Backfire

2 I - Such A Beautiful Lie To Believe In


Quando abri os olhos, gemi pela dor em minha cabeça. Toquei-a e senti uma casca esquisita, uma crosta. Peguei o copo de algo líquido que havia sobrado da última refeição e molhei minha mão, esfregando aquela crosta e indo até a mínima claridade da parte de baixo da porta.

Era o que eu pensava. Sangue. A pancada realmente havia sido violenta, tão violenta que eu ainda me sentia tonta.

Peguei o copo e derramei no meu couro cabeludo, esfregando-o lentamente e mordendo o lábio para tentar controlar a dor. O cheiro de sangue invadiu meu nariz e meu estômago reclamou. Me segurei para não vomitar enquanto rasgava um pedaço da minha roupa encardida e fazia uma bandagem improvisada.

O homem com máscara de urso não apareceu com comida ou água pelo que me pareceram quatro dias, e eu já estava no auge da desidratação. Minha boca estava seca e minha língua áspera, e eu não tinha forças nem para levantar um braço. Não urinava mais. Meu corpo já estava economizando água.

Mal pude registrar quando a porta se abriu e alguém se agachou na minha frente com algo nas mãos.

Uma superfície gelada tocou meus lábios, e logo em seguida, senti-os úmidos. Meu corpo reagiu imediatamente, e forcei meus lábios contra o copo enquanto bebia a água.

O carcereiro, agora um com máscara de lobo, me fez beber três copos cheios de água. Pude ver em seguida que ele estava com uma pequena tigela nas mãos, com algo que cheirava a gengibre.

Ele me fez comer, e era uma espécie de arroz com molho de gengibre.

Gengibre acalmava o estômago. Eu estava sem comer há aproximadamente quatro dias. Era algo que me daria forças, mas que era leve para meu estômago não rejeitar.

Queriam me manter viva.

Mas para quê?

Era isso que eu não entendia.

Eu não tinha nenhuma informação, não tinha dinheiro, não era nada. Por que eu estava ali?

Alguns momentos depois, o carcereiro voltou para o “banho” do dia. Jogou seu balde de água gelada em mim e foi embora.

Eu já havia tentado falar com os prováveis dois carcereiros que me visitavam diariamente, mas nenhum dos dois esboçavam sequer um único som. Aquilo me deixava frustrada. Um maldito som, era tudo que eu precisava.

Para tentar não enlouquecer, eu cantava. O som da minha própria voz se tornou um calmante natural para mim, já que nem do lado de fora do local eu escutava algum som humano. Então eu simplesmente fechava os olhos e cantava tudo que eu conhecia. Minha voz começou horrivelmente estridente e desafinada, mas aos poucos fui me policiando e fazendo o que podia para deixá-la mais suave. Não podia dizer que era um rouxinol, mas com um pouco de prática e treino, eu até que não seria tão ruim.

Um ano depois

Eu não sabia que dia era hoje. Não sabia se era manhã, tarde ou noite, ou em que mês estávamos. Simplesmente não me importava mais. Eu não me preocupava em comer se eles não viessem praticamente dar na minha boca, o que me acarretou a perda de uns bons quilos. Eu simplesmente havia desistido. Eu não iria sair dali, aquilo era um fato. Então para que lutar?

Eu já havia tentado fugir de todas as maneiras possíveis. Todas haviam falhado, era como se eles pudessem prever perfeitamente minhas ações, meu modo de pensar. Aquilo era o que mais me irritava.

Alguns meses atrás, eu havia descoberto uma câmera no canto superior da cela, bem camuflada, de forma que só pude vê-la na claridade da porta quando foi aberta. Algum maníaco estava me observando.

Fiz alguns cálculos rápidos. Provavelmente meu aniversário já havia passado. Eu já tinha treze anos. E havia passado-o em uma cela coberta da minha própria urina.

