Backstage

20 Capítulo XX


Notas iniciais
Boa leitura, amorecos! Kisses❣

Obstinação e concentração sempre foram traços imutáveis na postura do detetive Wayne no cumprimento de seu dever. Uma vez incorporado o policial, qualquer tipo de distração, física ou emocional, se tornava irrelevante para tirar-lhe o foco. Sendo assim, nem mesmo o fato de estar na delegacia ao meio dia, sem se alimentar devidamente, recém chegado de viagem e mal instalado em sua sala pequena, sem ar condicionado e isolamento acústico, fazia com que ele perdesse uma vírgula dos relatórios que lia sobre o caso Diana Prince.

O casaco estava pendurado no encosto da cadeira e as mangas da camisa social dobradas, numa tentativa inútil de sentir menos calor. Ao redor, saltos ecoavam pelos corredores, policiais falavam alto e digitavam freneticamente, sem contar o cheiro de café morno e rosquinhas calóricas que impregnava todo o ambiente.

Contudo, o cérebro aguçado do detetive apenas focava nos relatórios sobre John Stewart e Shayera Hall, que prestariam depoimentos em poucos minutos. O cargo da telefonista ruiva fora indicação do diretor do The Prince Show e seu currículo profissional era, no mínimo, muito intrigante. Talvez Bruce não se preocupasse tanto, se não fosse a descoberta da detetive Lance a respeito de John Stewart ter sido demitido da emissora em que Diana trabalhou em Chicago por se recusar a dirigi-la.

Vingança poderia ser um bom motivo para as ligações que Diana vinha recebendo. E ter uma telefonista como cúmplice uma estratégia arriscada, mas válida. Embora não conseguisse ligar John Stewart com suas descobertas recentes a respeito da morte da mãe de Diana, não podia descartar a hipótese. Talvez tivesse dois mistérios em mãos ao invés de apenas um.

Quando o cheiro de almíscar e baunilha misturou-se à atmosfera de sua sala, ele não precisou levantar os olhos do relatório que lia para saber que sua parceira estava vindo ao seu encontro. O cheiro sexy do perfume da detetive Lance era elegante e perigoso, uma tentação constante para os homens que compunham o efetivo do departamento de polícia, à exceção de Bruce que sempre teve um carinho e respeito muito grande pela detetive, que suprimia qualquer vulnerabilidade ao desejo que ela despertava naturalmente no sexo oposto.

Dinah Lance trazia a jaqueta de couro amarrada à cintura, cobrindo parte do coldre e da pistola semiautomática acomodada entre a coxa e o quadril sobre o jeans escuro. Usava uma camiseta com estampa rock in roll e os cabelos presos, deixando o belo rosto angelical em destaque.

Ela jogou uma pasta com mais relatórios sobre a mesa de Bruce e foi em direção a gaveta do parceiro, furtar uma barra de chocolate suíço para suprir a falta do almoço.

― Encerrei o depoimento de Wally West. – Ela sentou-se sobre a borda da mesa, atraindo a atenção do parceiro. ― O garoto parece inofensivo, mas nutre uma paixão platônica por Diana. Estuda, trabalha, tem bons antecedentes e respondeu a todas as perguntas sem qualquer retração. – Bruce foleou o relatório da parceira. ― Pareceu muito ressentido ao descobrir que sua musa foi casada e por ter descoberto na emissora que ela passou o fim de semana com você.

― Qual o seu parecer? – Bruce fitou os olhos azuis e ofereceu mais uma barra de chocolate para a parceira, que olhava de soslaio para sua gaveta.

― Não tem o perfil dos psicopatas e maníacos com os quais já lidei. – Dinah aceitou a barra de chocolate de bom grado. Seu salário de funcionária pública não lhe permitia comprar chocolates que custavam cerca de 100 dólares cada 100 gramas. ― Mas, na nossa profissão, isso não significa nada. Sempre encontramos perfis inovadores de loucos assassinos.

Bruce assentiu e observou mais uma vez o resultado da perícia realizada no bilhete deixado no camarim de Diana, durante o evento em comemoração ao aniversário da Planet TV. Como esperado, não havia nenhum vestígio de digitais que pudesse ser levado em conta. Verificou ainda que, enquanto Diana esteve fora, nenhuma ligação foi feita para sua residência. Quem a perseguia, de alguma forma, sabia que ela não estaria na cidade, o que diminuía bastante seus suspeitos, concentrando-os na emissora.

― Fiz um levantamento sobre Lois Lane, Clark Kent e J’onn J’onzz. – Dinah separou um relatório recente e o passou para Bruce. ― Serão os próximos convocados a depor, se os depoimentos de Shayera Hall, John Stewart e Arthur Curry não nos der nada de interessante.

