento dela com o detetive, sobre os rumores que o pai dela tinha envolvimento com as ameaças que sofrera e até mesmo que J’onn era seu pai. Por sorte, o Comissário Gordon estava de saída e a ajudou a sair do meio da pressão inquisitiva em que ficou cativa.
Ela não tinha certeza se havia agradecido ao Comissário pela ajuda, mas fez uma nota mental de ligar pela manhã para se certificar. No momento, tudo o que queria era ver-se refletida nas íris acinzentadas de Bruce e ter certeza que aquela ligação não fora um delírio.
Como o elevador demorou a chegar, ela não se importou de impor quatro lances de escadas ao salto doze da bota assinada por Christian Louboutin e correu até o quarto andar, percebendo que precisava urgentemente voltar a fazer alguma atividade física, ao chegar ao andar desejado completamente sem fôlego.
Enquanto tentava recuperar sua voz para pedir à recepcionista um crachá de visitante, a doutora Leslie a abordou, já supondo que Diana havia sido avisada sobre Bruce.
― A detetive Lance tinha razão quanto a televisão. – Leslie a surpreendeu e Diana virou-se para encarar a médica. ― Bruce acordou há cerca de duas horas, enquanto você fazia o programa. Confesso que achei a ideia uma loucura, mas tenho que reconhecer que surtiu efeito. – Diana sorriu, surpresa e eufórica.
Ela queria questionar se fora realmente responsável, ainda que indiretamente, por Bruce ter despertado, mas isso era o que menos importava no momento. Coincidência ou não, ele reagira, ele estava de volta, e isso era tudo o que ela esperava acontecer nos últimos dias.
― Como ele está? – Ela não disfarçou a ansiedade.
― Meio grogue, ele ficou muito tempo sedado. Mas bastante consciente enquanto o examinava. – Leslie deu um olhar divertido para Diana. ― Me disse que vocês vão se casar. – Diana arregalou os olhos, perplexa por Bruce se lembrar de casamento no estado em que se encontrava.
― Acho que ele não deve estar tão consciente assim. – Diana desconversou, enquanto as bochechas coravam ante o olhar da médica. ― Posso vê-lo?
Leslie fez sinal para que a recepcionista lhe passasse um crachá e o prendeu à blusa de Diana.
― Vá logo. Ele foi transferido para um quarto. Acabei de sair de lá e ele estava impaciente devido a sua demora. – Antes que Diana lhe desse as costas, Leslie recomendou. ― Não o deixe se esforçar muito. Ele está tentando manter-se forte, mas a situação ainda é delicada.
Diana fez um aceno com a cabeça e conteve-se de correr no corredor do hospital, quando notou os olhares repressores dos enfermeiros para seus passos largos e o som de seus saltos ecoando sobre o piso.
Ao chegar à porta do quarto em que Bruce estava, girou a maçaneta com o coração pulsando na ponta dos dedos. Lentamente, ela abriu a porta, avistando Bruce deitado e com os olhos fechados, havia alguns aparelhos conectados ao seu peito e agulhas no pulso para medicação intravenosa.
Alfred estava com ele, sentado no sofá para acompanhante, já que Bruce dera um jeito de convencer a mãe de ir para casa ao perceber a exaustão evidente em suas feições. Ao ver Diana, Alfred se levantou, trocou um olhar de aprovação com a morena e saiu do quarto para deixa-los mais à vontade.
Apesar de estar acordado, Bruce mantinha os olhos fechados. Por ainda está debilitado, ele tentava poupar suas energias o máximo possível para ver-se livre daquela cama o quanto antes. Ele soube que era Diana que havia chegado assim que ela abriu a porta e seu perfume inebriou seu sentido olfativo. Quando sentiu que ela estava perto o suficiente para observa-la sem precisar esforçar-se, ele abriu os olhos, dando-lhe o meio sorriso que tanto mexia com as emoções da morena.
― Olá, detetive! – Tomando a mão de Bruce na sua, ela tentou disfarçar a lágrima que correu por sua face esquerda ao ver-se refletida nos olhos dele. Quando saísse do quarto certamente se derramaria em lágrimas de gratidão, mas, por hora, sabia que precisava dosar as emoções.
― Você demorou, princesa. – Ele notou a mão suturada dela e os demais curativos no pescoço e na lateral da cabeça. O pouco que conseguiu assistir do programa não havia lhe permitido notar esses detalhes, mas sabia que tanto podia ser por sua cabeça que ainda girava sob efeito dos medicamentos ou pela maquiagem usada na apresentadora. De qualquer forma, ele estava feliz por ver que ela estava bem. A última lembrança que tinha de Diana, ela estava ferida e ensanguentada.