Não chorei. Não conseguia mais. O ódio que eu sentia era maior do que qualquer emoção. Queria matar quem havia feito aquilo comigo.

Enquanto eu divagava sobre meu ódio, escutei uma movimentação do lado de fora da cela, o que chamou minha atenção. Eram... Tiros? Seria a polícia?

Me levantei depressa, colando o corpo na parede enquanto ouvia a agitação lá fora. Alguns gritos, baques, mais tiros. E depois, apenas o silêncio.

Esperei. Cinco minutos. Dez. Uma eternidade, até que a porta que me mantinha presa se abriu lentamente.

Um homem jovem, na casa dos vinte provavelmente, entrou com um sorrisinho no rosto e as mãos atrás das costas.

Observei-o por alguns segundos, tentando tirar o que podia dele. Pouquíssimas coisas vieram, se não nada, e aquilo foi o que me intrigou. Baixei a guarda por apenas alguns segundos, e os olhos dele brilharam levemente. Havia algo neles, uma presença, uma força.

– Quem é você? – Perguntei, ainda reservada.

Ele não respondeu de imediato, apenas olhou para a cela e assobiou lenta e agudamente.

– Minha nossa. Você esteve mesmo no inferno, não é? – Ele perguntou, e sua voz era... Controlada e estranhamente afetada, mas era uma voz que me passava confiança – Não se preocupe, você está salva agora. Vou te tirar daqui, é só vir comigo.

Eu franzi a testa, sem parar de encará-lo. A voz dele era como música para meus ouvidos, talvez por eu ter passado tanto tempo sem escutar alguma voz que não fosse a minha própria. Mas e se fosse um truque? Por que aquele homem me ajudaria?

– Não se preocupe, Aimee. Eu vou te tirar daqui – Ele insistiu, e franzi a testa.

– Como sabe o meu nome? – Perguntei.

Ele sorriu, um sorriso doce e ao mesmo tempo afiado.

– Você tem sido muito procurada. Todo mundo estava à sua procura, sua bobinha. Agora vamos, vou te levar para um lugar seguro.

Percebi que ele estava com um cobertor nas mãos, e quando me aproximei, ele o colocou gentilmente nas minhas costas. Tentei sorrir, mas provavelmente havia saído algo parecido com uma careta.

Quando deixamos a cela, vi um dos carcereiros no chão. O de máscara de urso. Havia um buraco de bala no seu peito, do lado esquerdo, e pela forma que sangrava, provavelmente havia atingido o pulmão.

Foi nessa hora que vi vermelho.

Pulei no peito do homem, arrancando sua máscara. Era um homem relativamente normal, loiro, olhos azuis, na casa dos quarenta, corte de cabelo militar.

– QUEM FEZ ISSO COMIGO? – Gritei para ele. Ele não me respondeu, apenas continuou me encarando com o olhar gelado. Esbofeteei seu rosto – É MELHOR RESPONDER, NÃO ESTOU PARA BRINCADEIRAS!

Ele continuou me encarando, e eu levei meu dedo indicador ao buraco da bala, enfiando-o lá brutalmente e mexendo-o.

Ele gritou, e a decepção me tomou. Ele não ia me responder, nem agora, nem nunca.

Um bom pedaço da sua língua não existia mais, restando apenas um toco. Havia acontecido fazia algum tempo, provavelmente...

Um ano. O tempo que eu havia chegado ali.

O ódio que eu senti foi tão grande que eu gritei e esmurrei o buraco da bala com toda a força que me restava, fazendo o carcereiro gritar mais uma vez e descansar a cabeça. Morto.

Olhei em volta. Um corredor, várias celas, porão pelo que dava para perceber da altura da janela e do pouco que dava para ver lá de fora.

Quem havia me prendido ali definitivamente não queria que eu descobrisse tão facilmente. Maldição.

O cobertor voltou às minhas costas e eu me lembrei que estava acompanhada. Levantei a cabeça para o homem.