― Não imagino Clark perseguindo uma mosca. – Bruce pontuou e Dinah arqueou uma sobrancelha. Ele nunca descartava uma suspeita. ― Mas concordo que o depoimento dele possa nos dar informações importantes sobre os funcionários da emissora.

― Lois Lane é uma suspeita interessante. Não é segredo pra ninguém que a esposa de Clark Kent morre de ciúmes de Diana. Fora que é frustrada por não ter conseguido se firmar como âncora de telejornal e apresentadora. – Dinah trocou a mesa por uma cadeira, ficando de frente para Bruce. ― Já J’onn J’onzz relacionei como suspeito por ter sido um dos últimos contratados para trabalhar na emissora. Ele parece migrar bastante de cidade e emprego, é um homem solitário, mas tem boas referências.

― Diana sempre falou bem dele. – Bruce comentou. ― Pelo que sei, serviu ao exército, tem uma sequela na perna por conta de um tiro. – Dinah confirmou, já havia verificado que o homem fora um bom soldado, inclusive com condecorações.

― Ele perdeu a família no holocausto nazista. Viveu em lares adotivos e foi adotado já adolescente. – Dinah desviou um pouco o olhar para o lado. ― Vida difícil. – Ela suspirou.

Bruce ofereceu-lhe mais uma barra de chocolate. Foi um gesto de conforto. Poucas pessoas sabiam, mas a detetive vivera em orfanatos quando criança. Ela sabia melhor do que ninguém como uma criança órfã enfrentava inúmeros desafios para ser alguém na vida e se integrar à sociedade.

― Penso que os interrogados selecionados vão suprir as lacunas que precisamos preencher. – Bruce bateu com a caneta sobre o bloco de anotações, substituindo o semblante sério por um sorriso, quando o celular vibrou em seu bolso e ele reconheceu o número na tela do aparelho.

Dinah focou no sorriso bobo e no olhar apaixonado do parceiro ao atender a ligação, sem saber exatamente se ficava feliz ou alarmada. Ele não trocou mais do que cinco palavras com quem estava do outro lado da linha, mas ele sequer precisou citar o nome da pessoa com quem falava para que ela pudesse deduzir de quem se tratava.

― Pelo visto o fim de semana foi produtivo. – Ela comentou, vendo Bruce anuir com a cabeça. ― Estão namorando? – Ela soube a resposta assim que viu o brilho no olhar de Bruce diminuir.

― Não posso pressioná-la, Dinah. As coisas vão caminhar dentro do tempo dela. – A loira apertou os olhos, preocupada. ― Ela vai jantar lá em casa hoje.

― Gosto de Diana. E você é meu melhor amigo. – Ela levantou-se e tocou-lhe o ombro. ― Mas ela tem problemas para se relacionar e você pouca sorte no amor. Sem contar que ela precisa de proteção e não de romance no momento. – O rosto de Bruce se contorceu em desagrado. ― Não quero que isso acabe mal.

Dinah foi honesta, havia muito em jogo em meio aquela relação, não apenas o risco do parceiro sair com o coração partido, mas também de seus sentimentos influenciarem no andamento da investigação.

― Agradeço a preocupação, mas eu posso lidar com Diana, como homem e como policial. – A voz soou ríspida, mas ela não se ofendeu, apenas sorriu, desejando que ele estivesse certo.

Evitando que eles enveredassem por divagações e conselhos amorosos, área em que nenhum dois tinha um saldo positivo, um agente os interrompeu ao adentrar a sala e avisar que os convocados para depor já estavam à espera, em salas separadas. Bruce queria que os depoimentos ocorressem concomitantemente, o que facilitaria os suspeitos caírem em contradição se tivessem algo a esconder.

Bruce vestiu o paletó e serviu-se de uma xícara de café morno, disfarçando o desgosto quando sentiu o líquido descendo em sua garganta. Dinah o imitou, vestindo a jaqueta de couro que estava presa em sua cintura e preferindo água ao café.

― Quer escolher? – Ela segurou as duas intimações expedidas e ofereceu para Bruce selecionar quem interrogaria.

― Deixe a ruiva comigo. – Ele selecionou a ficha de Shayera Hall e deixou John Stewart para a parceira.

Esperançosos em conseguir algo útil, deixaram o local juntos e rumaram para as salas de interrogatório.

(...)

Diana experimentou a sensação de conforto e estranheza quando Bruce lhe deixou em casa pela manhã.

Conforto porque nada era melhor que estar em seu habitat natural, seu lar, suas coisas, seu refúgio particular. Estranheza porque o ambiente parecia vazio demais. Donna estava na universidade e Bruce não havia ficado ali com ela. Três dias ao lado do detetive foram suficientes para que ela ficasse mal acostumada com sua companhia.