― Você está bem? – Ela sentou-se na beirada da cama, acariciando-lhe o rosto com a mão livre. Ele estava quente, talvez meio febril, mas não parecia alarmante. As unhas rasparam de leve na barba por fazer e as pontas dos dedos contornaram delicadamente a fronte de Bruce.
― Estou começando a ficar. – Ele brincou, aproveitando a carícia. ― A textura sedosa da sua mão é bem mais eficaz que essas máquinas. – Ele virou o rosto para beijar-lhe as costas da mão, que percorriam sua bochecha.
― O bom e velho detetive playboy está de volta. – Ela riu, tentando conter a emoção de sentir o calor da mão dele, ao entrelaçar os dedos no seu. Ela o encarou, por longos segundos. Estava com tanta saudade, com tanto medo. Não podia despejar tudo o que sentia sobre o detetive naquele momento, mas, no mínimo, precisava agradecê-lo. ― Você salvou minha vida, Bruce. – Ela reparou o corte da cirurgia, coberto por um grande curativo. ― Eu estou te devendo.
Ela conteve a vontade de se jogar sobre ele, e abraça-lo com força, para agradecer e sentir que ele realmente estava vivo, que ficaria bem, mas refreou o impulso ao notar os batimentos cardíacos do detetive alterando-se e sua respiração pesada.
― Devendo?! Isso é bom. Quando pretende começar a pagar? – Ele levou a mão sobre o ferimento no abdômen que latejava. ― Não estou em condições de força-la a nada, por enquanto, mas podemos começar com um beijo.
― Um beijo?! – Ela arqueou a sobrancelha, espantada em como ele lidava descontraidamente com a situação. Até poucas horas atrás estavam todos sofrendo, temerosos e aflitos, e agora bastava olhar para Bruce para perceber que todos o subestimaram.
― Nunca ouviu dizer que beijos ajudam a sarar? – Ele lamentou não ser capaz de erguer o corpo para puxa-la para si. ― Vamos fazer um teste. – Ele a olhou intensamente, investindo em seu charme natural.
― Seu trapaceiro arrogante. – Ela acariciou os cabelos de Bruce. ― Se não estivesse convalescendo num leito de hospital eu lhe faria implorar. – Ela inclinou-se sobre ele, beijando de leve seus lábios.
Bruce esboçou um sorriso ao sentir os lábios de Diana tocar os seus, apenas lamentou que seu braço ainda doía pela facada que levara no ombro e não pudesse abraça-la como gostaria, porém tentou beija-la o máximo de tempo que seu fôlego e a dor do ferimento à bala lhe permitiram.
Diana ignorou o bom senso por uns instantes e apoiou, de leve, a cabeça no peito de Bruce, permitindo que ele apoiasse o queixo sobre seus cabelos e que pudesse ouvir os batimentos cardíacos dele. Ela sabia que era Bruce quem precisava de cuidados, mas demorou-se ali, quando ele levou a mão em suas costas e deu-lhe carinho, da maneira que lhe era possível no momento.
― Obrigada por ter me salvado. – Ela sussurrou. ― Obrigada por ter ficado aqui. – Ela o beijou mais uma vez, antes que se derramasse em lágrimas.
Bruce desejou ter um pouco mais de forças para beija-la de verdade, mas, por hora, estava satisfeito por ter sua princesa em seus braços. Ele nunca teve medo de morrer, mas lembrava-se do medo de perdê-la, de não conseguir voltar para ela.
― Podemos fazer melhor que isso. – Ele concluiu, depois do beijo rápido demais. ― Espere só eu poder ficar de pé. – Diana sorriu em meio às lágrimas.
― Acha que ainda pode me surpreender, detetive? – Diana o desafiou.
― Não só acho como vou. Espere só até se tornar a senhora Wayne. – Diana recuou, afastando-se lentamente, até ficar devidamente sentada na cama. ― A propósito, já posso ouvir seu sim. – Diana perdeu a voz diante do olhar de expectativa do detetive e do ritmo frenético que as batidas de seu coração impôs em seu peito. ― Aceita se casar comigo, senhorita Prince?
“Há muito tempo eu rezo por esta noite
Em que uma estrela te guiasse em minha direção
Para dividir comigo este dia especial
Onde há um laço no céu unindo o nosso amor
Se me permitir, posso tocar sua mão
E se te agradar posso mais uma vez,
E então você também entenderá
Que há um laço no céu unindo o nosso amor
Isso não é uma coincidência
E muito menos um golpe de sorte
Mas é o que sempre esteve determinado
É nosso laço no céu unindo o nosso amor, amor
Não há como perder com Deus do nosso lado
Encontraremos força em cada lágrima que chorarmos
De agora em diante seremos você e eu
E nosso laço no céu
Laço no céu
Um laço no céu unindo o nosso amor” (Ribbon in the sky, Stevie Wonder)
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