– Obrigada – Disse, apenas – Se você realmente me tirar daqui, estarei em dívida eterna com você.

Ele sorriu brevemente, aquele brilho estranho voltando ao seus olhos.

Ele estendeu sua mão, ainda mantendo uma atrás das costas num movimento cortês.

– James Moriarty.

Observei sua mão por alguns segundos.

– Estou suja...

– Bobagem – Ele puxou minha mão, segurando-a entre as suas. Eram bem cuidadas e cheiravam a hidratante, algo como macadâmia – Agora vamos lá, vamos sair desse lugar, vamos te dar um bom banho, ficar bonitinha.

– Como sei que isso não é um truque? E se você me levar para um lugar pior? – Contestei – Por que eu iria a algum lugar com alguém que acabei de conhecer depois de tudo que me aconteceu?

James Moriarty sorriu, o sorriso de alguém que parecia estar prestes a explicar algo complicado para uma criancinha.

Ele segurou meu rosto com as duas mãos, olhando fundo nos meus olhos.

– Bobinha. Porque eu sou o único que pode dar a vingança que você tanto deseja, é claro – Ele respondeu, e finalmente pude ver em suas orbes castanhas. Ele falava sério. Eu podia ver um fogo nos olhos dele, algo diferente, algo... Letal. Verdadeiramente letal. E pude ver o mesmo no sorriso que ele abriu em seguida.

Não pensei em nada melhor que retribuir aquele sorriso daquele homem tão jovem e tão intrigante. Eu sabia. Ele me ajudaria.

Ele me tirou daquele lugar horrível, me levando até um sedan preto.

– Pode me dizer que dia é hoje? – Perguntei a ele, que sentou-se ao meu lado. O interior do carro tinha um odor mentolado, e eu quase me senti mal por estar fedendo em um carro tão cheiroso.

– Um ano, dois meses e cinco dias – Ele respondeu, me fazendo franzir a testa.

– Perdão?

– Está se perguntando quanto tempo ficou presa, não é? Um ano, dois meses e cinco dias, marcados desde o dia de seu desaparecimento.

– Como você sabe o dia do meu desaparecimento?

– Eu era o principal colaborador do orfanato, duh. Sabia de tudo que estava ocorrendo ali. Quando uma das garotas mais brilhantes do lugar sumiu, me senti intimado a procurá-la. Você sabe que é diferente, Aimee. Existem pouquíssimas pessoas como você. Você é especial.

Senti meus olhos brilharem com suas últimas palavras, me sentindo logo em seguida patética por isso. Era verdade, eu tendia a ser arrogante pelo meu chamado “dom”, e aquelas situações só pioravam tudo.

James Moriarty me encarou por alguns segundos com um olhar afiado.

– Ser diferente hoje em dia é uma dádiva no meio de tanta gente ordinária – Sua voz soou brevemente amarga enquanto ele olhava pela janela do carro.

Observei-o por alguns segundos, e quando ele voltou a olhar para mim, eu sorri.

– Eu não poderia concordar mais.

Ele retribuiu o sorriso brevemente.

– Claro que você concorda. Você é inteligente.

Meu ego se inflou mais chegando a níveis perigosos. O carro parou e ele abriu a porta, anunciando nossa chegada.

Saí do carro, dando de cara com uma mansão enorme de visuais vitorianos, bastante elegante.

– Você mora aqui? – Perguntei, olhando em volta. Nos arredores de Londres, definitivamente.

– Moramos aqui – Ele respondeu, me fazendo franzir a testa. Tinha algo de errado, algo muito errado ali. Por que aquele homem tão rico e misterioso estaria tão interessado em me ajudar?

Ele percebeu minha hesitação e sorriu para mim, seus olhos novamente brilhando daquela forma. Ele veio até mim e acariciou meus cabelos de uma maneira tão suave que fez meus olhos se encherem de lágrimas. Fazia tempo que eu não era tocada daquela maneira. Aquilo encontrou o gelo no meu peito e derreteu pelo menos metade dele.