Além disso, o fim de semana na casa dos lagos havia mexido com muitas emoções dentro de si, não foi apenas o envolvimento com Bruce que lhe arrebatara, a sensação de paz que viveu naquele lugar lhe fez ansiar por mais do que conforto e realização profissional. Lhe fez desejar ser feliz por inteira, sem mágoas, sem traumas, sem se contentar com pouco. Não era infeliz antes de Bruce aparecer em sua vida, mesmo com as frustrações amorosas, mas era impossível não admitir que era acomodada, condição tão nociva quanto a infelicidade.

Embora estivesse de acordo que deviam ir com calma no relacionamento, Bruce insistiu para que ela jantasse na mansão esta noite, não para pressioná-la, mas para que a convivência cotidiana lhes afastasse da relação detetive e cliente, e os configurasse numa relação homem e mulher. Ela, porém, estava tentada a não aceitar o convite, sendo bastante resistente em um primeiro momento. Estava determinada a ser cautelosa, testar a amplitude de seus sentimentos. Mas bastou uma hora sozinha em casa para que ela perdesse o foco e alcançasse o telefone, confirmando sua presença.

Ainda que tentasse se convencer de que aceitara o convite para agradecer Martha por receber Donna em sua casa, por ter lhe dado o convite para ir com Bruce ao show de Boccelli e por cumprir sua promessa a Alfred, que voltaria para um jantar, sabia que o motivo principal era ter a companhia de Bruce por algumas horas. Estava de folga da emissora, portanto, não teria o detetive ao seu lado, nem mesmo cumprindo seus deveres de policial.

Sem ter muito o que fazer, tentou dormir um pouco, já que não havia pregado os olhos a noite anterior, depois de Bruce ter lhe revelado suas suspeitas quanto a morte de sua mãe, todavia não conseguiu permanecer mais que quinze minutos deitada em sua cama. A todo instante remoía as informações que Bruce lhe dera e era tomada pela raiva e pelo temor de ter o responsável pela morte de sua mãe em seu encalço.

Quando ligou para Bruce, sabia que ele estava na delegacia. Ele sequer havia ido em casa depois que retornaram para Gotham. O único desvio de sua rota e de seus deveres foi deixa-la em casa. Ele havia lhe dito que hoje começariam os depoimentos dos principais suspeitos relacionados por Dinah e por ele, e isso também lhe tirava o sossego. Não conseguia imaginar qualquer um de seus colegas de trabalho como o maníaco que lhe perseguia e nenhum deles poderia ter conhecido sua mãe ou ter ligação com o passado de Hipólita.

Tudo o que mais queria nesse momento era parar de pensar, pelo menos por um instante. Dúvidas, receios, hipóteses, tudo isso lhe esgotava emocionalmente.

Desfazendo a mala de viagem, ela tentava resgatar a coragem e a determinação que o fim de semana lhe proporcionou. Mas as lembranças estavam mais voltadas para o amor do que para a autoconfiança. Prova disso foi o seu deleite ao perceber que seu suéter ainda tinha o cheiro de Bruce entranhado nele.

Coincidentemente, quando começou a retirar os brindes de Donna da mala, as lingeries sexys, ouviu a porta da frente bater, indicando que a irmã havia acabado de chegar. Bem na hora, Diana pensou, preparando alguns questionamentos para a caçula tão logo pudesse abraça-la e ver se ela estava bem.

Donna não demorou um minuto para chegar ao quarto de Diana. Saudosista, curiosa e eufórica, não se importou em bater antes de girar a maçaneta da porta do quarto, se jogando sobre a irmã quando a viu, sentada na beira da cama, com algumas peças de roupa em mãos.

― Tramou o rapto da própria irmã, mas sentiu minha falta, não foi? – Diana murmurou, enquanto Donna a sufocava com um abraço.

O tom descontraído na voz de Diana fez Donna perceber que ela não estava furiosa, o que foi um alívio. É claro que isso não lhe isentaria de uma repreensão, mas podia sentir que a irmã estava mais leve, feliz.

― Eu só estava pensando no seu bem, Di. Não é o que você sempre me diz quando faz algo por mim? – Donna beijou a bochecha da irmã, sentando-se de frente para ela e fazendo uma análise minuciosa de seu semblante. ― Eu faria tudo de novo, motivada pelo brilho que vejo em seus olhos agora.

Diana também observou a irmã. Ela estava ótima, tão linda quanto estava quando a viu pela última vez, há três dias atrás.

― Eu detesto que tomem decisões por mim, Donna. Nunca mais faça isso. – Diana a censurou e respirou fundo, não iria brigar com a irmã, especialmente porque seu fim de semana fora incrível. ― Sorte a sua que meu ‘cativeiro’ era um verdadeiro paraíso.

