Backfire
1 Prólogo
Notas iniciais
Prólogo — 1999
A escuridão me assustava. O espaço em que eu estava era minúsculo e frio, e eu estava sozinha. Eu não conseguia lembrar de nada, muito menos do que me trouxera até aqui. Eu estava no quarto do orfanato, como eu havia parar aqui?
- Olá? – Chamei, me levantando devagar e tocando as paredes do local. Eram viscosas, mas estava muito escuro para eu poder vê-las – Alguém aí?
A porta se abriu e eu me encolhi na parede ao ver a pessoa que havia entrado. Ele usava uma máscara de urso, pelo que eu pude ver pela claridade da porta aberta. Minha mente trabalhou rápido. Aproximadamente um metro e oitenta, forte, provavelmente malhava todo dia. Mancava levemente, provavelmente havia quebrado um osso da perna algum tempo atrás, alguns anos pelo jeito que mancava. Eu não teria chances contra ele, com meu um metro e cinqüenta e nove e minha aparência franzina.
Ele estava com uma bandeja nas mãos, e colocou-a na minha frente sem dizer uma palavra. Ele se dirigiu até a porta, e antes que ela fechasse, pude ver um rato sair de um buraco mínimo na parede e se acomodar no prato de comida.
Soltei um grito de frustração antes que pudesse me conter. Me encostei mais na parede, deixando meu corpo escorregar até o chão frio. O que eu havia feito para ir para aquele lugar? Eu era uma boa garota, não era? Havia chegado ainda bebê no orfanato e doze anos depois, as freiras ainda diziam que eu não dava trabalho algum. Por que eu estava ali? Teriam sido elas?
Olhei com nojo para o esboço da bandeja, sentindo que minha vista começava a se acostumar com a escuridão. O lugar era tão pequeno que se eu ficasse no exato meio dele e esticasse os braços, podia tocar nas duas extremidades das paredes.
Pelo que pude contar, dois dias se passaram e aquilo continuava. Pareceram dois, pois quando o carcereiro veio pela primeira vez, pude ver a fraca luz do sol no reflexo do chão. Da segunda vez, a luz já era mais pálida, como a luz da lua. Provavelmente o local ficava em um corredor com uma grande janela, ou ao ar livre. As duas opções eram plausíveis. Aquele ritual se repetira duas vezes, por isso dois dias.
Só uma vez o carcereiro havia aparecido para algo que não era colocar comida.
Havia sido alguns minutos atrás, para jogar um balde de água gelada em mim, provavelmente por causa do cheiro. Eu ainda tremia de frio, mas minha mente estava agitada, tentando descobrir um meio de sair dali.
Me levantei devagar, indo até a porta e tateando-a. A fechadura era externa, provavelmente com um sistema de senha e uma alavanca. O que significava que mesmo que eu conseguisse de algum modo abrir a caixa altamente parafusada que protegia os fios do lado de dentro, não conseguiria sair por causa da alavanca do lado de fora. Maravilha. Não só me queriam aqui, queriam se certificar de que eu ficaria ali. Mas por que? Eu era só uma órfã de doze anos! Por que eu estava ali?
Sim, eu sabia que havia algo diferente em mim. Eu não era tola. As freiras de vez em quando davam enigmas para as crianças resolverem, e eu geralmente resolvia o meu em pouco mais de um minuto, enquanto as outras crianças normalmente levavam dez ou vinte, dependendo do dia e da hora. Mas aquilo não era motivo para prender uma pessoa daquele jeito, não é?
Meus olhos se encheram de lágrimas e eu chutei aquela droga de bandeja. Não estava com fome, não mesmo. Tinha de arranjar um meio de sair dali.
Da próxima vez que o carcereiro veio trazer comida, me escondi atrás da porta com a bandeja na mão. Ela se abriu lentamente, e antes que eu pudesse bater na cabeça do homem, um choque invadiu meu corpo, me fazendo gritar e cair inerte no chão. O fio do taser pôde ser visto pendendo da minha barriga enquanto eu respirava ofegantemente. Meus olhos arregalados observaram enquanto o homem pegava a bandeja que eu havia tentado usar.
Uma pancada violenta na cabeça. E eu me rendi à inconsciência.
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