– Eu, por tê-la encontrado, fui designado para ser o seu tutor. Eu vou te ajudar, vou cuidar de você. Está tudo bem agora, Aimee. Não se preocupe – Ele disse enquanto me conduzia à entrada da propriedade.

A mansão era ainda maior por dentro. Tinha três andares, e os quartos ficavam no segundo.

James Moriarty me levou até um deles, abrindo a porta com um sorriso no rosto.

O quarto era enorme!

Tinha uma cama queensize com dossel, uma estante enorme cheia de livros. Um espaço com um sofá pequeno e um abajur para ler. Maravilhoso!

– Essa é a Agatha. Ela vai te ajudar. Te encontro daqui a uma hora lá embaixo para o jantar.

Olhei para a mulher, loira tingida, na casa dos cinqüenta. Podia ver as cicatrizes debaixo de suas orelhas, o que implicava que ela já havia feito pelo menos uma plástica. Usava um batom vermelho forte e seus olhos cinzentos estavam perfeitamente delineados.

Me virei para James para agradecer, mas ele já havia saído. Ergui as sobrancelhas e voltei a fitar a tal Agatha, que sorria.

– Então, querida. Podemos? – Ela perguntou. Sotaque americano? Interessante.

Segui-a para o interior do quarto, indo até a suíte. Meus olhos se arregalaram levemente ao ver o tamanho da banheira de mármore negro que me aguardava, acho que davam umas três de mim dentro dela.

Agatha começou a preparar o banho. Sais, alguns líquidos e mais, e a espuma adquiriu uma consistência de chantilly.

Ia pedir para ela se retirar, mas ela fez isso antes, dizendo que estaria do lado de fora e que se precisasse, era só chamar. Agradeci mentalmente e deixei o cobertor cair no chão de cerâmica creme, logo em seguida fazendo o mesmo com a minha roupa. Ou o que restara dela.

Me olhei no espelho e soltei um suspiro alto. Eu era só pele e osso, mais que o normal. Minha pele morena clara estava maltratada, meus cabelos castanhos escuros sem vida e opacos. Meus olhos da mesma cor estavam do mesmo jeito. Eu já era magra demais antes, mas agora estava praticamente anoréxica.

Tapei meus seios e minha vagina com um olhar triste e derrotado. Odiava aquilo.

Fui até a banheira e, cautelosamente, enfiei um pé dentro do mundo de espuma e cheiros de especiarias.

A água estava morna, quase quente, o que praticamente me fez jogar a cabeça para trás e gemer de prazer. Que saudade!

Entrei dentro da banheira com tudo, enfiando a cabeça debaixo da água e ficando lá o máximo do que podia.

Emergi com um sorriso no rosto, a felicidade me tomando pela primeira vez em muito tempo. Era isso? Eu estava mesmo livre? E havia sido “adotada”? Era isso mesmo?

Batidas na porta. Agatha pede para entrar e eu permito. Ela sorri ao me ver com um sorriso no rosto.

A meia hora seguinte foi resumida em produtos para cabelo e pele, corte de unhas, um vestido novo. Eu estava sendo tratada como uma princesa.

Ao término dessa seção de embelezamento, me olhei no espelho novamente. Minha nossa! Nem parecia comigo. Minha pele agora estava limpa e com um brilho saudável. Meu cabelo cheirava a baunilha e estava menos ruim do que antes. O vestido que eu usava me engordava um pouco, me ajudando a ter uma aparência mais saudável.

– Agora, querida. Pro jantar – Ela disse, me fazendo concordar com a cabeça e segui-la até a enorme sala de jantar, aonde tocava música clássica em algum lugar.

– Sonata ao luar. Beethoven – Falei, adentrando a sala. James Moriarty sorriu com aprovação, apontando a cadeira ao lado dele na mesa de doze lugares.