O sorriso da caçula se ampliou. Via um brilho no olhar da irmã que há tempos não notava e sabia que o mérito disso não era apenas do local escolhido por Bruce para passarem o fim de semana.

― Eu te conheço bem, Di. Sabia que iria gostar. E também confio em Bruce, por isso o ajudei. – Os olhos da mais jovem brilharam. ― Você está diferente. Parece mais viva. Estão namorando, não estão? – Donna reuniu todas as suas expectativas para um sim, mas vendo Diana ficar séria e voltando o olhar para as roupas na mala, murchou.

― As coisas não são tão simples, Donna. Um fim de semana maravilhoso não facilita o resto das nossas vidas. – Diana divagou e Donna foi da decepção à fúria em um piscar de olhos.

― O que há de tão complicado em amar e ser amada? – Ela bufou quando Diana respirou fundo, pronta para contra-argumentar. ― Não venha me falar de traumas, de fracassos e afins. Do seu pragmatismo e do meu idealismo. – Donna conhecia o discurso da irmã decorado.

― Você é jovem demais para entender. – Diana limitou-se a dizer, acariciando o rosto da mais jovem.

― Você é que é cabeça dura demais para entender, Di. A vida é feita de oportunidades. – Donna cruzou os braços sobre o peito, seria mais fácil convencer uma porta com palavras. ― Você não tem um bom histórico de relacionamentos, é verdade. Sofre por Bruce ser policial, já que culpa a profissão pela morte da mamãe. Mas quer saber? A mamãe não estaria feliz se a visse fugir de sua felicidade assim. Para ser honesta, ela estaria envergonhada da sua covardia.

As palavras foram como uma adaga certeira em Diana. Certamente Donna não sabia das suspeitas de Bruce quanto a morte da mãe, ela pensou, do contrário não teria tocado no assunto. Porém, não seria Diana quem lhe contaria agora.

Diana simplesmente calou-se, saboreando o gosto amargo da dor e remoendo o impacto da verdade. Realmente, Hipólita sempre sonhou com a felicidade das filhas. Embora tivesse sofrido a maior desilusão de sua vida com o pai de Diana, tivesse jurado nunca mais se apaixonar, teve sua vida transformada quando conheceu o pai de Donna.

Diana tinha de admitir que recomeços são possíveis e trazem coisas boas para aqueles que aproveitam o sorriso que a oportunidade lhes dedica. Sua mãe fora feliz e se não tivesse se apaixonado de novo, Diana não teria Donna em sua vida, ela refletiu, encarando a irmã.

Tinha de admitir também que sua irmã tinha razão. Sua mãe as ensinou a serem independentes, não infelizes.

Com o olhar irritado, Donna queria se desculpar quando viu o olhar triste da irmã, perdida em pensamentos, porém não estava arrependida do que havia dito. Sua irmã precisava reagir e às vezes isso só acontecia de modo brusco.

Diana não respondeu à irmã, não tinha argumentos para contestá-la. Voltou-se para o que fazia antes, remexendo nas peças de roupas que ainda estavam na mala. Não estava no clima para discussão ou disposta a admitir que Donna tinha razão, em parte. Todavia, queria quebrar aquele clima tenso entre elas. Estavam há dias sem se ver e em menos de cinco minutos conseguiram criar uma rusga.

Donna estava prestes a deixar o quarto, frustrada, quando Diana chamou sua atenção.

― Por acaso, a mamãe estaria feliz se descobrisse que a caçulinha dela cresceu tão ousada? – Diana se recuperou, mudando de assunto e erguendo com as mãos uma das lingeries escolhidas por Donna para compor sua mala.

Donna interrompeu seu trajeto para deixar o quarto e abriu um sorriso travesso, desfazendo-se da carranca que ostentava para a irmã e sua teimosia. Ainda estava brava com a irmã, mas também não queria manter o clima conflituoso.

― Eu espero que, pelo menos, não tenha gastado minhas economias em vão. – Donna comentou, sabendo que Diana não lhe contaria, não ainda, se sua ousadia surtira efeito. Mas ela podia apostar que sim.

Embora soubesse que a irmã estava fugindo do assunto que conversavam, tentando descontrair, ainda havia uma cobrança de explicações em seu olhar, típica de irmã mais velha e super protetora.

― Por que essa cara de espanto? Eu não sou mais criança, Di. E jamais embalaria aquele pijama azul surrado que você usa. – Ela se justificou.

― Tem alguma novidade sobre você que não tenha me contado? – Diana parecia uma mãe preocupada quando Donna esboçou um sorriso sugestivo. ― Você é maior de idade, mas...

― Acalme-se, Di. Sua irmãzinha não anda se desvirtuando. Mas isso não impede que eu tenha bom gosto para lingeries. – Donna deu-lhe uma piscadela e pegou um corpete preto em mãos, avaliando a delicadeza da renda em sua estrutura. ― Queria dizer que escolhi tudo sozinha, mas a Kori, aquela minha amiga que é modelo da Victória Secret’s, me ajudou bastante.

Diana repassou o ciclo de amigos da irmã em mente e lembrou-se da ruiva, alta e bronzeada, estonteante, que vez ou outra frequentava sua casa. Podia parecer superproteção de sua parte, mas saber que sua irmã não andava praticando certas ousadias, ainda, lhe deixava aliviada. Esperava que Donna tivesse mais sorte do que ela quando conhecesse seu primeiro amor.

― Obrigada! – Diana murmurou, estendendo a mão para que Donna segurasse.

O agradecimento não era apenas pela lingerie, Donna era esperta o bastante para perceber.

Mais calma, ela sentou-se novamente na cama da irmã, permanecendo de mãos dadas com ela. Não iria confronta-la, nem lhe dar conselhos, embora a vontade fosse gritante dentro de si. Diana ainda tinha jeito, podia ver nos olhos dela. Por hora, bastava que ela lhe transmitisse apoio e cumplicidade, e lhe convencesse de que apenas torcia para o seu bem.

***

John Stewart transpirava em demasia, sentado em uma cadeira fria e dura na sala de interrogatório, sob o olhar penetrante da detetive Lance. Podia sentir um fio de suor percorrendo sua espinha e não era pela falta de ar condicionado na sala.

Ele ficara momentaneamente feliz quando descobriu que seria inquirido pela loira, ao invés do seu parceiro, não simpatiza com o detetive Wayne. Mas bastou o interrogatório começar para ele perceber que debaixo da aura de candura e do olhar dócil da loira, havia uma ave de rapina, com perguntas incisivas e escrutínios detalhados de sua reação, elevando seu nervosismo por ser cotado como suspeito.

O interrogatório estava em curso a cerca de vinte minutos, mas parecia que estava ali há horas.

― Quer dizer que se recusou a dirigir Diana na outra emissora porque não acreditava no potencial dela? – Dinah repassou as respostas já obtidas e John assentiu com a cabeça. ― Mesmo sabendo que isso custaria seu emprego, deixou a prepotência tomar voz? – Ele assentiu novamente, sentindo a garganta secar. ― No seu currículo diz que foi contratado pela Planet logo que foi demitido da emissora em Chicago. Era diretor de um programa matinal, mas fez questão de dirigir Diana Prince quando ela ganhou o Talk Show na Planet.

― Eu sempre fui orgulhoso, mas não era idiota. Percebi que tinha sido injusto com Diana. Que ela tinha talento de sobra. Nós conversamos e eu me desculpei quando Clark a contratou, ela pode confirmar isso. – Faltava firmeza nas palavras de John, mas ele não parecia estar mentindo. ― Eu sabia que o programa de Diana seria um sucesso, quis me retratar e ter meu nome associado ao programa cotado para maior audiência no horário. – O olhar duvidoso de Dinah o deixava apreensivo. ― Isso é crime?

A detetive Lance levantou-se graciosamente, dando um sorriso quase cordial, antes de apoiar-se sobre a borda da mesa e encarar profundamente os olhos de John.

― Eu faço as perguntas, senhor Stewart. – Ela cruzou os braços e deu um sorriso feroz, desconcertando o suspeito. Por dentro, ela se divertia, amava seu trabalho. ― Acho muito suspeito seu arrependimento, mesmo que haja ambição incutida nele. O senhor foi bastante contestado pela imprensa, pra não dizer ridicularizado, quando competiu com Diana Prince na outra emissora.

― Eu já disse que foi uma estupidez. Julguei que Diana não passaria de um rosto bonito na TV, mas estava enganado.

― Certo. – Dinah caminhou pela sala. O ritmo dos saltos das botas ecoando no piso, acelerava o coração do interrogado. ― E depois resolveu apostar tão alto nela, que fez questão que sua agora noiva, Shayera Hall, virasse telefonista na emissora? – A sobrancelha perfeita arqueou-se, quando encarou John novamente. ― Por que exigiu que Shayera fosse a telefonista, sendo que, com sua influência, poderia conseguir um cargo melhor para ela? Por que também não apresentou as experiências profissionais de sua noiva ao RH da emissora?

John perdeu a fala.

(...)

Na sala ao lado, Bruce tinha uma visão de uma ruiva irritada e arredia. Ela respondia às perguntas com má vontade e era claramente avessa à sua pessoa. Ele apreciava interrogatórios tensos e interrogados petulantes. O nervosismo sempre abria brechas para que os suspeitos caíssem em contradição.