Sentei, observando-o. Usava um outro terno agora, e cheirava a sabonete caro. Seus cabelos molhados, além do cheiro, é claro, denunciavam o banho recém-tomado.

– Mr. Moriarty...

– Ah, não. Por favor, Jim. Mr. Moriarty me faz soar tão velho... – Ele disse enquanto abria o guardanapo.

– Jim – Repeti, sorrindo levemente – Eu agradeço tudo o que você fez até agora, de verdade. Não quero parecer mal agradecida nem nada, mas só estou me perguntando... Por que eu?

Ele havia parado de mexer no guardanapo para prestar atenção em mim.

– Achei que já tinha deixado isso claro.

– Sim, minha mente é diferente, meu raciocínio é superior a de pessoas normais. Sou dedutiva, presto atenção no que ninguém presta. Mas a questão é, pra que você precisa de alguém como eu, Jim? – Perguntei enquanto apoiava o maxilar nas mãos – Pelo que eu pude notar, você é tão inteligente quanto eu, talvez até mais. Não seria sexo, não, com certeza. Ande, me conte uma boa história.

Ele me observava com um sorriso irônico no rosto.

– E como sabe que não é sexo?

– Não sou seu tipo – Respondi com uma piscadela – E você não é esse tipo de homem também.

Ele deu uma risada satisfeita.

– Você é exatamente quem eu estava procurando – Ele disse ainda com um sorriso mínimo no rosto.

Aproximei mais meu rosto do dele com um sorriso no canto dos lábios.

– Eu sou o que todos procuram, dear – Respondi apenas, voltando ao meu lugar.

Ele acenou satisfeito para o mordomo,ou seja lá quem fosse, e o homem fez o sinal. Algumas empregadas apareceram, colocando pratos em cima da mesa.

– A sopa para você – Ele disse, me servindo – Seu estômago tem que se acostumar com largas porções de comida outra vez. Vamos aos pouquinhos.

Concordei com a cabeça, me servindo de uma colherada da deliciosa sopa.

Jim comeu uma garfada de seu prato e limpou os lábios no guardanapo antes de prosseguir.

– Aimee, sua mente tem que ser treinada. Sim, você é boa. Muito boa. Mas tem potencial para ser ainda melhor. Tem potencial para ser mais que genial, para ser perfeita. Eu posso te proporcionar isso. E quanto ao que eu vou ganhar? Eu fiz minha pesquisa. Fiz meu dever de casa. Tenho motivos pessoais que me fazem odiar quem eu penso que fez isso com você. Se apenas eu agisse contra essas pessoas, seria muito bom. Mas com você... Poderá ser épico – Seus olhos brilharam e ele sorriu – Mas eu entendo. Você é só uma criança. Se não quiser ter parte em nada disso, ainda poderá ficar aqui, claro. Ou ainda se desejar, pode voltar para o orfanato...

– Não sou uma criança, Jim. E quero descobrir quem fez isso comigo, e por quê. É meu direito. Quem fez isso comigo tem que pagar, de um jeito ou de outro. E eu quero saber quem foi – Falei, sentindo meus olhos queimarem.

Jim concordou com a cabeça.

– Você vai saber. Eu só quero ter certeza antes. Agora, Aimee, você tem que entender que vai ser treinada. Essa vingança não será imediata, pode durar meses, anos até você estar pronta. Você compreende isso? Está disposta a aceitar?

Pensei brevemente. Se eu aceitasse aquilo agora, poderia demorar, mas eu saberia quem havia feito isso e o porquê, além de ter o direito de me vingar. Se não aceitasse, podia ser que nem soubesse quem havia feito, e tudo isso passaria impune. E isso eu não podia deixar.

– Eu aceito – Respondi, com um olhar decidido no rosto.

Ele tocou minha mão, apertando-a brevemente.