Shayera Hall era eficiente em disfarçar seu nervosismo, ele tinha que admitir. O olhar era altivo, a respiração regular, mas ela estava começando a se cansar de manter-se tão centrada, especialmente porque Bruce fazia questão de repassar os questionamentos e avaliar as respostas por repetidas vezes.

― Ainda não explicou como o perseguidor consegue sempre ter sua ligação ativa, sendo que milhares de pessoas ligam para falar com Diana após o programa. – Ele recostou-se na cadeira de acolchoado deteriorado, fazendo-a ranger quando inclinou-a para trás.

― Existe um ramal especial, para uso interno, além da linha criada para atender aos fãs. – Shayera repetiu a explicação, ela sabia que Bruce esperava que ela se confundisse ou perdesse a firmeza em suas afirmações. ― No início não havia notado que a pessoa estava usando essa linha, são botões demais para manusear. Mas a linha especial sempre fica ativa e é de atendimento prioritário. O perseguidor a utiliza, no horário certo, por isso consegue falar com Diana quase todas as noites.

― E porque não nos informou que a ligação era dessa linha especial quando se deu conta? Não é amiga de Diana? – A ironia foi venenosa e Shayera respirou fundo para não cravar suas unhas na face arrogante do detetive.

― Eu só percebi isso recentemente, não pensei que faria diferença mencionar. O foco era descobrir o autor das ligações, não? Pensei que o rastreamento que estavam fazendo fosse o suficiente.

― Uma linha restrita não faria diferença? – Ele conteve a irritação. ― Isso reduz, e muito, nossos suspeitos. – Bruce rabiscou qualquer coisa no bloco de anotações. ― Quem da emissora utiliza esse ramal? Alguém fora da emissora possui esse número?

― Que eu saiba, o alto escalão da produção sabe sobre essa linha. A irmã de Diana a utiliza sempre que quer falar com ela, e Diana também passou para alguns fãs e amigos.

Bruce praguejou mentalmente. Embora seu feeling dissesse que o seu suspeito estava num círculo muito próximo de Diana, se o que a ruiva dizia sobre Diana ter divulgado o número para fãs fosse verdade, isso tornava seu raio de investigação novamente imenso. Obviamente, algum fã poderia ter compartilhado com um amigo, que compartilhou com outro e mais outro, gerando uma progressão geométrica.

― Por que aceitou ser telefonista, sendo noiva do diretor do programa? – Ele mudou um pouco o foco das perguntas. ― Poderia ter obtido um cargo melhor com o prestígio do senhor Stewart.

­― Não sou ambiciosa, detetive. – Ela respirou fundo, cansada. ― O horário de trabalho é ótimo, o salário nem se fala. Além disso, telefonista é minha única experiência profissional que se adequava para assumir um cargo na emissora.

― Compreendo. – Bruce franziu o cenho. ― Mas, então, por que não informar as referências profissionais no currículo de ingresso na emissora?

Os olhos verdes estalaram. John teria que perdoa-la, mas não guardaria mais esse segredo.

(...)

― Eu nunca tinha feito isso antes. Foi mais curiosidade do que carência. Mas quando ouvi a voz de Shayera, eu não resisti, eu tive que ligar outras vezes. – Dinah conteve o riso. ― Eu me apaixonei pela voz, não foram as fantasias em si. Eu quis conhecê-la, depois de muita insistência, ela aceitou. Eu me apaixonei, não queria que ela continuasse fazendo aquilo. Também não era o emprego dos sonhos para ela, por isso ela concordou em se demitir quando começamos a namorar.

― Então a senhorita Hall era uma habilidosa atendente de tele-sexo e o senhor seu ‘cliente’? – Dinah fez aspas com os dedos no ar.

― Eu não era cliente, eu liguei uma vez por curiosidade. Eu fiquei fascinado pela voz dela, já disse. Também não vou negar que ela era boa no que fazia. – Ele sentiu a face queimar de constrangimento. ― Em provocar fantasias com as palavras.

Dinah trocou um rápido olhar com o escrevente, que também segurava o riso. Todos os detalhes deviam ser relatados no depoimento.

― Tem vergonha do passado da sua noiva? – Ela pigarreou, tentando recobrar a seriedade. ― Foi por isso que omitiu a experiência profissional no ato do contrato com a Planet?

― Não é isso. – John limpou o suor que escorria em sua testa. ― É que as pessoas não entenderiam. – Era sua reputação em jogo. Ele poderia ser taxado de compulsivo, tarado, pervertido se as pessoas soubessem como conheceu sua noiva. E não era mentira que havia sido a primeira vez que ligou para um tele sexo, quando um amigo lhe deu um cartão. ― Isso poderia gerar comentários. Posso ver que está tendo pensamentos equivocados ao meu respeito.

― Não me preocupo com a sua vida particular, senhor Stewart, apenas preciso que tudo seja esclarecido. – Dinah foi sincera, embora estivesse se divertindo absurdamente ao imaginar um caso de amor nascido de fantasias lascivas, onde apenas as vozes e a imaginação marcavam presença.

(...)

― Atendente de tele-sexo? – Bruce se manteve impassível. ― Interessante.

Bruce leu rapidamente sobre como funcionava a empresa em que Shayera trabalhava. As atendentes tinham turnos alternados. Shayera trabalhava de madrugada. Os clientes ligavam, escolhiam um perfil (cor, altura, idade, tipo físico...) e eram transferidos para as garotas que atendiam seus requisitos. Daí em diante, as atendentes usavam a criatividade e a imaginação para provocar fantasias em seus clientes pelo tempo que eles haviam pagado, podendo ser de cinco a trinta minutos.

― Não é interessante. – Shayera elevou o tom de voz. ― É uma profissão que pagava bem por minuto e eu era alguém que precisava de grana pra me manter. Foi uma fase difícil. – Ela lembrou-se do desemprego e das contas que chegavam sem parar. ― Minha sorte foi ter conhecido John enquanto trabalhava nisso.

Shayera relaxou ao rememorar a primeira vez que atendera a ligação de John. Ele nunca havia ligado antes. Ele não sabia o que pedir, o que queria, era de fato um curioso. Eles conversaram um pouco, Shayera perguntou sobre suas preferências e lhe proporcionou uma viagem de fantasias calientes por telefone. Por algum motivo especial, ele gostou da voz dela. Passou a ligar diariamente para conversarem, nem sempre sobre sexo. Ficaram um mês se falando, até ter coragem de conhecê-lo pessoalmente. Foi amor ao primeiro gemido, ela costumava brincar com o noivo na intimidade.

― Providencial, não acha? – Bruce era cético demais para acreditar no amor em tais circunstâncias, mesmo estando apaixonado.

― Não sou obrigada a lidar com suas insinuações, detetive.

― Não é uma insinuação, é uma constatação. – Bruce frisou.

― Acho que já contribuí o suficiente para o caso. Já expliquei sobre a linha telefônica, já expliquei porque minha experiência profissional não foi mencionada. John tinha medo que eu sofresse algum tipo de preconceito e que as pessoas não acreditassem que ele não era cliente assíduo desse tipo de atendimento. Honestamente, nada disso me importava. Mas eu o amo, quis respeitar a decisão dele.

Bruce não se dignou a contra argumentar e nem a fazer mais perguntas. Estava satisfeito, por hora. Com um aceno de cabeça, fez sinal para que o escrevente imprimisse o depoimento.

― Já tenho o bastante, por enquanto, senhorita Hall. Qualquer dúvida, volto a convocá-la. – Ele passou o depoimento para que ela assinasse e Shayera o fez, com tanta fúria que quase poderia rasgar o papel ao pressionar a caneta no lugar destinado à assinatura.

Sem perca de tempo, a ruiva levantou-se, ajustou a alça da bolsa sobre o ombro e saiu o mais rápido que pode da sala. No corredor, encontrou John, ainda transpirando e com o olhar desolado. Eles trocaram um olhar de cumplicidade e, embora quisessem evitar ao máximo essa exposição, estavam, no mínimo, aliviados que as revelações que fizeram os livrariam de qualquer suspeita. Pelo menos era o que esperavam.

Dinah observou o casal deixar a delegacia de braços dados e cruzou o corredor com o depoimento em mãos, encontrando Bruce que deixava a sala de interrogatórios. Embora Bruce não demonstrasse divertimento no olhar, ela sabia que ele tinha ouvido a mesma história que ela.

― Acha que minha voz é boa para atendente? – Ela brincou. ― Bem, talvez seja minha chance de encontrar um amor.

― Esqueça contos de fadas eróticos, Lance. Precisamos trabalhar. – Bruce juntou o depoimento obtido pela parceira com o que tinha em mãos e caminharam juntos para sua sala, tinham muito o que analisar ao longo da tarde.

(...)

Era cerca de três horas da tarde e Diana estava impressionada como o tempo passava devagar quando não se tinha nada de útil para fazer. Em Washington, com Bruce, o tempo fora muito bem aproveitado, mas em casa, só conseguia andar de um lado para o outro, inquieta.