– Garota esperta. Agora ande, termine seu jantar. Tenho certeza de que está cansada.

Observei aquele homem que estava sendo tão bom parar mim. A desconfiança ainda pairava no meu peito, mas por ora, decidi afastá-la.

Terminei de jantar e ele me levou até o quarto. Ele esperou eu me trocar, e me cobriu na cama.

– Bons sonhos, Aimee – Ele disse, apagando o abajur e deixando o aposento.

Olhei em volta, a perna começando a bater nervosamente. “Não seja patética, Aimee. Você não está mais lá” pensei enquanto respirava fundo. Por fim, decidi ligar a luz do abajur, o que me acalmou um pouco.

Eu estava com medo do escuro agora? Que ridículo. Que imbecil eu estava sendo, tinha de saber como separar tudo isso. Como superar. Aquela parte da minha vida havia acabado, não era? Jim... Será que ele era confiável? Era tudo muito bom para ser verdade. Eu não conseguia confiar ainda, o que era bastante aceitável.

Aquela cama... Tão macia e quentinha. Era bom.

Meus olhos pesaram lentamente, o sono se aproximando. Lutei para afastá-lo, arregalando os olhos o máximo que podia. Dormir me deixava vulnerável. Dormir me deixava vulnerável. Dormir me dei...

Lutei o quanto pude contra ele, mas no fim fui vencida.

Atualmente

Alguns anos se passaram, e aquele dia nunca foi esquecido por mim. Jim aos poucos foi se tornando confiável, e conquistando um lugar no meu coração. Eu o amava, amava muito. Mas como uma menina ama seu pai, ou seu irmão mais velho. Mais pra irmão.

Em todos esses anos, eu fui treinada. Minha mente, meu corpo, minha forma de agir. Eu era uma pessoa astuta e mais confiante agora, uma mulher de 24 anos totalmente estabilizada. Houveram alguns desafios, como a claustrofobia e o medo do escuro, além da aversão à água gelada. Tudo isso foi superado com a ajuda dele.

Uma única coisa que eu tinha percebido sobre Jim: se ele formava um plano, tudo tinha de dar certo, tudo tinha de ser exatamente como ele havia planejado. Se algo desse errado... Ele não reagia bem. E era assustador. Aprendi a temer essas situações, mas eu sabia que Jim nunca faria nada contra mim. Ele só gritava, e ficava com ódio. Extravasava toda aquela energia que eu havia visto em seus olhos na noite em que nos conhecemos. Era só eu ficar fora do caminho. Eu descontava minha energia na luta, no combate corpo a corpo, que eu adorava.

Jim estava em uma viagem, voltaria hoje. Um mês fora e eu já estava morrendo de saudades. Por isso, quando ouvi sua voz na sala algumas horas depois, não hesitei em correr.

– Jim! – Gritei, correndo até ele e pulando em seus braços. Ele riu levemente, retribuindo meu abraço de forma acolhedora – Que saudade!

Haviam se passado onze anos desde que eu havia conhecido-o, e ele não havia mudado praticamente nada. Eu havia ganhado peso, estava agora adequada para a minha altura, ainda magra, mas forte. Eu trabalhava como professora de inglês em uma escola do centro de Londres, era feliz com minha vida.

– Hoje é seu aniversário, e eu tenho um presente para a minha garota favorita – Ele disse, beijando minha bochecha.

Meu sorriso aumentou. Ele pediu para eu segui-lo até seu escritório, e eu vibrava com a expectativa.

Ele pediu para eu sentar e eu assim o faço, descansando as mãos no colo.

– Jim, está me matando. Anda logo! – Pedi, rindo baixinho.

Ele tirou um arquivo da maleta que trazia, me fazendo parar de rir imediatamente. Ele o jogou na minha frente, e o único som audível foi o baque na mesa. O nome “Holmes” era tudo que eu podia ler.

– Você está pronta.