Sair da rotina estava lhe deixando entediada, fazia anos que não tirava férias ou uma folga prolongada. Aos domingos passava o tempo dormindo ou assistindo séries, mas não se via fazendo isso em uma segunda-feira. Olhando o jardim pela varanda do quarto, resolveu descer e trabalhar no canteiro de flores que plantara alguns dias atrás. As flores haviam sido presente de um fã, belas e aromáticas gardênias.

Usando uma jardineira jeans, sobre uma blusa preta que ganhara em um merchandising, prendeu os cabelos em um rabo de cavalo e separou os utensílios de jardinagem na garagem, rumando para a área externa. O horário não era o mais apropriado para tal atividade, mas ela pensou que não faria mal mexer um pouco na terra e regar as plantas.

O jardim ficaria muito bonito se ela se dedicasse com afinco a ele, ela avaliou o espaço, percebendo que a grama já começava a ficar alta. Planejou mentalmente um canteiro de rosas e outro para crisântemos e margaridas, queria um colorido harmonioso e atraente.

Distraída, com uma pá de jardinagem em mãos, cavando no entorno do canteiro das gardênias para fertilizar o solo com adubo orgânico, ela não notou quando alguém se aproximou, lentamente, parando para observá-la. Apenas quando o sol despontou detrás de uma nuvem e revelou uma sombra ao seu lado, ela percebeu que não estava sozinha, virando-se, sobressaltada, para ver quem era.

O coração de Diana veio a boca, quando os olhos percorreram a estrutura corporal masculina, a um metro de distância, e ela suspirou, aliviada, quando se deu conta de que era um rosto conhecido.

Levantando-se com dificuldade, ela levou uma das mãos suja de terra ao peito, e limpou o suor em sua testa com as costas da outra mão.

― Quer me matar do coração, Wally? – Ela o repreendeu, surpresa por ver o estagiário em sua casa naquele horário. Aliás, ele nunca havia ido em sua casa antes. ― Aconteceu alguma coisa? – Ela perguntou, notando o semblante sério e o olhar ressentido do rapaz. Muito diferente da feição gentil que ele costumava ostentar.

Ele a encarou, tentando controlar a mágoa, remoendo a raiva e a frustração que fluía em suas veias.

― Sabe de onde estou vindo? – Ele a questionou, sua voz era ríspida. ― Da delegacia. Suspeito de estar perseguindo você. – Havia acusação no olhar de Wally e Diana não sabia exatamente como reagir.

― Eu sinto muito, Wally. Eu não suspeito de você, não mesmo. – Ela garantiu, tentando tocar seu ombro, mas ele se afastou.

― É claro que não. – Ele concordou, mas não havia compreensão em suas palavras. ― Você sequer me nota. Como poderia suspeitar de mim?

Diana ficou boquiaberta, atordoada com aquele comentário. Um choque percorreu o seu corpo e sentiu-se mal pelo rapaz.

― Você está enganado, Wally. Eu presto atenção em você. É um garoto promissor, será um excelente roteirista.

― Um garoto. – Ele deu um sorriso cruel pra si mesmo. ― Só um garoto. – Ele bufou, enfiando as mãos no bolso. Diana o fitava incrédula com aquelas reações. ― Bastou esse detetive aparecer e você voltou toda sua atenção pra ele. Está saindo com ele, dormindo com ele. E eu fiz papel de idiota esse tempo todo.

― Wally! – Diana estava chocada. Nunca acreditou que o jovem ruivo fosse realmente apaixonado por ela, apenas acreditou que ele gostava de ser gentil, que lhe fazia agrados por conta do estágio. ― Você não tem nada a ver com a minha vida pessoal e eu nunca percebi seus sentimentos antes. Você confundiu as coisas em algum momento.

Wally deu-lhe as costas. Precipitara-se ao ir até ali. Não era o momento.

― Não importa. Só vim até aqui para lhe dizer que não vou mais fazer papel de idiota.

Sem mais explicações, o jovem caminhou a passos largos pelo jardim e subiu na bicicleta que deixara do outro lado da rua, desaparecendo da vista de Diana antes que ela fosse capaz de reagir.

Sentindo a cabeça latejar, ela soltou a pá que estava em suas mãos e prostrou-se de joelhos sobre a grama, perplexa. Não entendia como poderia ter sido tão relapsa em não perceber o que Wally sentia.

Contudo, uma preocupação maior ganhava força dentro de si. A reação do jovem estagiário teria sido motivada pelo orgulho ferido e pela revolta em ter sido intimado para depor? Ou ele estaria emocionalmente instável por se sentir acuado?

Sem sombra de dúvidas, eram perguntas que apenas Bruce poderia responder. Reunindo forças, caminhou para dentro de casa, temerosa e fragilizada, para ligar para o detetive, desejando que tudo isso não passasse de um estranho engano.

Notas finais
Continua!